segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Eleições no Brasil: perderam Bolsonaro, Milei e Trump

Um dia após o anúncio da vitória esmagadora da candidatura de Lula sobre Flávio Bolsonaro, no 2º turno, nas eleições presidenciais, o IBOVESPA,  principal índice de ação da bolsa de valores brasileira, despencou vertiginosamente, contrariando as expectativas de mercado que passou por uma sangria, iniciando com o chamado Circuit Breaker, uma paralisação temporária das negociações por conta da alta volatilidade. Logo depois que as transações foram retomadas, o índice derreteu 16,8%, com desvalorizações de até 59% das ações, no início do pregão.
Por outro lado, as empresas exportadoras se beneficiaram com a alta do dólar que chegou a R$ 5,60, obtendo assim preços competitivos no mercado internacional.
A democracia burguesa demonstra assim que em última instância não passa de uma ditadura do capital. 
Aos investidores, o resultado eleitoral contrariou totalmente suas expectativas "de alternância política e maior consolidação fiscal", segundo o Estadão (26/10) e já se fala em "reação internacional sinalizada por uma reprecificação expressiva dos ativos brasileiros.”, ou seja, a reeleição de Lula coloca de saia-justa seu governo que está em fim de mandato e o que assumirá em janeiro de 2027, pelo grande capital financeiro nacional e internacional, na esteira do não reconhecimento por parte do bolsonarismo e do trumpismo da sua esmagadora derrota, e, por outro lado, de um resultado eleitoral tanto no Congresso Nacional, como nos principais governos estaduais, totalmente adverso para o PT e sua Frente Ampla.
O bolsonarismo já indica e dá sinais que não vai sossegar, e que só poderá ser derrotado definitivamente através dos métodos próprios da classe operária, como a organização independente de congressos, assembleias, plenárias com delegados eleitos nos locais de trabalho, moradia e estudo, que aprovem um Plano de Lutas em defesa das necessidades mais prementes dos trabalhadores e da juventude e sinalize com a organização e preparação da Greve Geral contra todas as tendências golpistas que já estão em marcha através das ameaças de Flávio Bolsonaro em pedir judicialmente a anulação das eleições e a cassação da chapa de Lula.

Bolsonaro foi derrotado por mais de 4 milhões de votos


Nas ruas e nas urnas, a extrema direita sofreu um golpe.

Rafael Santos

Bolsonaro foi derrotado eleitoralmente por Lula por mais de 4 milhões de votos (64.171.319 contra 59.790.152 votos). Isso representa um duro golpe para Milei, que se empenhou ativamente e com todas as suas forças, atuando como ponta de lança da direita de orientação fascista em nível mundial, e também para Trump e Marco Rubio, que apostavam em alçar Flávio Bolsonaro ao governo brasileiro. É também um golpe para o genocida Netanyahu, que apoiou abertamente Bolsonaro e que enfrentará eleições na próxima terça-feira.

Lula, que havia perdido por 1,87% dos votos no primeiro turno das eleições, em 4 de outubro passado, venceu agora por 3,52% (51,77% contra 48,23%). Em três semanas, aumentou sua votação em mais de 10 milhões de votos.

Como se produziu essa mudança?

Em primeiro lugar, foi fundamental a reação, em grande parte espontânea, da juventude e, particularmente, dos estudantes universitários. Quarenta e oito horas depois do primeiro turno, a Universidade Federal Fluminense, no Rio de Janeiro, levou dezenas de milhares de estudantes às ruas em uma manifestação contra Bolsonaro. Isso se espalhou como uma mancha de óleo por todas as universidades brasileiras, contagiando as massas trabalhadoras e populares.

Em segundo lugar, e também de forma fundamental, a mobilização se intensificou diante dos rumores de que a direita iria se abster ou votar contra a lei que revogava o regime de trabalho de superexploração 6x1 — jornada semanal de 44 horas de trabalho, de segunda-feira a sábado.

