
Jorge Altamira
O Partido Obrero considera-se herdeiro da
Revolução Russa, mas quando a aborda não é glorificando-a ou tendo um
posicionamento de apologia à mesma, mas sim do ponto de vista crítico, que em
última instância é a melhor forma de glorificá-la. Refletindo politicamente,
portanto, no interior do partido e não simplesmente repetindo o que muita gente
disse no passado e que deve ser superado constantemente.
O
primeiro ponto a ser assinalado é em que consiste a atualidade dessa revolução,
porque descobrindo essa atualidade se produzirá um interesse. Algo que ocorreu
há cem anos pode ter vigência? O que significa estarmos próximos à tomada do
Palácio de Inverno, como afirmou CFK em uma ocasião de uma ocupação de fábrica
na Grande Buenos Aires. Este é o ponto de partida, porque o Palácio de Inverno
foi tomado há cem anos atrás. Por que a preocupação com algo que ocorreu há cem
anos? Por que não se preocupar com os problemas atuais?
A própria burguesia tem consciência que nos
movimentos da classe trabalhadora está presente a Revolução de Outubro; a
estação final vitoriosa, emancipadora de qualquer luta de classes da juventude,
da mulher, dos trabalhadores. Este é o cerne da questão.
Em primeiro lugar, a Revolução Russa é uma
revolução de caráter universal em um sentido inédito na História. Não é uma
revolução nacional, não é como a Revolução de Maio na Argentina, que emancipou
as Províncias Unidas e eventualmente ao conjunto da América de língua
espanhola, mas de raízes indígenas, do jugo espanhol. A eclosão da Revolução Russa e a vitória em
outubro provocaram na humanidade inteira a sensação, a convicção de que se iniciava
o caminho da emancipação do homem pelo homem. Isso não é russo, é francês,
peruano, etc. de caráter universal. Foi universal no sentido em que acabou com
toda a diferenciação social e elevou a humanidade produtiva não parasitária em
seu conjunto à categoria real de sujeito da História. Um fenômeno destas
características sempre tem vigência. Como não vai ter vigência o começo da
realização prática da emancipação do homem? Porque, em definitivo, quantos
pensadores não pensaram na emancipação do homem? E nesse sentido, foram
precursores, que na essência das pessoas, está a liberdade e a emancipação da
exploração, mas tudo o que puderam fazer, e lhes agradecemos e reconhecemos,
foi pensá-la. A Revolução de Outubro foi a ação prática concreta dessa emancipação,
porque os operários e os camponeses derrotaram a burguesia, tomaram o poder e
iniciaram a construção de uma nova sociedade. A utopia pensada passou a ser
História em movimento.
A partir de um ponto de vista prático podemos
vê-la de outra maneira. A classe operária no mundo vinha lutando pela jornada
de oito horas, e por outras reivindicações, porque não havia legislação
trabalhista, salvo em alguns países. Uma das primeiras medidas da Revolução de
Outubro foi estabelecer a jornada de oito horas, e imediatamente a jornada de
oito horas foi sendo estabelecida em quase todos os países do mundo. Quer dizer
que neste exemplo prático também se vê essa universalidade, no sentido de que o
ser humano, ele mesmo, adquire caráter universal, porque consagra a realização
prática de aspirações comuns, e não a realização exclusiva de aspirações
particulares. Então, a atualidade dessa revolução deriva-se de seu caráter
histórico, quer dizer que responde a uma necessidade do próprio desenvolvimento
da História, não é um acidente histórico. Não é que a História por um momento
se desviou para esse lado, como ocorre, por exemplo, quando votam por alguma
alternativa de direita como na Frente para a vitória na Argentina. Poderiam
tê-lo votado, poderia ter ganhado, no entanto no país não altera absolutamente
nada... É um acidente. A História tem acidentes. A necessidade histórica se
manifesta na prática através de uma série de acidentes, como um jogador de
basquetebol que arremessa dez vezes na cesta e acerta uma. São acidentes
históricos, é muito importante distingui-los da incidência histórica que se
manifesta subterraneamente inclusive nos acidentes, como se expressa quando
ganha Macri ou quando ganhou Cristina Kichner. Eles fracassaram, quer dizer que
houve um acidente. Fracassaram, não mudaram absolutamente nada, não houve
transcendência. Vão figurar no rodapé da página de um livro de História
secundarista.
