Extraído e traduzido do link: https://revistaedm.com.ar/nota/un-frente-importante-en-la-lucha-politica-latinoamericana-y-de-la-izquierda-brasilera/
Rafael Santos, dirigente histórico do Partido Obrero da Argentina, analisa neste artigo escrito para a Revista Em Defesa do Marxismo, on line, o cenário de polarização extrema nas eleições gerais do Brasil entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro, inserindo-o na ofensiva imperialista dos EUA conduzida por Trump e Rubio. O artigo desmascara os limites da política de conciliação do governo da Frente Ampla, que combina a entrega de recursos estratégicos, como as "terras raras", com a manutenção das reformas precarizadoras. Diante da contenção exercida pela burocracia sindical petista, o texto destaca a irrupção da luta operária contra o regime escravista da jornada de trabalho 6x1 e traça um balanço agudo sobre a assimilação do PSOL ao Estado capitalista. Trata-se de uma delimitação estratégica fundamental para impulsionar o reagrupamento da esquerda classista e a independência da classe trabalhadora.
Daqui a um mê, no dia 4 de outubro, serão realizadas eleições gerais no Brasil para eleger o presidente, governadores, deputados federais e estaduais e senadores. Essas eleições são acompanhadas com grande expectativa política, tanto no continente, quanto no mundo. A disputa presidencial está polarizada entre o atual presidente de centro-esquerda (Frente Ampla, Partido dos Trabalhadores e outros), Luiz Inácio Lula da Silva, e o senador Flávio Bolsonaro (Partido Liberal), filho de direita do ex-presidente Jair Bolsonaro, que está preso, cumprindo pena de 27 anos por supostamente conspirar para um golpe de Estado. As pesquisas indicam um "empate técnico": Lula deve vencer no primeiro turno por uma margem de 3 ou 4 pontos percentuais, o que obrigaria um segundo turno em 25 de outubro. Os institutos de pesquisa também preveem um empate nesse turno, com cada candidato recebendo cerca de 44% dos votos.
Lula derrotou Bolsonaro no segundo turno das eleições de 2022 por uma margem apertada de 1,8%. Quatro anos depois, seu governo não conseguiu gerar um consenso político que o distanciasse drasticamente do movimento de extrema-direita de Bolsonaro.
Caso Bolsonaro triunfe no Brasil, o continente latino-americano ficará pintado de “trumpismo”, após as recentes eleições em que a direita, em suas variantes mais fascistas, prevaleceu no Chile (Kast), Peru (Keiko Fujimori), Bolívia (Rodríguez Paz) e Colômbia (De La Espriella), além de ter cooptado o governo burguês “nacionalista” da Venezuela (Delci Rodríguez), após a invasão e o sequestro de Nicolás Maduro.
Para Trump e a direita fascista internacional, a eleição brasileira é um alvo central. Isso ficou demonstrado pela viagem repentina do presidente argentino Javier Milei, que deslocou-se ao Brasil, ignorando todo o protocolo diplomático, unicamente para participar de um evento de campanha de Flávio Bolsonaro e lançar um ataque virulento contra Lula.
Lula, anti-imperialista?
A isto se há somado diversas provocações diretas de Trump e seu secretário de Estado, Marco Rubio. Em primeiro lugar, aumentando drasticamente (37,5%) as taxações de centenas de produtos importados pelos Estados Unidos provenientes do Brasil, acusando ao gigante sul-americano de usar “trabalho forçado” e/ou práticas comerciais incorretas. Estamos falando de cerca de 20% das exportações do Brasil aos EUA. Uma das reclamações trumpistas é por causa dos cartões de créditos yanques (Visa, Mastercard) que foram violentamente relegados no mercado comercial cotidiano dentro do Brasil. 170 milhões de brasileiros (mais os turistas que aumentam) usam o PIX, um sistema de pagamento eletrônico nacional que não cobra nenhum tipo de tarifa, nem aos usuários de cartões, nem aos comerciantes, e que realiza os pagamentos de forma instantânea, diferentemente dos cartões yanques, que cobram uma taxa de juros pelo “serviço” e demoram 30 dias nos pagamentos aos comerciantes. É uma tendência que se está implementando de forma crescente no mundo (India, etc.) e que golpeia o monopólio parasitário do sistema bancário comercial imperialista.
