quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Uma frente importante na luta política latino-americana e na esquerda brasileira

Extraído e traduzido do link: https://revistaedm.com.ar/nota/un-frente-importante-en-la-lucha-politica-latinoamericana-y-de-la-izquierda-brasilera/

Rafael Santos, dirigente histórico do Partido Obrero da Argentina, analisa neste artigo escrito para a Revista Em Defesa do Marxismo, on line, o cenário de polarização extrema nas eleições gerais do Brasil entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro, inserindo-o na ofensiva imperialista dos EUA conduzida por Trump e Rubio. O artigo desmascara os limites da política de conciliação do governo da Frente Ampla, que combina a entrega de recursos estratégicos, como as "terras raras", com a manutenção das reformas precarizadoras. Diante da contenção exercida pela burocracia sindical petista, o texto destaca a irrupção da luta operária contra o regime escravista da jornada de trabalho 6x1 e traça um balanço agudo sobre a assimilação do PSOL ao Estado capitalista. Trata-se de uma delimitação estratégica fundamental para impulsionar o reagrupamento da esquerda classista e a independência da classe trabalhadora.



Daqui a  um mê, no dia 4 de outubro, serão realizadas eleições gerais no Brasil para eleger o presidente, governadores, deputados federais e estaduais e senadores. Essas eleições são acompanhadas com grande expectativa política, tanto no continente, quanto no mundo. A disputa presidencial está polarizada entre o atual presidente de centro-esquerda (Frente Ampla, Partido dos Trabalhadores e outros), Luiz Inácio Lula da Silva, e o senador Flávio Bolsonaro (Partido Liberal), filho de direita do ex-presidente Jair Bolsonaro, que está preso, cumprindo pena de 27 anos por supostamente conspirar para um golpe de Estado. As pesquisas indicam um "empate técnico": Lula deve vencer no primeiro turno por uma margem de 3 ou 4 pontos percentuais, o que obrigaria um segundo turno em 25 de outubro. Os institutos de pesquisa também preveem um empate nesse turno, com cada candidato recebendo cerca de 44% dos votos.

Lula derrotou Bolsonaro no segundo turno das eleições de 2022 por uma margem apertada de 1,8%. Quatro anos depois, seu governo não conseguiu gerar um consenso político que o distanciasse drasticamente do movimento de extrema-direita de Bolsonaro.

Caso Bolsonaro triunfe no Brasil, o continente latino-americano ficará pintado de “trumpismo”, após as recentes eleições em que a direita, em suas variantes mais fascistas, prevaleceu no Chile (Kast), Peru (Keiko Fujimori), Bolívia (Rodríguez Paz) e Colômbia (De La Espriella), além de ter cooptado o governo burguês “nacionalista” da Venezuela (Delci Rodríguez), após a invasão e o sequestro de Nicolás Maduro.

Para Trump e a direita fascista internacional, a eleição brasileira é um alvo central. Isso ficou demonstrado pela viagem repentina do presidente argentino Javier Milei, que deslocou-se ao Brasil, ignorando todo o protocolo diplomático, unicamente para participar de um evento de campanha de Flávio Bolsonaro e lançar um ataque virulento contra Lula.

Lula, anti-imperialista?

A isto se  há somado diversas provocações diretas de Trump e seu secretário de Estado, Marco Rubio. Em primeiro lugar, aumentando drasticamente (37,5%) as taxações de centenas de produtos importados pelos Estados Unidos provenientes do Brasil, acusando ao gigante sul-americano de usar “trabalho forçado” e/ou práticas comerciais incorretas. Estamos falando de cerca de 20% das exportações do Brasil aos EUA. Uma das reclamações trumpistas é por causa dos cartões de créditos yanques (Visa, Mastercard) que foram violentamente relegados no mercado comercial cotidiano dentro do Brasil. 170 milhões de brasileiros (mais os turistas que aumentam) usam o PIX, um sistema de pagamento eletrônico nacional que não cobra nenhum tipo de tarifa, nem aos usuários de cartões, nem aos comerciantes, e que realiza os pagamentos de forma instantânea, diferentemente dos cartões yanques, que cobram uma taxa de juros pelo “serviço” e demoram 30 dias nos pagamentos aos comerciantes. É uma tendência que se está implementando de forma crescente no mundo (India, etc.) e que golpeia o monopólio parasitário do sistema bancário comercial imperialista.

Marco Rubio também reivindica contratos vantajosos na mineração de “terras raras”. O Brasil é o segundo maior produtor mundial desses minerais escassos e caros (atrás apenas da China), essenciais para a fabricação de chips, Inteligência Artificial e produtos eletrônicos. Já sabemos o que significa “vantajoso” para o imperialismo ianque: isso acaba de ser evidenciado pelo acordo de Trump com a “presidente” venezuelana Delcy Rodríguez, pelo qual ela entregará aos Estados Unidos cerca de 50 milhões de barris de petróleo como “ressarcimento” e permitirá o controle de 65 bilhões de barris das reservas existentes, bem como sua exploração prioritária.

Marco Rubio também declarou os cartéis de drogas brasileiros (Primeiro Comando da Capital, Comando Vermelho) como “organizações terroristas”. Isso lhe permitiria — nos termos do acordo assinado no início deste ano com uma dúzia de governos latino-americanos de direita (excluindo o Brasil), o chamado “Escudo das Américas” — intervir, inclusive militarmente (bombardeando navios no Caribe e no Pacífico, invadindo a Venezuela, etc.), para combater o chamado “narcoterrorismo”.

Essa situação foi agravada por provocações diplomáticas: o não reconhecimento e a expulsão do embaixador brasileiro nos Estados Unidos, além de outros ataques de natureza semelhante.

O protesto de Lula e sua rejeição a essas provocações de Trump e Rubio foram apresentados pelo governo como uma atitude nacionalista, uma reafirmação da soberania, que setores da esquerda brasileira rapidamente rotularam como anti-imperialista, apoiando o governo e aderindo ao "espírito" de uma frente nacional para resistir à pressão imperialista.

No ano passado, Lula conseguiu aprovar no Parlamento uma “lei de reciprocidade”, prometendo tarifas retaliatórias sobre as importações de produtos americanos, mas a medida não passou de uma declaração para fins de ostentação e negociação. Ao contrário do primeiro-ministro canadense, que implementou o aumento das tarifas sobre as importações americanas em resposta às tarifas sobre as exportações canadenses, Lula preferiu o “diálogo”. Após o choque inicial, a maioria da burguesia brasileira se recusou a implementar essa “reciprocidade” — o aumento das tarifas sobre os produtos americanos. Temem uma escalada dos conflitos e uma desestabilização interna.

A questão é que, no que diz respeito à mineração de terras raras, foi anunciada a venda da mina Serra Verde para o monopólio americano USA Rare Earth, garantindo aos Estados Unidos toda a produção desse projeto por 15 anos. Não se trata de uma transação privada: o governo americano interveio diretamente, financiando a compra em agosto com recursos estatais (US$ 1,6 bilhão do orçamento do Departamento de Guerra). De maneira diferente, mas assim como Milei, Lula está entregando projetos de mineração importantes a monopólios imperialistas, principalmente os EUA. Um projeto de lei sobre terras raras, submetido à apreciação parlamentar, visa estabelecer uma certa política de "compra nacional" e negociar alguns aspectos da industrialização na origem.

Durante o terceiro mandato de Lula, a privatização de empresas públicas (como o metrô de Belo Horizonte) tem avançado tanto em nível nacional quanto estadual. No caso das privatizações realizadas por governadores de direita/alinhados a Bolsonaro, a Frente Ampla ofereceu apoio nacional e estadual, assim como o peronismo na Argentina faz com as iniciativas reacionárias de Milei.

Ainda na área de segurança, Lula vem se adaptando à pressão “antiterrorista” de Trump e Rubio, que buscam fascistizar ainda mais o cenário político brasileiro e latino-americano. Lula declarou não concordar com a classificação dos “comandos” do narcotráfico como terroristas, mas está construindo novos presídios e anunciou uma Lei de Segurança que propõe a criação de um Ministério da Segurança Pública. Na educação, manteve — e até aumentou ligeiramente — a criação de “escolas militarizadas” nos níveis nacional (1.100) e municipal (mais de 500), tanto no ensino fundamental, quanto no médio. A Polícia Militar intervém diretamente na gestão dessas escolas para estabelecer regras de disciplina, vestimenta e formação de valores. Nos últimos três meses, 60 estabelecimentos de ensino público foram transformados em “escolas militarizadas”.

Em questões internacionais, Lula manteve-se em silêncio sobre a invasão da Venezuela pelos EUA e o sequestro do presidente Nicolás Maduro. Ele também apoiou ativa e abertamente a repressão de Rodrigo Paz à greve geral de 53 dias na Bolívia, que envolveu centenas de milhares de trabalhadores e camponeses. Embora Lula faça declarações ocasionais em favor dos palestinos, ele continua enviando petróleo para o Estado sionista. Ele também aderiu ao boicote ao petróleo imposto por Trump e Rubio contra Cuba. Os sindicatos de petroleiros brasileiros aprovaram resoluções criticando o envio de combustível para o genocida Netanyahu, somando-se ao “espírito” de uma frente nacional para resistir à pressão imperialista.

A luta contra o regime 6×1 e a questão social

Lula manteve as reformas trabalhistas e previdenciárias antiobreiras impostas após o golpe de Temer e dos Bolsonaro. As organizações operárias de massa (CUT, etc.) — assim como Lula — fazem declarações retumbantes, mas o regime de superexploração permanece de pé. O sofrimento físico extenuante dos trabalhadores levou ao surgimento, em 2024, de um vasto movimento de reivindicação pelo fim do regime de trabalho vigente conhecido como 6×1: seis dias de trabalho para um dia de descanso.

Um "outsider" (Rick Azevedo) lançou, por meio de um vídeo, uma campanha para acabar com o regime 6×1, que impunha uma média de 44 horas semanais de trabalho distribuídas ao longo de seis dias úteis. A proposta foi denominada VAT — sigla em português para "Vida Além do Trabalho". Ela propunha reduzir a jornada para quatro dias e 36 horas de trabalho, com três dias de descanso por semana, naturalmente sem redução salarial. Quase sem qualquer apoio — nem mesmo das organizações sindicais dirigidas pela burocracia do PT —, a iniciativa causou um grande impacto na opinião pública, especialmente nas fábricas e no meio trabalhador, desencadeando uma mobilização nacional. Em poucos meses, obteve mais de 1,5 milhão de adesões nas redes sociais; núcleos de organização foram formados em diversas cidades e manifestações de rua começaram a ocorrer. O *Prensa Obrera* registrou em suas páginas a profundidade dessa reivindicação e a mobilização que ela estava provocando.