Este tema é chave para entendermos o que se
passa agora, que somos nós quem vivemos encarregados de fazer nossa própria
História, como eles há cem anos se encarregaram de fazer a sua própria. Quando comparamos com a Revolução Francesa,
que foi uma necessidade histórica e foi universal, mas não como a Revolução de
Outubro. Falando de coisas nossas, atuais, a Revolução Francesa impactou
enormemente na América Latina. Moreno e Castellis estavam imbuídos de todas as
ideias da Revolução Francesa, mas impactou também no Haiti, colônia francesa,
aonde pelos ideais que eram erguidos pela revolução, os escravos das plantações
de açúcar se levantaram em massa e destruíram o colonialismo e a escravidão e
até mandaram um representante a Paris, dizendo: “aqui vem um negro que
representa a Revolução Francesa de uma nação escrava!” Desagradou aos
franceses, como prova o fato de que foi enviada uma frota por Napoleão
Bonaparte, e os negros do Haiti a derrotaram e depois afundaram a frota inglesa
do Império Britânico no Mar do Caribe. A Revolução Francesa teve esse caráter
universal. Mas o que a distinguia da Revolução de Outubro? Que era a expressão
universal de um fenômeno que seguia sendo particular. Impactou mundialmente,
abriu um novo desenvolvimento histórico, mas para afirmar uma nova forma de
exploração, uma nova forma de afirmação de interesses individuais, e portanto
do interesse de um contra o outro, porque estabeleceu o capitalismo. A
universalidade da Revolução Francesa, então, é abstrata, porque sob o lema ou a
etiqueta da universalidade segue afirmando-se, muito mais que antes, o
interesse individual. A Revolução de Outubro é a universalidade concreta,
porque se encarrega de abolir a oposição de interesses particulares, e no marco
de uma ação comum das classes trabalhadoras, elimina a exploração do homem pelo
homem e abre o caminho para o desenvolvimento pleno da personalidade única que
é inerente a cada pessoa. Isto é muito importante porque a universalidade é a
universalidade de um mesmo, que pode relacionar-se com os demais desde o
desenvolvimento de sua personalidade com relação ao desenvolvimento de outras
personalidades.
A Revolução de Outubro vai dominar toda a
política mundial desde 1917 até hoje de diversas maneiras. Em primeiro lugar se
manifesta no fato de que depois de muitos fracassos, derrotas, burocratização,
fascismo e guerra, quando na guerra o fascismo é derrotado explodem as
revoluções de novo por todo o mundo. No Vietnam, China, Itália, França, Grécia,
Iugoslávia ... a humanidade retoma um caminho. A Revolução de Outubro adquire
uma presença definitiva porque o explorador sabe, da mesma maneira que o
explorado, que se estabeleceu uma rota política para a classe trabalhadora. O
operário disse: “Aonde vou nesta vida?” A Revolução de Outubro lhe apontou o
caminho. O patrão ou o monopolista dizem: “O que pode me preocupar? É que a
pessoa que eu exploro sabe que existe um caminho. Já suspeitava, não vinha
lutar pela primeira vez em 1917, lutava constantemente, havia feito
experiências audazes, por exemplo: a Comuna de Paris, importante mas durou dois
meses, e agora tinha um objetivo , que o realizavam milhões de pessoas, e que
não o faziam em nome de um interesse nacional. Não diziam “Rússia frente aos
demais”, e a mesma Rússia não era uma Rússia, porque sob o czarismo, viviam
muitas nacionalidades oprimidas, sob o império do czar, então porque chamar
russa a uma revolução que deu a liberdade aos georgianos, azerbaijões,
kazaquistaneses, aos finlandeses, aos ucranianos ...? Era a emancipadora de
outras nações. Não ia se impor em outras nações.
Na Ásia, a Revolução de Outubro não aboliu a
sharia, a lei islâmica que submete a mulher ao homem, e isto significou um dos
atos mais agudos da revolução pelo seguinte: a Rússia oprimiu esses povos sob o
tacão do czarismo, e se os revolucionários abolissem seus costumes, eles
diriam: “agora vem outro opressor; antes era o czar, e agora são os comunistas,
são os bolcheviques.” Primeiro, tem-se que ganhar a confiança desses povos e
respeitar seus costumes. Uma vez que cheguem a um entendimento de que os
objetivos são comuns, explica-se que esta lei é negativa, porque oprime a mulher,
e eles serão ganhos à causa da emancipação feminina, e de outras formas de
atraso social. É fabuloso, no sentido de que se compreende a dinâmica da
opressão. Não somente não se deve exercer a opressão, como não deve parecer que
ela possa existir, e cada povo tem que se emancipar por si mesmo, e cabe a
outros mostrar com exemplos, mas não com uma ordem, uma doutrina ...