Nas grandes mobilizações populares, entoava-se o chamado para impor a substituição da escala 6x1 por um novo regime 5x2: quatro horas a menos de trabalho por semana, sem redução salarial, com cinco dias de trabalho e dois de descanso. A força da mobilização obrigou os senadores a votar favoravelmente e a flertar, ainda que a contragosto, com as reivindicações populares.

A abstenção foi de 19,08%, diminuindo mais de dois pontos percentuais. Lula venceu em Minas Gerais, onde havia perdido no primeiro turno, e conquistou muitos votos em São Paulo e no Rio de Janeiro, que eram redutos da direita.

A direita conspirou para tentar impedir a derrota de Flávio Bolsonaro. Isso ocorreu não apenas por meio das ameaças e medidas de Trump e do secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, mas também por meio de ações de sabotagem tecnológica contra as redes que defendiam a candidatura de Lula.

Como havia sido anunciado que o transporte seria gratuito no dia das eleições, os empresários conspiraram para retirar veículos de circulação nos Estados e municípios onde se previa que grandes contingentes de trabalhadores e explorados se mobilizariam para votar contra Bolsonaro — Bahia, Recife e determinadas regiões de São Paulo.

Nesta última cidade, constatou-se que 40% dos veículos de transporte estavam nas garagens. O escândalo foi tão grande que obrigou as autoridades eleitorais a prorrogar a votação por duas horas, para que pudessem comparecer aqueles que não conseguiam encontrar transporte. As manobras e ameaças não conseguiram intimidar a mobilização popular.

Mas...

Até o momento em que este artigo foi concluído, apesar de a apuração já estar encerrada, Bolsonaro ainda não havia reconhecido sua derrota eleitoral — e, evidentemente, o mesmo valia para Milei e Trump.

Alerta: qualquer tentativa de desconhecer o resultado eleitoral que derrotou Bolsonaro deve ser respondida imediatamente com mobilização e greve geral.

O panorama político, que analisaremos em próximos artigos, é extremamente difícil. A direita conquistou maiorias nos governos estaduais e nos parlamentos.

É preciso aprender com essa mobilização de massas. Nós, trabalhadores, devemos nos organizar de forma independente para exigir a revogação das leis de reforma trabalhista e previdenciária, combater o trabalho informal e terceirizado e reivindicar que salários e aposentadorias superem a inflação e recuperem as perdas provocadas pelo aumento dos preços dos alimentos e das tarifas, que se desenvolveu durante o governo Lula.

A chapa Lula-Alckmin declarou que prepara medidas para conter o déficit fiscal, cuja origem está em 90% no pagamento da dívida pública usurária. Entretanto, pretende-se que esse ajuste seja realizado por meio da redução dos gastos sociais — saúde, educação etc. — e à custa do bolso dos trabalhadores, com a implementação de novos planos de ajuste econômico.

Por isso, a tarefa é organizar-se de forma independente e exigir, nos sindicatos, nas centrais sindicais e nas organizações de massas, a realização de assembleias e plenárias para votar pautas de reivindicações.

Na Argentina, devemos aproveitar esse golpe contra a direita mileísta-bolsonarista-trumpista para organizar a mobilização dos trabalhadores em defesa de seus salários e contra a reforma trabalhista, assim como a mobilização dos estudantes em defesa do orçamento da educação.

Plano de luta e greve geral. Fora Milei!