O governo Lula e a burocracia sindical lulista viram-se obrigados a enfrentar a reivindicação. O ministro do Trabalho, Luiz Marinho, propôs na ocasião (2024) não revogar por lei a escala 6×1, mas sim reduzir a jornada de 44 para 40 horas semanais, mediante negociações entre patrões e sindicalistas. Representantes da Central Única dos Trabalhadores (CUT), naturalmente, concordaram com "seu" ministro (do PT) que a jornada de 40 horas semanais fosse negociada entre patronato e sindicatos, por categoria ou até mesmo por fábrica.Essa reivindicação deu início a uma série de negociações com as entidades patronais que, embora dispostas a "discutir", exigiam diversas compensações em termos de maior flexibilidade trabalhista, redução de encargos sociais e impostos, além de subsídios governamentais. O governo e as burocracias "mobilizaram-se" para tentar convencer o setor patronal dos benefícios de uma eventual concessão. Finalmente, no âmbito de várias negociações, foi apresentado ao Parlamento um projeto de lei estabelecendo a jornada de 40 horas semanais distribuídas em 5 dias de trabalho. Retomava-se, assim, a jornada de 8 horas diárias — bandeira pela qual lutaram os "mártires de Chicago" no final do século XIX e que foi adotada mundialmente pela Segunda Internacional em 1889. Apesar de suas limitações, tratava-se de uma primeira resposta ofensiva da classe trabalhadora brasileira contra a "reforma trabalhista" de superexploração imposta por Temer e Bolsonaro — reforma que o PT de Lula e as burocracias sindicais deixaram passar.

No entanto, o projeto foi discutido, modificado e acabou ficando praticamente engavetado. Somente no final de maio deste ano foi aprovado pela Câmara dos Deputados, quase por unanimidade: 461 votos a favor e apenas 19 contra. A proximidade das eleições fez com que até mesmo deputados bolsonaristas e de direita o apoiassem. Logicamente, os dois anos de "discussões" e "negociações" levaram à alteração da proposta inicial de Rick Azevedo — que previa 4 dias de trabalho e 36 horas semanais, com 3 dias de descanso e sem redução salarial — para o modelo de 40 horas semanais com dois dias de descanso, sendo que um deles deveria, "preferencialmente", cair no domingo. Contudo, o projeto estabelece uma implementação gradual: redução de duas horas alguns meses após a eventual aprovação da lei e das outras duas horas um ano mais tarde. Além disso, ficam de fora os trabalhadores e profissionais que ganham mais de 21 mil reais (cerca de 6 milhões de pesos). Além disso, autoriza-se a negociação de “regimes especiais” para atividades essenciais (saúde, transporte, etc.). Os dois dias de descanso podem não ser consecutivos, embora se recomende que um deles seja o domingo. Prevê-se também a edição de uma “lei complementar” para tratar da situação específica de “transição” das pequenas empresas. De qualquer forma, a direita e as entidades patronais têm contestado, nos debates iniciados no Senado para a aprovação final, o projeto que substitui a escala 6x1 por um novo regime de trabalho 5x2. As entidades empresariais afirmam que essa redução da jornada elevará os preços ao consumidor — pois é aí que os patrões repassarão as perdas de lucro que terão — e que muitas pequenas e médias empresas serão forçadas a fechar as portas devido à mudança, além de apontarem outros aspectos que consideram prejudiciais aos trabalhadores e contrários aos sindicatos. Elas repetem os argumentos utilizados por economistas burgueses no século XIX para se opor às leis de jornada de oito horas de trabalho. Defendem, como alternativa, que uma eventual redução da jornada não seja imposta por lei, mas sim negociada entre patrões e trabalhadores (a proposta inicial de Lula e do PT). Essa oposição é liderada, nos debates da Comissão do Senado, pelo senador Rogério Marinho, um dos líderes do Partido Liberal que defende a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro (o próprio Flávio Bolsonaro havia declarado, dias antes, que a discussão dessa lei às vésperas das eleições era inoportuna, classificando-a como uma medida demagógica e eleitoreira que deveria ser tratada apenas após o segundo turno). O senador Omar Aziz (PSD, partido que integra o governo Lula com ministros), relator do projeto no Senado, insistiu em rebater os argumentos da direita e em tentar convencer o setor empresarial sobre os benefícios da medida, afirmando que "o trabalhador descansado rende mais e comete menos erros". O senador Paulo Paim (PT) defendeu uma votação rápida, argumentando: "Não faz sentido não votar esse tema. É um suicídio político. Essa reforma precisa ser votada agora, e não depois das eleições. Os empresários não serão prejudicados; pelo contrário. Por que tanto medo?".

Finalmente, a Comissão de Constituição e Justiça do Senado aprovou hoje (02/09/26), por maioria, o projeto de lei que anula o regime de trabalho 6×1; a matéria segue agora para debate no plenário do Senado, onde precisará ser aprovada por uma maioria qualificada de três quintos dos senadores (60%) em duas sessões distintas. Caso seja introduzida qualquer alteração, por mínima que seja, o projeto teria de retornar à Câmara dos Deputados, prolongando o prazo para sua sanção antes das eleições. O governo e o PT pressionam para que o Senado se reúna o mais breve possível e vote o projeto em sua forma atual, acelerando a convocação das duas sessões.

Acordos com a direita (e o imperialismo)

Em 26 de agosto, Lula negociou um acordo com os presidentes das duas casas legislativas (Davi Alcolumbre, do Senado, e Hugo Motta, da Câmara dos Deputados) para garantir a realização de algumas sessões parlamentares nestas últimas semanas que antecedem as eleições. Eles se comprometeram a abrir caminho para a votação da reforma do regime de trabalho 6x1, em troca da tramitação de outros projetos — incluindo os de segurança e de promoção da mineração de "terras raras", que mencionamos anteriormente —, os quais servem como acenos de conciliação às pressões de Trump e Rubio. Essa seria a explicação para a trégua momentânea na ofensiva anti-Lula observada após a longa conversa de mais de uma hora que Lula teve com Trump em 21 de agosto. Cinco dias depois, firmou-se o acordo sobre o funcionamento parlamentar com Alcolumbre e Motta. Isso não significa que Trump e Rubio tenham desistido de continuar apoiando Bolsonaro Jr. para derrotar Lula na eleição presidencial...

Quanto a Flávio Bolsonaro, não nos estenderemos na denúncia de suas posições e propostas reacionárias (como a redução da maioridade penal, etc.), uma lista que é imensa. Os Bolsonaro promoveram, tanto nos bastidores quanto publicamente, o pedido de aumento das tarifas impostas por Trump à economia brasileira. O argumento central deles é que um governo de ultradireita bolsonarista conseguiria a revogação ou a redução dessas tarifas, bem como de outras medidas adotadas pelo presidente norte-americano. Uma cópia, em português, da "política" de Milei.

Entre os projetos lulistas está a eliminação do “imposto sobre as blusinhas” — a taxação de importações de produtos com valor inferior a 50 dólares —, medida que seria um tributo ao “livre comércio” e à classe média (bem como às exportações de mercadorias chinesas para o Brasil).

No entanto, enquanto Lula “promete” melhorias sociais em seus discursos, ele continua conduzindo um “ajuste” que beneficia o capital financeiro e o grande capital, ao mesmo tempo em que prejudica as condições de vida da classe trabalhadora. Na calada da noite, as duas casas do Parlamento votaram também em agosto, em ritmo acelerado, um protocolo para limitar o aumento dos gastos sociais — prejudicando diretamente a saúde e a educação públicas — no orçamento de 2027 (a ser discutido em breve), caso o déficit fiscal existente (superior a 9% do PIB) não seja drasticamente reduzido. O aumento do pagamento de juros da dívida pública está excluído dessas limitações orçamentárias. É mais um sinal de Lula a Trump e ao capital financeiro estrangeiro e nacional de que o pagamento da dívida pública será defendido a todo custo e que os aumentos nos gastos sociais serão limitados.

Também à semelhança de Milei, Lula vangloria-se de que a dívida pública é administrável e de que o peso percentual dela na economia nacional diminuirá graças ao crescimento econômico previsto para o seu eventual novo governo. Contudo, o crescimento econômico vem desacelerando: no último trimestre, a economia cresceu apenas 0,6% em relação ao trimestre anterior, quando havia registrado alta de 1,1%. Nessa desaceleração, o setor industrial cresceu apenas 0,1% (compensado pelo crescimento de 2,8% do agronegócio). A situação social das massas está comprometida. O endividamento das famílias atinge 80% dos lares, com um aumento da inadimplência que afeta 82 milhões de pessoas com dívidas de cartão de crédito e empréstimos a taxas de juros elevadas. Trata-se do maior nível de inadimplência dos últimos 20 anos. O governo afirma estar discutindo regimes de financiamento com taxas de juros mais baixas para amenizar essa situação crítica, mas estabelecendo como garantia de pagamento 50% dos recursos da indenização de cada pessoa afetada. Esse endividamento das famílias caminha lado a lado com o aumento da precarização do trabalho e do trabalho informal.

Apesar dos discursos “progressistas” de Lula, as desigualdades sociais se aprofundam e mantêm o Brasil entre os 10 países mais desiguais do mundo.

Uma primeira conclusão elementar: o governo Lula disputa com a direita bolsonarista quais métodos e passos adotar para que as massas trabalhadoras continuem pagando a conta da crise capitalista.

A Frente Ampla não é um freio ao ajuste capitalista, mas sim um mecanismo de contenção da resistência popular.

O governo Lula e a Frente Ampla — que incorporou como vice-presidente o histórico dirigente neoliberal Geraldo Alckmin e o mantém na chapa presidencial — desempenharam um papel de contenção da luta operária e popular. As organizações de massa, as centrais sindicais, camponesas e estudantis dirigidas por burocracias ligadas ao PT encheram os ouvidos das massas com uma retórica progressista, mas não enfrentaram a luta por suas reivindicações. As reformas trabalhistas e previdenciárias antioperárias continuam plenamente em vigor. As privatizações continuaram avançando. A luta pelos direitos das mulheres não passou da retórica, cujo eixo consiste em “educar” as novas gerações contra o machismo, sem atacar as bases sociais de exploração e repressão do Estado e da sociedade capitalista. O direito ao aborto foi banido da agenda governamental e da Frente Ampla. A direita mantém suas posições e avança inclusive dentro do gabinete ministerial de Lula e no controle das casas legislativas. As Forças Armadas continuam sendo um reduto reacionário com grande peso da ultradireita. Não esqueçamos que foi Lula quem enviou tropas brasileiras (incentivando a integração orgânica com os comandos militares ianques) para a ocupação imperialista do Haiti em seu governo anterior. Ele chegou a negar a possibilidade de celebrar, em um sentido elementarmente democrático e antiditatorial, o 60º aniversário do golpe militar em 2024, protegendo os comandos militares reacionários, base de apoio do bolsonarismo. Assim, mais cedo ou mais tarde, com Lula ou Bolsonaro, o povo trabalhador será empurrado a intervir como bucha de canhão nas crescentes guerras imperialistas.

É necessário romper esse impasse político e enfrentar abertamente a luta para recuperar as organizações de luta das massas — em primeiro lugar, as centrais operárias, a CUT e as demais centrais e sindicatos, além das entidades estudantis e camponesas. Segundo pesquisas jornalísticas, 70% da população brasileira apoia a reivindicação de acabar com o regime de trabalho escravagista de escala 6x1. No entanto, a burocracia sindical petista, em vez de tomar essa adesão em massa como ponto de partida para impulsionar planos de luta contra a superexploração — visando revogar as reformas antiobreras e reacionárias de Temer e Bolsonaro —, dedica-se a esfriar os ânimos. Não se trata do início de um ciclo de luta pelas reivindicações operárias e populares, mas sim de seu encerramento. Recentemente, convocou-se uma "jornada de luta" para o domingo, 30 de agosto, que consistiu em atos com algumas poucas centenas de ativistas em diversas praças públicas do Brasil. E ainda pediram para pressionar o Parlamento enviando mensagens de WhatsApp aos senadores!