Marco Rubio também reivindica contratos vantajosos na mineração de “terras raras”. O Brasil é o segundo maior produtor mundial desses minerais escassos e caros (atrás apenas da China), essenciais para a fabricação de chips, Inteligência Artificial e produtos eletrônicos. Já sabemos o que significa “vantajoso” para o imperialismo ianque: isso acaba de ser evidenciado pelo acordo de Trump com a “presidente” venezuelana Delcy Rodríguez, pelo qual ela entregará aos Estados Unidos cerca de 50 milhões de barris de petróleo como “ressarcimento” e permitirá o controle de 65 bilhões de barris das reservas existentes, bem como sua exploração prioritária.
Marco Rubio também declarou os cartéis de drogas brasileiros (Primeiro Comando da Capital, Comando Vermelho) como “organizações terroristas”. Isso lhe permitiria — nos termos do acordo assinado no início deste ano com uma dúzia de governos latino-americanos de direita (excluindo o Brasil), o chamado “Escudo das Américas” — intervir, inclusive militarmente (bombardeando navios no Caribe e no Pacífico, invadindo a Venezuela, etc.), para combater o chamado “narcoterrorismo”.
Essa situação foi agravada por provocações diplomáticas: o não reconhecimento e a expulsão do embaixador brasileiro nos Estados Unidos, além de outros ataques de natureza semelhante.
O protesto de Lula e sua rejeição a essas provocações de Trump e Rubio foram apresentados pelo governo como uma atitude nacionalista, uma reafirmação da soberania, que setores da esquerda brasileira rapidamente rotularam como anti-imperialista, apoiando o governo e aderindo ao "espírito" de uma frente nacional para resistir à pressão imperialista.
No ano passado, Lula conseguiu aprovar no Parlamento uma “lei de reciprocidade”, prometendo tarifas retaliatórias sobre as importações de produtos americanos, mas a medida não passou de uma declaração para fins de ostentação e negociação. Ao contrário do primeiro-ministro canadense, que implementou o aumento das tarifas sobre as importações americanas em resposta às tarifas sobre as exportações canadenses, Lula preferiu o “diálogo”. Após o choque inicial, a maioria da burguesia brasileira se recusou a implementar essa “reciprocidade” — o aumento das tarifas sobre os produtos americanos. Temem uma escalada dos conflitos e uma desestabilização interna.
A questão é que, no que diz respeito à mineração de terras raras, foi anunciada a venda da mina Serra Verde para o monopólio americano USA Rare Earth, garantindo aos Estados Unidos toda a produção desse projeto por 15 anos. Não se trata de uma transação privada: o governo americano interveio diretamente, financiando a compra em agosto com recursos estatais (US$ 1,6 bilhão do orçamento do Departamento de Guerra). De maneira diferente, mas assim como Milei, Lula está entregando projetos de mineração importantes a monopólios imperialistas, principalmente os EUA. Um projeto de lei sobre terras raras, submetido à apreciação parlamentar, visa estabelecer uma certa política de "compra nacional" e negociar alguns aspectos da industrialização na origem.
Durante o terceiro mandato de Lula, a privatização de empresas públicas (como o metrô de Belo Horizonte) tem avançado tanto em nível nacional quanto estadual. No caso das privatizações realizadas por governadores de direita/alinhados a Bolsonaro, a Frente Ampla ofereceu apoio nacional e estadual, assim como o peronismo na Argentina faz com as iniciativas reacionárias de Milei.
Ainda na área de segurança, Lula vem se adaptando à pressão “antiterrorista” de Trump e Rubio, que buscam fascistizar ainda mais o cenário político brasileiro e latino-americano. Lula declarou não concordar com a classificação dos “comandos” do narcotráfico como terroristas, mas está construindo novos presídios e anunciou uma Lei de Segurança que propõe a criação de um Ministério da Segurança Pública. Na educação, manteve — e até aumentou ligeiramente — a criação de “escolas militarizadas” nos níveis nacional (1.100) e municipal (mais de 500), tanto no ensino fundamental, quanto no médio. A Polícia Militar intervém diretamente na gestão dessas escolas para estabelecer regras de disciplina, vestimenta e formação de valores. Nos últimos três meses, 60 estabelecimentos de ensino público foram transformados em “escolas militarizadas”.