Tudo o que se passa no Oriente Médio
atualmente, o islamismo e os demais, demonstra que não existe uma direção
política socialista que tenha uma clara compreensão de como se leva esses povos
à sua efetiva emancipação, em lugar de submetê-los a uma nova opressão ou à
imagem dessa opressão, porque também com a etiqueta de comunista se pode
oprimir outros povos. A liberação da opressão é uma prática dessa liberação da
opressão. Não quer dizer porque se alguém tem um ideal já possa ser autorizado
a indicar a outros como podem se libertarem.
As revoluções burguesas tiveram um caráter
universal, como a revolução francesa. Criaram um mercado mundial, o qual sob o
feudalismo não existia. Isso é universal mas abstrato, porque o mercado mundial
foi criado sob o interesse individual dos capitalistas da Inglaterra, França,
EUA, Alemanha ... Criava uma separação,
não uma universalidade, a saber: a exploração dos operários por parte dos
capitalistas. Esta é a razão profunda da atualidade da Revolução de Outubro. A
importância que tem uma direção operária em um processo revolucionário, e que
somente o processo é revolucionário, é autenticamente socialista se tem uma
direção operária. Muitas revoluções que não tiveram uma direção operária foram
igualmente socialistas até certo ponto, porque se inseriam ou pretendiam
inserir-se no marco histórico da Revolução de Outubro. Por exemplo:
expropriavam o capital, buscavam fazer as realizações daquela revolução, e isso
é outra manifestação do impacto universal que ela teve. A revolução cubana
trouxe a palavra do socialismo e sua perspectiva efetivamente na América
Latina. Diferencia-se do chavismo na medida em que o chavismo é uma etiqueta.
Não mudou absolutamente nada, mas revolveu autodenominar-se Socialismo do
Século XXI. Por si só já é suspeito, porque quer dizer que está rechaçando o
Socialismo do Século XX e a Revolução de Outubro. O socialismo do século XXI disse:
“a Revolução de Outubro não é atual, temos que fazer outra coisa”. Vejam o
estado em que chegou, que o próprio povo está se sublevando, uma parte sob a
direção da direita, mas uma parte do povo chavista está se sublevando também,
só que, tem advertido, não faz coalizão com a direita. Mas a este governo que aí
está já ninguém mais o quer, salvo os que estão na Casa do Governo.
Então se produz um fenômeno extraordinário.
Tudo o que vem da política mundial em geral depois da Revolução de Outubro é um
gigantesco fenômeno de mediocridade política. Quando se estuda esta revolução o
que se vê é que no processo que vai desde sua primeira parte, em fevereiro a
outubro, a humanidade, em sete meses, desenvolve o mais alto e profundo
processo político. Este é um aspecto fundamental. A nação mais atrasada,
oprimida e autocrática da Europa derrota ao czar e toma medidas democráticas de
gestão política, em contradição permanente até chegar a outubro, que superam
toda a experiência histórica do ocidente em somente sete meses. Quer dizer que
o país que vem debaixo de tudo chega acima desenvolvendo uma experiência
política implacável que demonstra o esgotamento de todas as formas de
democracia burguesa como saída para a Rússia. O que os ianques vão experimentar
em 250 anos desde que declararam a independência, o processo político, os
franceses e demais, os russos o atravessaram em sete meses. A História se
comprimiu, e naturalmente o fez porque tinham a vantagem da experiência dos
demais países, então podiam saber quais eram os limites de tal forma política, e
estabeleceram em um processo de experiência concreta a forma mais alta, o
governo dos trabalhadores, o governo dos conselhos operários.