Um movimento operário organizado poderia garantir uma greve geral, com a mobilização de dezenas de milhares de trabalhadores, para varrer a propaganda de direita e do patronato e abrir um caminho crescente de recuperação de conquistas, pondo fim às chantagens de Trump e Rubio, do "Centrão" parlamentar e da ultradireita, que buscam impor novos retrocessos reacionários, antiobreros e de entrega da soberania nacional.

O fracasso da “esquerda ampla” do PSOL

O PSOL (Partido Socialismo e Liberdade) apresentou-se, inclusive internacionalmente, como um “novo modelo” de organização da esquerda, contrário às propostas de formação de partidos operários revolucionários. Para essa organização, tratava-se de constituir partidos “unitários” e democráticos, compostos por “tendências”, cada uma com seu próprio funcionamento orgânico permanente. Grande parte da esquerda brasileira que se reivindica revolucionária participou do PSOL — que se autoproclamava oposição de esquerda ao primeiro governo Lula — durante quase 20 anos. O PSOL foi e é um partido essencialmente eleitoreiro e subordinado ao lulismo. A “independência” de suas tendências orgânicas internas unia-se em torno das chapas das campanhas eleitorais. Em 2022, decidiram apoiar a candidatura presidencial de Lula e Alckmin, da Frente Ampla. A partir daí, tudo se acelerou: não apenas integraram blocos parlamentares comuns com a base governista, mas também passaram a ocupar ministérios e secretarias de governo. Tornaram-se a “ala esquerda” (se é que se pode dizer assim) do trabalho de contenção da luta de massas. Um dos dirigentes mais emblemáticos do PSOL, Guilherme Boulos, ingressou no governo Lula com o alto cargo de ministro da Secretaria-Geral da Presidência. Sônia Guajajara, do PSOL, foi ministra dos Povos Indígenas durante três anos e meio, até abril deste ano, quando renunciou para se candidatar a deputada federal pelas listas do PSOL/REDE, que apoiam o governo da Frente Ampla. Sob sua gestão ministerial, a violação dos direitos dos povos originários aumentou. Ambos atuaram como "esquerdistas" cooptados pelo poder, utilizando sua origem e experiência para conter os movimentos de luta das massas e cooptá-los em apoio ao governo lulista e de frente ampla. Cabia a Boulos, em sua função, manobrar para conter os movimentos de luta das massas e cooptar setores dirigentes a fim de desarticulá-los. Um papel lamentável. A LSR, uma corrente interna do PSOL, confirma essa análise: o PSOL "aceitou a nomeação de sua figura pública de maior destaque, Guilherme Boulos, para o cargo de ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, uma posição privilegiada na hierarquia governamental. O objetivo da nomeação era estabelecer relações entre o governo e os movimentos sociais, apoiando, assim, a campanha de reeleição de Lula em 2026. Boulos, líder histórico do movimento de massas pelo direito à moradia, atua agora como mediador nos conflitos entre o governo e os movimentos sociais, o que, na prática, desestimula as lutas sociais". Alguns setores de partidos de esquerda que integraram o PSOL como correntes internas foram se afastando nos últimos tempos. Por exemplo: Socialismo ou Barbárie (associada ao Nuevo MAS da Argentina) e a Corrente Socialista dos Trabalhadores (CST, integrante da UIT e associada à Izquierda Socialista da Argentina). Mas outros preferiram continuar engolindo "sapos" da política de frente popular e da associação do PSOL com a Frente Ampla e o governo lulista. É o caso da Revolução Socialista (associada ao MST da Argentina e à Liga Internacional Socialista - LIS), que, em conformidade com o que foi votado no recente congresso internacional da LIS, manteve-se no partido até o último momento do fechamento das candidaturas para ver se conseguia obter ganhos em termos de candidaturas e recursos financeiros. Somente no final de junho é que divulgou um documento anunciando sua divergência sobre o tema (mas sem romper com o PSOL). "A disputa pelo Fundo Eleitoral expõe a crise de um projeto que abandona as bases do PSOL" é o título do documento da Revolução Socialista/LIS, que aborda a crise gerada por divergências quanto à gestão antidemocrática, por parte da direção do PSOL, dos recursos financeiros e das candidaturas. "A engrenagem que move o PSOL é a sobrevivência parlamentar. Não apenas pela 'necessidade' de representação parlamentar em um momento de ataques da extrema direita em ambas as casas legislativas, mas também pela luta para não perder as condições materiais e os privilégios do Parlamento. Obviamente, esse problema se estende a todo o partido", afirma o documento. A Revolução Socialista/LIS conclui que "o PSOL foi se transformando, paulatinamente, em um instrumento de aparelhos eleitorais que disputam espaços institucionais enquanto abandonam, de maneira oportunista, um programa anticapitalista consequente e subordinam a estratégia do partido às necessidades das eleições seguintes". Insistimos: mesmo assim, a Revolução Socialista/LIS — tendo sido, inclusive, prejudicada na distribuição de candidaturas e recursos — permanece no PSOL, bebendo até a última gota da cicuta do oportunismo eleitoreiro. A Revolução Socialista/LIS continua defendendo, em seu documento de 29/06/26: “A tarefa da militância anticapitalista é defender o PSOL como instrumento de luta dos trabalhadores e dos setores oprimidos”.

No entanto, outra das organizações integrantes do PSOL, a corrente Liberdade, Socialismo e Revolução (LSR, vinculada à Alternativa Socialista Internacional —ISL/CSI— e ao Comitê por uma Internacional Operária), afirma que estamos diante de uma ampla decomposição política do PSOL: “O PSOL é hoje um partido com campanhas eleitorais milionárias graças ao ‘fundo partidário’ — recursos estatais destinados às suas despesas correntes — e ao ‘fundo eleitoral’ — dinheiro público destinado às campanhas eleitorais. Por exemplo, em 2020, o PSOL recebeu 35,5 milhões de reais (cerca de 7 milhões de dólares) do fundo eleitoral, valor que, para 2024, havia subido para 128,6 milhões de reais (cerca de 25 milhões de dólares). Além dessa quantia, existem centenas ou milhares de membros do partido empregados em cargos nos gabinetes de parlamentares nas esferas municipal, estadual e federal, bem como em ministérios do governo”. A Revolución Socialista/LIS está contaminada por esse quadro de decomposição pequeno-burguesa, arrivista e oportunista.

O terreno da luta eleitoral

As eleições são também um terreno de combate contra os partidos, a ordem e o Estado capitalista. É uma frente de luta na qual os revolucionários devem intervir. Eles precisam demonstrar, diante da vanguarda e das massas trabalhadoras, que não apenas ajudam a organizar greves e mobilizações e a lançar proclamações classistas e revolucionárias, mas que são capazes de enfrentar os candidatos políticos das classes dominantes. Lênin propôs, há mais de um século (em seu livro *Esquerdismo, Doença Infantil do Comunismo*), a necessidade de intervir nos processos eleitorais e nas batalhas parlamentares, utilizando o Parlamento como uma tribuna de agitação e propaganda socialista revolucionária. A incapacidade de participar das eleições para travar essa batalha indica uma fraqueza dos revolucionários, não uma virtude. Naturalmente, as correntes operárias e de esquerda não devem convocar votos para a ultradireita bolsonarista nem para a frente popular da Frente Ampla, que, de diversas formas, vêm para enfrentar a luta das massas e impor a ordem de superexploração capitalista.

Lula, o PSOL e a Frente Ampla — frente popular de colaboração de classes — justificam sua atuação de capitulação diante do grande capital e de ataques às condições de vida das massas alegando não possuírem maiorias asseguradas nas câmaras parlamentares. Convocam a enfrentar o avanço da direita votando em Lula. Justificam a paralisia da CUT e das demais organizações de massas dirigidas por burocracias governistas do PT com o argumento de não assustar o eleitorado de classe média, que poderia migrar para o bolsonarismo e a ultradireita. Convocam a esquerda a aderir a uma frente antifascista que culmine, no pleito de 4 de outubro, no voto a favor do "democrata" Lula. Com essa perspectiva, organizou-se um Fórum Antifascista em Porto Alegre, no início do ano, que pretendia unir a esquerda e os setores combativos dos movimentos de luta no apoio eleitoral a Lula (ali esteve a Revolução Socialista/LIS). Uma frente antifascista passa pela mobilização protagonista das massas na luta por suas reivindicações imediatas e históricas; para isso, deverão enfrentar o governo que defende as reformas reacionárias impostas pela ultradireita de Temer e Bolsonaro. Lula — obrigado a dar provas às classes burguesas de seu papel de contenção das lutas de massas — declarou de forma clara e sem qualquer constrangimento: "Não sou de esquerda".

Se as massas trabalhadoras se mobilizarem, elas também atrairão setores da classe média, que verão a existência de uma liderança disposta a lutar e vencer. Caso contrário, é a direita — com sua pregação de mão de ferro e ação direta — que confunde a classe média (e até mesmo setores desorganizados e atrasados ​​do movimento operário), podendo atraí-los para a extrema-direita. As organizações de massa dos trabalhadores e dos explorados devem ser mobilizadas, expulsando as burocracias corruptas que defendem a ordem burguesa.

Dos treze candidatos à presidência, quatro se declaram de esquerda revolucionária. Causa Operária (PCO), que se tornou um movimento à margem do lulismo, prospera com a corrupção estatal. Entre as três organizações que se declaram de esquerda independente e opostas à Frente Popular de Lula (UP, PCB, PSTU), o PSTU parece ser a mais proeminente nas lutas de classe e na defesa de propostas formais de independência de classe. Algumas correntes levantaram a necessidade de formar uma "Frente Eleitoral de Esquerda Anticapitalista"; isso poderia ter levado a um reagrupamento mínimo dos setores de vanguarda da luta, mas não se concretizou. Defendemos o voto no PSTU — apesar de termos divergências políticas significativas — para consolidar um voto contra a guinada à extrema-direita e contra a Frente Popular de conciliação de classes no governo. Isso se deve ao fato de que várias correntes e partidos de esquerda — alguns dos quais romperam com o PSOL em algum momento (como a CST/UIT ou o Socialismo ou Barbárie) — lançam candidatos "democráticos" nas listas do PSTU. 

É essencial travar uma batalha política contra o voto em Bolsonaro e Lula em favor de um reagrupamento de esquerda baseado na classe, e concentrar grande parte da campanha na reivindicação da revogação da lei trabalhista 6x1 e pela recuperação dos salários e ganhos perdidos, por meio de um plano de luta e da greve geral.

Diversas facções dentro do PSOL abandonaram essa frente oportunista e se juntaram à campanha para votar no PSTU (ou em um dos outros partidos). No caso da Revolução Socialista/LIS, eles finalmente convocaram um boicote ao primeiro turno das eleições de Lula, anunciando que, independentemente da situação política nacional, votarão em Lula e na Frente Ampla no segundo turno. A posição da Revolução Socialista/LIS não representa uma ruptura com posturas oportunistas e eleitoralistas, mas sim uma manobra para superar o impasse em que se encontram e permanecer dentro do PSOL.

