quinta-feira, 23 de julho de 2026

A Internacional Revolucionária e a Reconstrução da Quarta Internacional

Extraído e traduzido do link: https://prensaobrera.com/internacionales/la-internacional-revolucionaria-y-la-reconstruccion-de-la-iv-internacional?

O Agrupamento Tribuna Classista presta todo seu modesto apoio à Conferência Internacionalista que estava previsto para ocorrer entre os dias 22 e 24/07, em Atenas, contra a guerra imperialista, como continuidade das que foram realizadas em Nápoles (2025) e em Buenos Aires (2024), na qual participamos das discussões preparatórias.

Estamos plenamente de acordo com o propósito de reagrupamento independente de todas as variáveis burguesas, imperialistas e pró-imperialistas, sejam elas da esquerda colaboracionista. aos moldes do PT e do PSOL, no Brasil,  ou da direita democrática, ou fascistizante.

Também concordamos com a caracterização de que estamos diante de um agravamento da crise mundial do capitalismo e das tendências cada vez mais notórias e iminentes de uma terceira guerra mundial.

Por isso saudamos a realização desta Conferência Internacionalista e todos os agrupamentos e partidos operários que dela estão participando.

ABAIXO AS MEDIDAS DE AUMENTO VERTIGINOSO DOS ORÇAMENTOS MILITARISTAS DOS GOVERNOS  DA GUERRA E DA FOME!

PELA CONSTRUÇÃO DE PARTIDOS OPERÁRIOS INDEPENDENTES E DE MASSAS EM CADA PAÍS!

PELA RECONSTRUÇÃO DA IV INTERNACIONAL PARA LUTAR POR GOVERNOS OPERÁRIOS EM TODO O MUNDO!

PELO SOCIALISMO!  

Partido Obrero

Texto apresentado pelo Partido Obrero da Argentina como contribuição para a Conferência de Atenas e para o debate sobre uma Internacional.


Imagen: Prensa Obrera.

A crise mundial do capitalismo entrou em uma nova fase. A guerra tornou-se a característica dominante da situação internacional; a ordem mundial surgida da Segunda Guerra Mundial está se desintegrando; a disputa entre potências se intensifica em todas as frentes; as contradições econômicas se agravam; e as massas irrompem periodicamente, mais uma vez, no cenário político. A humanidade enfrenta novamente a alternativa colocada por Rosa Luxemburgo: socialismo ou barbárie.

Há uma necessidade urgente de uma internacional operária para responder à marcha em direção à guerra e à barbárie impulsionada pelo capitalismo. Rebeliões contra a austeridade capitalista. A ameaça da extrema-direita. Tendências internacionalistas expressas no movimento pela Palestina e na rejeição ao militarismo e ao alistamento obrigatório. Nós, trabalhadores, precisamos constituir nosso próprio organismo de direção, capaz de conduzir nossas lutas à vitória — à luta por governos operários. Convocamos a vanguarda operária mundial a refundar uma internacional operária revolucionária. Por seu programa e seus métodos, essa internacional deve ser a Quarta Internacional. As condições históricas que deram origem à Quarta Internacional permanecem presentes. As premissas estratégicas de seu programa continuam plenamente atuais, pois refletem as contradições objetivas do capitalismo contemporâneo. Consequentemente, a reconstrução da Quarta Internacional não é uma questão de continuidade formal, mas uma necessidade política imposta pelo desenvolvimento da luta de classes mundial.

I. A guerra como traço dominante da situação internacional

A guerra constitui o traço dominante da atual etapa histórica. Não estamos testemunhando apenas um conjunto de conflitos regionais, mas a manifestação de uma tendência geral para um confronto cada vez mais amplo entre as principais potências capitalistas. Ucrânia, Palestina, Oriente Médio, Indo-Pacífico e África — juntamente com as guerras comerciais, tecnológicas e financeiras — fazem parte da mesma crise internacional.

A crescente militarização da economia, o rearmamento das grandes potências, a expansão de alianças militares, o aumento dos gastos com armamentos e o recurso cada vez mais frequente à guerra revelam que o capitalismo tenta resolver pela força contradições que já não consegue gerir por meios econômicos ou diplomáticos.

Não se trata de um retorno mecânico às guerras mundiais do século XX. As formas de confronto mudaram, mas o conteúdo subjacente permanece inalterado: a luta pela divisão de mercados, recursos estratégicos, esferas de influência e posições de domínio mundial. A competição econômica cede lugar, cada vez mais, ao confronto militar. A crise internacional inevitavelmente envolverá mudanças, guinadas e realinhamentos entre os principais atores; esse processo acabará por estabelecer a configuração definitiva dos blocos em disputa, em preparação para uma futura guerra mundial.

A guerra não é um acidente da política internacional nem produto de governos particularmente agressivos; é uma expressão da fase imperialista do capitalismo. Portanto, uma luta consequente contra a guerra exige combater o sistema social que a gera. Qualquer pacifismo que tente separar a luta pela paz do combate ao capitalismo acaba ou se subordinando a um dos blocos em disputa ou alimentando ilusões sobre uma solução diplomática impossível na ordem vigente.

A época atual coloca novamente a classe trabalhadora diante de desafios estratégicos. A guerra altera as condições da luta de classes, acelera a ofensiva do capital contra as massas, fortalece tendências bonapartistas e fascistas e reabre a perspectiva de grandes confrontos revolucionários. A formulação de uma política internacionalista exige que ela se baseie nessa caracterização da etapa atual.

II. A guerra expressa a crise histórica do capitalismo

A guerra é a manifestação mais aguda da crise histórica da ordem social fundada na propriedade privada dos meios de produção e na divisão do mundo em Estados-nação rivais. A tendência à guerra mundial demonstra que as contradições do capitalismo atingiram um estágio de desenvolvimento em que já não podem ser resolvidas por meios pacíficos.

As duas guerras mundiais foram precedidas por profundas crises econômicas que romperam o equilíbrio do sistema capitalista. A fase atual reproduz essa tendência sob novas formas. A restauração do capitalismo na antiga União Soviética, no Leste Europeu e na China não inaugurou um novo ciclo histórico de florescimento capitalista mundial. Pelo contrário — longe de superar suas contradições —, esse processo exacerbou as crises de superprodução, expandiu o mercado mundial sobre bases cada vez mais instáveis ​​e abriu caminho para convulsões econômicas e colapsos de magnitude ainda maior.

A crise financeira internacional de 2008 marcou um ponto de virada. Apesar da intervenção maciça de Estados e bancos centrais, o capitalismo mundial não conseguiu superar as consequências da crise. O aumento das dívidas pública e privada, a queda da produtividade, as tendências à estagnação, a proliferação de bolhas especulativas e as recorrentes convulsões financeiras demonstram que a crise permanece sem solução. Ao mesmo tempo, o imperialismo fracassou em sua tentativa de semicolonializar a antiga esfera soviética e a China — e, assim, superar sua própria crise.

A ofensiva global empreendida por Trump representa uma tentativa do imperialismo norte-americano de retomar a iniciativa e o protagonismo perdido, bem como de remodelar o planeta de acordo com suas próprias necessidades. A guerra surge como uma tentativa das potências — principalmente os EUA e as nações europeias — de alterar pela força um equilíbrio de poder que a economia já não consegue resolver.

Diante dessa realidade, inúmeras correntes de esquerda caracterizam a crise meramente como uma sucessão de desequilíbrios, desajustes ou perturbações de curto prazo no funcionamento do capitalismo. Ao fazê-lo, reduzem a crise a um fenômeno cíclico e ignoram sua natureza sistêmica. Essa interpretação conduz inevitavelmente à busca de soluções dentro do próprio capitalismo e a alimentar ilusões sobre uma eventual recuperação do sistema.

A crise atual é de outra natureza. Ela reflete o esgotamento histórico das relações sociais capitalistas e a crescente incompatibilidade entre o nível de desenvolvimento alcançado pelas forças produtivas, de um lado, e a propriedade privada dos meios de produção e a estrutura dos Estados-nação, de outro. A guerra, as crises econômicas recorrentes, o endividamento crônico, o militarismo e o ataque implacável às condições de vida das massas são todas manifestações distintas da mesma contradição histórica.

A alternativa que se coloca para a humanidade, portanto, permanece plenamente atual. A crise do capitalismo não dará origem espontaneamente a uma sociedade superior; ela pode conduzir a novas formas de barbárie ou abrir caminho para a revolução socialista. A resolução dessa contradição depende da intervenção consciente da classe trabalhadora e da construção de sua direção revolucionária. O ciclo histórico iniciado pela Revolução de Outubro permanece em curso.

III. A crise da ordem imperialista e o declínio relativo da hegemonia dos EUA

O centro de gravidade da crise capitalista mundial reside na desintegração da ordem imperialista estabelecida sob a hegemonia dos EUA ao final da Segunda Guerra Mundial. Durante décadas, essa ordem baseou-se na supremacia econômica, financeira, monetária e militar dos EUA, bem como em um conjunto de instituições internacionais concebidas para garantir a estabilidade do domínio capitalista mundial.

Esse sistema entrou em uma crise profunda. Os Estados Unidos permanecem como a principal potência imperialista; contudo, sua capacidade de organizar e estabilizar a ordem mundial está se erodindo progressivamente. O desenvolvimento desigual do capitalismo, a ascensão de novos concorrentes e o acirramento das contradições econômicas minaram os fundamentos da hegemonia norte-americana.

A crise da ordem do pós-guerra manifesta-se na deterioração das instituições que sustentaram o sistema internacional por décadas. Os desafios crescentes ao FMI, a paralisia da OMC, as tensões no seio das alianças militares ocidentais e o recurso cada vez mais frequente a sanções econômicas, guerras comerciais e coerção militar refletem a eficácia decrescente dos mecanismos tradicionais de dominação imperialista. Isso também se observa na desvalorização do dólar e em seu declínio como reserva de valor e meio de pagamento internacional, bem como na depreciação — e na perda de confiança do mercado — em relação aos títulos do Tesouro dos EUA.

A Europa representa uma das manifestações mais claras dessa crise. A estagnação econômica, a perda de competitividade, a crise energética, o aumento dos gastos militares e a crescente subordinação estratégica aos Estados Unidos revelam o declínio relativo das antigas potências europeias no sistema global.

A crise da hegemonia dos EUA intensifica a competição entre as grandes potências pelo controle de mercados, recursos estratégicos, tecnologias e esferas de influência. Assim, a desintegração da antiga ordem internacional constitui um fator determinante das tendências contemporâneas rumo à guerra.

IV. A desintegração da ordem imperialista não deu origem a um mundo multipolar

A crise da ordem imperialista não levou a um novo sistema internacional. O declínio da hegemonia dos EUA e o enfraquecimento das instituições estabelecidas após a Segunda Guerra Mundial não devem ser confundidos com a consolidação de uma ordem multipolar. A crise da velha ordem é um fato; a existência de uma ordem substituta é uma ficção.