O capitalismo introduziu no mundo o que se
chama a modernidade. Acabou com tudo o que era subjugação pessoal direta,
quebrou o feudalismo, em que o senhor feudal dominava pessoalmente, e
estabeleceu um sistema de dominação alienante, ou seja, que impõe um domínio
sem que as pessoas se deem conta. Mas se todo mundo vota, a culpa é de quem
vota mal? A culpa então não é da Odebrecht, Techint, os militares, Macri, o
kirchnerismo ... é de todos nós, socializa-se a culpa. Porque nas entranhas
deste regime de dominação existe uma falácia. Todos somos iguais na palavra e
desiguais na prática. Então, num domingo votamos a pátria, a bandeira, etc. ...
mas quem tem o controle da propriedade, dos recursos dos bancos, da moeda, da
dívida externa, do estado, do orçamento, dos impostos, e condicionam tudo o que
vamos fazer ... a eles ninguém elegeu. É uma classe social que exerce a sua
dominação através de um sistema, que podemos chamá-lo provisoriamente
invisível.
Em sete meses, a classe operária e os
camponeses russos destruíram o sistema de dominação alienante. Quer dizer, não
somente derrotam o czar, que é um autocrata que defende a dominação pessoal,
senão que uma vez que o derrubam, na experiência de sete meses derrubam também
as formas que vêm depois da dominação do czar, como ocorreu no mundo depois da
revolução francesa, inglesa, estadunidense ... veio a democracia. Superam esta
fase, em que todos somos iguais que é uma mentira, e estabelecem o governo
verdadeiro: o governo dos trabalhadores, o governo dos que estão em uma mesma
situação para o interesse comum de todos.
Esta é uma visão crítica da Revolução Russa
porque queremos fazer a revolução também, não somente viver dos pergaminhos do
avô. Por isso, temos que ver criticamente esse desenvolvimento. Existem dois
fatores que aceleraram todos os acontecimentos. O primeiro é a guerra. Os
russos não queriam mais a guerra. O czar estava os exterminando, porque os
exércitos do czar eram muito fracos, e havia muita corrupção. Os russos
morriam, e não queriam mais a guerra. Ao derrotar o czar e estabelecer o
governo provisório que em princípio proclamava a democracia burguesa, a
primeira coisa que fez o governo foi prometer que ia continuar a guerra.
Necessitamos então de duzentos anos de democracia? O governo defendeu a guerra
e portanto o interesse nacional particular da Rússia, que se ganhava a guerra,
junto à Inglaterra, França e Estados Unidos, tinha prometido um butim de
guerra. A democracia desde o debult na
Rússia se entrega contra o interesse popular e a favor do interesse
capitalista, e somente um partido, tão somente um, disse “paz já!” Esse partido
disse que o único que pode concretizar a paz é o governo dos trabalhadores.
Como fazer para que a gente governe?
Lênin disse: “expliquemos isto aos trabalhadores, que somente se eles
tomarem o poder vai haver a paz, e que ninguém mais irá concedê-la”. Foi visto
com desconfiança, mas em abril de 1917, frente a uma declaração do Ministro de
Relações Exteriores de que iria continuar a guerra, se produz uma tremenda
manifestação e cai o primeiro governo provisório.
A outra questão é que 120 milhões de
camponeses queriam a terra, e todos lhes disseram: “sim, lhes daremos a terra,
mas calma, não nos apressamos. Primeiro tem que existir uma Assembleia
Constituinte”; e quando vai ser a Assembleia Constituinte? “contudo não tem
data”. Então, os bolcheviques disseram: “está bem a Assembleia Constituinte,
mas quando for convocada, já temos que ter a terra. Assim que vamos tomá-la.”
Uma revolução no campo, e como no campo da Rússia haviam muitas classes
sociais, esta audaz posição do partido bolchevique uniu a todas as classes
sociais do campo à classe operária, sem a qual não haveriam feito a revolução.
Então, a democracia burguesa, quando vem um governo mais ou menos progressista
promete, mas não cumpre. O governo dos trabalhadores fala menos, mas cumpre
mais. O governo direto, não a alienação donde o que parece que é, não é.
O outro motivo é que aparece um partido
político que até hoje é o assombro da História, um partido político que de
pronto se revela como o mais moderno de toda a História ao entender os
fenômenos políticos e dizer à classe operária russa, que é muito pequena, mas
muito concentrada, que a única saída é tomar o poder. Porque do contrário vai
continuar a guerra, a opressão e todo este esforço vai ser um fracasso. É
notável porque esse partido que vai tomar essa posição ingressa na revolução em
uma situação de crise. A maioria do partido crê que tem que apoiar o governo burguês
e uma minoria encabeçada por Lênin demonstra que não. Esta parte é um capítulo
comovente, porque é um dos casos mais profundos de ação política, inédito,
insuperável em toda a História, e por isso, a minoria pôde vencer a maioria e
abrir caminho a um governo dos trabalhadores.