quarta-feira, 21 de outubro de 2026

Brasil: derrotemos Bolsonaro e Trump nas ruas e nas urnas

Publicamos aqui a Resolução aprovada pelo Comite Nacional do Partido Obrero da Argentina acerca das eleições presidenciais que estão em curso em nosso País, que possuímos total concordância.
Ressaltamos que a necessidade vital de derrotar o bolsonarismo não somente nos limites eleitorais, mas principalmente através das mobilizações gigantescas que se iniciaram logo após o anúncio dos resultados eleitorais do 1° turno. que expressaram uma vitória esmagadora da direita na maioria dos Estados e no Congresso Nacional conduzida pelo próprio partido do clã dos Bolsonaros, o PL, em última instância não significa em hipótese alguma o apoio à política de alianças e de colaboração de classes do PT e do lulismo, e ao seu programa de governar pra garantir e preservar os interesses do grande capital, que incontestavelmente somente fez reforçar o bolsonarismo e as tendências fascistoides que brotaram frente ao aprofundamento da crise do imperialismo com a escalada da guerra imperialista e da crise do regime político burguês.
Entendemos que a derrota do bolsonarismo conectada com as imensas mobilizações que se esparramam por todo o país deve facilitar e abrir o caminho para que emerja um reagrupamento de forças da esquerda que reivindica e luta pela independência política da classe trabalhadora frente a todas as variantes burguesas e pró-imperialistas, baseado na defesa de reivindicações transitórias como uma ponte para o desenvolvimento da luta por um governo próprio dos trabalhadores da cidade e do campo e pelo Socialismo.



O triunfo de Flávio Bolsonaro sobre Lula da Silva por uma diferença de 1,78% no primeiro turno da eleição presidencial brasileira abre um segundo turno entre ambos os candidatos no próximo dia 25 de outubro. A possibilidade de uma vitória bolsonarista, com o apoio direto de Trump, Marco Rubio, Milei e da direita internacional, provocou grande preocupação entre os trabalhadores, os estudantes e a esquerda do Brasil e da América Latina.

1. As eleições brasileiras fazem parte da ofensiva fascistoide e belicista internacional. Trump e Marco Rubio relançaram uma doutrina Monroe reforçada: a invasão da Venezuela, o sequestro de Nicolás Maduro e de sua esposa e a imposição de um governo que administra um protetorado norte-americano; a fraude eleitoral que levou Keiko Fujimori à presidência peruana, por meio da contagem do voto no exterior nas embaixadas; o apoio, inclusive com armas e munições, a Rodrigo Paz contra o levante indígena, camponês e operário na Bolívia; e o respaldo a Kast no Chile e a De la Espriella na Colômbia. O pacto do Escudo das Américas habilita a intervenção militar e policial sob o pretexto de combater o “narcoterrorismo”, enquanto Washington procura instalar bases na Patagônia argentina, no Equador e em outros países.

Essa ofensiva busca alinhar o continente atrás do imperialismo norte-americano em sua confrontação com a China e com as potências rivais, em meio ao aprofundamento da crise capitalista mundial. O controle dos minerais estratégicos e dos recursos da região integra essa preparação belicista. Tem um antecedente na política desdobrada por Washington em torno da Declaração de Havana de 1940, quando se preparava para intervir na Segunda Guerra Mundial. A conquista do governo brasileiro pelo bolsonarismo reforçaria esse bloco direitista e a pressão por uma mudança de regime em Cuba, inclusive a ameaça de uma intervenção militar.

2. Trump vem intervindo abertamente para tirar Lula do poder e favorecer Flávio Bolsonaro, que anunciou que, se chegar ao governo, aderirá ao Escudo das Américas. As pressões diplomáticas, as tarifas discriminatórias, a ingerência contra as condenações de Jair Bolsonaro e dos golpistas de janeiro de 2023, as ameaças de intervenção contra o narcotráfico e o fechamento da embaixada e dos consulados norte-americanos às vésperas da eleição constituem instrumentos dessa política. Junto com o de Trump, Bolsonaro recebeu também o apoio do genocida sionista Netanyahu. Milei tem atuado como promotor dessa orientação na região. Também não se pode descartar que uma derrota eleitoral de Flávio Bolsonaro dê lugar a novas tentativas de não reconhecimento do resultado e de desestabilização, como ocorreu após a derrota de seu pai.

Uma vitória bolsonarista reforçaria o ataque contra as conquistas operárias e as liberdades democráticas, apoiado nas posições da direita no Congresso e nos governos estaduais. A chacina policial de outubro de 2025 nas favelas do Rio, que deixou 122 mortos, antecipa o alcance dessa orientação repressiva. A eleição de um inspetor de polícia aliado ao bolsonarismo à frente desse governo estadual reforça esse perigo. À ofensiva contra as condições de vida somar-se-ia um novo impulso à ingerência imperialista na América Latina (Folha de S.Paulo, 12/10).