Em questões internacionais, Lula manteve-se em silêncio sobre a invasão da Venezuela pelos EUA e o sequestro do presidente Nicolás Maduro. Ele também apoiou ativa e abertamente a repressão de Rodrigo Paz à greve geral de 53 dias na Bolívia, que envolveu centenas de milhares de trabalhadores e camponeses. Embora Lula faça declarações ocasionais em favor dos palestinos, ele continua enviando petróleo para o Estado sionista. Ele também aderiu ao boicote ao petróleo imposto por Trump e Rubio contra Cuba. Os sindicatos de petroleiros brasileiros aprovaram resoluções criticando o envio de combustível para o genocida Netanyahu, somando-se ao “espírito” de uma frente nacional para resistir à pressão imperialista.
A luta contra o regime 6×1 e a questão social
Lula manteve as reformas trabalhistas e previdenciárias antiobreiras impostas após o golpe de Temer e dos Bolsonaro. As organizações operárias de massa (CUT, etc.) — assim como Lula — fazem declarações retumbantes, mas o regime de superexploração permanece de pé. O sofrimento físico extenuante dos trabalhadores levou ao surgimento, em 2024, de um vasto movimento de reivindicação pelo fim do regime de trabalho vigente conhecido como 6×1: seis dias de trabalho para um dia de descanso.
Um "outsider" (Rick Azevedo) lançou, por meio de um vídeo, uma campanha para acabar com o regime 6×1, que impunha uma média de 44 horas semanais de trabalho distribuídas ao longo de seis dias úteis. A proposta foi denominada VAT — sigla em português para "Vida Além do Trabalho". Ela propunha reduzir a jornada para quatro dias e 36 horas de trabalho, com três dias de descanso por semana, naturalmente sem redução salarial. Quase sem qualquer apoio — nem mesmo das organizações sindicais dirigidas pela burocracia do PT —, a iniciativa causou um grande impacto na opinião pública, especialmente nas fábricas e no meio trabalhador, desencadeando uma mobilização nacional. Em poucos meses, obteve mais de 1,5 milhão de adesões nas redes sociais; núcleos de organização foram formados em diversas cidades e manifestações de rua começaram a ocorrer. O *Prensa Obrera* registrou em suas páginas a profundidade dessa reivindicação e a mobilização que ela estava provocando.
O governo Lula e a burocracia sindical lulista viram-se obrigados a enfrentar a reivindicação. O ministro do Trabalho, Luiz Marinho, propôs na ocasião (2024) não revogar por lei a escala 6×1, mas sim reduzir a jornada de 44 para 40 horas semanais, mediante negociações entre patrões e sindicalistas. Representantes da Central Única dos Trabalhadores (CUT), naturalmente, concordaram com "seu" ministro (do PT) que a jornada de 40 horas semanais fosse negociada entre patronato e sindicatos, por categoria ou até mesmo por fábrica.Essa reivindicação deu início a uma série de negociações com as entidades patronais que, embora dispostas a "discutir", exigiam diversas compensações em termos de maior flexibilidade trabalhista, redução de encargos sociais e impostos, além de subsídios governamentais. O governo e as burocracias "mobilizaram-se" para tentar convencer o setor patronal dos benefícios de uma eventual concessão. Finalmente, no âmbito de várias negociações, foi apresentado ao Parlamento um projeto de lei estabelecendo a jornada de 40 horas semanais distribuídas em 5 dias de trabalho. Retomava-se, assim, a jornada de 8 horas diárias — bandeira pela qual lutaram os "mártires de Chicago" no final do século XIX e que foi adotada mundialmente pela Segunda Internacional em 1889. Apesar de suas limitações, tratava-se de uma primeira resposta ofensiva da classe trabalhadora brasileira contra a "reforma trabalhista" de superexploração imposta por Temer e Bolsonaro — reforma que o PT de Lula e as burocracias sindicais deixaram passar.