A ascensão econômica e militar da China, o ressurgimento da Rússia como potência regional e o crescente peso internacional de outros Estados refletem mudanças significativas no equilíbrio global de poder. No entanto, nenhuma potência isolada ou coalizão de potências conseguiu estabelecer um novo equilíbrio capaz de substituir o sistema em crise. A característica definidora deste período é justamente a ausência de uma nova ordem estável.

Os BRICS refletem essa realidade. Sua trajetória corporifica as tensões no interior do sistema internacional e a aspiração de certas burguesias nacionais de assegurar uma posição mais favorável na divisão global de mercados, finanças e recursos estratégicos. Contudo, eles não constituem nem um bloco homogêneo nem uma alternativa histórica à ordem capitalista vigente. Profundas contradições políticas, econômicas e geopolíticas entre seus membros impedem que sejam caracterizados como o embrião de um novo sistema internacional.

A China desempenha um papel central nesse processo. Seu extraordinário crescimento econômico alterou profundamente a estrutura do capitalismo global. No entanto, essa ascensão não deu origem a uma ordem alternativa. A China tornou-se uma grande potência capitalista, integrada ao mercado global e envolvida em uma disputa crescente com os Estados Unidos por mercados, tecnologias, matérias-primas e esferas de influência. Essa rivalidade manifesta a crise da ordem existente, e não a sua superação.

As teorias da multipolaridade conduzem a conclusões políticas equivocadas. Elas retratam o enfraquecimento relativo dos Estados Unidos como o surgimento de uma ordem mais equilibrada ou progressista e alimentam a ilusão de que a humanidade poderia encontrar uma saída substituindo uma hegemonia por outra. Do ponto de vista do socialismo revolucionário, nenhuma potência capitalista pode oferecer uma alternativa à crise histórica do capitalismo.

A ausência de um novo equilíbrio internacional é um fator importante da instabilidade mundial. A luta para definir um novo equilíbrio de poder entre as nações alimenta tendências à guerra, ao militarismo e ao confronto generalizado. A alternativa histórica não é uma transição para um mundo multipolar, mas uma escolha entre o aprofundamento da barbárie capitalista e a luta pela reorganização socialista da sociedade mundial.

V. A guerra traça, mais uma vez, uma linha divisória no interior do marxismo internacional

As guerras imperialistas colocam à prova todos os programas e organizações políticas. Assim como ocorreu em 1914, com o colapso da Segunda Internacional, e às vésperas da Segunda Guerra Mundial, a guerra traça novamente uma linha divisória entre aqueles que subordinam os trabalhadores a um dos blocos capitalistas em confronto e aqueles que defendem uma política de independência de classe.

A guerra na Ucrânia revelou uma profunda adaptação de amplos setores da esquerda aos campos em disputa. Uma facção acabou se alinhando à OTAN e às potências ocidentais sob o pretexto de defender a democracia, os direitos humanos ou a autodeterminação nacional. Outra capitulou ao "campismo", retratando a Rússia, a China ou os BRICS como um bloco progressista ou anti-imperialista e atribuindo-lhes uma missão histórica alheia à sua verdadeira natureza de potências capitalistas.

Entre essas duas posições, proliferam formulações intermediárias; embora pareçam defender uma política independente, acabam por se adaptar a um dos campos em conflito. Isolar aspectos específicos da realidade — como o direito à autodeterminação nacional ou a resistência à agressão militar — do caráter geral da guerra e da intervenção das grandes potências leva frequentemente a conclusões políticas que favorecem um dos blocos opostos.

Surgiram também posições que defendem uma suposta "resistência ucraniana independente", sem tirar todas as conclusões decorrentes da subordinação militar, financeira e política do Estado ucraniano às potências ocidentais. Tais posições refletem a dificuldade que amplos setores da esquerda enfrentam para manter uma política de independência de classe diante de conflitos dominados pela intervenção das grandes potências.

A política do proletariado não pode derivar de simpatias nacionais ou preferências geopolíticas. Ela deve basear-se no papel dos Estados beligerantes na arena internacional, no caráter de classe da guerra e nos interesses históricos dos trabalhadores. Portanto, os socialistas revolucionários rejeitam qualquer subordinação a qualquer uma das potências capitalistas em conflito e defendem uma política internacionalista independente.

A guerra evidencia, mais uma vez, a atualidade de uma velha lição do movimento operário revolucionário: o principal inimigo dos trabalhadores está em seu próprio país. Somente com base nessa postura de princípios é possível desenvolver uma política capaz de unir trabalhadores de todos os países contra o imperialismo, a guerra e o sistema social que os gera. Em oposição à União Europeia imperialista — caracterizada pelo belicismo e pela austeridade —, de um lado, e ao chauvinismo reacionário — expresso mais claramente no Brexit —, de outro, defendemos a unidade socialista de todos os trabalhadores e povos da Europa, incluindo a Rússia.

VI. Internacionalismo proletário e derrotismo revolucionário

A postura de se distinguir das potências capitalistas em conflito encontra sua expressão positiva no internacionalismo proletário e no derrotismo revolucionário. Esses princípios não são fórmulas de propaganda nem palavras de ordem do passado. Eles constituem a única política capaz de defender os interesses históricos da classe trabalhadora em uma era de guerras, crises e revoluções.

O internacionalismo proletário fundamenta-se em uma realidade objetiva: os interesses comuns dos trabalhadores de todos os países em oposição ao capital. Enquanto as burguesias nacionais buscam mobilizar as massas em torno de seus objetivos militares e estratégicos, a tarefa dos revolucionários é fortalecer a unidade internacional da classe trabalhadora contra todos os governos capitalistas e blocos imperialistas.

O derrotismo revolucionário não implica indiferença quanto ao desfecho da guerra, nem uma atitude passiva diante dos acontecimentos. Significa rejeitar qualquer colaboração com a própria burguesia e combater a política de "unidade nacional" que inevitavelmente acompanha os conflitos militares. Nas guerras imperialistas, a defesa da democracia ou da segurança nacional serve como a linguagem ideológica pela qual as classes dominantes tentam subordinar os trabalhadores a objetivos alheios aos seus próprios interesses.

A guerra altera profundamente o cenário político e social. O aumento dos gastos militares, a inflação, a deterioração das condições de vida, a restrição das liberdades democráticas e o fortalecimento dos aparelhos repressivos geram novas contradições e alimentam a resistência das massas. A tarefa dos revolucionários é intervir nessas lutas com uma política independente, direcionando-as contra a classe capitalista e seu Estado.

O pacifismo representa uma resposta insuficiente e ilusória. A guerra não pode ser eliminada por meio de apelos diplomáticos, conferências internacionais ou acordos entre governos que representam os próprios interesses capitalistas responsáveis ​​pela sua existência. Enquanto persistirem as causas sociais subjacentes, qualquer paz será precária e apenas abrirá caminho para conflitos futuros.

A luta contra a guerra exige transformar a crise que ela provoca em uma crise do domínio burguês. A tarefa estratégica do proletariado não consiste em escolher entre potências capitalistas rivais, mas em transformar a guerra imperialista em uma guerra civil contra as suas próprias burguesias, a fim de lutar por um desfecho histórico: a conquista do poder e a reorganização socialista da sociedade.

VII. Guerras de Libertação Nacional contra o Imperialismo

A contradição fundamental da sociedade contemporânea coloca o capital contra o trabalho. No entanto, o imperialismo não elimina outras contradições históricas; pelo contrário, ele as reproduz e aprofunda. A questão nacional ocupa um lugar central entre elas. A dominação econômica, política e militar das grandes potências sobre povos e nações oprimidos permanece uma característica fundamental da ordem mundial.

Nós, socialistas revolucionários, distinguimos entre nações opressoras e nações oprimidas. Não adotamos uma postura neutra em relação a essa contradição. A luta dos povos submetidos à agressão, ocupação ou dominação imperialista possui um caráter progressista, pois enfraquece os mecanismos de opressão sobre os quais se sustenta o sistema imperialista mundial. Nós, revolucionários, distinguimo-nos por tomar partido pelo campo militar da nação oprimida que se defende contra uma potência imperialista — não apenas quando o governo oprimido é relativamente progressista, mas mesmo quando ele tem caráter repressivo ou reacionário. Sustentamos que, para ser bem-sucedida, a luta anticolonial deve estar preparada para armar a população e expropriar a burguesia, como se viu nas revoluções cubana ou chinesa.

Essa posição não implica conceder apoio político aos governos ou às lideranças burguesas das nações oprimidas. A burguesia nacional é incapaz de levar até o fim uma luta consistente contra o imperialismo, pois seus interesses materiais a vinculam à própria ordem capitalista à qual ela afirma se opor. As teses da revolução permanente permanecem como uma ferramenta válida para explicar a dinâmica da revolução contemporânea. A independência política da classe trabalhadora é uma condição indispensável para que a luta nacional seja levada às suas últimas consequências.

As agressões imperialistas das últimas décadas confirmam essa caracterização. A Palestina é o exemplo mais claro de uma nação submetida à opressão sistemática pelo Estado de Israel — um Estado apoiado política, militar e financeiramente pelas principais potências ocidentais. Defender o direito do povo palestino de resistir a essa opressão faz parte da luta mais ampla contra o imperialismo. Divergências programáticas e de perspectiva política que socialistas possam ter em relação ao Hamas e a outras organizações em Gaza não podem servir de pretexto para se omitir da luta tal como ela se desenrola no teatro de operações — como ocorreu com correntes de esquerda como o PTS, na Argentina. Defendemos o direito do povo palestino de se rebelar utilizando todos os meios ao seu alcance. A postura pacifista adotada pela esquerda nessa questão revela uma acomodação à pressão e ao bombardeio midiático exercidos pelo imperialismo e pelo sionismo.

O mesmo se aplica aos ataques e ameaças dirigidos ao Irã e a outros países submetidos a pressões militares, econômicas ou diplomáticas por parte das grandes potências. Derrotar tais agressões é do interesse dos povos oprimidos e da classe trabalhadora internacional. Nenhuma intervenção imperialista pode oferecer uma solução progressista para os problemas nacionais, democráticos ou sociais de países sob dominação imperialista.