O Movimento Revolucionário dos Trabalhadores (MRT, ligado ao PTS argentino e membro da Corrente da Revolução Permanente - Quarta Internacional) está adotando uma posição peculiar: em plena campanha eleitoral, ainda não declarou em quem votará. Atualmente, apoia uma turnê de Myriam Bregman, que apresenta seu livro, Contra a Moderação. Publicou uma carta dirigida a um setor do PT (e do PSOL) propondo a formação de uma bancada combativa no próximo Parlamento, com o objetivo de abrir um debate comum. O silêncio não é uma política de classe: o MRT deveria também convocar votos para as listas do PSTU.

Participar da campanha eleitoral no Brasil é importante para lançar as bases de uma alternativa operária, socialista e revolucionária.

quinta-feira, 23 de julho de 2026

A Internacional Revolucionária e a Reconstrução da Quarta Internacional

Extraído e traduzido do link: https://prensaobrera.com/internacionales/la-internacional-revolucionaria-y-la-reconstruccion-de-la-iv-internacional?

O Agrupamento Tribuna Classista presta todo seu modesto apoio à Conferência Internacionalista que estava previsto para ocorrer entre os dias 22 e 24/07, em Atenas, contra a guerra imperialista, como continuidade das que foram realizadas em Nápoles (2025) e em Buenos Aires (2024), na qual participamos das discussões preparatórias.

Estamos plenamente de acordo com o propósito de reagrupamento independente de todas as variáveis burguesas, imperialistas e pró-imperialistas, sejam elas da esquerda colaboracionista. aos moldes do PT e do PSOL, no Brasil,  ou da direita democrática, ou fascistizante.

Também concordamos com a caracterização de que estamos diante de um agravamento da crise mundial do capitalismo e das tendências cada vez mais notórias e iminentes de uma terceira guerra mundial.

Por isso saudamos a realização desta Conferência Internacionalista e todos os agrupamentos e partidos operários que dela estão participando.

ABAIXO AS MEDIDAS DE AUMENTO VERTIGINOSO DOS ORÇAMENTOS MILITARISTAS DOS GOVERNOS  DA GUERRA E DA FOME!

PELA CONSTRUÇÃO DE PARTIDOS OPERÁRIOS INDEPENDENTES E DE MASSAS EM CADA PAÍS!

PELA RECONSTRUÇÃO DA IV INTERNACIONAL PARA LUTAR POR GOVERNOS OPERÁRIOS EM TODO O MUNDO!

PELO SOCIALISMO!  

Partido Obrero

Texto apresentado pelo Partido Obrero da Argentina como contribuição para a Conferência de Atenas e para o debate sobre uma Internacional.


Imagen: Prensa Obrera.

A crise mundial do capitalismo entrou em uma nova fase. A guerra tornou-se a característica dominante da situação internacional; a ordem mundial surgida da Segunda Guerra Mundial está se desintegrando; a disputa entre potências se intensifica em todas as frentes; as contradições econômicas se agravam; e as massas irrompem periodicamente, mais uma vez, no cenário político. A humanidade enfrenta novamente a alternativa colocada por Rosa Luxemburgo: socialismo ou barbárie.

Há uma necessidade urgente de uma internacional operária para responder à marcha em direção à guerra e à barbárie impulsionada pelo capitalismo. Rebeliões contra a austeridade capitalista. A ameaça da extrema-direita. Tendências internacionalistas expressas no movimento pela Palestina e na rejeição ao militarismo e ao alistamento obrigatório. Nós, trabalhadores, precisamos constituir nosso próprio organismo de direção, capaz de conduzir nossas lutas à vitória — à luta por governos operários. Convocamos a vanguarda operária mundial a refundar uma internacional operária revolucionária. Por seu programa e seus métodos, essa internacional deve ser a Quarta Internacional. As condições históricas que deram origem à Quarta Internacional permanecem presentes. As premissas estratégicas de seu programa continuam plenamente atuais, pois refletem as contradições objetivas do capitalismo contemporâneo. Consequentemente, a reconstrução da Quarta Internacional não é uma questão de continuidade formal, mas uma necessidade política imposta pelo desenvolvimento da luta de classes mundial.

I. A guerra como traço dominante da situação internacional

A guerra constitui o traço dominante da atual etapa histórica. Não estamos testemunhando apenas um conjunto de conflitos regionais, mas a manifestação de uma tendência geral para um confronto cada vez mais amplo entre as principais potências capitalistas. Ucrânia, Palestina, Oriente Médio, Indo-Pacífico e África — juntamente com as guerras comerciais, tecnológicas e financeiras — fazem parte da mesma crise internacional.

A crescente militarização da economia, o rearmamento das grandes potências, a expansão de alianças militares, o aumento dos gastos com armamentos e o recurso cada vez mais frequente à guerra revelam que o capitalismo tenta resolver pela força contradições que já não consegue gerir por meios econômicos ou diplomáticos.

Não se trata de um retorno mecânico às guerras mundiais do século XX. As formas de confronto mudaram, mas o conteúdo subjacente permanece inalterado: a luta pela divisão de mercados, recursos estratégicos, esferas de influência e posições de domínio mundial. A competição econômica cede lugar, cada vez mais, ao confronto militar. A crise internacional inevitavelmente envolverá mudanças, guinadas e realinhamentos entre os principais atores; esse processo acabará por estabelecer a configuração definitiva dos blocos em disputa, em preparação para uma futura guerra mundial.

A guerra não é um acidente da política internacional nem produto de governos particularmente agressivos; é uma expressão da fase imperialista do capitalismo. Portanto, uma luta consequente contra a guerra exige combater o sistema social que a gera. Qualquer pacifismo que tente separar a luta pela paz do combate ao capitalismo acaba ou se subordinando a um dos blocos em disputa ou alimentando ilusões sobre uma solução diplomática impossível na ordem vigente.

A época atual coloca novamente a classe trabalhadora diante de desafios estratégicos. A guerra altera as condições da luta de classes, acelera a ofensiva do capital contra as massas, fortalece tendências bonapartistas e fascistas e reabre a perspectiva de grandes confrontos revolucionários. A formulação de uma política internacionalista exige que ela se baseie nessa caracterização da etapa atual.

II. A guerra expressa a crise histórica do capitalismo

A guerra é a manifestação mais aguda da crise histórica da ordem social fundada na propriedade privada dos meios de produção e na divisão do mundo em Estados-nação rivais. A tendência à guerra mundial demonstra que as contradições do capitalismo atingiram um estágio de desenvolvimento em que já não podem ser resolvidas por meios pacíficos.

As duas guerras mundiais foram precedidas por profundas crises econômicas que romperam o equilíbrio do sistema capitalista. A fase atual reproduz essa tendência sob novas formas. A restauração do capitalismo na antiga União Soviética, no Leste Europeu e na China não inaugurou um novo ciclo histórico de florescimento capitalista mundial. Pelo contrário — longe de superar suas contradições —, esse processo exacerbou as crises de superprodução, expandiu o mercado mundial sobre bases cada vez mais instáveis ​​e abriu caminho para convulsões econômicas e colapsos de magnitude ainda maior.

A crise financeira internacional de 2008 marcou um ponto de virada. Apesar da intervenção maciça de Estados e bancos centrais, o capitalismo mundial não conseguiu superar as consequências da crise. O aumento das dívidas pública e privada, a queda da produtividade, as tendências à estagnação, a proliferação de bolhas especulativas e as recorrentes convulsões financeiras demonstram que a crise permanece sem solução. Ao mesmo tempo, o imperialismo fracassou em sua tentativa de semicolonializar a antiga esfera soviética e a China — e, assim, superar sua própria crise.

A ofensiva global empreendida por Trump representa uma tentativa do imperialismo norte-americano de retomar a iniciativa e o protagonismo perdido, bem como de remodelar o planeta de acordo com suas próprias necessidades. A guerra surge como uma tentativa das potências — principalmente os EUA e as nações europeias — de alterar pela força um equilíbrio de poder que a economia já não consegue resolver.

Diante dessa realidade, inúmeras correntes de esquerda caracterizam a crise meramente como uma sucessão de desequilíbrios, desajustes ou perturbações de curto prazo no funcionamento do capitalismo. Ao fazê-lo, reduzem a crise a um fenômeno cíclico e ignoram sua natureza sistêmica. Essa interpretação conduz inevitavelmente à busca de soluções dentro do próprio capitalismo e a alimentar ilusões sobre uma eventual recuperação do sistema.

A crise atual é de outra natureza. Ela reflete o esgotamento histórico das relações sociais capitalistas e a crescente incompatibilidade entre o nível de desenvolvimento alcançado pelas forças produtivas, de um lado, e a propriedade privada dos meios de produção e a estrutura dos Estados-nação, de outro. A guerra, as crises econômicas recorrentes, o endividamento crônico, o militarismo e o ataque implacável às condições de vida das massas são todas manifestações distintas da mesma contradição histórica.

A alternativa que se coloca para a humanidade, portanto, permanece plenamente atual. A crise do capitalismo não dará origem espontaneamente a uma sociedade superior; ela pode conduzir a novas formas de barbárie ou abrir caminho para a revolução socialista. A resolução dessa contradição depende da intervenção consciente da classe trabalhadora e da construção de sua direção revolucionária. O ciclo histórico iniciado pela Revolução de Outubro permanece em curso.

III. A crise da ordem imperialista e o declínio relativo da hegemonia dos EUA

O centro de gravidade da crise capitalista mundial reside na desintegração da ordem imperialista estabelecida sob a hegemonia dos EUA ao final da Segunda Guerra Mundial. Durante décadas, essa ordem baseou-se na supremacia econômica, financeira, monetária e militar dos EUA, bem como em um conjunto de instituições internacionais concebidas para garantir a estabilidade do domínio capitalista mundial.

Esse sistema entrou em uma crise profunda. Os Estados Unidos permanecem como a principal potência imperialista; contudo, sua capacidade de organizar e estabilizar a ordem mundial está se erodindo progressivamente. O desenvolvimento desigual do capitalismo, a ascensão de novos concorrentes e o acirramento das contradições econômicas minaram os fundamentos da hegemonia norte-americana.

A crise da ordem do pós-guerra manifesta-se na deterioração das instituições que sustentaram o sistema internacional por décadas. Os desafios crescentes ao FMI, a paralisia da OMC, as tensões no seio das alianças militares ocidentais e o recurso cada vez mais frequente a sanções econômicas, guerras comerciais e coerção militar refletem a eficácia decrescente dos mecanismos tradicionais de dominação imperialista. Isso também se observa na desvalorização do dólar e em seu declínio como reserva de valor e meio de pagamento internacional, bem como na depreciação — e na perda de confiança do mercado — em relação aos títulos do Tesouro dos EUA.

A Europa representa uma das manifestações mais claras dessa crise. A estagnação econômica, a perda de competitividade, a crise energética, o aumento dos gastos militares e a crescente subordinação estratégica aos Estados Unidos revelam o declínio relativo das antigas potências europeias no sistema global.

A crise da hegemonia dos EUA intensifica a competição entre as grandes potências pelo controle de mercados, recursos estratégicos, tecnologias e esferas de influência. Assim, a desintegração da antiga ordem internacional constitui um fator determinante das tendências contemporâneas rumo à guerra.

IV. A desintegração da ordem imperialista não deu origem a um mundo multipolar

A crise da ordem imperialista não levou a um novo sistema internacional. O declínio da hegemonia dos EUA e o enfraquecimento das instituições estabelecidas após a Segunda Guerra Mundial não devem ser confundidos com a consolidação de uma ordem multipolar. A crise da velha ordem é um fato; a existência de uma ordem substituta é uma ficção.