No entanto, o projeto foi discutido, modificado e acabou ficando praticamente engavetado. Somente no final de maio deste ano foi aprovado pela Câmara dos Deputados, quase por unanimidade: 461 votos a favor e apenas 19 contra. A proximidade das eleições fez com que até mesmo deputados bolsonaristas e de direita o apoiassem. Logicamente, os dois anos de "discussões" e "negociações" levaram à alteração da proposta inicial de Rick Azevedo — que previa 4 dias de trabalho e 36 horas semanais, com 3 dias de descanso e sem redução salarial — para o modelo de 40 horas semanais com dois dias de descanso, sendo que um deles deveria, "preferencialmente", cair no domingo. Contudo, o projeto estabelece uma implementação gradual: redução de duas horas alguns meses após a eventual aprovação da lei e das outras duas horas um ano mais tarde. Além disso, ficam de fora os trabalhadores e profissionais que ganham mais de 21 mil reais (cerca de 6 milhões de pesos). Além disso, autoriza-se a negociação de “regimes especiais” para atividades essenciais (saúde, transporte, etc.). Os dois dias de descanso podem não ser consecutivos, embora se recomende que um deles seja o domingo. Prevê-se também a edição de uma “lei complementar” para tratar da situação específica de “transição” das pequenas empresas. De qualquer forma, a direita e as entidades patronais têm contestado, nos debates iniciados no Senado para a aprovação final, o projeto que substitui a escala 6x1 por um novo regime de trabalho 5x2. As entidades empresariais afirmam que essa redução da jornada elevará os preços ao consumidor — pois é aí que os patrões repassarão as perdas de lucro que terão — e que muitas pequenas e médias empresas serão forçadas a fechar as portas devido à mudança, além de apontarem outros aspectos que consideram prejudiciais aos trabalhadores e contrários aos sindicatos. Elas repetem os argumentos utilizados por economistas burgueses no século XIX para se opor às leis de jornada de oito horas de trabalho. Defendem, como alternativa, que uma eventual redução da jornada não seja imposta por lei, mas sim negociada entre patrões e trabalhadores (a proposta inicial de Lula e do PT). Essa oposição é liderada, nos debates da Comissão do Senado, pelo senador Rogério Marinho, um dos líderes do Partido Liberal que defende a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro (o próprio Flávio Bolsonaro havia declarado, dias antes, que a discussão dessa lei às vésperas das eleições era inoportuna, classificando-a como uma medida demagógica e eleitoreira que deveria ser tratada apenas após o segundo turno). O senador Omar Aziz (PSD, partido que integra o governo Lula com ministros), relator do projeto no Senado, insistiu em rebater os argumentos da direita e em tentar convencer o setor empresarial sobre os benefícios da medida, afirmando que "o trabalhador descansado rende mais e comete menos erros". O senador Paulo Paim (PT) defendeu uma votação rápida, argumentando: "Não faz sentido não votar esse tema. É um suicídio político. Essa reforma precisa ser votada agora, e não depois das eleições. Os empresários não serão prejudicados; pelo contrário. Por que tanto medo?".
Finalmente, a Comissão de Constituição e Justiça do Senado aprovou hoje (02/09/26), por maioria, o projeto de lei que anula o regime de trabalho 6×1; a matéria segue agora para debate no plenário do Senado, onde precisará ser aprovada por uma maioria qualificada de três quintos dos senadores (60%) em duas sessões distintas. Caso seja introduzida qualquer alteração, por mínima que seja, o projeto teria de retornar à Câmara dos Deputados, prolongando o prazo para sua sanção antes das eleições. O governo e o PT pressionam para que o Senado se reúna o mais breve possível e vote o projeto em sua forma atual, acelerando a convocação das duas sessões.
Acordos com a direita (e o imperialismo)
Em 26 de agosto, Lula negociou um acordo com os presidentes das duas casas legislativas (Davi Alcolumbre, do Senado, e Hugo Motta, da Câmara dos Deputados) para garantir a realização de algumas sessões parlamentares nestas últimas semanas que antecedem as eleições. Eles se comprometeram a abrir caminho para a votação da reforma do regime de trabalho 6x1, em troca da tramitação de outros projetos — incluindo os de segurança e de promoção da mineração de "terras raras", que mencionamos anteriormente —, os quais servem como acenos de conciliação às pressões de Trump e Rubio. Essa seria a explicação para a trégua momentânea na ofensiva anti-Lula observada após a longa conversa de mais de uma hora que Lula teve com Trump em 21 de agosto. Cinco dias depois, firmou-se o acordo sobre o funcionamento parlamentar com Alcolumbre e Motta. Isso não significa que Trump e Rubio tenham desistido de continuar apoiando Bolsonaro Jr. para derrotar Lula na eleição presidencial...
Quanto a Flávio Bolsonaro, não nos estenderemos na denúncia de suas posições e propostas reacionárias (como a redução da maioridade penal, etc.), uma lista que é imensa. Os Bolsonaro promoveram, tanto nos bastidores quanto publicamente, o pedido de aumento das tarifas impostas por Trump à economia brasileira. O argumento central deles é que um governo de ultradireita bolsonarista conseguiria a revogação ou a redução dessas tarifas, bem como de outras medidas adotadas pelo presidente norte-americano. Uma cópia, em português, da "política" de Milei.