O fato de o nacionalismo burguês assumir, por vezes, traços ideológicos reacionários, religiosos ou étnicos não altera a posição dos revolucionários na luta nacional contra o imperialismo. A análise marxista de qualquer conflito não começa pela sua roupagem ideológica ou pela retórica de seus protagonistas, mas sim pelas estruturas sociais reais em conflito e pelos interesses sociais e nacionais em jogo. Os meios de comunicação ocidentais frequentemente retratam os conflitos na África e no Oriente Médio como resultado de ódios ancestrais; no entanto, todos eles estão inevitavelmente enraizados em disputas capitalistas e ações imperialistas nessas regiões — agravadas pelo pesado legado de passados ​​coloniais relativamente recentes. O debate revolucionário e a demarcação política necessários para superar o islamismo — no terreno que este reivindicou como força de confronto contra o imperialismo — devem ser realizados demonstrando-se qual liderança é a mais eficaz na luta nacional; isso é particularmente crucial diante do recuo de um número significativo de lideranças nacionais que, outrora, se apresentavam sob as bandeiras do laicismo e da libertação nacional, mas que acabaram por se render completamente à subordinação ao imperialismo e ao sionismo.

A disputa entre socialistas e lideranças religiosas ou nacionalistas nada tem em comum com a propaganda imperialista que os retrata como "barbárie" em contraste com a "civilização" das bombas e da limpeza étnica. A natureza ideologicamente reacionária de certos setores da resistência palestina — ou de outros grupos militantes — tem sido citada por aqueles que defendem posturas pacifistas ou neutralistas em relação aos conflitos no Oriente Médio. Denunciamos isso como uma adoção da propaganda imperialista por parte de setores da esquerda. Qualquer ação militar contra o sionismo e o imperialismo é uma resposta a um processo de longa data de colonização, limpeza étnica e agressão. A islamofobia — e a propaganda dirigida contra migrantes do mundo explorado em geral — é uma marca registrada da extrema-direita, mas também aparece sob roupagens apresentadas como laicas, progressistas e até mesmo favoráveis ​​às mulheres e à comunidade LGBTQI. Assim como o movimento de massas pela Palestina tem consistentemente rebatido o *pinkwashing* empregado pelo imperialismo e pelo sionismo — as próprias forças que impulsionam o genocídio e as guerras imperialistas —, afirmamos que eles são os piores opressores da humanidade e rejeitamos suas tentativas de apelar a qualquer bandeira progressista.

A luta contra a opressão nacional e a luta pelo socialismo fazem parte do mesmo processo histórico. Somente a ação independente da classe trabalhadora, liderando todos os setores explorados e oprimidos, pode levar a luta contra o imperialismo até o fim e abrir caminho para a verdadeira emancipação nacional e social. A revolução socialista não se opõe às aspirações nacionais dos povos oprimidos; pelo contrário, constitui a única solução consistente e duradoura para elas. Essa orientação estratégica resume-se nas seguintes palavras de ordem: Imperialismo fora do Oriente Médio; pelo desmantelamento do Estado de Israel; por uma Palestina única, laica e socialista, no âmbito de uma Unidade Socialista de todos os povos do Oriente Médio.

VIII. A Luta contra a Extrema-Direita

A tendência à guerra imperialista reflete-se politicamente na proliferação de forças de extrema-direita e fascistizantes. A extrema-direita detém o poder nos Estados Unidos, em Israel, na Itália e em grande parte da América Latina. Ela tem potencial para conquistar o poder em nações importantes como Inglaterra, Alemanha e França. Essas forças — que encarnam governos que desferem uma ofensiva direta contra os trabalhadores — surgem, em parte, como resultado do fracasso da democracia capitalista e de seus partidos tradicionais em atender às aspirações mais básicas das massas. Ao mesmo tempo, elas emergem da necessidade do capital de disciplinar a "frente interna" enquanto se prepara para impulsionar o esforço de guerra imperialista. Em alguns casos, diferem dos movimentos fascistas clássicos por não dependerem de tropas de choque recrutadas na pequena burguesia. Em vez disso, buscam fragmentar a própria classe trabalhadora, utilizando o poder estatal para implementar políticas racistas, anti-imigração, sexistas, homofóbicas, antissindicais e até anticomunistas. Em outros casos, as tendências fascistas manifestam-se de forma mais nítida — como evidenciado pelas operações anti-imigração do ICE nos Estados Unidos ou pelas represálias armadas, de caráter paramilitar, realizadas por colonos sionistas na Cisjordânia.

No entanto, a ascensão da direita não exclui a possibilidade de trabalhadores e jovens irromperem no cenário político com espírito combativo. Isso é demonstrado pelo extraordinário levante de trabalhadores e camponeses na Bolívia e pela mobilização estudantil contra Kast no Chile. Nos Estados Unidos, os protestos "No Kings" levaram oito milhões de pessoas às ruas, enquanto jovens lideraram ocupações universitárias para se opor ao genocídio na Palestina. Na Itália, o proletariado entrou em ação — por meio de greves gerais e bloqueios — para paralisar a máquina de guerra, interrompendo tanto a produção quanto o envio de armamentos. Greves também foram deflagradas contra reformas trabalhistas e previdenciárias. Outras rebeliões ocorreram contra medidas de austeridade nos moldes do FMI — como no Quênia — ou contra governos progressistas ou nacionalistas que se tornaram profundamente reacionários, como na Albânia ou no Nepal.

Muitas dessas experiências revelaram não apenas o potencial de luta da classe trabalhadora, mas também a profunda crise de liderança dessa classe. Muitas dessas rebeliões resultaram em meros realinhamentos dentro do sistema político existente ou se dissiparam devido à grave falta de liderança da classe trabalhadora. Vários dos levantes associados à Geração Z levaram, inclusive, a desfechos reacionários. Por outro lado, houve mudanças significativas em direção à busca de uma solução à esquerda, geralmente canalizada por meio de variantes do progressismo ou da esquerda institucional.

A lição a ser extraída desses processos é que o ímpeto da luta deve caminhar lado a lado com a construção de uma força política revolucionária para os trabalhadores. Somente a ação independente da classe trabalhadora — atuando como liderança para todos os setores oprimidos — pode levar até o fim o combate à exploração, à opressão e a todas as formas de barbárie geradas pelo capitalismo.

Na luta contra a reação política, é essencial distinguir a estratégia de "frente popular" da tática de "frente única operária". Enquanto a primeira implica a subordinação política da classe trabalhadora ao programa, aos métodos e às instituições da classe capitalista — neutralizando, assim, a intervenção direta das massas e abrindo caminho para o triunfo eventual da reação política —, a segunda impulsiona a luta de classes; isto é, fomenta a ação direta de todas as forças operárias existentes, mantendo firmemente a independência política dos trabalhadores.

A falência do capitalismo em curso exerce um efeito corrosivo sobre os regimes políticos tradicionais: figuras externas ao establishment (*outsiders*), apoiadas por forças políticas novas ou improvisadas, governam mais de uma dúzia de países. O sistema político britânico — há muito considerado um modelo bipartidário robusto — está se fragmentando tanto à esquerda quanto à direita; os partidos Conservador e Trabalhista sofreram fracassos sucessivos, enquanto os eleitores migram para o neofascismo do Reform UK ou para uma versão do Partido Verde inclinada à esquerda. Uma dinâmica semelhante ocorre na França, com o crescimento do apoio ao *Rassemblement National* e ao *La France Insoumise*. Nos Estados Unidos, embora a estrutura bipartidária permaneça formalmente intacta, surgiram facções distintas em seu interior — desde o movimento fascistizante MAGA (liderado por Trump, que controla a máquina do Partido Republicano) até a DSA, que lidera uma ampla ala social-democrata; esta última detém mais de 200 cargos eletivos e, por meio de figuras como Mamdani, conquistou espaço na administração de Nova York — a maior cidade do país e a mais rica do mundo. Embora o reformismo da DSA opere como a ala esquerda de um partido imperialista, ele extrai força de posicionamentos militantes de esquerda, incluindo o apoio à causa palestina e a denúncia do genocídio. De modo geral, é evidente uma tendência à polarização política.

Em muitos casos, as guinadas à esquerda refletem uma tendência à radicalização entre segmentos das massas. No entanto, essa tendência deve ser distinguida da orientação democratizante das lideranças políticas que, no momento, capitalizam essas mudanças. Como socialistas revolucionários, intervimos nesses processos evitando tanto o sectarismo "puro", que nos condena à marginalidade política, quanto o oportunismo, que leva à nossa dissolução em uma vertente de esquerdismo que, em última análise, defende a ordem vigente. Em vez disso, intervimos por meio de uma luta combativa baseada em um programa político claro, promovendo um conjunto de reivindicações de transição e mantendo, com firmeza, nossa independência política.

IX. Política independente da classe trabalhadora contra todas as formas de colaboração com a burguesia

A luta contra a guerra, o imperialismo, a extrema-direita e a crise capitalista exige a mais estrita independência política da classe trabalhadora. Nenhuma variante de colaboração de classes pode oferecer uma saída progressista para as contradições da época. Subordinar os trabalhadores a setores da burguesia — seja sob roupagem radical ou reformista — acaba por reforçar o domínio do capital e desarmar politicamente as massas.

A experiência histórica do período recente confirma plenamente essa conclusão. Onde quer que amplos setores da esquerda depositassem suas esperanças em governos nacionalistas, progressistas ou reformistas, acabaram por se adaptar à gestão do Estado capitalista. A defesa do "mal menor", de frentes democráticas ou de supostas etapas intermediárias levou sistematicamente ao abandono de uma política independente da classe trabalhadora.

A América Latina oferece inúmeros exemplos dessa experiência. O chavismo na Venezuela, os governos do Partido dos Trabalhadores no Brasil, as diversas formas de peronismo na Argentina e outras expressões do nacionalismo e do progressismo latino-americanos foram apresentados como alternativas ao neoliberalismo e à dominação imperialista. No entanto, nenhum deles alterou as bases sociais do capitalismo ou resolveu os problemas fundamentais enfrentados pelas massas trabalhadoras. Pelo contrário, acabaram gerindo as contradições do sistema e transferindo os custos de suas crises para a população.

A adaptação de amplos setores da esquerda a esses governos teve consequências profundas. Em vez de desenvolverem uma alternativa política independente, atuaram como apoiadores críticos ou aliados diretos de projetos cujos horizontes permaneciam confinados aos limites do capitalismo. Essa orientação enfraqueceu a capacidade da classe trabalhadora de intervir com sua própria política e, em muitos casos, abriu caminho para o avanço subsequente de forças reacionárias e de extrema-direita.

Essa mesma lógica é evidente no apoio a coalizões democráticas, frentes amplas ou alianças eleitorais formadas em nome da defesa das instituições, do combate ao fascismo ou da preservação de conquistas parciais. A experiência mostra que a subordinação a setores da burguesia não fortalece a luta contra a reação. Pelo contrário, permite que a direita levante a cabeça e abre caminho para que ela tome o poder, levando, em última análise, a novas frustrações e derrotas para os trabalhadores.