A ascensão econômica e militar da China, o ressurgimento da Rússia como potência regional e o crescente peso internacional de outros Estados refletem mudanças significativas no equilíbrio global de poder. No entanto, nenhuma potência isolada ou coalizão de potências conseguiu estabelecer um novo equilíbrio capaz de substituir o sistema em crise. A característica definidora deste período é justamente a ausência de uma nova ordem estável.

Os BRICS refletem essa realidade. Sua trajetória corporifica as tensões no interior do sistema internacional e a aspiração de certas burguesias nacionais de assegurar uma posição mais favorável na divisão global de mercados, finanças e recursos estratégicos. Contudo, eles não constituem nem um bloco homogêneo nem uma alternativa histórica à ordem capitalista vigente. Profundas contradições políticas, econômicas e geopolíticas entre seus membros impedem que sejam caracterizados como o embrião de um novo sistema internacional.

A China desempenha um papel central nesse processo. Seu extraordinário crescimento econômico alterou profundamente a estrutura do capitalismo global. No entanto, essa ascensão não deu origem a uma ordem alternativa. A China tornou-se uma grande potência capitalista, integrada ao mercado global e envolvida em uma disputa crescente com os Estados Unidos por mercados, tecnologias, matérias-primas e esferas de influência. Essa rivalidade manifesta a crise da ordem existente, e não a sua superação.

As teorias da multipolaridade conduzem a conclusões políticas equivocadas. Elas retratam o enfraquecimento relativo dos Estados Unidos como o surgimento de uma ordem mais equilibrada ou progressista e alimentam a ilusão de que a humanidade poderia encontrar uma saída substituindo uma hegemonia por outra. Do ponto de vista do socialismo revolucionário, nenhuma potência capitalista pode oferecer uma alternativa à crise histórica do capitalismo.

A ausência de um novo equilíbrio internacional é um fator importante da instabilidade mundial. A luta para definir um novo equilíbrio de poder entre as nações alimenta tendências à guerra, ao militarismo e ao confronto generalizado. A alternativa histórica não é uma transição para um mundo multipolar, mas uma escolha entre o aprofundamento da barbárie capitalista e a luta pela reorganização socialista da sociedade mundial.

V. A guerra traça, mais uma vez, uma linha divisória no interior do marxismo internacional

As guerras imperialistas colocam à prova todos os programas e organizações políticas. Assim como ocorreu em 1914, com o colapso da Segunda Internacional, e às vésperas da Segunda Guerra Mundial, a guerra traça novamente uma linha divisória entre aqueles que subordinam os trabalhadores a um dos blocos capitalistas em confronto e aqueles que defendem uma política de independência de classe.

A guerra na Ucrânia revelou uma profunda adaptação de amplos setores da esquerda aos campos em disputa. Uma facção acabou se alinhando à OTAN e às potências ocidentais sob o pretexto de defender a democracia, os direitos humanos ou a autodeterminação nacional. Outra capitulou ao "campismo", retratando a Rússia, a China ou os BRICS como um bloco progressista ou anti-imperialista e atribuindo-lhes uma missão histórica alheia à sua verdadeira natureza de potências capitalistas.

Entre essas duas posições, proliferam formulações intermediárias; embora pareçam defender uma política independente, acabam por se adaptar a um dos campos em conflito. Isolar aspectos específicos da realidade — como o direito à autodeterminação nacional ou a resistência à agressão militar — do caráter geral da guerra e da intervenção das grandes potências leva frequentemente a conclusões políticas que favorecem um dos blocos opostos.

Surgiram também posições que defendem uma suposta "resistência ucraniana independente", sem tirar todas as conclusões decorrentes da subordinação militar, financeira e política do Estado ucraniano às potências ocidentais. Tais posições refletem a dificuldade que amplos setores da esquerda enfrentam para manter uma política de independência de classe diante de conflitos dominados pela intervenção das grandes potências.

A política do proletariado não pode derivar de simpatias nacionais ou preferências geopolíticas. Ela deve basear-se no papel dos Estados beligerantes na arena internacional, no caráter de classe da guerra e nos interesses históricos dos trabalhadores. Portanto, os socialistas revolucionários rejeitam qualquer subordinação a qualquer uma das potências capitalistas em conflito e defendem uma política internacionalista independente.

A guerra evidencia, mais uma vez, a atualidade de uma velha lição do movimento operário revolucionário: o principal inimigo dos trabalhadores está em seu próprio país. Somente com base nessa postura de princípios é possível desenvolver uma política capaz de unir trabalhadores de todos os países contra o imperialismo, a guerra e o sistema social que os gera. Em oposição à União Europeia imperialista — caracterizada pelo belicismo e pela austeridade —, de um lado, e ao chauvinismo reacionário — expresso mais claramente no Brexit —, de outro, defendemos a unidade socialista de todos os trabalhadores e povos da Europa, incluindo a Rússia.

VI. Internacionalismo proletário e derrotismo revolucionário

A postura de se distinguir das potências capitalistas em conflito encontra sua expressão positiva no internacionalismo proletário e no derrotismo revolucionário. Esses princípios não são fórmulas de propaganda nem palavras de ordem do passado. Eles constituem a única política capaz de defender os interesses históricos da classe trabalhadora em uma era de guerras, crises e revoluções.

O internacionalismo proletário fundamenta-se em uma realidade objetiva: os interesses comuns dos trabalhadores de todos os países em oposição ao capital. Enquanto as burguesias nacionais buscam mobilizar as massas em torno de seus objetivos militares e estratégicos, a tarefa dos revolucionários é fortalecer a unidade internacional da classe trabalhadora contra todos os governos capitalistas e blocos imperialistas.

O derrotismo revolucionário não implica indiferença quanto ao desfecho da guerra, nem uma atitude passiva diante dos acontecimentos. Significa rejeitar qualquer colaboração com a própria burguesia e combater a política de "unidade nacional" que inevitavelmente acompanha os conflitos militares. Nas guerras imperialistas, a defesa da democracia ou da segurança nacional serve como a linguagem ideológica pela qual as classes dominantes tentam subordinar os trabalhadores a objetivos alheios aos seus próprios interesses.

A guerra altera profundamente o cenário político e social. O aumento dos gastos militares, a inflação, a deterioração das condições de vida, a restrição das liberdades democráticas e o fortalecimento dos aparelhos repressivos geram novas contradições e alimentam a resistência das massas. A tarefa dos revolucionários é intervir nessas lutas com uma política independente, direcionando-as contra a classe capitalista e seu Estado.

O pacifismo representa uma resposta insuficiente e ilusória. A guerra não pode ser eliminada por meio de apelos diplomáticos, conferências internacionais ou acordos entre governos que representam os próprios interesses capitalistas responsáveis ​​pela sua existência. Enquanto persistirem as causas sociais subjacentes, qualquer paz será precária e apenas abrirá caminho para conflitos futuros.

A luta contra a guerra exige transformar a crise que ela provoca em uma crise do domínio burguês. A tarefa estratégica do proletariado não consiste em escolher entre potências capitalistas rivais, mas em transformar a guerra imperialista em uma guerra civil contra as suas próprias burguesias, a fim de lutar por um desfecho histórico: a conquista do poder e a reorganização socialista da sociedade.

VII. Guerras de Libertação Nacional contra o Imperialismo

A contradição fundamental da sociedade contemporânea coloca o capital contra o trabalho. No entanto, o imperialismo não elimina outras contradições históricas; pelo contrário, ele as reproduz e aprofunda. A questão nacional ocupa um lugar central entre elas. A dominação econômica, política e militar das grandes potências sobre povos e nações oprimidos permanece uma característica fundamental da ordem mundial.

Nós, socialistas revolucionários, distinguimos entre nações opressoras e nações oprimidas. Não adotamos uma postura neutra em relação a essa contradição. A luta dos povos submetidos à agressão, ocupação ou dominação imperialista possui um caráter progressista, pois enfraquece os mecanismos de opressão sobre os quais se sustenta o sistema imperialista mundial. Nós, revolucionários, distinguimo-nos por tomar partido pelo campo militar da nação oprimida que se defende contra uma potência imperialista — não apenas quando o governo oprimido é relativamente progressista, mas mesmo quando ele tem caráter repressivo ou reacionário. Sustentamos que, para ser bem-sucedida, a luta anticolonial deve estar preparada para armar a população e expropriar a burguesia, como se viu nas revoluções cubana ou chinesa.

Essa posição não implica conceder apoio político aos governos ou às lideranças burguesas das nações oprimidas. A burguesia nacional é incapaz de levar até o fim uma luta consistente contra o imperialismo, pois seus interesses materiais a vinculam à própria ordem capitalista à qual ela afirma se opor. As teses da revolução permanente permanecem como uma ferramenta válida para explicar a dinâmica da revolução contemporânea. A independência política da classe trabalhadora é uma condição indispensável para que a luta nacional seja levada às suas últimas consequências.

As agressões imperialistas das últimas décadas confirmam essa caracterização. A Palestina é o exemplo mais claro de uma nação submetida à opressão sistemática pelo Estado de Israel — um Estado apoiado política, militar e financeiramente pelas principais potências ocidentais. Defender o direito do povo palestino de resistir a essa opressão faz parte da luta mais ampla contra o imperialismo. Divergências programáticas e de perspectiva política que socialistas possam ter em relação ao Hamas e a outras organizações em Gaza não podem servir de pretexto para se omitir da luta tal como ela se desenrola no teatro de operações — como ocorreu com correntes de esquerda como o PTS, na Argentina. Defendemos o direito do povo palestino de se rebelar utilizando todos os meios ao seu alcance. A postura pacifista adotada pela esquerda nessa questão revela uma acomodação à pressão e ao bombardeio midiático exercidos pelo imperialismo e pelo sionismo.

O mesmo se aplica aos ataques e ameaças dirigidos ao Irã e a outros países submetidos a pressões militares, econômicas ou diplomáticas por parte das grandes potências. Derrotar tais agressões é do interesse dos povos oprimidos e da classe trabalhadora internacional. Nenhuma intervenção imperialista pode oferecer uma solução progressista para os problemas nacionais, democráticos ou sociais de países sob dominação imperialista.

O fato de o nacionalismo burguês assumir, por vezes, traços ideológicos reacionários, religiosos ou étnicos não altera a posição dos revolucionários na luta nacional contra o imperialismo. A análise marxista de qualquer conflito não começa pela sua roupagem ideológica ou pela retórica de seus protagonistas, mas sim pelas estruturas sociais reais em conflito e pelos interesses sociais e nacionais em jogo. Os meios de comunicação ocidentais frequentemente retratam os conflitos na África e no Oriente Médio como resultado de ódios ancestrais; no entanto, todos eles estão inevitavelmente enraizados em disputas capitalistas e ações imperialistas nessas regiões — agravadas pelo pesado legado de passados ​​coloniais relativamente recentes. O debate revolucionário e a demarcação política necessários para superar o islamismo — no terreno que este reivindicou como força de confronto contra o imperialismo — devem ser realizados demonstrando-se qual liderança é a mais eficaz na luta nacional; isso é particularmente crucial diante do recuo de um número significativo de lideranças nacionais que, outrora, se apresentavam sob as bandeiras do laicismo e da libertação nacional, mas que acabaram por se render completamente à subordinação ao imperialismo e ao sionismo.