3. A ameaça de um triunfo de Bolsonaro impulsionou grandes manifestações, com participação destacada do movimento estudantil e da juventude. Em 11 de outubro, uma multidão ocupou a avenida Paulista, em São Paulo; a campanha de Lula estimou o comparecimento em um milhão de pessoas. No dia seguinte, houve mobilizações em Copacabana e um festival na Lapa, no Rio de Janeiro, além de ações em outras cidades.

Essas mobilizações têm como centro a disputa eleitoral e o voto em Lula para impedir o triunfo de Bolsonaro. Embora expressem uma disposição de ocupar as ruas e incluam iniciativas surgidas dos próprios participantes, continuam condicionadas política e organizativamente pelo aparato do lulismo, que procura canalizá-las para a campanha e sujeitá-las a seus acordos com a burguesia. Sua massividade não permite afirmar que tenham superado essa direção nem que constituam já uma intervenção independente da classe operária. A possibilidade de avançar nesse sentido depende de uma luta política dentro do movimento, por uma organização e um programa próprios dos trabalhadores.

A incorporação da reivindicação contra o regime de trabalho de seis dias de trabalho para um de descanso mostra, contudo, que a mobilização pode abrir um terreno para as reivindicações operárias. A substituição dessa jornada de 44 horas por outra de 40 horas, distribuídas em cinco dias de trabalho e dois de descanso, sem redução salarial, alcança cerca de 15 milhões de trabalhadores. Bolsonaro e o Partido Liberal pretendiam adiar a votação até a posse do novo Congresso, em janeiro de 2027, e substituir a redução da jornada por horários “livres” pactuados entre patrões e trabalhadores. A pressão popular e o custo eleitoral dessa posição os obrigaram a votar favoravelmente. Flávio Bolsonaro também recuou de sua decisão de não participar dos debates televisivos que começam em 18 de outubro.

Esse recuo não modifica os compromissos patronais do bolsonarismo nem garante a aplicação efetiva da conquista. É necessário defendê-la diante das tentativas de esvaziá-la mediante a flexibilização e o pagamento por hora, e convertê-la em ponto de apoio para recuperar os direitos arrebatados pelas reformas anteriores.

4. Neste quadro, o Partido Obrero (Argentina) convoca a aprofundar as mobilizações e a votar criticamente em Lula no segundo turno de 25 de outubro, para contribuir com a derrota eleitoral do bolsonarismo. Acompanhamos os trabalhadores e jovens que recorrem a esse voto para fechar o caminho à direita e buscamos desenvolver sua disposição de luta. Essa decisão não concede apoio político a Lula, à sua chapa com Geraldo Alckmin nem à sua coalizão com partidos patronais; também não compromete um apoio a um próximo governo. Mantemos nossa oposição à frente popular e à sua política de colaboração de classes.

O governo do PT contribuiu para a recomposição do bolsonarismo ao frustrar as expectativas de recuperação das conquistas perdidas. Manteve a reforma trabalhista de Temer e a previdenciária de Bolsonaro, preservou os compromissos com os credores da dívida pública e subordinou as necessidades populares à “estabilidade econômica” exigida pelo grande capital. A burocracia da CUT e das demais centrais conteve as lutas para sustentar o governo. Essa política desmoralizou e desmobilizou setores dos explorados e deixou o descontentamento dos trabalhadores precarizados, endividados e sufocados pelo custo de vida exposto à demagogia direitista.

No primeiro turno, em 4 de outubro, convocamos a não votar nem no bolsonarismo nem na frente de Lula e Alckmin, este último representante da burguesia liberal. Promovemos o voto no PSTU, apesar de nossas profundas diferenças políticas, como um passo rumo ao reagrupamento de uma vanguarda operária e de esquerda independente das alternativas burguesas. Esse objetivo conserva toda a sua vigência. No segundo turno, em que não existe uma candidatura de independência de classe, o voto crítico em Lula constitui uma decisão para este confronto eleitoral. A luta por uma organização política independente dos trabalhadores deve continuar dentro desta intervenção.