Essa esquerda progressista está em retirada devido ao histórico desastroso dos governos progressistas latino-americanos — que se adaptaram ao Fundo Monetário Internacional e ao imperialismo norte-americano —, bem como ao do Syriza na Grécia e ao do governo PSOE-Unidos Podemos na Espanha. Milhares de pessoas voltaram-se para figuras como Mélenchon, Corbyn e Mamdani em busca de um caminho para o socialismo ou alguma forma de mudança social, apenas para encontrar decepção, desmobilização e frustração. Dezenas de milhares demonstraram o desejo de uma alternativa militante de esquerda, mas encontraram apenas máquinas eleitorais que servem para perpetuar o sistema. Há muito pouco espaço para o reformismo em uma era de desastre capitalista e guerra.

A independência de classe política não implica isolamento ou indiferença em relação aos acontecimentos concretos da luta de classes. Significa intervir ativamente nesses acontecimentos com um programa distinto, fomentar a mobilização independente dos trabalhadores e disputar a liderança política das massas com correntes reformistas, nacionalistas e burocráticas. Somente com base nisso é possível construir uma alternativa revolucionária capaz de enfrentar as tarefas impostas pela época atual.

X. A atualidade do Método do Programa de Transição

A guerra, a crise econômica e a ofensiva do capital contra as condições de vida das massas conferem uma relevância renovada ao método do Programa de Transição. A contradição fundamental da nossa época permanece sendo o hiato entre a maturidade das condições objetivas para uma reorganização socialista da sociedade e a ausência de uma direção revolucionária capaz de conduzir a classe trabalhadora à conquista do poder.

As reivindicações imediatas dos trabalhadores chocam-se cada vez mais com os limites do capitalismo. A defesa de salários, empregos, aposentadorias, saúde, educação, moradia e liberdades democráticas entra em conflito com as exigências do capital financeiro, da dívida pública, do militarismo e da preservação dos lucros capitalistas. Mesmo as reivindicações mais elementares levantam, de forma crescente, a necessidade de questionar a propriedade capitalista e o poder estatal.

As palavras de ordem de transição constituem a ponte entre as lutas imediatas e a luta pelo poder. Elas não representam nem um programa mínimo destinado a humanizar o capitalismo, nem um conjunto de reivindicações arbitrárias. Elas surgem das necessidades concretas das massas e conduzem, por meio de sua própria dinâmica interna, à colocação da necessidade de uma transformação revolucionária da sociedade.

A escala móvel de salários e de horas de trabalho, a repartição das horas de trabalho sem redução salarial para combater o desemprego, a abertura dos livros contábeis das empresas, o controle operário da produção, a nacionalização do sistema bancário e do comércio exterior sob gestão operária, a expropriação dos monopólios e o repúdio às dívidas usurárias são exemplos de reivindicações que ligam as necessidades imediatas à luta por um governo operário.

A relevância deste programa expressa-se com particular clareza em uma época de guerra e militarização. Enquanto os governos destinam recursos crescentes a armamentos e transferem o custo da crise para as massas, as reivindicações de transição possibilitam unir as lutas defensivas dos trabalhadores a uma perspectiva política geral contra o domínio do capital.

A guerra é uma expressão da barbárie capitalista, mas também um poderoso motor de crises revolucionárias. As grandes guerras do século XX foram acompanhadas por ascensões revolucionárias que alteraram o curso da história. A tarefa dos revolucionários é intervir nas lutas atuais com um programa capaz de transformar a resistência de massas em uma luta consciente pela conquista do poder e pela reorganização socialista da sociedade.

XI. As lutas no interior dos sindicatos e contra as diversas formas de opressão, e a perspectiva da revolução socialista

Na luta contra a ofensiva capitalista que domina o cenário mundial, é essencial promover uma frente única de todas as organizações de trabalhadores e preparar o terreno para uma resposta da classe trabalhadora à altura das necessidades do momento. O êxito na luta por diversas reivindicações sociais está indissociavelmente ligado à independência política dos trabalhadores. A postura de colaboração de classes, predominante entre as diversas frações da burocracia sindical — que atua como uma barragem contendo a luta dos trabalhadores —, deriva de seu papel como agentes do capital no interior das organizações operárias. Nesse contexto, a exigência de que as organizações de trabalhadores rompam com a burguesia, com o Estado e com os partidos patronais assume uma relevância urgente. A luta pela independência política das organizações de trabalhadores é, sobretudo, um método para acelerar o processo de separação da base trabalhadora de suas direções burocráticas — e da política de conciliação e entrelaçamento destas com o Estado capitalista e seus partidos — e para estabelecer, no movimento operário, uma direção pautada na luta de classes, capaz de abrir uma nova perspectiva sindical e política.

Para tanto, é necessário promover frentes únicas antiburocráticas em todos os sindicatos, centros acadêmicos e federações estudantis. O objetivo é desalojar as burocracias sindicais e estudantis e recuperar essas organizações, transformando-as em instrumentos de luta de classes para os trabalhadores e a juventude; ao fazê-lo, elas fortalecerão a causa da emancipação nacional e social em cada país e em escala mundial.

Nós, socialistas revolucionários, estamos comprometidos em organizar os setores mais fragilizados da classe trabalhadora — incluindo desempregados, subempregados e trabalhadores em condições precárias, bem como trabalhadores migrantes. A estigmatização, a perseguição e a hostilização vingativa desses setores por governos burgueses em todo o mundo são práticas comuns. O objetivo fundamental desses ataques tem sido neutralizar o potencial de luta inerente a esses setores quando eles se mobilizam. O movimento *piquetero* na Argentina é um testemunho desse potencial. A recusa de forças de esquerda — como o PTS na Argentina — em assumir a tarefa de organizar e mobilizar as camadas mais marginalizadas da classe trabalhadora argentina representa uma postura conservadora. Só se pode afirmar que existe um verdadeiro avanço na consciência de classe quando a vanguarda operária defende incondicionalmente qualquer estrato da classe trabalhadora — independentemente de origem, nacionalidade ou status — contra os abusos do Estado capitalista.

A crise do capitalismo manifesta-se não apenas na exploração econômica da classe trabalhadora, mas também no aprofundamento de várias formas de opressão que afetam amplos setores da população. A degradação ambiental, a opressão das mulheres, a discriminação baseada na diversidade sexual, o racismo, a perseguição a imigrantes e a negação de direitos democráticos básicos fazem parte das contradições intoleráveis ​​que se acumulam na sociedade contemporânea.

Os revolucionários intervêm ativamente nessas lutas porque toda forma de opressão reforça a dominação do capital e fragmenta a resistência dos explorados. Defender reivindicações democráticas, ambientais, culturais e sociais é parte integrante da luta mais ampla contra a ordem vigente.

Ao mesmo tempo, rejeitamos visões que retratam essas lutas como processos autônomos ou desconectados da estrutura social capitalista. Embora formas distintas de opressão tenham suas próprias dinâmicas específicas, elas encontram no capitalismo um poderoso mecanismo de reprodução e intensificação. A destruição ambiental, a mercantilização da vida social e o uso sistemático do preconceito e da discriminação atendem às necessidades profundas do regime de exploração dominante.

Por essa razão, os revolucionários opõem-se tanto à subordinação dessas lutas a partidos pró-empresariais quanto às perspectivas identitárias que as dissociam da luta de classes. A verdadeira emancipação dos grupos oprimidos exige enfrentar as raízes sociais que alimentam essas formas de opressão, em vez de apenas abordar suas manifestações mais visíveis.

A tarefa consiste em promover a unidade da classe trabalhadora com todos os setores explorados e oprimidos, com base em um programa comum de transformação social. Longe de se opor a essas lutas, a perspectiva socialista oferece a elas um caminho consistente a seguir, ao vincular suas reivindicações imediatas à luta contra o poder econômico e político do capital.

XII. Contra o oportunismo, o sectarismo e o propagandismo. A luta para conquistar as massas

A crise histórica do capitalismo coloca a necessidade de uma direção revolucionária capaz de conduzir a classe trabalhadora à conquista do poder. Essa tarefa exige combater simultaneamente dois desvios que, de formas opostas, afastam o movimento operário desse objetivo: o oportunismo e o sectarismo.

O oportunismo adapta o programa socialista às exigências da democracia burguesa, de governos reformistas ou de burocracias sindicais. Em nome do realismo político, do acúmulo gradual de forças ou da defesa do "mal menor", acaba subordinando a independência de classe aos interesses da burguesia. Sua consequência inevitável é a desmobilização dos trabalhadores e o abandono da luta pelo poder.

O sectarismo representa o desvio oposto. Confunde a defesa de princípios com o isolamento político, substitui a intervenção no movimento real das massas por propaganda abstrata e renuncia à disputa pela direção entre os trabalhadores nos próprios espaços onde eles adquirem experiência política. Um programa correto perde todo o valor se não encontrar meios de se transformar em uma força material.

A luta para conquistar as massas exige intervir em todos os espaços onde trabalhadores e jovens atuam. Os revolucionários participam dos sindicatos para enfrentar a burocracia e recuperar as organizações operárias; intervêm nas eleições para utilizar a tribuna parlamentar a serviço da luta de classes; e participam de conselhos estudantis, organizações de base e movimentos de massa para disputar a direção contra correntes reformistas e conciliadoras.

Essa intervenção não implica adaptar o programa às instituições do regime nem alimentar ilusões a respeito delas. A atividade parlamentar, sindical ou eleitoral subordina-se a uma estratégia revolucionária baseada na mobilização independente das massas, na ação direta e na organização a partir da base. Os revolucionários utilizam todas as tribunas disponíveis para desenvolver a consciência política da classe trabalhadora e fortalecer sua organização. A luta contra o oportunismo, o sectarismo e o propagandismo reflete uma única necessidade estratégica: unir a defesa intransigente do programa socialista à intervenção ativa na experiência real das massas. Somente nessa base é possível construir uma direção revolucionária capaz de transformar as crises do capitalismo em vitórias para a revolução socialista.

XIII. A Relevância da Luta pela Ditadura do Proletariado

A luta pelo poder coloca inevitavelmente a questão do Estado. A revolução socialista não consiste em capturar gradualmente as instituições da democracia burguesa ou em utilizar o aparelho estatal existente para fins diferentes. Ela implica a destruição do Estado burguês — sua burocracia permanente, forças armadas, aparelhos repressivos e todo o sistema de dominação de classe — e sua substituição por um novo Estado baseado na organização política direta dos trabalhadores.

Marx denominou essa forma de Estado de ditadura do proletariado. Longe de representar um regime arbitrário ou despótico, ela constitui o domínio político da vasta maioria explorada sobre a minoria capitalista expropriada. Sua tarefa é quebrar a resistência das classes desalojadas do poder, derrotar as tentativas de restauração capitalista, enfrentar a intervenção contrarrevolucionária internacional e reorganizar a economia sobre novas bases sociais. Nesse sentido, ela constitui uma forma de democracia infinitamente superior à democracia burguesa, pois coloca o poder político e econômico nas mãos daqueles que produzem a riqueza social.