A disputa entre socialistas e lideranças religiosas ou nacionalistas nada tem em comum com a propaganda imperialista que os retrata como "barbárie" em contraste com a "civilização" das bombas e da limpeza étnica. A natureza ideologicamente reacionária de certos setores da resistência palestina — ou de outros grupos militantes — tem sido citada por aqueles que defendem posturas pacifistas ou neutralistas em relação aos conflitos no Oriente Médio. Denunciamos isso como uma adoção da propaganda imperialista por parte de setores da esquerda. Qualquer ação militar contra o sionismo e o imperialismo é uma resposta a um processo de longa data de colonização, limpeza étnica e agressão. A islamofobia — e a propaganda dirigida contra migrantes do mundo explorado em geral — é uma marca registrada da extrema-direita, mas também aparece sob roupagens apresentadas como laicas, progressistas e até mesmo favoráveis ​​às mulheres e à comunidade LGBTQI. Assim como o movimento de massas pela Palestina tem consistentemente rebatido o *pinkwashing* empregado pelo imperialismo e pelo sionismo — as próprias forças que impulsionam o genocídio e as guerras imperialistas —, afirmamos que eles são os piores opressores da humanidade e rejeitamos suas tentativas de apelar a qualquer bandeira progressista.

A luta contra a opressão nacional e a luta pelo socialismo fazem parte do mesmo processo histórico. Somente a ação independente da classe trabalhadora, liderando todos os setores explorados e oprimidos, pode levar a luta contra o imperialismo até o fim e abrir caminho para a verdadeira emancipação nacional e social. A revolução socialista não se opõe às aspirações nacionais dos povos oprimidos; pelo contrário, constitui a única solução consistente e duradoura para elas. Essa orientação estratégica resume-se nas seguintes palavras de ordem: Imperialismo fora do Oriente Médio; pelo desmantelamento do Estado de Israel; por uma Palestina única, laica e socialista, no âmbito de uma Unidade Socialista de todos os povos do Oriente Médio.

VIII. A Luta contra a Extrema-Direita

A tendência à guerra imperialista reflete-se politicamente na proliferação de forças de extrema-direita e fascistizantes. A extrema-direita detém o poder nos Estados Unidos, em Israel, na Itália e em grande parte da América Latina. Ela tem potencial para conquistar o poder em nações importantes como Inglaterra, Alemanha e França. Essas forças — que encarnam governos que desferem uma ofensiva direta contra os trabalhadores — surgem, em parte, como resultado do fracasso da democracia capitalista e de seus partidos tradicionais em atender às aspirações mais básicas das massas. Ao mesmo tempo, elas emergem da necessidade do capital de disciplinar a "frente interna" enquanto se prepara para impulsionar o esforço de guerra imperialista. Em alguns casos, diferem dos movimentos fascistas clássicos por não dependerem de tropas de choque recrutadas na pequena burguesia. Em vez disso, buscam fragmentar a própria classe trabalhadora, utilizando o poder estatal para implementar políticas racistas, anti-imigração, sexistas, homofóbicas, antissindicais e até anticomunistas. Em outros casos, as tendências fascistas manifestam-se de forma mais nítida — como evidenciado pelas operações anti-imigração do ICE nos Estados Unidos ou pelas represálias armadas, de caráter paramilitar, realizadas por colonos sionistas na Cisjordânia.

No entanto, a ascensão da direita não exclui a possibilidade de trabalhadores e jovens irromperem no cenário político com espírito combativo. Isso é demonstrado pelo extraordinário levante de trabalhadores e camponeses na Bolívia e pela mobilização estudantil contra Kast no Chile. Nos Estados Unidos, os protestos "No Kings" levaram oito milhões de pessoas às ruas, enquanto jovens lideraram ocupações universitárias para se opor ao genocídio na Palestina. Na Itália, o proletariado entrou em ação — por meio de greves gerais e bloqueios — para paralisar a máquina de guerra, interrompendo tanto a produção quanto o envio de armamentos. Greves também foram deflagradas contra reformas trabalhistas e previdenciárias. Outras rebeliões ocorreram contra medidas de austeridade nos moldes do FMI — como no Quênia — ou contra governos progressistas ou nacionalistas que se tornaram profundamente reacionários, como na Albânia ou no Nepal.

Muitas dessas experiências revelaram não apenas o potencial de luta da classe trabalhadora, mas também a profunda crise de liderança dessa classe. Muitas dessas rebeliões resultaram em meros realinhamentos dentro do sistema político existente ou se dissiparam devido à grave falta de liderança da classe trabalhadora. Vários dos levantes associados à Geração Z levaram, inclusive, a desfechos reacionários. Por outro lado, houve mudanças significativas em direção à busca de uma solução à esquerda, geralmente canalizada por meio de variantes do progressismo ou da esquerda institucional.

A lição a ser extraída desses processos é que o ímpeto da luta deve caminhar lado a lado com a construção de uma força política revolucionária para os trabalhadores. Somente a ação independente da classe trabalhadora — atuando como liderança para todos os setores oprimidos — pode levar até o fim o combate à exploração, à opressão e a todas as formas de barbárie geradas pelo capitalismo.

Na luta contra a reação política, é essencial distinguir a estratégia de "frente popular" da tática de "frente única operária". Enquanto a primeira implica a subordinação política da classe trabalhadora ao programa, aos métodos e às instituições da classe capitalista — neutralizando, assim, a intervenção direta das massas e abrindo caminho para o triunfo eventual da reação política —, a segunda impulsiona a luta de classes; isto é, fomenta a ação direta de todas as forças operárias existentes, mantendo firmemente a independência política dos trabalhadores.

A falência do capitalismo em curso exerce um efeito corrosivo sobre os regimes políticos tradicionais: figuras externas ao establishment (*outsiders*), apoiadas por forças políticas novas ou improvisadas, governam mais de uma dúzia de países. O sistema político britânico — há muito considerado um modelo bipartidário robusto — está se fragmentando tanto à esquerda quanto à direita; os partidos Conservador e Trabalhista sofreram fracassos sucessivos, enquanto os eleitores migram para o neofascismo do Reform UK ou para uma versão do Partido Verde inclinada à esquerda. Uma dinâmica semelhante ocorre na França, com o crescimento do apoio ao *Rassemblement National* e ao *La France Insoumise*. Nos Estados Unidos, embora a estrutura bipartidária permaneça formalmente intacta, surgiram facções distintas em seu interior — desde o movimento fascistizante MAGA (liderado por Trump, que controla a máquina do Partido Republicano) até a DSA, que lidera uma ampla ala social-democrata; esta última detém mais de 200 cargos eletivos e, por meio de figuras como Mamdani, conquistou espaço na administração de Nova York — a maior cidade do país e a mais rica do mundo. Embora o reformismo da DSA opere como a ala esquerda de um partido imperialista, ele extrai força de posicionamentos militantes de esquerda, incluindo o apoio à causa palestina e a denúncia do genocídio. De modo geral, é evidente uma tendência à polarização política.

Em muitos casos, as guinadas à esquerda refletem uma tendência à radicalização entre segmentos das massas. No entanto, essa tendência deve ser distinguida da orientação democratizante das lideranças políticas que, no momento, capitalizam essas mudanças. Como socialistas revolucionários, intervimos nesses processos evitando tanto o sectarismo "puro", que nos condena à marginalidade política, quanto o oportunismo, que leva à nossa dissolução em uma vertente de esquerdismo que, em última análise, defende a ordem vigente. Em vez disso, intervimos por meio de uma luta combativa baseada em um programa político claro, promovendo um conjunto de reivindicações de transição e mantendo, com firmeza, nossa independência política.

IX. Política independente da classe trabalhadora contra todas as formas de colaboração com a burguesia

A luta contra a guerra, o imperialismo, a extrema-direita e a crise capitalista exige a mais estrita independência política da classe trabalhadora. Nenhuma variante de colaboração de classes pode oferecer uma saída progressista para as contradições da época. Subordinar os trabalhadores a setores da burguesia — seja sob roupagem radical ou reformista — acaba por reforçar o domínio do capital e desarmar politicamente as massas.

A experiência histórica do período recente confirma plenamente essa conclusão. Onde quer que amplos setores da esquerda depositassem suas esperanças em governos nacionalistas, progressistas ou reformistas, acabaram por se adaptar à gestão do Estado capitalista. A defesa do "mal menor", de frentes democráticas ou de supostas etapas intermediárias levou sistematicamente ao abandono de uma política independente da classe trabalhadora.

A América Latina oferece inúmeros exemplos dessa experiência. O chavismo na Venezuela, os governos do Partido dos Trabalhadores no Brasil, as diversas formas de peronismo na Argentina e outras expressões do nacionalismo e do progressismo latino-americanos foram apresentados como alternativas ao neoliberalismo e à dominação imperialista. No entanto, nenhum deles alterou as bases sociais do capitalismo ou resolveu os problemas fundamentais enfrentados pelas massas trabalhadoras. Pelo contrário, acabaram gerindo as contradições do sistema e transferindo os custos de suas crises para a população.

A adaptação de amplos setores da esquerda a esses governos teve consequências profundas. Em vez de desenvolverem uma alternativa política independente, atuaram como apoiadores críticos ou aliados diretos de projetos cujos horizontes permaneciam confinados aos limites do capitalismo. Essa orientação enfraqueceu a capacidade da classe trabalhadora de intervir com sua própria política e, em muitos casos, abriu caminho para o avanço subsequente de forças reacionárias e de extrema-direita.

Essa mesma lógica é evidente no apoio a coalizões democráticas, frentes amplas ou alianças eleitorais formadas em nome da defesa das instituições, do combate ao fascismo ou da preservação de conquistas parciais. A experiência mostra que a subordinação a setores da burguesia não fortalece a luta contra a reação. Pelo contrário, permite que a direita levante a cabeça e abre caminho para que ela tome o poder, levando, em última análise, a novas frustrações e derrotas para os trabalhadores.

Essa esquerda progressista está em retirada devido ao histórico desastroso dos governos progressistas latino-americanos — que se adaptaram ao Fundo Monetário Internacional e ao imperialismo norte-americano —, bem como ao do Syriza na Grécia e ao do governo PSOE-Unidos Podemos na Espanha. Milhares de pessoas voltaram-se para figuras como Mélenchon, Corbyn e Mamdani em busca de um caminho para o socialismo ou alguma forma de mudança social, apenas para encontrar decepção, desmobilização e frustração. Dezenas de milhares demonstraram o desejo de uma alternativa militante de esquerda, mas encontraram apenas máquinas eleitorais que servem para perpetuar o sistema. Há muito pouco espaço para o reformismo em uma era de desastre capitalista e guerra.

A independência de classe política não implica isolamento ou indiferença em relação aos acontecimentos concretos da luta de classes. Significa intervir ativamente nesses acontecimentos com um programa distinto, fomentar a mobilização independente dos trabalhadores e disputar a liderança política das massas com correntes reformistas, nacionalistas e burocráticas. Somente com base nisso é possível construir uma alternativa revolucionária capaz de enfrentar as tarefas impostas pela época atual.

X. A atualidade do Método do Programa de Transição

A guerra, a crise econômica e a ofensiva do capital contra as condições de vida das massas conferem uma relevância renovada ao método do Programa de Transição. A contradição fundamental da nossa época permanece sendo o hiato entre a maturidade das condições objetivas para uma reorganização socialista da sociedade e a ausência de uma direção revolucionária capaz de conduzir a classe trabalhadora à conquista do poder.