Entre os projetos lulistas está a eliminação do “imposto sobre as blusinhas” — a taxação de importações de produtos com valor inferior a 50 dólares —, medida que seria um tributo ao “livre comércio” e à classe média (bem como às exportações de mercadorias chinesas para o Brasil).
No entanto, enquanto Lula “promete” melhorias sociais em seus discursos, ele continua conduzindo um “ajuste” que beneficia o capital financeiro e o grande capital, ao mesmo tempo em que prejudica as condições de vida da classe trabalhadora. Na calada da noite, as duas casas do Parlamento votaram também em agosto, em ritmo acelerado, um protocolo para limitar o aumento dos gastos sociais — prejudicando diretamente a saúde e a educação públicas — no orçamento de 2027 (a ser discutido em breve), caso o déficit fiscal existente (superior a 9% do PIB) não seja drasticamente reduzido. O aumento do pagamento de juros da dívida pública está excluído dessas limitações orçamentárias. É mais um sinal de Lula a Trump e ao capital financeiro estrangeiro e nacional de que o pagamento da dívida pública será defendido a todo custo e que os aumentos nos gastos sociais serão limitados.
Também à semelhança de Milei, Lula vangloria-se de que a dívida pública é administrável e de que o peso percentual dela na economia nacional diminuirá graças ao crescimento econômico previsto para o seu eventual novo governo. Contudo, o crescimento econômico vem desacelerando: no último trimestre, a economia cresceu apenas 0,6% em relação ao trimestre anterior, quando havia registrado alta de 1,1%. Nessa desaceleração, o setor industrial cresceu apenas 0,1% (compensado pelo crescimento de 2,8% do agronegócio). A situação social das massas está comprometida. O endividamento das famílias atinge 80% dos lares, com um aumento da inadimplência que afeta 82 milhões de pessoas com dívidas de cartão de crédito e empréstimos a taxas de juros elevadas. Trata-se do maior nível de inadimplência dos últimos 20 anos. O governo afirma estar discutindo regimes de financiamento com taxas de juros mais baixas para amenizar essa situação crítica, mas estabelecendo como garantia de pagamento 50% dos recursos da indenização de cada pessoa afetada. Esse endividamento das famílias caminha lado a lado com o aumento da precarização do trabalho e do trabalho informal.
Apesar dos discursos “progressistas” de Lula, as desigualdades sociais se aprofundam e mantêm o Brasil entre os 10 países mais desiguais do mundo.
Uma primeira conclusão elementar: o governo Lula disputa com a direita bolsonarista quais métodos e passos adotar para que as massas trabalhadoras continuem pagando a conta da crise capitalista.
A Frente Ampla não é um freio ao ajuste capitalista, mas sim um mecanismo de contenção da resistência popular.
O governo Lula e a Frente Ampla — que incorporou como vice-presidente o histórico dirigente neoliberal Geraldo Alckmin e o mantém na chapa presidencial — desempenharam um papel de contenção da luta operária e popular. As organizações de massa, as centrais sindicais, camponesas e estudantis dirigidas por burocracias ligadas ao PT encheram os ouvidos das massas com uma retórica progressista, mas não enfrentaram a luta por suas reivindicações. As reformas trabalhistas e previdenciárias antioperárias continuam plenamente em vigor. As privatizações continuaram avançando. A luta pelos direitos das mulheres não passou da retórica, cujo eixo consiste em “educar” as novas gerações contra o machismo, sem atacar as bases sociais de exploração e repressão do Estado e da sociedade capitalista. O direito ao aborto foi banido da agenda governamental e da Frente Ampla. A direita mantém suas posições e avança inclusive dentro do gabinete ministerial de Lula e no controle das casas legislativas. As Forças Armadas continuam sendo um reduto reacionário com grande peso da ultradireita. Não esqueçamos que foi Lula quem enviou tropas brasileiras (incentivando a integração orgânica com os comandos militares ianques) para a ocupação imperialista do Haiti em seu governo anterior. Ele chegou a negar a possibilidade de celebrar, em um sentido elementarmente democrático e antiditatorial, o 60º aniversário do golpe militar em 2024, protegendo os comandos militares reacionários, base de apoio do bolsonarismo. Assim, mais cedo ou mais tarde, com Lula ou Bolsonaro, o povo trabalhador será empurrado a intervir como bucha de canhão nas crescentes guerras imperialistas.