Os órgãos desse novo poder emergem da auto-organização das massas em luta: sovietes, conselhos de trabalhadores, comitês de fábrica, organismos territoriais e outras formas de representação direta dos trabalhadores. No entanto, os revolucionários não fetichizam essas formas organizativas. A experiência histórica demonstra que os organismos de democracia operária não possuem um conteúdo político predeterminado. Sua orientação depende da luta entre programas, tendências e partidos que se desenrola em seu interior. A questão decisiva permanece sendo a direção política da revolução.

Por essa razão, a ditadura do proletariado pressupõe a luta pela hegemonia política do partido revolucionário no seio da classe trabalhadora e de seus órgãos de poder. Longe de ser incompatível com a democracia operária, o papel dirigente do partido revolucionário é uma condição indispensável para que os órgãos de poder de massa desenvolvam uma estratégia consistente de transformação social e resistam às pressões da burguesia nacional e internacional. Sem uma direção revolucionária, mesmo os órgãos mais avançados de democracia operária podem ser desviados, paralisados ​​ou derrotados.

A palavra de ordem de um governo operário constitui uma expressão popular da ditadura do proletariado. Os socialistas revolucionários não equiparam essa palavra de ordem a governos operários que administram o Estado burguês, nem a coalizões parlamentares baseadas nas instituições existentes. Um governo operário genuíno só pode se apoiar na mobilização revolucionária das massas e nos órgãos de poder que emergem de sua própria luta.

Os revolucionários não descartam a possibilidade de que, em circunstâncias excepcionais, organizações reformistas, centristas ou burocráticas — impulsionadas por uma profunda crise revolucionária e pela pressão das massas — possam ser compelidas a romper parcialmente com a burguesia e assumir o poder. É precisamente por essa razão que levantamos a palavra de ordem de um governo operário. Diante de tal desenvolvimento, os revolucionários apoiariam cada passo efetivo rumo a uma ruptura com a burguesia e cada medida dirigida contra o capital, impulsionando esse processo até suas últimas consequências. No entanto, manteriam sua completa independência política e organizacional, não integrando tais governos nem assumindo a responsabilidade por uma direção cuja estratégia não vise conscientemente à ditadura do proletariado. A experiência histórica confirma que apenas um partido revolucionário, armado com um programa socialista e uma estratégia internacionalista, pode levar a revolução até o fim e transformar um governo operário em um instrumento efetivo da ditadura do proletariado.

Abandonar essa perspectiva é uma característica definidora da esquerda "democratizante" contemporânea. Sob várias roupagens — democracia radical, expansão democrática, democracia participativa, processos constituintes ou repúblicas sociais —, a luta pela destruição do Estado burguês e pela ditadura do proletariado é abandonada. A questão decisiva do poder é substituída por projetos que visam reformar e aperfeiçoar a democracia existente. Consequentemente, a defesa da ditadura do proletariado permanece como a principal linha divisória entre a revolução socialista e todas as variantes de adaptação à ordem burguesa.

Em última análise, o internacionalismo proletário encontra sua expressão mais elevada na luta pela ditadura do proletariado em cada país e pela revolução socialista mundial. A classe trabalhadora não pode abolir definitivamente a guerra, a exploração e a opressão apenas resistindo aos ataques do capital ou combatendo políticas governamentais específicas. Ela deve tomar o poder, destruir o Estado burguês e abrir caminho para uma reorganização socialista da sociedade. Esse é o conteúdo estratégico do internacionalismo revolucionário e a conclusão política fundamental extraída de toda a experiência histórica do movimento operário.

XIV. A construção de partidos revolucionários e o centralismo democrático

A luta da classe trabalhadora pelo poder exige a construção de partidos revolucionários. A crise do capitalismo, as convulsões sociais e as tendências revolucionárias que emergem periodicamente da luta de classes não eliminam a necessidade de uma direção política consciente. A experiência histórica demonstra que a contradição principal da nossa época reside na defasagem entre a maturidade das condições objetivas para a revolução socialista e o atraso de sua direção política.

A crise de direção da classe trabalhadora, tal como formulada por Leon Trotsky no *Programa de Transição* da Quarta Internacional, permanece válida em linhas gerais, embora hoje adquira um conteúdo histórico distinto. Essa crise de direção não se limita à questão da orientação no interior das organizações operárias de massa — grupos que, subjetivamente, reivindicam-se revolucionários, mas cujas direções adotam uma linha reformista. A burguesia explora ideologicamente o período de mais de quatro décadas — marcado por inúmeros levantes, porém sem revoluções bem-sucedidas — para incutir a ideia de um capitalismo invencível. O desaparecimento ou a perda de influência dos partidos operários reformistas de massa apresenta um quadro contraditório. Por um lado, eles perderam sua força como mecanismos de contenção, deixando o caminho aberto para explosões de descontentamento potencialmente mais virulentas. Por outro, isso reflete um impasse político para a classe como um todo, incluindo a possibilidade de que segmentos da classe trabalhadora migrem em massa para facções de direita. A maioria da classe trabalhadora está politicamente desorganizada e sofreu até mesmo um retrocesso em termos de organização sindical. As próprias condições de trabalho tornaram-se profundamente fragmentadas; além disso, a adoção generalizada do trabalho remoto introduziu uma nova variável na competição internacional por mão de obra, exercendo pressão para baixo sobre os salários. A imensa pressão que a crise exerce sobre a classe trabalhadora pode ser avassaladora e desorganizadora, mas também desencadeia explosões regulares e violentas de luta contra o Estado e os regimes políticos — uma violência impulsionada justamente pela ausência de mecanismos de contenção eficazes e dotados de autoridade. Hoje, a esquerda que se autodenomina revolucionária não se apresenta como uma alternativa organizada às direções reformistas de massa; em vez disso, existe como uma constelação de organizações pequenas e fragmentadas, com pouca capacidade de convergência em torno de um movimento comum. Há poucos exemplos de síntese ou unificação, e muitos mais casos de ruptura e cisão em resposta a cada reviravolta inesperada no cenário político. No entanto, um grande número de militantes e organizações é capaz de mobilizar lutas e inserir-se em frentes de massa. Quando uma luta consegue transcender seu escopo inicial — como a luta contra o genocídio na Palestina —, vastos recursos de organização e ação internacional são acionados e revelados. Nesse contexto, o desafio que se coloca para a vanguarda operária é como conferir a esse potencial uma expressão política e uma perspectiva revolucionária.

Esse caminho não pode ser trilhado por organizações criadas exclusivamente para a atuação eleitoral, por movimentos baseados em opiniões ou por estruturas permanentes que combinam programas e estratégias incompatíveis. Tampouco pode ser liderado por organizações sindicalistas-revolucionárias — por mais coerentes que sejam nas lutas sindicais — se falharem em intervir na luta política nacional e internacional contra as expressões políticas da burguesia e de seu Estado, sob a perspectiva da conquista do poder. A conquista do poder envolve tarefas que exigem coesão política, continuidade estratégica, disciplina, formação de quadros e atuação unificada na luta de classes.

O partido revolucionário constitui a organização por meio da qual a experiência histórica do movimento operário, a teoria marxista e a prática cotidiana da luta de classes se transformam em uma força política organizada. Sua função é lutar para conquistar a maioria da classe trabalhadora para uma estratégia de poder e preparar as condições para a vitória da revolução socialista.

Essa concepção é incompatível com as teorias dos chamados "partidos amplos", "movimentos pluralistas" ou "partidos de tendências permanentes", que buscam substituir a unidade programática por acordos conjunturais entre correntes com objetivos divergentes. A experiência internacional demonstra que tais construções acabam se adaptando às pressões do parlamentarismo, do eleitoralismo ou de diversas formas de reformismo.

O centralismo democrático constitui o princípio organizativo de um partido revolucionário. A mais ampla discussão política e a formulação coletiva devem combinar-se com uma ação disciplinada e unificada. A classe trabalhadora enfrenta uma classe dominante altamente concentrada, munida do aparelho estatal, de enormes recursos econômicos e de poderosos instrumentos de dominação ideológica. Apenas uma organização politicamente coesa pode liderar essa luta de forma eficaz.

Nós, revolucionários, podemos até intervir episodicamente em processos de organização de partidos de massa da classe trabalhadora que careçam de um caráter plenamente revolucionário, mas que sinalizem um passo progressivo rumo a uma política de independência de classe — desde que promovamos o esclarecimento estratégico e programático em seu interior. Esses processos refletem uma guinada à esquerda entre contingentes significativos da classe trabalhadora; eles merecem não apenas nossa atenção, mas também nosso incentivo, na medida em que sua formação representa um avanço na organização política dos trabalhadores enquanto classe. No entanto, a adoção de tais táticas de transição exige uma atuação política clara e o enfrentamento aberto a lideranças reformistas ou centristas. Os inúmeros esquerdistas que se posicionaram como conselheiros de líderes reformistas ou nacionalistas — de Hugo Chávez a Bernie Sanders ou Jeremy Corbyn — pouco ou nada fizeram para promover a causa de um reagrupamento independente e de massa da classe trabalhadora.

A construção de partidos revolucionários não é uma tarefa organizacional dissociada do programa. É o meio concreto pelo qual a classe trabalhadora pode se dotar de uma direção capaz de intervir em crises revolucionárias e disputar o poder com a burguesia. Sem partidos revolucionários enraizados na classe trabalhadora, a crise do capitalismo continuará a esbarrar na ausência de uma direção capaz de conduzi-la a um desfecho socialista.

XV. A Relevância da Quarta Internacional e a Luta por Sua Reconstrução

As teses desenvolvidas acima conduzem a uma conclusão estratégica fundamental. A guerra como traço dominante da época; a crise histórica do capitalismo; a desintegração da ordem imperialista surgida após a Segunda Guerra Mundial; a ausência de uma nova ordem mundial para substituí-la; a validade contínua da luta estratégica pela ditadura do proletariado; a defesa do internacionalismo proletário por meio do derrotismo revolucionário; a luta contra guerras reacionárias entre potências; a defesa das nações oprimidas contra o imperialismo; a necessidade da independência política de classe; a relevância contínua do método do Programa de Transição; a luta contra todas as formas de opressão a partir de uma perspectiva socialista; e a construção de partidos revolucionários — tudo isso constitui os fundamentos programáticos de uma Internacional Revolucionária.

Essas premissas estão sintetizadas no programa, na estratégia e nos métodos da Quarta Internacional, fundada em 1938. Sua validade não deriva da autoridade de seus fundadores nem de uma postura dogmática. Ela decorre do fato de que as contradições que determinaram o seu nascimento permanecem não resolvidas e se intensificaram, atingindo um patamar superior. A época continua sendo a do imperialismo, das guerras e das revoluções. A crise da direção revolucionária no seio do proletariado permanece como o principal obstáculo que impede a crise do capitalismo de culminar em sua superação revolucionária.