Convocamos a impulsionar assembleias em fábricas, locais de trabalho e sindicatos para decidir a participação coletiva nas mobilizações e votar pautas de reivindicações. Exigimos da CUT e das demais centrais a convocação de um Congresso Nacional dos Trabalhadores que defina um programa e um plano de luta, diante da ofensiva dos governadores e das maiorias parlamentares e da política lulista de negociar à custa das demandas populares. Impulsionamos comitês de ação e coordenações com o movimento estudantil e as organizações populares, com delegados eleitos e mandatos de assembleia, e propomos a frente única a todas as organizações operárias.

O programa deve incorporar as reivindicações que Lula deixou insatisfeitas: recuperação de salários e aposentadorias, aumento emergencial diante do custo de vida, fim da precarização e das demissões, revogação das reformas trabalhista e previdenciária e defesa da educação e da saúde públicas. Sua realização exige enfrentar o ajuste fiscal e o pagamento da dívida à custa das necessidades sociais. Nenhuma reivindicação deve ser adiada para oferecer garantias ao empresariado durante a campanha ou facilitar os acordos de um futuro governo.

A continuidade da organização depois do segundo turno será decisiva, qualquer que seja o resultado. Se Lula vencer, os trabalhadores terão de enfrentar os ajustes e as concessões de seu governo à direita e ao trumpismo; se Bolsonaro vencer, terão de organizar a resistência à sua ofensiva. A força reunida durante a campanha eleitoral só poderá sustentar essa luta se conquistar sua independência política e de organização em relação ao governo e aos partidos patronais.

O Partido Obrero (Argentina) convoca a esquerda que defende a independência de classe a intervir com esta orientação e a reforçar a solidariedade dos trabalhadores argentinos com seus irmãos brasileiros. Uma derrota de Bolsonaro golpearia Trump e Milei. Daria novo fôlego à resistência a Milei na Argentina e à luta contra a direita em toda a América Latina. A tarefa da esquerda é contribuir para essa derrota e disputar com o lulismo a direção dos trabalhadores mobilizados, para que possam enfrentar o governo que surja das urnas e abrir uma saída política própria da classe operária.

Comité Nacional del Partido Obrero (20/10/26)


domingo, 4 de outubro de 2026

NAS ELEIÇÕES, EM DEFESA DA INDEPENDÊNCIA DE CLASSE DOS TRABALHADORES

 

Candidato a presidência pelo PSTU
Guilherme Giordano

Estão em curso as eleições no Brasil que decidirão os cargos da presidência da República, renovação de 2/3 das cadeiras do Senado, num total de 54, sendo duas por Estado da Federação, incluído o Distrito Federal, 513 deputados federais, as assembleias legislativas e os governos estaduais. 

A nível mundial, estão marcadas por uma explosão de rebeliões populares em todo o mundo: "Na França, no Chile, na Alemanha e em Manchester, milhares marcham contra o ajuste dos governos capitalistas e em defesa do povo palestino. As juventudes tomam as ruas pela educação e contra o serviço militar obrigatório. No Estado espanhol, a crise habitacional se intensifica, dando lugar a mobilizações massivas rumo a uma greve geral." (Prensa Obrera, 03/10/2026)

O Partido Obrero dentro da Frente de Esquerda e dos Trabalhadores - UNIDADE argentina adverte: "Mostremos como se luta na Argentina nesta terça-feira, 6/10, nos concentraremos nos Tribunais contra o DNU 70/23 de Milei e sua entrada em vigor por decisão da Corte Suprema, e em 15/10 ocuparemos o Congresso Nacional contra a estrangeirização de nossas terras e pela efetiva implementação da Lei de Financiamento Universitário. FORA MILEI. GREVE GERAL PARA DERRUBAR ESTE GOVERNO DE CAPACHOS E DE AJUSTADORES." (Prensa Obrera, 03/10/2026)