É necessário romper esse impasse político e enfrentar abertamente a luta para recuperar as organizações de luta das massas — em primeiro lugar, as centrais operárias, a CUT e as demais centrais e sindicatos, além das entidades estudantis e camponesas. Segundo pesquisas jornalísticas, 70% da população brasileira apoia a reivindicação de acabar com o regime de trabalho escravagista de escala 6x1. No entanto, a burocracia sindical petista, em vez de tomar essa adesão em massa como ponto de partida para impulsionar planos de luta contra a superexploração — visando revogar as reformas antiobreras e reacionárias de Temer e Bolsonaro —, dedica-se a esfriar os ânimos. Não se trata do início de um ciclo de luta pelas reivindicações operárias e populares, mas sim de seu encerramento. Recentemente, convocou-se uma "jornada de luta" para o domingo, 30 de agosto, que consistiu em atos com algumas poucas centenas de ativistas em diversas praças públicas do Brasil. E ainda pediram para pressionar o Parlamento enviando mensagens de WhatsApp aos senadores!
Um movimento operário organizado poderia garantir uma greve geral, com a mobilização de dezenas de milhares de trabalhadores, para varrer a propaganda de direita e do patronato e abrir um caminho crescente de recuperação de conquistas, pondo fim às chantagens de Trump e Rubio, do "Centrão" parlamentar e da ultradireita, que buscam impor novos retrocessos reacionários, antiobreros e de entrega da soberania nacional.
O fracasso da “esquerda ampla” do PSOL
O PSOL (Partido Socialismo e Liberdade) apresentou-se, inclusive internacionalmente, como um “novo modelo” de organização da esquerda, contrário às propostas de formação de partidos operários revolucionários. Para essa organização, tratava-se de constituir partidos “unitários” e democráticos, compostos por “tendências”, cada uma com seu próprio funcionamento orgânico permanente. Grande parte da esquerda brasileira que se reivindica revolucionária participou do PSOL — que se autoproclamava oposição de esquerda ao primeiro governo Lula — durante quase 20 anos. O PSOL foi e é um partido essencialmente eleitoreiro e subordinado ao lulismo. A “independência” de suas tendências orgânicas internas unia-se em torno das chapas das campanhas eleitorais. Em 2022, decidiram apoiar a candidatura presidencial de Lula e Alckmin, da Frente Ampla. A partir daí, tudo se acelerou: não apenas integraram blocos parlamentares comuns com a base governista, mas também passaram a ocupar ministérios e secretarias de governo. Tornaram-se a “ala esquerda” (se é que se pode dizer assim) do trabalho de contenção da luta de massas. Um dos dirigentes mais emblemáticos do PSOL, Guilherme Boulos, ingressou no governo Lula com o alto cargo de ministro da Secretaria-Geral da Presidência. Sônia Guajajara, do PSOL, foi ministra dos Povos Indígenas durante três anos e meio, até abril deste ano, quando renunciou para se candidatar a deputada federal pelas listas do PSOL/REDE, que apoiam o governo da Frente Ampla. Sob sua gestão ministerial, a violação dos direitos dos povos originários aumentou. Ambos atuaram como "esquerdistas" cooptados pelo poder, utilizando sua origem e experiência para conter os movimentos de luta das massas e cooptá-los em apoio ao governo lulista e de frente ampla. Cabia a Boulos, em sua função, manobrar para conter os movimentos de luta das massas e cooptar setores dirigentes a fim de desarticulá-los. Um papel lamentável. A LSR, uma corrente interna do PSOL, confirma essa análise: o PSOL "aceitou a nomeação de sua figura pública de maior destaque, Guilherme Boulos, para o cargo de ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, uma posição privilegiada na hierarquia governamental. O objetivo da nomeação era estabelecer relações entre o governo e os movimentos sociais, apoiando, assim, a campanha de reeleição de Lula em 2026. Boulos, líder histórico do movimento de massas pelo direito à moradia, atua agora como mediador nos conflitos entre o governo e os movimentos sociais, o que, na prática, desestimula as lutas sociais". Alguns setores de partidos de esquerda que integraram o PSOL como correntes internas foram se afastando nos últimos tempos. Por exemplo: Socialismo ou Barbárie (associada ao Nuevo MAS da Argentina) e a Corrente