Toda esta introdução feita tem outra
atualidade. A partir de certo momento, a Revolução Russa começou a degenerar, e
entramos no stalinismo. O primeiro pronunciamento político do stalinismo é
fundamental, e já estamos preparados para entender porque. Proclama que o
objetivo da classe operária russa é o socialismo em só país, quer dizer, seu
primeiro pronunciamento programático é “nossa revolução não é universal, mas
sim particular, da Rússia, de nossos interesses e não dos interesses da
totalidade da classe operária mundial.” Daí, a importância da abordagem da
primeira parte a partir deste ângulo. Porque para cercear esta revolução há que
privá-la do caráter universal. Uma vez que se transforma no fato particular de
um país, já começam a desenvolver-se no seio desse país interesses
particulares. A burocracia, a dominação por parte da Rússia dos outros Estados
que havia liberado a revolução e que são submetidos à dominação da Rússia, que
é mais forte e mais povoada que a Geórgia, Azerbaijão, etc. Quer dizer que
começa a formar-se uma casta de interesses particulares que disse: “olhem! pode
triunfar a revolução na China, mas aí nos metemos em uma guerra. Não façamos
aventuras, que matem a todos os chineses, mas nós defendemos o socialismo num
só país.” Exatamente ao contrário do que fez a Revolução Russa em 1917, quando
explodiram as revoluções de imediato em todo o mundo e saiu em apoio, levando
oradores, mandando emissários, para impulsionar a revolução a nível mundial.
De um ponto de vista particular, aos russos
não lhes convinha que triunfasse a revolução na Alemanha, porque esta era uma
nação industrial muito forte. A partir do ponto de vista particular, a Alemanha
socialista dominaria a Rússia socialista. Então, por que Lênin queria a
revolução na Alemanha? Porque lhe importavam um caralho os interesses
particulares, estava pensando em derrotar ao capitalismo de fundo e estabelecer
o socialismo a nível universal. Por exemplo, os EUA possuem uma universalidade
que se expressa no nome do país, “Estados Unidos”. Uma certa universalidade. Da
América, daqui. Nós vamos unir todos, mas os daqui. O nome que Lênin coloca ao
novo Estado não possui conotações nacionais. É União das Repúblicas Socialistas
Soviéticas, todo é universal. Não existem russos, nem nada. Se a Argentina
quisesse incorporar-se, seria outra república socialista. Então, o primeiro ato
do stalinismo é esse, e é a primeira manifestação digamos no campo da esquerda,
do partido russo, da Internacional Comunista, do abandono da perspectiva
mundial da Revolução de Outubro. No ano de 1943, Stálin irá dissolver a
Internacional Comunista, que se chamava a si mesma Partido Mundial. “Já está,
não queremos nenhum partido mundial! Imperialistas, fiquem tranquilos! Não
queremos lhes foder! Vocês deixem-nos tranquilos, na Rússia, nós não lhe
fodemos em nenhum lado e tudo fica fenomenal.” Naturalmente, um socialismo em
um país atrasado, isolado da luta de classes da classe operária mundial, vai
ficar em dificuldades, porque os países capitalistas desenvolvidos dominam o
mercado mundial, dominam a tecnologia, e no final pela via da pressão econômica
vão terminar derrubando o caráter socialista ou futuramente socialista desse
Estado.
Depois se produz uma cisão entre os partidos
stalinistas, e os partidos italiano e espanhol proclamam abertamente: “A
Revolução de Outubro terminou. Nós viemos do comunismo e tudo o mais, mas
sejamos modernos, já está, foi um episódio.” É a segunda manifestação, mais
direitista todavia, acerca do caráter particular da revolução, e depois no
trotskismo, no que em seu momento se chamou Secretariado Unificado da Quarta
Internacional, estabeleceu-se que a Revolução de Outubro havia caducado,
modificou-se o estatuto que dizia “lutamos por uma ditadura do proletariado”, e
depois trocou-se o nome de seu principal partido, e de Liga Comunista
Revolucionária passou a chamar-se Novo Partido Anticapitalista.