Em pleno desenvolvimento da guerra imperialista iniciada pela OTAN na Ucrânia contra a Rússia, que está  ceifando a vida de milhões de seres humanos, da continuidade do genocídio promovido pelo arquiterrorista e assassino estado de Israel, sob o comando do nazisionismo, com o aval do imperialismo ianque, mantendo também ações terroristas além de Gaza, a Cisjordânia com o avanço da colonização, e através de operações militares e bombardeios em diversos países da região, como o Líbano, Síria e outras frentes de guerra no Oriente Médio, na trilha de seus conflitos contra grupos armados como o Hezbollah e o Hamas, e em países como Iêmen e Catar, a América Latina foi colocada oficialmente na agenda do orçamento de guerra do departamento de estado norteamericano com o sequestro do presidente Maduro da Venezuela, que está nesse momento sob a tutela da colonização trumpista, a intensificação do embargo econômico a Cuba, com o aumento das ameaças de invasão, e os tarifaços, que se constituem em verdadeira declaração de guerra atingindo em cheio e principalmente o Brasil. Especialmente nos posicionamos em defesa do Irã pela derrota do imperialismo ianque e do sionismo e dos guerrilheiros Houthis.

A intromissão sistemática do imperialismo ianque, desde o financiamento e sustentação dos golpes militares em toda a América Latina, não é nenhuma novidade. Com o pretexto de combate ao narcotráfico e ao crime organizado, Trump criou o chamado Escudo das Américas em março do corrente ano, que já atinge 19 países do continente.

Mais recentemente, revelado pelo jornal britânico The Guardian, o imperialismo ianque destinou 1 milhão de dólares, equivalente a R$ 5,1 milhões, com a finalidade de financiamento de um projeto, no Brasil, dirigido a contestar a atuação e decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) 