As reivindicações imediatas dos trabalhadores chocam-se cada vez mais com os limites do capitalismo. A defesa de salários, empregos, aposentadorias, saúde, educação, moradia e liberdades democráticas entra em conflito com as exigências do capital financeiro, da dívida pública, do militarismo e da preservação dos lucros capitalistas. Mesmo as reivindicações mais elementares levantam, de forma crescente, a necessidade de questionar a propriedade capitalista e o poder estatal.

As palavras de ordem de transição constituem a ponte entre as lutas imediatas e a luta pelo poder. Elas não representam nem um programa mínimo destinado a humanizar o capitalismo, nem um conjunto de reivindicações arbitrárias. Elas surgem das necessidades concretas das massas e conduzem, por meio de sua própria dinâmica interna, à colocação da necessidade de uma transformação revolucionária da sociedade.

A escala móvel de salários e de horas de trabalho, a repartição das horas de trabalho sem redução salarial para combater o desemprego, a abertura dos livros contábeis das empresas, o controle operário da produção, a nacionalização do sistema bancário e do comércio exterior sob gestão operária, a expropriação dos monopólios e o repúdio às dívidas usurárias são exemplos de reivindicações que ligam as necessidades imediatas à luta por um governo operário.

A relevância deste programa expressa-se com particular clareza em uma época de guerra e militarização. Enquanto os governos destinam recursos crescentes a armamentos e transferem o custo da crise para as massas, as reivindicações de transição possibilitam unir as lutas defensivas dos trabalhadores a uma perspectiva política geral contra o domínio do capital.

A guerra é uma expressão da barbárie capitalista, mas também um poderoso motor de crises revolucionárias. As grandes guerras do século XX foram acompanhadas por ascensões revolucionárias que alteraram o curso da história. A tarefa dos revolucionários é intervir nas lutas atuais com um programa capaz de transformar a resistência de massas em uma luta consciente pela conquista do poder e pela reorganização socialista da sociedade.

XI. As lutas no interior dos sindicatos e contra as diversas formas de opressão, e a perspectiva da revolução socialista

Na luta contra a ofensiva capitalista que domina o cenário mundial, é essencial promover uma frente única de todas as organizações de trabalhadores e preparar o terreno para uma resposta da classe trabalhadora à altura das necessidades do momento. O êxito na luta por diversas reivindicações sociais está indissociavelmente ligado à independência política dos trabalhadores. A postura de colaboração de classes, predominante entre as diversas frações da burocracia sindical — que atua como uma barragem contendo a luta dos trabalhadores —, deriva de seu papel como agentes do capital no interior das organizações operárias. Nesse contexto, a exigência de que as organizações de trabalhadores rompam com a burguesia, com o Estado e com os partidos patronais assume uma relevância urgente. A luta pela independência política das organizações de trabalhadores é, sobretudo, um método para acelerar o processo de separação da base trabalhadora de suas direções burocráticas — e da política de conciliação e entrelaçamento destas com o Estado capitalista e seus partidos — e para estabelecer, no movimento operário, uma direção pautada na luta de classes, capaz de abrir uma nova perspectiva sindical e política.

Para tanto, é necessário promover frentes únicas antiburocráticas em todos os sindicatos, centros acadêmicos e federações estudantis. O objetivo é desalojar as burocracias sindicais e estudantis e recuperar essas organizações, transformando-as em instrumentos de luta de classes para os trabalhadores e a juventude; ao fazê-lo, elas fortalecerão a causa da emancipação nacional e social em cada país e em escala mundial.

Nós, socialistas revolucionários, estamos comprometidos em organizar os setores mais fragilizados da classe trabalhadora — incluindo desempregados, subempregados e trabalhadores em condições precárias, bem como trabalhadores migrantes. A estigmatização, a perseguição e a hostilização vingativa desses setores por governos burgueses em todo o mundo são práticas comuns. O objetivo fundamental desses ataques tem sido neutralizar o potencial de luta inerente a esses setores quando eles se mobilizam. O movimento *piquetero* na Argentina é um testemunho desse potencial. A recusa de forças de esquerda — como o PTS na Argentina — em assumir a tarefa de organizar e mobilizar as camadas mais marginalizadas da classe trabalhadora argentina representa uma postura conservadora. Só se pode afirmar que existe um verdadeiro avanço na consciência de classe quando a vanguarda operária defende incondicionalmente qualquer estrato da classe trabalhadora — independentemente de origem, nacionalidade ou status — contra os abusos do Estado capitalista.

A crise do capitalismo manifesta-se não apenas na exploração econômica da classe trabalhadora, mas também no aprofundamento de várias formas de opressão que afetam amplos setores da população. A degradação ambiental, a opressão das mulheres, a discriminação baseada na diversidade sexual, o racismo, a perseguição a imigrantes e a negação de direitos democráticos básicos fazem parte das contradições intoleráveis ​​que se acumulam na sociedade contemporânea.

Os revolucionários intervêm ativamente nessas lutas porque toda forma de opressão reforça a dominação do capital e fragmenta a resistência dos explorados. Defender reivindicações democráticas, ambientais, culturais e sociais é parte integrante da luta mais ampla contra a ordem vigente.

Ao mesmo tempo, rejeitamos visões que retratam essas lutas como processos autônomos ou desconectados da estrutura social capitalista. Embora formas distintas de opressão tenham suas próprias dinâmicas específicas, elas encontram no capitalismo um poderoso mecanismo de reprodução e intensificação. A destruição ambiental, a mercantilização da vida social e o uso sistemático do preconceito e da discriminação atendem às necessidades profundas do regime de exploração dominante.

Por essa razão, os revolucionários opõem-se tanto à subordinação dessas lutas a partidos pró-empresariais quanto às perspectivas identitárias que as dissociam da luta de classes. A verdadeira emancipação dos grupos oprimidos exige enfrentar as raízes sociais que alimentam essas formas de opressão, em vez de apenas abordar suas manifestações mais visíveis.

A tarefa consiste em promover a unidade da classe trabalhadora com todos os setores explorados e oprimidos, com base em um programa comum de transformação social. Longe de se opor a essas lutas, a perspectiva socialista oferece a elas um caminho consistente a seguir, ao vincular suas reivindicações imediatas à luta contra o poder econômico e político do capital.

XII. Contra o oportunismo, o sectarismo e o propagandismo. A luta para conquistar as massas

A crise histórica do capitalismo coloca a necessidade de uma direção revolucionária capaz de conduzir a classe trabalhadora à conquista do poder. Essa tarefa exige combater simultaneamente dois desvios que, de formas opostas, afastam o movimento operário desse objetivo: o oportunismo e o sectarismo.

O oportunismo adapta o programa socialista às exigências da democracia burguesa, de governos reformistas ou de burocracias sindicais. Em nome do realismo político, do acúmulo gradual de forças ou da defesa do "mal menor", acaba subordinando a independência de classe aos interesses da burguesia. Sua consequência inevitável é a desmobilização dos trabalhadores e o abandono da luta pelo poder.

O sectarismo representa o desvio oposto. Confunde a defesa de princípios com o isolamento político, substitui a intervenção no movimento real das massas por propaganda abstrata e renuncia à disputa pela direção entre os trabalhadores nos próprios espaços onde eles adquirem experiência política. Um programa correto perde todo o valor se não encontrar meios de se transformar em uma força material.

A luta para conquistar as massas exige intervir em todos os espaços onde trabalhadores e jovens atuam. Os revolucionários participam dos sindicatos para enfrentar a burocracia e recuperar as organizações operárias; intervêm nas eleições para utilizar a tribuna parlamentar a serviço da luta de classes; e participam de conselhos estudantis, organizações de base e movimentos de massa para disputar a direção contra correntes reformistas e conciliadoras.

Essa intervenção não implica adaptar o programa às instituições do regime nem alimentar ilusões a respeito delas. A atividade parlamentar, sindical ou eleitoral subordina-se a uma estratégia revolucionária baseada na mobilização independente das massas, na ação direta e na organização a partir da base. Os revolucionários utilizam todas as tribunas disponíveis para desenvolver a consciência política da classe trabalhadora e fortalecer sua organização. A luta contra o oportunismo, o sectarismo e o propagandismo reflete uma única necessidade estratégica: unir a defesa intransigente do programa socialista à intervenção ativa na experiência real das massas. Somente nessa base é possível construir uma direção revolucionária capaz de transformar as crises do capitalismo em vitórias para a revolução socialista.

XIII. A Relevância da Luta pela Ditadura do Proletariado

A luta pelo poder coloca inevitavelmente a questão do Estado. A revolução socialista não consiste em capturar gradualmente as instituições da democracia burguesa ou em utilizar o aparelho estatal existente para fins diferentes. Ela implica a destruição do Estado burguês — sua burocracia permanente, forças armadas, aparelhos repressivos e todo o sistema de dominação de classe — e sua substituição por um novo Estado baseado na organização política direta dos trabalhadores.

Marx denominou essa forma de Estado de ditadura do proletariado. Longe de representar um regime arbitrário ou despótico, ela constitui o domínio político da vasta maioria explorada sobre a minoria capitalista expropriada. Sua tarefa é quebrar a resistência das classes desalojadas do poder, derrotar as tentativas de restauração capitalista, enfrentar a intervenção contrarrevolucionária internacional e reorganizar a economia sobre novas bases sociais. Nesse sentido, ela constitui uma forma de democracia infinitamente superior à democracia burguesa, pois coloca o poder político e econômico nas mãos daqueles que produzem a riqueza social.

Os órgãos desse novo poder emergem da auto-organização das massas em luta: sovietes, conselhos de trabalhadores, comitês de fábrica, organismos territoriais e outras formas de representação direta dos trabalhadores. No entanto, os revolucionários não fetichizam essas formas organizativas. A experiência histórica demonstra que os organismos de democracia operária não possuem um conteúdo político predeterminado. Sua orientação depende da luta entre programas, tendências e partidos que se desenrola em seu interior. A questão decisiva permanece sendo a direção política da revolução.

Por essa razão, a ditadura do proletariado pressupõe a luta pela hegemonia política do partido revolucionário no seio da classe trabalhadora e de seus órgãos de poder. Longe de ser incompatível com a democracia operária, o papel dirigente do partido revolucionário é uma condição indispensável para que os órgãos de poder de massa desenvolvam uma estratégia consistente de transformação social e resistam às pressões da burguesia nacional e internacional. Sem uma direção revolucionária, mesmo os órgãos mais avançados de democracia operária podem ser desviados, paralisados ​​ou derrotados.

A palavra de ordem de um governo operário constitui uma expressão popular da ditadura do proletariado. Os socialistas revolucionários não equiparam essa palavra de ordem a governos operários que administram o Estado burguês, nem a coalizões parlamentares baseadas nas instituições existentes. Um governo operário genuíno só pode se apoiar na mobilização revolucionária das massas e nos órgãos de poder que emergem de sua própria luta.