Então, como se pode ver, no sentido de troca
de nomes, o que parecia um ritual religioso, tinha um significado político
mortal. Rompemos laços! Aquilo já ocorreu. Nossa corrente política, a corrente
do Partido Obrero, baseia inteiramente sua estratégia na vigência da Revolução
de Outubro, cem anos depois, e uma vigência que durante seu desenvolvimento
mais positivo descobriu o que é o mundo pós moderno, o mundo do governo dos
trabalhadores, e com o retrocesso dessa perspectiva pela derrota da classe
operária nasceu uma filosofia pós moderna que é a filosofia do individualismo,
do egoísmo e do niilismo. Temos então duas variantes do pós modernismo: a
Revolução de Outubro, por um lado, e esta decadência monumental do capitalismo,
reacionária, que aparece como filosofia atual, e que revela a completa
decomposição, no plano teórico, ideológico, da classe capitalista. Não possuem
mais uma rota de ação.
Quando Adam Smith escreveu A Riqueza das
Nações, disse ao capitalismo: “Esta é tua rota, vamos!” Comércio mundial,
mercado mundial, livre, investimento na América Latina, financiamento, e o
capitalismo mais ou menos seguiu essa rota. Agora quando se abrem os livros dos
Adam Smith de hoje e dizem: “Vejam rapazes, no final vamos estar todos mortos,
para que traçarmos uma rota. Vamos vendo cada dia que passa!” Não possuem uma
rota. Isto é, no plano teórico, do pensamento, a expressão da completa
decadência de uma sociedade. Porque a expressão de que uma sociedade não é
decadente, manifesta-se em sua capacidade para oferecer uma rota a essa
sociedade, e aqui, a única rota que nós temos é baixar a taxa de investimento
por meio da emissão de Lebacs a 24%, algo que os quarenta e quatro milhões de
argentinos não sabem nem do que se trata. Deveriam descer do automóvel e
desaparecer. Mas isso não vai ocorrer nunca, senão com a ação da classe
operária.
A conclusão que se deve sublinhar dessa polêmica
é a seguinte: o que representa para um partido operário a Revolução de Outubro?
Representa que os capitalistas e os operários sabem que a abolição da
exploração do homem pelo homem se dá pela formação de um governo operário. A
emancipação da mulher! Todas as leis pelas quais lutam as mulheres argentinas,
todas foram aprovadas nos dois primeiros anos da Revolução de Outubro. Suas
mãos não vacilaram para firmar tudo o que havia que firmar e fazer o que havia
de ser feito. Isto supera tudo o que temos visto nos anos posteriores. Então
voltar àquilo seria um avanço. Isto é o que se deve entender para pressentir o
momento atual. Deve-se estudar a fundo a Revolução Russa. Quer dizer, a
Revolução de Outubro está presente permanentemente como potência, como perspectiva,
mas está havendo uma mudança, e é que a burguesia começa a preocupar-se de que
provavelmente tenhamos de novo uma Revolução de Outubro. Porque o semanário The Economist, que é a bíblia da
burguesia – é tão velho que era lido por Marx ... É meio surrealista citar a
mesma revista que Marx disse “se vem o bolchevizaço”; e qual é o objetivo? Que
a sociedade capitalista em seu conjunto tem um acontecimento parecido
extraordinário com as vésperas da Revolução Russa. E se determinadas causas
provocaram determinadas consequências, muito cuidado!
Sem dúvida, não existe partido como o partido
bolchevique, mas esta é uma deformação, porque os únicos que sabiam que o
partido bolchevique era importante eram os bolcheviques, os demais não, e os
bolcheviques pertenciam à Internacional Socialista, que era muito importante,
mas ao explodir a guerra cindiu-se, então deixou de ser um fator revolucionário
e passou a ser um fator contrarrevolucionário, e para citar Rosa Luxemburgo:
“os internacionalistas que estávamos contra a guerra, sentávamos todos em uma
poltrona”. Quer dizer, a crise mundial forçou as massas à intervenção. A guerra
forçou as massas a uma intervenção que estes que cabiam em um salão a tinham
elaborada, com perspectivas, com certezas ... Lênin havia escrito que a guerra
ia levar a uma situação revolucionária, os demais se matavam de rir. Aí tem um
catastrofista, desses que sempre creem que o mundo entra em colapso. Deve-se
moderá-los, não? Quer dizer, os partidos revolucionários tem que ser criados
antes da revolução, mas vão se desenvolver como consequência de suas
características fundamentais.