Os desdobramentos globais posteriores à restauração do capitalismo confirmaram essa caracterização. Longe de inaugurar uma era de prosperidade e estabilidade duradouras, o capitalismo global entrou em um período de crises recorrentes, guerras, militarização e convulsões sociais. A crise financeira de 2008, o agravamento das rivalidades entre potências e a crescente tendência à guerra demonstraram que nenhuma das contradições fundamentais do sistema foi resolvida.

A falência de inúmeras correntes que se reivindicam trotskistas não invalida essas conclusões. Assim como o marxismo não pode ser julgado pelas capitulações da social-democracia ou do stalinismo, a relevância contínua da Quarta Internacional não pode ser medida pela trajetória de organizações que abandonaram seu programa ou adaptaram suas políticas às pressões da ordem vigente. Não confundimos o destino de organizações específicas com a validade histórica das premissas programáticas que lhes deram origem.

A reconstrução da Quarta Internacional não significa a reunificação de grupos dispersos ou a proclamação formal de uma continuidade organizacional. Significa o reagrupamento da vanguarda revolucionária internacional com base em um programa, uma estratégia e métodos capazes de enfrentar as tarefas impostas pela época. A natureza mundial da economia, da guerra e da luta de classes exige uma direção internacional capaz de intervir de forma unificada nos grandes acontecimentos do nosso tempo.

A construção de partidos revolucionários em cada país e a reconstrução da Quarta Internacional são aspectos indissociáveis ​​da mesma tarefa histórica. A revolução socialista se desenvolverá inevitavelmente em âmbito nacional, mas só poderá triunfar de maneira decisiva como uma revolução internacional. A luta por uma Internacional Revolucionária não é, portanto, nem uma aspiração doutrinária nem um mero slogan de propaganda. É uma necessidade objetiva imposta pela natureza global das contradições inerentes ao capitalismo contemporâneo.

A atualidade da Quarta Internacional reside na persistente relevância das tarefas históricas que lhe deram origem, bem como na validade de seus fundamentos programáticos e estratégicos. Enquanto a humanidade enfrentar a escolha entre socialismo e barbárie; enquanto o imperialismo continuar a gerar guerra, exploração e opressão; e enquanto a classe trabalhadora necessitar de uma direção capaz de conduzir sua luta à conquista do poder, a reconstrução da Quarta Internacional permanecerá como uma tarefa estratégica para os revolucionários de todo o mundo.

quarta-feira, 27 de maio de 2026

BOLÍVIA: Agora mais do que nunca! organizar, coordenar e prolongar a greve geral pela renúncia de Rodrigo Paz!

 Extraído e traduzido do link: https://prensaobrera.com/internacionales/mas-que-nunca-organizar-coordinar-y-extender-la-huelga-general-boliviana-por-la-renuncia-de-rodrigo-paz

Fora com a Santa Aliança (à qual Lula aderiu) contra os trabalhadores bolivianos

Rebelião popular na Bolívia

Por Rafael Santos

A greve geral na Bolívia, com seus 50 bloqueios e fechamentos de estradas, entra em sua quarta semana e continua a crescer.

A tentativa do governo de abrir um "corredor humanitário" para romper o cerco a La Paz, enviando um comboio de 150 veículos (guincho, caminhões, tanques pesados, etc.) com 2.500 policiais e 1.000 soldados liderados pelo Ministro de Obras Públicas, Mauricio Zamora, fracassou diante da resistência popular. As Forças Armadas tiveram que recuar e se dispersar. O Ministro Zamora ficou "desaparecido" por horas, fugindo por rotas alternativas para evitar ser detido pelos manifestantes bolivianos.

O governo também fracassou em seus anúncios do último sábado de estabelecer um Conselho Econômico e Social incorporando (cooptando) setores do movimento. Não conseguiu romper a frente de luta que está se formando.

A direita fascista também não conseguiu ganhar força organizando contra-manifestações contra os bloqueios. Além de estarem repletos de insultos racistas, seus apelos por uma mobilização de cunho fascista têm pouco impacto. O Comitê Cívico de Santa Cruz, tradicional bastião da direita fascista que desempenhou um papel fundamental no golpe que levou Añez ao poder, havia convocado uma caravana para hoje, terça-feira, para romper um dos pontos de bloqueio. Ontem, no final da segunda-feira, anunciaram o adiamento. Não receberam nenhum apoio, e a própria burguesia freou o plano, temendo que a iniciativa desencadeasse um confronto violento e o início de uma guerra civil e a revolução.

A revolução é o espectro vivo que assombra toda a situação política boliviana. A ação começou com a marcha dos camponeses do norte contra a Lei 1720, que abriu caminho para o roubo de pequenas propriedades camponesas em benefício de grandes latifundiários e capitalistas do chamado agronegócio. Foi a faísca que deflagrou a greve geral: vários setores de trabalhadores aderiram rapidamente, exigindo aumentos salariais (professores, mineiros, operários), protestando contra planos de privatização da mineração (lítio, etc.) e de outras empresas estatais, entre outras questões. A greve transformou-se então numa greve geral por tempo indeterminado, que a Central Operária Boliviana (COB) sancionou oficialmente em sua sessão plenária de 1º de maio.

Mas Rodrigo Paz não desiste. Ele continua a ameaçar: emitiu mandados de prisão contra Mario Argollo, líder do COB (Centro Operário Boliviano), e outros líderes das organizações envolvidas na luta. Mantém dezenas de camaradas presos. E agora está prestes a aprovar a revogação da Lei 1341 de 2020, que limita os poderes para convocar e manter um "Estado de Emergência" (estado de sítio). Estas são ameaças muito concretas contra o movimento.

Como qualquer verdadeira greve geral (analisada em profundidade por Rosa Luxemburgo em seu famoso livro de 1906: A Greve de Massas, o Partido Político e os Sindicatos), ela é impulsionada de baixo para cima, pelas ações das massas. O COB, ao propô-la e estabelecer o "Pacto de Não-Traição" com a liderança camponesa, convocou a mobilização, mas não é conhecido por organizá-la e aprofundá-la. Argollo declarou, de seu esconderijo forçado, que, se preso, permanecerá espiritualmente ao lado dos grevistas. Ele também rejeitou a possibilidade de “diálogo” com o governo até que a repressão cesse, os mandados de prisão sejam revogados e os grevistas presos sejam libertados.

A greve geral abre a possibilidade não só de forçar a renúncia de Rodrigo Paz — que se recusa a ceder —, mas também de levantar a questão da luta pelo poder. Evo Morales propôs a convocação de eleições em 90 dias. Outros setores defendem posições semelhantes: que um governo provisório convoque eleições antecipadas. Isso seria uma “vitória”, mas com o perigo de trocar — na melhor das hipóteses — a coleira, mas não o cachorro. A direita está usando isso como último recurso diante de uma revolta mais aberta.

Para as massas camponesas e operárias, a ideia é que um governo revolucionário possa realizar as grandes transformações sociais necessárias contra o grande capital e o imperialismo. O primeiro passo é o sucesso da greve. É necessário realizar assembleias e estabelecer órgãos de coordenação. Em primeiro lugar, no que diz respeito aos bloqueios, devemos incorporar representantes de moradores, fábricas e estudantes de cada área nas assembleias das linhas de piquete. E devemos avançar rumo à coordenação regional e nacional em uma grande Assembleia Popular Nacional. Se Argollo ou qualquer outro líder for preso, a greve não só deve continuar, como também se intensificar.

Abaixo a Santa Aliança de Trump, Milei e Lula!

O governo dos EUA declarou sua disposição de intervir contra o que chama de golpe de Estado contra uma “democracia eleita”. Quer implementar o chamado “Escudo das Américas”, assinado por Trump com governos latino-americanos de direita para justificar intervenções diplomáticas e militares contra países do continente em nome do combate ao “narcoterrorismo”. Milei foi o primeiro da lista, enviando um avião Hércules da Força Aérea carregado com galinhas e armas de repressão (gás lacrimogêneo e munição). As galinhas estão sendo vendidas a preços exorbitantes por empresas especializadas: os libertários veem lucro em todas as formas possíveis.

Os governos do Chile e do Peru também se juntaram a esses envios “humanitários”. E agora, o presidente Lula, do Brasil, anunciou o envio de “ajuda humanitária” em apoio ao governo de Rodrigo Paz durante a greve geral. “O presidente Lula reiterou sua solidariedade ao governo e ao povo boliviano e enfatizou a importância do pleno respeito às instituições democráticas e ao Estado de Direito”, diz um comunicado do Palácio do Planalto.

A rebelião de um povo, expressa em sua greve geral, supera em muito o pronunciamento pseudodemocrático de uma eleição fraudada, conduzida com todo tipo de proscrição. Enviar alimentos (além de medidas repressivas) quando há piquetes bloqueando a cidade é uma postura antigreve, uma atitude “submissa”, típica de presidentes de direita, mas também do centro-esquerdista Lula. A esquerda e o movimento sindical no Brasil devem se mobilizar para impedir esse apoio do governo à greve dos trabalhadores bolivianos.

Propomos o mesmo em nosso país: os sindicatos, as centrais estudantis, as organizações de piquete, os partidos que se dizem anti-imperialistas – com a FIT-U à frente – devem se mobilizar contra a participação argentina na luta de direita contra a greve geral na Bolívia.

quinta-feira, 14 de maio de 2026

A ESTRATÉGIA DA ESQUERDA

 Extraído e traduzido do link: https://prensaobrera.com/politicas/la-estrategia-de-la-izquierda

Editorial de Gabriel Solano em "14 Toneladas"

A esquerda tem uma estratégia de poder?

Nos últimos dias, o debate político intensificou-se consideravelmente. A discussão jornalística sobre se a esquerda possui ou não uma estratégia de poder representa um desafio significativo para nós, pois qualquer força política tem a obrigação de possuir uma. Caso contrário, fica condenada a ser meramente um grupo de pressão para outras forças políticas que a possuem.

Quando a esquerda é questionada, geralmente parte-se da convicção de que lhe falta uma estratégia de poder e que, portanto, seu objetivo é nada mais do que ser uma força simbólica; que deseja expressar algum tipo de descontentamento, alguma rebelião superficial, mas que não quer ter (não apenas não tem, como também não quer ter) uma estratégia de poder porque não deseja assumir a responsabilidade de governar o país.

Isso, sem dúvida, já foi dito por muitos dentro do peronismo, mas também por setores jornalísticos que, com razão, investigam se a esquerda possui ou não uma estratégia de poder. Claramente, quando esse assunto é discutido, muitas questões surgem. Por um lado, presume-se que a ausência de uma estratégia de poder esteja relacionada ao fato de a esquerda não fazer alianças políticas com a burguesia.

Este é um ponto de partida importante. A ideia é que, se você quer uma estratégia de poder, precisa desenvolver uma estratégia política com os partidos tradicionais para alcançá-la. Particularmente na Argentina, onde Milei governa, essa estratégia de alianças políticas deve envolver a esquerda formando um acordo com o peronismo ou alguma facção dele.