Socialista dos Trabalhadores (CST, integrante da UIT e associada à Izquierda Socialista da Argentina). Mas outros preferiram continuar engolindo "sapos" da política de frente popular e da associação do PSOL com a Frente Ampla e o governo lulista. É o caso da Revolução Socialista (associada ao MST da Argentina e à Liga Internacional Socialista - LIS), que, em conformidade com o que foi votado no recente congresso internacional da LIS, manteve-se no partido até o último momento do fechamento das candidaturas para ver se conseguia obter ganhos em termos de candidaturas e recursos financeiros. Somente no final de junho é que divulgou um documento anunciando sua divergência sobre o tema (mas sem romper com o PSOL). "A disputa pelo Fundo Eleitoral expõe a crise de um projeto que abandona as bases do PSOL" é o título do documento da Revolução Socialista/LIS, que aborda a crise gerada por divergências quanto à gestão antidemocrática, por parte da direção do PSOL, dos recursos financeiros e das candidaturas. "A engrenagem que move o PSOL é a sobrevivência parlamentar. Não apenas pela 'necessidade' de representação parlamentar em um momento de ataques da extrema direita em ambas as casas legislativas, mas também pela luta para não perder as condições materiais e os privilégios do Parlamento. Obviamente, esse problema se estende a todo o partido", afirma o documento. A Revolução Socialista/LIS conclui que "o PSOL foi se transformando, paulatinamente, em um instrumento de aparelhos eleitorais que disputam espaços institucionais enquanto abandonam, de maneira oportunista, um programa anticapitalista consequente e subordinam a estratégia do partido às necessidades das eleições seguintes". Insistimos: mesmo assim, a Revolução Socialista/LIS — tendo sido, inclusive, prejudicada na distribuição de candidaturas e recursos — permanece no PSOL, bebendo até a última gota da cicuta do oportunismo eleitoreiro. A Revolução Socialista/LIS continua defendendo, em seu documento de 29/06/26: “A tarefa da militância anticapitalista é defender o PSOL como instrumento de luta dos trabalhadores e dos setores oprimidos”.
No entanto, outra das organizações integrantes do PSOL, a corrente Liberdade, Socialismo e Revolução (LSR, vinculada à Alternativa Socialista Internacional —ISL/CSI— e ao Comitê por uma Internacional Operária), afirma que estamos diante de uma ampla decomposição política do PSOL: “O PSOL é hoje um partido com campanhas eleitorais milionárias graças ao ‘fundo partidário’ — recursos estatais destinados às suas despesas correntes — e ao ‘fundo eleitoral’ — dinheiro público destinado às campanhas eleitorais. Por exemplo, em 2020, o PSOL recebeu 35,5 milhões de reais (cerca de 7 milhões de dólares) do fundo eleitoral, valor que, para 2024, havia subido para 128,6 milhões de reais (cerca de 25 milhões de dólares). Além dessa quantia, existem centenas ou milhares de membros do partido empregados em cargos nos gabinetes de parlamentares nas esferas municipal, estadual e federal, bem como em ministérios do governo”. A Revolución Socialista/LIS está contaminada por esse quadro de decomposição pequeno-burguesa, arrivista e oportunista.
O terreno da luta eleitoral
As eleições são também um terreno de combate contra os partidos, a ordem e o Estado capitalista. É uma frente de luta na qual os revolucionários devem intervir. Eles precisam demonstrar, diante da vanguarda e das massas trabalhadoras, que não apenas ajudam a organizar greves e mobilizações e a lançar proclamações classistas e revolucionárias, mas que são capazes de enfrentar os candidatos políticos das classes dominantes. Lênin propôs, há mais de um século (em seu livro *Esquerdismo, Doença Infantil do Comunismo*), a necessidade de intervir nos processos eleitorais e nas batalhas parlamentares, utilizando o Parlamento como uma tribuna de agitação e propaganda socialista revolucionária. A incapacidade de participar das eleições para travar essa batalha indica uma fraqueza dos revolucionários, não uma virtude. Naturalmente, as correntes operárias e de esquerda não devem convocar votos para a ultradireita bolsonarista nem para a frente popular da Frente Ampla, que, de diversas formas, vêm para enfrentar a luta das massas e impor a ordem de superexploração capitalista.