A revolução de fevereiro como já se sabe foi
iniciada pelas mulheres. Todos os partidos políticos disseram às mulheres que
não comemoravam o oito de março mediante uma greve geral porque isso ia ser reprimido
pelo czar. Por que as mulheres queriam celebrá-lo com uma greve geral? Porque
queriam protestar contra as condições do momento na Rússia. Havia longas filas
para comprar pão, grande escassez, e estavam fartas da guerra. Então, a briga
das mulheres foi tão intensa depois de escutar a mencheviques, bolcheviques,
etc. que disseram “vamos à greve igual”, e o primeiro que fizeram, que aqui
todavia não se faz, mas é o que se deve fazer, porque é a chave para que a
mulher triunfe, foi ir às fábricas metalúrgicas – elas vinham das fábricas
têxteis – e obrigaram os homens a que lhes acompanhassem. Tentaram refletir um
pouco, mas se deixaram convencer. Isto provocou o início da greve geral e da
revolução.
Por que ressaltar isto? Como interpretar a
consciência das mulheres? Como interpretar a consciência dos que as
acompanharam? O tema foi inspirado por um debate que vários anos depois vão
fazer entre dois dirigentes políticos sobre o que é a consciência política do
povo, no qual um vai sustentar uma tese, o outro não vai sustentar nada. Leon
Trótsky, em seu estudo da Revolução Russa, disse que o elemento fundamental
dinâmico para entender toda a revolução é que se desencadearam as forças
elementares das mulheres. Por exemplo, em uma greve de motoristas em Córdoba,
uma mulher fala frente à televisão. Era a líder dos motoristas. Disse: “as
mulheres da Rússia, os homens atrás ... porque o sindicato dos motoristas seja
liderado por uma mulher ...” Segundo, disse: “sou mãe solteira”. Quantas
mulheres dizem isto? Não irão declarar que são mães solteiras. Ela sim, e está
orgulhosa, e é a líder dos motoristas, militante do Partido Obrero. O mais
significativo foi que dissesse que era mãe solteira e que era líder de um
sindicato de homens. Depois se produz uma manifestação de mil motoristas em
Buenos Aires, “as forças elementares ...”. Quer dizer, nossa classe dá o
combate porque já não tem mais nada a perder, e quando alguém não tem nada a
perder vai a fundo. As forças elementares que Leon Trótsky assinala em seu
livro.
Um líder reformista muitos anos depois disse
que a Revolução Russa é um desastre, que foi feita por uma classe operária
inconsciente, bárbara e imatura, porque a formação da consciência de classe dos
trabalhadores leva muitos anos, e os operários russos não puderam formar isto
porque haviam vivido sob uma ditadura. Não havia comícios, sedes ... Quando
passassem por tudo isso teriam a consciência para tomar o poder. A pergunta é:
o que é a consciência de classe? Não se nega a importância de formar politicamente,
aproveita-se o ambiente de democracia para discutir e formar a consciência de
classe. Mas falar de forças elementares, a palavra elementar é confusa. Não é
uma força inconsciente, é a convicção mais profunda de que esta sociedade não
deixa outra saída, senão a revolução. Isso é o que se formou na Rússia. Um fato
excepcional. Partindo de uma nula liberdade política, os operários atuaram
contudo de forma revolucionária. Foram incentivados pela própria crise
política, e já em 1912, o partido bolchevique, nas eleições nacionais que
aconteceram, como agora faz Maduro, operários por um lado, burgueses por outro
e demais, donde os operários tinham 5% de representação e o clero 2000%, o
partido bolchevique tinha ganho folgadamente as eleições entre os operários.
Portanto, era o partido operário majoritário na Rússia, através da atividade
clandestina. Quer dizer, a Revolução Russa demonstrou a correção da observação
de Karl Marx no Manifesto do Partido Comunista, o qual termina dizendo
“trabalhadores não possuem nada a perder e sim um mundo a ganhar.” Essa é a
consciência revolucionária, e não a consciência acadêmica do trabalhador que se
não está a serviço de compreender que a sociedade capitalista é o fechamento
de todos os caminhos, não pode modificar nada profundamente.
Tradução a
partir de uma transcrição de uma palestra de Jorge Altamira realizada em Mar
Del Plata publicada na Revista Polenta.
Ver vídeo: vhttps://www.youtube.com/watch?v=0ksyXmSpKds&index=2&list=PL8r7QyjDw5YtD8ILmjfY4qJUNcfVwOkNV