domingo, 27 de setembro de 2026

Brasil, uma semana antes das eleições

Extraído e traduzido do link: https://prensaobrera.com/internacionales/brasil-a-una-semana-de-las-elecciones

Uma grave crise institucional.

Rafael Santos

Crise e decomposição do regime político: a tarefa é reagrupar a vanguarda operária de forma independente.

No domingo, 4 de outubro, serão realizadas eleições gerais no Brasil, onde os eleitores elegerão um presidente e representantes dos legislativos federal e estaduais. As pesquisas têm mostrado uma redução na diferença entre o atual presidente de centro-esquerda, Lula, e o candidato de direita Bolsonaro: os dois candidatos que polarizam a corrida presidencial. No primeiro turno, Lula ainda venceria por uma margem estreita. Mas no agora inevitável segundo turno, projeta-se um empate técnico (47,4% a 47,2%). Nas eleições de 2022, Lula venceu o segundo turno por uma margem apertada de 1,8%. A situação se repetiria, com uma margem menor e com Lula atualmente no poder. Mas…

A crise do Supremo Tribunal Federal e as eleições

Como abordamos em um artigo na Revista Em Defesa do Marxismo, o país vem sendo atravessando uma grave crise institucional. O Supremo Tribunal Federal (STF), a Suprema Corte do Brasil, dividiu-se, entrando em confronto público em torno de fortes acusações de corrupção entre seus membros.

Os ministros lulistas e bolsonaristas estão envolvidos em acordos de corrupção pagos pelo banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, que foi esvaziado, deixando 1,5 milhão de poupadores com um rombo de 51 bilhões de reais. Trata-se da maior fraude bancária da história brasileira. Vorcaro aproximou-se do poder e distribuiu “comissões” aos ministros alinhados a Lula e também aos porta-vozes de Bolsonaro.

Segundo os lulistas, a burguesia “liberal” colocou-se ao lado das acusações contra os ministros pró-Lula. Os grandes meios de comunicação (a Rede Globo, a Folha de S.Paulo, etc.) estão fazendo campanha nesse sentido. Um alto dirigente do PSOL, que integra a Frente Ampla do presidente Lula, acusou o companheiro de chapa, o vice-presidente e dirigente do liberalismo brasileiro, Geraldo Alckmin, de intervir, muito pouco, em defesa de seus aliados.

Há preocupação de que Lula e a Frente Ampla percam a eleição.

A realidade social

Por que, em quatro anos de governo, o governo da Frente Ampla de Lula não conseguiu reverter a situação e conquistar o apoio das massas trabalhadoras e exploradas do Brasil?

A Frente Ampla estaria retrocedendo em sua principal base social: os pobres, os trabalhadores menos qualificados, as mulheres, os jovens e os negros.

A situação social não avançou sob o governo Lula. Grande parte das famílias trabalhadoras e pobres, assim como na Argentina, não consegue chegar ao fim do mês com seus rendimentos e vem se endividando. Enquanto o governo insiste que o Salário Mínimo teria crescido 24%, diante de um aumento do custo de vida próximo de 20% (com os cálculos oficiais sob questionamento), a realidade é que a Cesta Básica de Alimentos e Serviços, que é o que pesa no bolso dos explorados, supera 23%. O maior subsídio destinado aos pobres, o “Bolsa Família”, não foi reajustado desde 2022, passando dos 600 reais de então para 691 reais (um aumento de 15%, cerca de 30 mil pesos argentinos), a serem pagos no início de outubro. Essa medida foi tomada às pressas, há algumas semanas, diante da evolução do retrocesso do lulismo nas pesquisas eleitorais.

Isso é acompanhado por outras “promessas”. Lula anunciou outras medidas de emergência: um projeto para que o Sistema Único de Saúde estatal distribua gratuitamente seringas de Ozempic ou outros medicamentos semelhantes a pessoas com obesidade para que percam peso; o refinanciamento das dívidas das famílias com o sistema bancário e de crédito; etc.

Em quatro anos de governo, o lulismo não reverteu as reformas trabalhistas e previdenciárias antioperárias e reacionárias e comprometeu-se, nos círculos empresariais, com novas “reformas” de ajuste caso seja reeleito.

As reformas que introduziu, por exemplo, na área tributária, anulam uma parte do IVA sobre o consumo (que seria aplicado integralmente em 2033), mas aumentam os impostos sobre bebidas açucaradas e alcoólicas. Dizem, cinicamente, que isso seria para preservar a “saúde do povo”.