Lula, o PSOL e a Frente Ampla — frente popular de colaboração de classes — justificam sua atuação de capitulação diante do grande capital e de ataques às condições de vida das massas alegando não possuírem maiorias asseguradas nas câmaras parlamentares. Convocam a enfrentar o avanço da direita votando em Lula. Justificam a paralisia da CUT e das demais organizações de massas dirigidas por burocracias governistas do PT com o argumento de não assustar o eleitorado de classe média, que poderia migrar para o bolsonarismo e a ultradireita. Convocam a esquerda a aderir a uma frente antifascista que culmine, no pleito de 4 de outubro, no voto a favor do "democrata" Lula. Com essa perspectiva, organizou-se um Fórum Antifascista em Porto Alegre, no início do ano, que pretendia unir a esquerda e os setores combativos dos movimentos de luta no apoio eleitoral a Lula (ali esteve a Revolução Socialista/LIS). Uma frente antifascista passa pela mobilização protagonista das massas na luta por suas reivindicações imediatas e históricas; para isso, deverão enfrentar o governo que defende as reformas reacionárias impostas pela ultradireita de Temer e Bolsonaro. Lula — obrigado a dar provas às classes burguesas de seu papel de contenção das lutas de massas — declarou de forma clara e sem qualquer constrangimento: "Não sou de esquerda".
Se as massas trabalhadoras se mobilizarem, elas também atrairão setores da classe média, que verão a existência de uma liderança disposta a lutar e vencer. Caso contrário, é a direita — com sua pregação de mão de ferro e ação direta — que confunde a classe média (e até mesmo setores desorganizados e atrasados do movimento operário), podendo atraí-los para a extrema-direita. As organizações de massa dos trabalhadores e dos explorados devem ser mobilizadas, expulsando as burocracias corruptas que defendem a ordem burguesa.
Dos treze candidatos à presidência, quatro se declaram de esquerda revolucionária. Causa Operária (PCO), que se tornou um movimento à margem do lulismo, prospera com a corrupção estatal. Entre as três organizações que se declaram de esquerda independente e opostas à Frente Popular de Lula (UP, PCB, PSTU), o PSTU parece ser a mais proeminente nas lutas de classe e na defesa de propostas formais de independência de classe. Algumas correntes levantaram a necessidade de formar uma "Frente Eleitoral de Esquerda Anticapitalista"; isso poderia ter levado a um reagrupamento mínimo dos setores de vanguarda da luta, mas não se concretizou. Defendemos o voto no PSTU — apesar de termos divergências políticas significativas — para consolidar um voto contra a guinada à extrema-direita e contra a Frente Popular de conciliação de classes no governo. Isso se deve ao fato de que várias correntes e partidos de esquerda — alguns dos quais romperam com o PSOL em algum momento (como a CST/UIT ou o Socialismo ou Barbárie) — lançam candidatos "democráticos" nas listas do PSTU.
É essencial travar uma batalha política contra o voto em Bolsonaro e Lula em favor de um reagrupamento de esquerda baseado na classe, e concentrar grande parte da campanha na reivindicação da revogação da lei trabalhista 6x1 e pela recuperação dos salários e ganhos perdidos, por meio de um plano de luta e da greve geral.
Diversas facções dentro do PSOL abandonaram essa frente oportunista e se juntaram à campanha para votar no PSTU (ou em um dos outros partidos). No caso da Revolução Socialista/LIS, eles finalmente convocaram um boicote ao primeiro turno das eleições de Lula, anunciando que, independentemente da situação política nacional, votarão em Lula e na Frente Ampla no segundo turno. A posição da Revolução Socialista/LIS não representa uma ruptura com posturas oportunistas e eleitoralistas, mas sim uma manobra para superar o impasse em que se encontram e permanecer dentro do PSOL.
O Movimento Revolucionário dos Trabalhadores (MRT, ligado ao PTS argentino e membro da Corrente da Revolução Permanente - Quarta Internacional) está adotando uma posição peculiar: em plena campanha eleitoral, ainda não declarou em quem votará. Atualmente, apoia uma turnê de Myriam Bregman, que apresenta seu livro, Contra a Moderação. Publicou uma carta dirigida a um setor do PT (e do PSOL) propondo a formação de uma bancada combativa no próximo Parlamento, com o objetivo de abrir um debate comum. O silêncio não é uma política de classe: o MRT deveria também convocar votos para as listas do PSTU.
Participar da campanha eleitoral no Brasil é importante para lançar as bases de uma alternativa operária, socialista e revolucionária.