Essa pressão é real, e temos sido alvo desse tipo de crítica: "Se vocês querem chegar ao poder, precisam se aliar ao peronismo". Quem faz essa crítica sabe que temos estratégias e programas diferentes. "Entrem num governo com o peronismo e lutem por dentro para que a agenda da esquerda, os interesses que a esquerda quer incorporar, avancem de alguma forma, pelo menos em parte."

Um jornalista, Jorge Fontevecchia, dono da editora Perfil, foi além, e em um artigo que publicamos na Prensa Obrera na semana passada, demonstramos seu esforço dizendo: "Vejam, existem trotskistas, não apenas esquerdistas, existem trotskistas no mundo todo que ousaram entrar em governos burgueses e lutar por dentro por sua estratégia."

Ele cita a experiência brasileira — bastante recente para nós — em que um partido que é uma espécie de coalizão política, chamado PSOL, viu uma facção entrar no governo Lula, e um de seus líderes (Guilherme Boulos) ocupou um cargo importante no gabinete. Então, Fontevecchia nos diz: “Vejam só, Boulos entrou para o governo Lula, está impedindo Bolsonaro de vencer, e eles estão lutando por isso por dentro”.

Quando — como já dissemos muitas vezes — analisamos a experiência brasileira, vemos (não sabemos exatamente qual é a agenda de Boulos e do PSOL, mas presumimos) que o PSOL e Boulos são contra a reforma trabalhista aprovada no Brasil durante o governo de Michel Temer, e seriam contra a reforma da previdência aprovada durante o governo Bolsonaro. No entanto, a entrada de Boulos no governo Lula não levou à revogação de nenhuma das reformas. Mas a coalizão de Lula é tão ampla que abrange uma parcela significativa da direita — e não só da direita — que em determinado momento tentou um golpe contra o PT.

Parte da coalizão de Lula votou recentemente no parlamento para reduzir significativamente a pena de Bolsonaro pela tentativa de golpe durante o segundo turno das eleições, quando foi derrotado. Portanto, dentro do governo Lula está Boulos, mas também uma parcela da direita que votou contra Lula no parlamento para reduzir a pena de Bolsonaro a pedido de Trump, e isso não levou a nenhum tipo de deliberação interna para que o PSOL deixasse o governo Lula. Eles permaneceram dentro dele.

Portanto, a coligação que nos é exigida na Argentina, e da qual somos citados como exemplo internacional, forçaria a Frente de Esquerda a formar uma coligação com elementos fortemente de direita (porque é essa a direção que o peronismo está tomando atualmente) e condenaria a esquerda a renunciar à sua independência política e, consequentemente, a perder qualquer possibilidade de desempenhar um papel na estratégia de poder real. Porque uma estratégia de poder consiste em lutar pelo seu programa, não em obter uma posição para si próprio ou para o seu partido.

Assim, temos um problema estratégico. Se a esquerda tem uma estratégia de poder, tem de lutar pela sua própria independência e pelo seu próprio governo. E como os governos não pertencem a uma força ideológica, mas sim devem sempre representar uma classe social, um governo de esquerda tem de ser um governo operário. Não se trata apenas de ideologia, porque esquerda e direita são conceitos que se confundem.

O problema é se a esquerda lutará por um governo operário, isto é, por um governo de uma classe social diferente da que governa hoje, que é a classe capitalista. Eis um importante problema político: muitos nos dizem: "Vocês estão concorrendo às eleições, e as eleições são burguesas". Toda a imprensa diz: "Por que vocês estão concorrendo se querem um governo operário, que é uma estratégia antiburguesa?".

Estamos concorrendo basicamente porque há eleições, ou seja, porque os trabalhadores ainda não conseguiram estruturar seu próprio poder político para governar, ou ao menos estabelecer uma estrutura de poder dual com o poder do Estado burguês. E não se pode descartar, como hipótese, a possibilidade de a esquerda concorrer e vencer as eleições. E o que acontece se a esquerda vencer as eleições?

Bem, nos esforçaríamos para implementar nosso programa, e isso, sem dúvida, geraria uma série de convulsões sociais brutais. Imagine, governamos e implementamos um aumento salarial imediato. Como aumentamos os salários? Aumentamos os salários reduzindo os lucros capitalistas. Já que o valor criado no processo de produção deriva do trabalho não remunerado, basta reduzir os lucros capitalistas para aumentar os salários. Não há necessidade de recorrer a qualquer tipo de emissão monetária, que teria um efeito inflacionário. Ora, a redução dos lucros capitalistas levaria a um confronto com a classe capitalista. É preciso assumir necessariamente que esse confronto envolveria uma tentativa de fechamento de fábricas.

Portanto, devemos defender as ocupações de fábricas que estão ocorrendo, como no caso da Fate. Teríamos que nos defender de qualquer fuga de capitais que a burguesia pudesse tentar, pois eles nos sabotariam manipulando o sistema financeiro. Estabeleceríamos o controle sobre o sistema financeiro, visando nacionalizá-lo por completo.

Ouvi pessoas dizendo que a esquerda está falando bobagens ao propor a nacionalização dos bancos quando os bancos argentinos estão falidos, mas quem diz isso não tem ideia do que está falando, porque o sistema financeiro é um mecanismo fundamental através do qual a poupança do país deve ser canalizada para investimentos. Hoje, ao contrário, o sistema financeiro é um fator de fuga de capitais. Portanto, nacionalizaríamos o sistema financeiro e convocaríamos a classe trabalhadora para se mobilizar. E nessa mobilização para defender as medidas do nosso governo, os trabalhadores certamente conseguiriam construir o que não construíram antes: as instituições do seu próprio poder.

Em outras palavras, um problema eleitoral não é de forma alguma insignificante e é — como se costuma dizer, de maneira mais ou menos simples, entre os marxistas que participam do processo eleitoral — uma forma de esgotar as expectativas democráticas da população. Já dissemos isso muitas vezes. Como esgotar as expectativas democráticas sem vencer as eleições? Com ​​base na própria experiência dos trabalhadores, eles perceberão que o atual sistema representativo burguês é inadequado para promover os interesses da maioria, e isso se manifestará como um confronto. Isso é muito provável.

Transformações revolucionárias em países com longas tradições constitucionais têm grande probabilidade de vivenciar confrontos significativos relacionados às eleições. Por exemplo, no Brasil, quando houve um golpe contra Dilma Rousseff e uma luta pelo poder se instaurou entre os Poderes Executivo e Legislativo, o Partido dos Trabalhadores (PT) não usou sua presença no Executivo para desconsiderar o Legislativo. Nessa luta pelo poder, o PT capitulou. Um governo de esquerda, por exemplo, não capitularia a uma decisão do Judiciário. Em uma luta pelo poder, buscaria estabelecer um sistema de justiça diferente. Portanto, obviamente, temos um conflito, e o processo eleitoral seria parte de uma luta de classes para que os trabalhadores possam construir seus próprios órgãos de poder.

Muitos também se perguntam se, caso governássemos, estaríamos dispostos a impulsionar a Argentina para frente, ou se seríamos uma força de retrocesso. Como Santi acabou de dizer: teríamos um caminhão obsoleto ou carros elétricos?

E isso é o oposto do que Jorge Fontevecchia diz no Perfil, que se a esquerda tentasse tomar o poder agora, seria uma ideia insensata. Nossa resposta deveria ser que as condições atuais para o desenvolvimento das forças produtivas são muito mais favoráveis ​​a um governo operário do que eram no passado. Porque, se analisarmos as experiências passadas de governos operários, o desenvolvimento das forças produtivas era menos desenvolvido e as possibilidades reais de planejamento econômico eram muito mais limitadas.

Planejar uma economia com a internet não é o mesmo que planejar sem ela, assim como planejar com inteligência artificial não é o mesmo que planejar sem ela. O processo administrativo de planejamento seria muito simplificado e, portanto, o nível de burocracia estatal necessário para executá-lo também diminuiria. Por outro lado, as condições objetivas do desenvolvimento capitalista são muito mais propícias para que possamos estabelecer um governo operário e aproveitar o desenvolvimento científico e tecnológico acumulado pela humanidade para alcançar, digamos, um avanço substancial das forças produtivas.

Portanto, a esquerda no poder certamente não seria uma força de regressão, mas sim uma força de progresso, e poderíamos começar imediatamente a satisfazer necessidades sociais fundamentais. Porque também nos dizem: "Vocês teriam que fazer ajustes, como Lenin teve que fazer na época, e ele enfrentou greves". Não se pode negar que podem ocorrer greves sob um governo operário, pois a luta de classes não é eliminada enquanto existirem diferentes classes sociais que também disputam a distribuição da renda nacional. Mas não há dúvida de que, no atual nível de desenvolvimento das forças produtivas, a possibilidade de satisfazer imediatamente as necessidades urgentes da população é muito mais acessível do que no passado. Isso se aplica não apenas a garantir que todos tenham acesso à erva-mate, mas também à distribuição da jornada de trabalho e à garantia de emprego para todos, algo que não existe hoje. Ao mesmo tempo, podemos alavancar os recursos naturais da Argentina para estabelecer um planejamento econômico e uma relação planejada com o mundo, por meio da qual também possamos exigir (como outros países já fizeram) a transferência de tecnologia para investimentos específicos que nos permitam desenvolver, digamos, em nosso próprio país, certas indústrias que representariam um avanço significativo.

Isso não implica, de forma alguma, a ideia de socialismo em um só país. Entenda, seria absurdo, neste momento de enorme desenvolvimento das forças produtivas, que esse enorme desenvolvimento gerasse uma distribuição de tarefas no mercado internacional, exigindo que cada país produzisse todos os bens que consome. Não, isso seria absurdo, e não temos nada a ver com socialismo em um só país. Mas também é verdade que um país com certos recursos naturais deve utilizá-los para gerar valor agregado a esses produtos e, consequentemente, empregos que permitam o desenvolvimento da Argentina. Outros países já fizeram isso. A China é um exemplo. Em determinado momento, exigiu a transferência de tecnologia como condição para certos investimentos, algo que a Argentina não faz.

Portanto, nosso plano não visa isolar o país, mas, ao contrário, engajar-nos com o mundo por meio do planejamento econômico. Assim, quando nos perguntam: “Vocês se veem como um fator de atraso?”, a resposta é justamente o oposto. Precisamos demonstrar que a esquerda tem um programa, e que esse programa só pode ser implementado por meio de um governo operário de esquerda, e que não pode ser executado por um governo burguês, porque a luta programática não se limita a medidas governamentais. Nossa luta programática deriva de um conceito de poder. Somente os trabalhadores no poder podem implementar o programa. A burguesia jamais o implementará. Portanto, precisamos travar essa batalha.