Os revolucionários não descartam a possibilidade de que, em circunstâncias excepcionais, organizações reformistas, centristas ou burocráticas — impulsionadas por uma profunda crise revolucionária e pela pressão das massas — possam ser compelidas a romper parcialmente com a burguesia e assumir o poder. É precisamente por essa razão que levantamos a palavra de ordem de um governo operário. Diante de tal desenvolvimento, os revolucionários apoiariam cada passo efetivo rumo a uma ruptura com a burguesia e cada medida dirigida contra o capital, impulsionando esse processo até suas últimas consequências. No entanto, manteriam sua completa independência política e organizacional, não integrando tais governos nem assumindo a responsabilidade por uma direção cuja estratégia não vise conscientemente à ditadura do proletariado. A experiência histórica confirma que apenas um partido revolucionário, armado com um programa socialista e uma estratégia internacionalista, pode levar a revolução até o fim e transformar um governo operário em um instrumento efetivo da ditadura do proletariado.

Abandonar essa perspectiva é uma característica definidora da esquerda "democratizante" contemporânea. Sob várias roupagens — democracia radical, expansão democrática, democracia participativa, processos constituintes ou repúblicas sociais —, a luta pela destruição do Estado burguês e pela ditadura do proletariado é abandonada. A questão decisiva do poder é substituída por projetos que visam reformar e aperfeiçoar a democracia existente. Consequentemente, a defesa da ditadura do proletariado permanece como a principal linha divisória entre a revolução socialista e todas as variantes de adaptação à ordem burguesa.

Em última análise, o internacionalismo proletário encontra sua expressão mais elevada na luta pela ditadura do proletariado em cada país e pela revolução socialista mundial. A classe trabalhadora não pode abolir definitivamente a guerra, a exploração e a opressão apenas resistindo aos ataques do capital ou combatendo políticas governamentais específicas. Ela deve tomar o poder, destruir o Estado burguês e abrir caminho para uma reorganização socialista da sociedade. Esse é o conteúdo estratégico do internacionalismo revolucionário e a conclusão política fundamental extraída de toda a experiência histórica do movimento operário.

XIV. A construção de partidos revolucionários e o centralismo democrático

A luta da classe trabalhadora pelo poder exige a construção de partidos revolucionários. A crise do capitalismo, as convulsões sociais e as tendências revolucionárias que emergem periodicamente da luta de classes não eliminam a necessidade de uma direção política consciente. A experiência histórica demonstra que a contradição principal da nossa época reside na defasagem entre a maturidade das condições objetivas para a revolução socialista e o atraso de sua direção política.

A crise de direção da classe trabalhadora, tal como formulada por Leon Trotsky no *Programa de Transição* da Quarta Internacional, permanece válida em linhas gerais, embora hoje adquira um conteúdo histórico distinto. Essa crise de direção não se limita à questão da orientação no interior das organizações operárias de massa — grupos que, subjetivamente, reivindicam-se revolucionários, mas cujas direções adotam uma linha reformista. A burguesia explora ideologicamente o período de mais de quatro décadas — marcado por inúmeros levantes, porém sem revoluções bem-sucedidas — para incutir a ideia de um capitalismo invencível. O desaparecimento ou a perda de influência dos partidos operários reformistas de massa apresenta um quadro contraditório. Por um lado, eles perderam sua força como mecanismos de contenção, deixando o caminho aberto para explosões de descontentamento potencialmente mais virulentas. Por outro, isso reflete um impasse político para a classe como um todo, incluindo a possibilidade de que segmentos da classe trabalhadora migrem em massa para facções de direita. A maioria da classe trabalhadora está politicamente desorganizada e sofreu até mesmo um retrocesso em termos de organização sindical. As próprias condições de trabalho tornaram-se profundamente fragmentadas; além disso, a adoção generalizada do trabalho remoto introduziu uma nova variável na competição internacional por mão de obra, exercendo pressão para baixo sobre os salários. A imensa pressão que a crise exerce sobre a classe trabalhadora pode ser avassaladora e desorganizadora, mas também desencadeia explosões regulares e violentas de luta contra o Estado e os regimes políticos — uma violência impulsionada justamente pela ausência de mecanismos de contenção eficazes e dotados de autoridade. Hoje, a esquerda que se autodenomina revolucionária não se apresenta como uma alternativa organizada às direções reformistas de massa; em vez disso, existe como uma constelação de organizações pequenas e fragmentadas, com pouca capacidade de convergência em torno de um movimento comum. Há poucos exemplos de síntese ou unificação, e muitos mais casos de ruptura e cisão em resposta a cada reviravolta inesperada no cenário político. No entanto, um grande número de militantes e organizações é capaz de mobilizar lutas e inserir-se em frentes de massa. Quando uma luta consegue transcender seu escopo inicial — como a luta contra o genocídio na Palestina —, vastos recursos de organização e ação internacional são acionados e revelados. Nesse contexto, o desafio que se coloca para a vanguarda operária é como conferir a esse potencial uma expressão política e uma perspectiva revolucionária.

Esse caminho não pode ser trilhado por organizações criadas exclusivamente para a atuação eleitoral, por movimentos baseados em opiniões ou por estruturas permanentes que combinam programas e estratégias incompatíveis. Tampouco pode ser liderado por organizações sindicalistas-revolucionárias — por mais coerentes que sejam nas lutas sindicais — se falharem em intervir na luta política nacional e internacional contra as expressões políticas da burguesia e de seu Estado, sob a perspectiva da conquista do poder. A conquista do poder envolve tarefas que exigem coesão política, continuidade estratégica, disciplina, formação de quadros e atuação unificada na luta de classes.

O partido revolucionário constitui a organização por meio da qual a experiência histórica do movimento operário, a teoria marxista e a prática cotidiana da luta de classes se transformam em uma força política organizada. Sua função é lutar para conquistar a maioria da classe trabalhadora para uma estratégia de poder e preparar as condições para a vitória da revolução socialista.

Essa concepção é incompatível com as teorias dos chamados "partidos amplos", "movimentos pluralistas" ou "partidos de tendências permanentes", que buscam substituir a unidade programática por acordos conjunturais entre correntes com objetivos divergentes. A experiência internacional demonstra que tais construções acabam se adaptando às pressões do parlamentarismo, do eleitoralismo ou de diversas formas de reformismo.

O centralismo democrático constitui o princípio organizativo de um partido revolucionário. A mais ampla discussão política e a formulação coletiva devem combinar-se com uma ação disciplinada e unificada. A classe trabalhadora enfrenta uma classe dominante altamente concentrada, munida do aparelho estatal, de enormes recursos econômicos e de poderosos instrumentos de dominação ideológica. Apenas uma organização politicamente coesa pode liderar essa luta de forma eficaz.

Nós, revolucionários, podemos até intervir episodicamente em processos de organização de partidos de massa da classe trabalhadora que careçam de um caráter plenamente revolucionário, mas que sinalizem um passo progressivo rumo a uma política de independência de classe — desde que promovamos o esclarecimento estratégico e programático em seu interior. Esses processos refletem uma guinada à esquerda entre contingentes significativos da classe trabalhadora; eles merecem não apenas nossa atenção, mas também nosso incentivo, na medida em que sua formação representa um avanço na organização política dos trabalhadores enquanto classe. No entanto, a adoção de tais táticas de transição exige uma atuação política clara e o enfrentamento aberto a lideranças reformistas ou centristas. Os inúmeros esquerdistas que se posicionaram como conselheiros de líderes reformistas ou nacionalistas — de Hugo Chávez a Bernie Sanders ou Jeremy Corbyn — pouco ou nada fizeram para promover a causa de um reagrupamento independente e de massa da classe trabalhadora.

A construção de partidos revolucionários não é uma tarefa organizacional dissociada do programa. É o meio concreto pelo qual a classe trabalhadora pode se dotar de uma direção capaz de intervir em crises revolucionárias e disputar o poder com a burguesia. Sem partidos revolucionários enraizados na classe trabalhadora, a crise do capitalismo continuará a esbarrar na ausência de uma direção capaz de conduzi-la a um desfecho socialista.

XV. A Relevância da Quarta Internacional e a Luta por Sua Reconstrução

As teses desenvolvidas acima conduzem a uma conclusão estratégica fundamental. A guerra como traço dominante da época; a crise histórica do capitalismo; a desintegração da ordem imperialista surgida após a Segunda Guerra Mundial; a ausência de uma nova ordem mundial para substituí-la; a validade contínua da luta estratégica pela ditadura do proletariado; a defesa do internacionalismo proletário por meio do derrotismo revolucionário; a luta contra guerras reacionárias entre potências; a defesa das nações oprimidas contra o imperialismo; a necessidade da independência política de classe; a relevância contínua do método do Programa de Transição; a luta contra todas as formas de opressão a partir de uma perspectiva socialista; e a construção de partidos revolucionários — tudo isso constitui os fundamentos programáticos de uma Internacional Revolucionária.

Essas premissas estão sintetizadas no programa, na estratégia e nos métodos da Quarta Internacional, fundada em 1938. Sua validade não deriva da autoridade de seus fundadores nem de uma postura dogmática. Ela decorre do fato de que as contradições que determinaram o seu nascimento permanecem não resolvidas e se intensificaram, atingindo um patamar superior. A época continua sendo a do imperialismo, das guerras e das revoluções. A crise da direção revolucionária no seio do proletariado permanece como o principal obstáculo que impede a crise do capitalismo de culminar em sua superação revolucionária.

Os desdobramentos globais posteriores à restauração do capitalismo confirmaram essa caracterização. Longe de inaugurar uma era de prosperidade e estabilidade duradouras, o capitalismo global entrou em um período de crises recorrentes, guerras, militarização e convulsões sociais. A crise financeira de 2008, o agravamento das rivalidades entre potências e a crescente tendência à guerra demonstraram que nenhuma das contradições fundamentais do sistema foi resolvida.

A falência de inúmeras correntes que se reivindicam trotskistas não invalida essas conclusões. Assim como o marxismo não pode ser julgado pelas capitulações da social-democracia ou do stalinismo, a relevância contínua da Quarta Internacional não pode ser medida pela trajetória de organizações que abandonaram seu programa ou adaptaram suas políticas às pressões da ordem vigente. Não confundimos o destino de organizações específicas com a validade histórica das premissas programáticas que lhes deram origem.

A reconstrução da Quarta Internacional não significa a reunificação de grupos dispersos ou a proclamação formal de uma continuidade organizacional. Significa o reagrupamento da vanguarda revolucionária internacional com base em um programa, uma estratégia e métodos capazes de enfrentar as tarefas impostas pela época. A natureza mundial da economia, da guerra e da luta de classes exige uma direção internacional capaz de intervir de forma unificada nos grandes acontecimentos do nosso tempo.

A construção de partidos revolucionários em cada país e a reconstrução da Quarta Internacional são aspectos indissociáveis ​​da mesma tarefa histórica. A revolução socialista se desenvolverá inevitavelmente em âmbito nacional, mas só poderá triunfar de maneira decisiva como uma revolução internacional. A luta por uma Internacional Revolucionária não é, portanto, nem uma aspiração doutrinária nem um mero slogan de propaganda. É uma necessidade objetiva imposta pela natureza global das contradições inerentes ao capitalismo contemporâneo.

A atualidade da Quarta Internacional reside na persistente relevância das tarefas históricas que lhe deram origem, bem como na validade de seus fundamentos programáticos e estratégicos. Enquanto a humanidade enfrentar a escolha entre socialismo e barbárie; enquanto o imperialismo continuar a gerar guerra, exploração e opressão; e enquanto a classe trabalhadora necessitar de uma direção capaz de conduzir sua luta à conquista do poder, a reconstrução da Quarta Internacional permanecerá como uma tarefa estratégica para os revolucionários de todo o mundo.