Estão travadas no Senado reivindicações como o projeto de lei que extingue o regime de trabalho 6 x 1 (seis dias de trabalho por um de descanso, com uma semana de 44 horas de trabalho), reduzindo-o para 5 x 2 (40 horas semanais), o que abrangeria cerca de 15 milhões de trabalhadores, parte deles com carteira assinada; e o projeto já não seria aprovado antes das eleições, ficando sujeito a novas negociações restritivas com a direita e os empregadores.

Trump e Bolsonaro

Bolsonaro explora essa deterioração social acentuada sob o governo Lula. Trump e Rubio aumentaram as tarifas de importação sobre produtos brasileiros, em grande medida para favorecer a campanha eleitoral da direita. Bolsonaro promete que, caso vença as eleições, seu governo não apenas anularia essas barreiras imperialistas, mas também conseguiria uma “chuva de investimentos” norte-americanos (à semelhança da retórica de Milei) em mineração, petróleo, agroindústria etc. O crescimento do Brasil está desacelerando e parte da burguesia “liberal” está sendo tentada a trocar de cavalo no meio do rio. O fato de grandes meios de comunicação estarem aderindo a essa perspectiva indica seu avanço.

A burocracia sindical da Frente Ampla paralisa a reação dos trabalhadores

Essa situação de deterioração social não é respondida por uma onda de reivindicações e mobilizações operárias e populares. As centrais sindicais, em primeiro lugar a CUT, e as organizações de massa dos estudantes, camponeses e inquilinos estão travadas e desorganizam as tentativas de resistência e luta das massas devido à sua subordinação política ao governo de Lula e Alckmin. Dizem que isso é para não provocar a direita e tentar conquistar uma maioria nas eleições que lhes permitiria, então sim, realizar reformas populares. Mas o que estão fazendo é desmobilizar, permitindo que a direita se encoraje. Somente os trabalhadores mobilizados, em luta, podem frear os avanços da direita de Bolsonaro e Trump.

A própria direção da CUT publicou declarações reconhecendo que o custo de vida está elevado, mas afirma que isso é culpa do governo anterior de Bolsonaro. O governo Lula fez manobras com discursos, mas o ajuste contra o povo continua e se aprofunda. Um editorial da direção da CUT (21/9) afirma que as políticas do governo “não conseguiram fazer com que os preços dos alimentos voltassem imediatamente aos níveis anteriores”. A CUT reconhece que o governo da Frente Ampla não conseguiu “fazer com que a comida ficasse barata nem que o problema fosse solucionado. Os preços continuam no nível elevado deixado pelo governo Bolsonaro”. E assim poderíamos continuar em todos os setores sociais: educação e saúde pública etc.

A esquerda lulista pede que a esquerda que se apresenta como independente do governo e as listas da Frente Ampla, em unidade com a burguesia “liberal” antifascista, retirem suas candidaturas para derrotar a direita. (1) A aliança “nacional e liberal” da Frente Ampla é a que vem executando os planos de ajuste contra o povo, enquanto mantém a mobilização popular sob controle.

É necessário recuperar a CUT e as organizações de massa dos explorados para organizar a luta de classes, contra as frentes de colaboração de classes e contra a direita, que avança sobre a passividade e a atomização da resistência operária e popular. Em 4 de outubro, votar na esquerda que se reivindica independente. No PO, apoiamos as listas do PSTU, como um passo elementar para o reagrupamento da vanguarda que se reivindica classista e de esquerda.

  1. “Os signatários deste texto — membros da comunidade acadêmica, professores do ensino fundamental e médio, artistas, trabalhadores, ativistas sociais, defensores dos direitos humanos etc. — reconhecem a legitimidade das diversas candidaturas de esquerda à Presidência da República: Edmilson Costa (PCB), Hertz Dias (PSTU), Rui Costa Pimenta (PCO) e Samara Martins (UP). Apoiada pela coalizão PT, PCdoB, PSB, PSOL, PV, Rede Sustentabilidade e PDT, a chapa Lula-Geraldo Alckmin é a única no campo progressista que conta com as condições eleitorais necessárias para evitar as consequências antidemocráticas e os efeitos econômicos e sociais devastadores que resultariam do retorno do bolsonarismo ao governo da República” (“Manifesto e petição: Em defesa de um Brasil soberano e democrático, contra a barbárie social!”, 21/9/2026).