E, para concluir, temos o seguinte problema. A Frente de Esquerda, e em particular nossa camarada Myriam Bregman, viu um aumento significativo no que se chama de imagem positiva. Essa imagem positiva é resultado, sobretudo, da participação da esquerda nas lutas contra o governo Milei. Portanto, trata-se de uma imagem positiva bem merecida. É uma vitória política o fato de o povo reconhecer a esquerda como líder na luta contra um governo reacionário, e ela se destaca em oposição ao peronismo, que até os próprios peronistas dizem não ser visto como de esquerda, ou à CGT (Confederação Geral do Trabalho), que é abertamente considerada traidora.

Agora, quando se observa a intenção de voto, ela não está no mesmo nível da imagem positiva. E pode-se ver que a diferença entre a intenção de voto e a imagem positiva na esquerda é muito maior do que em todos os outros blocos políticos. Há duas maneiras de ver isso, e ambas estão corretas. Uma é dizer: "Vejam o potencial de crescimento que temos", porque se você tem 40% de imagem positiva e 6% de intenção de voto, você pensa: "Eu posso conquistar esses 40%".

Mas há outra maneira de ver isso que também é verdadeira. Isso significa que muitas pessoas veem a esquerda como uma força que merece reconhecimento por seu ativismo, mas votam na burguesia, ou querem votar na burguesia. Há uma contradição. Como superar essa contradição? Bem, isso exige uma luta programática brutal. Exige uma luta contra o governo de Milei, mas também contra todos os blocos que participam da vida política nacional, para mostrar que a saída operária e a saída de esquerda exigem uma demarcação completa, uma luta contra todas as variantes capitalistas.

Por isso, é tão importante que a Frente de Esquerda dê um salto em frente nesta etapa. Apoiamos fortemente a Frente de Esquerda, o que não significa que a apoiamos com todas as suas limitações. Queremos superá-las. Por isso, propusemos uma assembleia nacional da Frente de Esquerda, que formulamos na Praça de Maio e que será discutida com mais detalhes no congresso do Partido Obrero que realizaremos nos dias 23, 24 e 25 de maio. Esta proposta de delinear uma campanha nacional visa construir sobre as conquistas da Frente de Esquerda, mas também superar essas limitações; para que a esquerda possa organizar politicamente uma massa considerável da classe trabalhadora e da juventude argentina para uma luta maciça contra o governo e todas as suas variantes capitalistas.

Esta proposta é para todos, desde um trabalhador da FATE até o nosso camarada Beltrán, que defendeu dois pênaltis para o River Plate no domingo, dia 10. É para todos os setores da classe trabalhadora. Então, temos esta proposta. Estamos colocando isso em debate entre toda a esquerda, todos os ativistas e também todo o partido, porque obviamente temos um congresso chegando e esse congresso certamente poderá contribuir para tornar essa proposta uma questão importante da campanha eleitoral ao longo de 2026.

Trump e Rubio voltam a atacar Cuba

 Extraído e traduzido do link: https://prensaobrera.com/internacionales/trump-y-rubio-vuelven-a-la-carga-contra-cuba


No dia 14 de maio nos reunimos em frente ao Congresso contra o boicote imperialista criminoso, organizado pelo Comitê Independente de Trabalhadores e Estudantes de Solidariedade com Cuba.


Nova onda de ameaças contra Cuba

Por Luis Brunetto

Uma nova onda de ameaças contra Cuba foi lançada pelo governo dos Estados Unidos por meio do Secretário de Estado, Marco Rubio. Essa série de declarações surge em meio a rumores cada vez mais fortes de que ele é a provável escolha de Donald Trump para sucedê-lo em 2028, dentre uma lista restrita de potenciais candidatos republicanos que também inclui o Vice-Presidente, JD Vance, e o agora desacreditado, mas ainda não totalmente descartado, Secretário de Defesa, Pete Hegseth. Nascido em Miami em 1971, em uma família gusana (vermes contrarrevolucionários que fugiram pra Miami da Revolução Cubana) a questão cubana é para Rubio tanto uma parte central de sua agenda, quanto um motivo condutor de sua propaganda.

Desde o sequestro de Nicolás Maduro na Venezuela, Trump e Rubio impuseram ao governo fantoche de Delcy Rodríguez o corte do fornecimento de petróleo à ilha, proibindo efetivamente o mundo inteiro de enviar combustível sob ameaça de retaliação. Em 29 de janeiro, foi assinado um decreto que permite aos Estados Unidos impor tarifas e sanções a países que enviam petróleo ou derivados, e em 1º de maio, Trump assinou uma ordem executiva ampliando as sanções a bancos e empresas estrangeiras que financiam remessas de combustível para Cuba, e impondo sanções diretas ao conglomerado econômico estatal GAESA e à produtora de níquel MOA. “A apenas 145 quilômetros do território dos EUA, o regime cubano levou a ilha à ruína e a transformou em uma plataforma para operações estrangeiras de inteligência, militares e terroristas”, afirma a ordem executiva.

Não são apenas governos fantoches dos EUA, como o da Venezuela ou o da Argentina de Milei, que estão cumprindo essa ordem da administração Trump. Governos "progressistas" na América Latina também se submeteram a essa imposição. Claudia Sheinbaum suspendeu as exportações mexicanas, que chegariam a cerca de 15.000 barris por dia até 2025, o equivalente a quase US$ 500 milhões. No ano passado, segundo o Financial Times, o México ultrapassou a Venezuela como principal fornecedor de petróleo para Cuba. Nem o Brasil de Lula, o nono maior produtor mundial de petróleo bruto, nem a Colômbia de Gustavo Petro ousaram desafiar a proibição de Trump, e Putin enviou apenas um carregamento com 700.000 barris, o que, considerando a produção interna do país de 35.000 barris por dia e seu consumo de cerca de 150.000 barris, era suficiente apenas para seis dias.

Após seu encontro com Trump na Casa Branca na quinta-feira, 07 de abril , Lula afirmou que o presidente americano descartou uma invasão de Cuba durante a conversa. No entanto, como se pode ver no vídeo de sua coletiva de imprensa, ele também não confirmou as declarações de Trump: "Foi o que disse o intérprete", declarou cautelosamente. Além disso, o presidente brasileiro ofereceu a Trump sua ajuda para facilitar as negociações com Cuba, "que quer conversar", numa oferta virtual de mediação. Mas Cuba não precisa de um mediador; precisa do fim do bloqueio, agora agravado pela proibição global de exportação de petróleo — uma situação que o próprio Brasil poderia, no mínimo, amenizar.

As razões imediatas pelas quais Sheinbaum e Lula cederam a Trump estão diretamente relacionadas à natureza capitalista de seus governos. O México está prestes a renegociar o Tratado Norte-Americano de Livre Comércio (NAFTA), no qual Trump pretende impor condições extremamente severas ao país. Enquanto isso, no Brasil, o governo Lula manifestou preocupação com possíveis quedas no valor das ações da Petrobras em Wall Street. Nenhum dos dois países sequer cogita uma abordagem de confronto com o imperialismo estadunidense em seus próprios territórios e, portanto, tampouco consideram promover uma política genuína de solidariedade anti-imperialista, que é justamente o que Cuba precisa.

Embora o governo cubano e a burocracia cubana tenham reconhecido publicamente as negociações em março, as conversas entre a burocracia cubana e o governo dos EUA já duram meses. Em meados de março, o New York Times noticiou que Rubio exigia a renúncia do presidente cubano Miguel Díaz-Canel para que as negociações pudessem continuar, uma alegação posteriormente negada pelo próprio Secretário de Estado. No entanto, o conteúdo desta nova onda de ameaças de Rubio parece confirmar a versão anterior sobre a disposição dos EUA em forçar a saída de Díaz-Canel como condição para a continuidade das negociações: "Esse modelo econômico não funciona, e quem está no poder não consegue consertá-lo", afirmou Rubio. "A única coisa pior que um comunista é um comunista incompetente", acrescentou, em alusão direta a Díaz-Canel.

Apesar de o governo cubano ter aprofundado reformas capitalistas cada vez mais impopulares desde pelo menos 2021 — reformas que explicam protestos populares como os de 11 de julho daquele ano — a opção militar permanece em aberto para o imperialismo. Numa escalada da pressão militar sobre Cuba, antecipando uma possível invasão futura, Rubio posou para uma fotografia ao lado do chefe do Comando Sul (SouthCom), General Francis Donovan, com um mapa de Cuba ao fundo. Por ocasião da assinatura da ordem executiva em 1º de maio, Trump disse: “Talvez, no nosso regresso do Irã, quando terminarmos essa missão, interceptemos o porta-aviões Abraham Lincoln, o porta-aviões mais bonito que já vi. Interrompê-lo-emos a algumas centenas de metros da costa [de Cuba]”.

Pela mobilização da classe trabalhadora latino-americana em defesa do povo trabalhador de Cuba

É evidente que a passividade promovida por progressistas como Lula, com suas declarações “tranquilizadoras” sobre as intenções de Trump, não só é contraproducente, como serve ao objetivo imperialista de paralisar a organização da luta popular em defesa de Cuba. O conselho de Che Guevara é particularmente pertinente aqui: “Não se deve confiar no imperialismo nem um pouco”. A paralisia promovida por Lula, Sheinbaum e Petro espelha-se na das organizações políticas do conglomerado progressista e nacionalista burguês latino-americano, que não exerceu nenhuma pressão sobre esses governos para exigir o fornecimento de petróleo. Na Argentina, o peronismo, em suas diversas formas, permaneceu em completo silêncio diante dessa tremenda ofensiva do imperialismo ianque contra Cuba.

Em contrapartida, em setores do sindicalismo combativo e na esquerda independente dos governos progressistas, principalmente na FIT-Unidad (Frente de Esquerda dos Trabalhadores - Unidade), começam a surgir iniciativas de solidariedade operária e popular. No Brasil, o Sindicato dos Petroleiros do Rio de Janeiro (SindiPetroRJ) lidera uma campanha contra o envio de petróleo brasileiro para Israel e a favor do fornecimento a Cuba. Essa iniciativa deve ser apoiada, divulgada e replicada em todo o continente. Em nosso país, nosso partido, juntamente com organizações de piquete, grupos estudantis, organizações de direitos humanos, os partidos da coalizão FIT-Unidad e a esquerda em geral, criou o Comitê Independente de Solidariedade Operário-Estudantil com Cuba. Esse comitê realizará uma manifestação na próxima quinta-feira, dia 14, na Praça do Congreso, e planeja arrecadações comunitárias para enviar ajuda direta aos trabalhadores cubanos.

Esse caminho — a luta organizada de organizações populares que não se alinham à burocracia cubana — é o único que pode pavimentar o caminho para a luta dos povos da América Latina contra as tentativas do imperialismo estadunidense de recolonizar Cuba.