Há retaliações diplomáticas entre embaixadas, e às vésperas da eleição, os EUA decidiram fechar a embaixada norte-americana em Brasília e todos seus consulados nos Estados da Federação com o rumor de ameaças em sua segurança, constituindo-se como uma clara tentativa de interferência externa no resultado das eleições.
Nessa toada tocada pela crise imperialista é que a polarização entre as candidaturas de Lula, da Frente Ampla e de Flávio Bolsonaro do PL, afogado num lamaçal de denúncias de corrupção, orgias, etc., se intensifica.
Crise de direção do proletariado
Mais uma vez o Programa de Transição, publicado em 1938, de Leon Trótsky, ronda o planeta. Nele, Trótsky caracteriza a crise capitalista mundial e o denomina como A Agonia Mortal do Capitalismo e as Tarefas da Quarta Internacional. 
Tendo como premissa número um a crise mundial do capitalismo, Trótsky prognostica a segunda guerra mundial e caracteriza que as condições objetivas para a revolução socialista haviam amadurecidas, numa escala geométrica, a tal ponto que aproximavam-se do seu apodrecimento. É que as condições subjetivas, ou seja, a consciência do proletariado, um partido operário que expressase conscientemente os interesses da classe operária, caminhava no máximo numa escala aritmética, ou seja, desproporcionalmente à realidade dada. Por isso propõe constituir uma ponte através de reivindicações transitórias que impulsionasse a consciência imediata dos trabalhadores à necessidade da conquista do poder político e da revolução socialista.
Das burguesias nacionais e do imperialismo só se podia esperar com o avanço do nazismo na Alemanha e do fascismo na Itália ("nem chorar, nem rir, compreender!")  a catástrofe da carnificina de uma nova guerra mundial, muito mais destruidora que a primeira, ou seja, da humanidade sendo levada para um verdadeiro inferno. Por isso Trótsky afirma que "a crise da humanidade reside na crise da direção do proletariado", ou seja, a única classe social que poderia evitar todas as consequências terríveis e nefastas de uma hecatombe mundial, que converteu milhões em bucha de canhão. 
E a direção majoritária do proletariado naquele momento estava nas mãos da social-democracia putrefata e do stalinismo moribundo, um cadáver insepulto, segundo um dirigente trotskista boliviano.
Entre a camisa-de-força da Frente Ampla e o fascismo
"As frente populares, por um lado, e o fascismo, por outro, são os últimos recursos políticos do imperialismo contra a revolução proletária".
É sempre bom lembrar que em 1989, a burguesia com o receio de uma possível vitória de Lula nas eleições presidenciais, frustrada pela fraude da soberania popular com o aparecimento de uma candidatura que expressava uma das mais atrasadas oligarquias políticas, a famigerada corrupta e mafiosa República de Alagoas, começou a exigir nos principais jornais do centro do país, em especial O Estadão, que nos seus editoriais exalava o veneno do disciplinamento burguês sobre o PT, a expulsão das correntes trotskistas do partido, para que o mesmo se tornasse "um partido responsável", é claro da ordem burguesa. 
Prontamente, a direção do PT, sob o comando de José Dirceu e sua corrente política, colocou em marcha uma verdadeira caça às bruxas, consumando com a expulsão da corrente política Causa Operária, em seu 1º Congresso Nacional, em 1991. Depois veio a expulsão em acordo da Convergência Socialista.
Por que as correntes, que também se reivindicam trotskistas, Democracia Socialista - DS e O Trabalho permanecem até hoje? E também, logo depois, a ruptura à direita da Convergência Socialista, o grupo que se chama MES no PSOL, pôde retornar à vontade para o PT? O caça às bruxas da corrente majoritária foi executado, em vários lugares, justamente por estas correntes que jogaram na lata do lixo o trotskismo, que de maneira farsesca, reivindicam até os dias de hoje.
A burocracia oficial necessitava de um verniz esquerdizante para colocar em marcha um programa e uma política cada vez mais direitista que tinha como estratégia "governar o estado burguês" no sentido de "democratiza-lo", o "governo para todos". Foram aprofundadas, em decorrência, as chamadas alianças pragmáticas com partidos da burguesia e inclusive com a direita burguesa. A conciliação e colaboração de classes passou a permear um finado partido que era pra ser dos trabalhadores.
Por que lembramos e refrescamos a memória desse período de intensa luta de classes no interior do PT? 
Porque queremos denunciar a corrente Semear do dirigente "trotskista", Valério Arcary, que publicou um documento, cinicamente, utilizando como título o refrão de um verdadeiro hino contra a ditadura militar, do consagrado músico e compositor, o célebre Geraldo Vandré, "QUEM SABE, FAZ A HORA, NÃO ESPERA ACONTECER!" 
O documento em questão, no fringir dos ovos, reclama a retirada das candidaturas independentes (podemos até discutir o grau dessa independência) da esquerda que se reivindica revolucionária, "democraticamente", a saber: PSTU, PCB, UP e PCO.
Na divisão do trabalho da burocracia oficial petista, assim como os que se reivindicam trotskistas, no interior do PT, que ocupam hoje um papel marginal, salvo em um ou outro Estado, essa corrente política que se abrigou no PSOL, depois de ter provocado uma ruptura no PSTU, presta seu verniz esquerdizante para dar continuidade no disciplinamento imposto pela burguesia, num passado recente. A letargia política em que se encontra a base social do PT levou um setor do mesmo a atacar as greves que estavam em curso dos Correios e bancários com a mesma acusação de que supostamente iriam favorecer a candidatura direitista de Bolsonaro filho.
Da nossa parte, frente ao ufanismo político frenteamplista com seu euforismo eleitoreiro (que não ocorreu na ocasião em que o golpismo, capitaneado pelo Vampiro Temer, atacou os direitos trabalhistas e em que o bolsonarismo atacou os direitos previdenciários, com as respectivas infames reformas trabalhista e previdenciária) e o lixo da escória direitista e fascistoide bolsonarista, defendemos as candidaturas do PSTU, não obstante nossas divergências programáticas e políticas, em nome da luta pela independência política dos trabalhadores, por um reagrupamento de forças da esquerda que se reivindica revolucionária, por governos de trabalhadores, pelo Socialismo, contra os governos da guerra e da fome, em todo o mundo.  

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Brasil, a poucos dias da eleição: Lula diante do limite de seu próprio programa econômico

Extraído e traduzido do link: https://prensaobrera.com/internacionales/brasil-a-pocos-dias-de-la-eleccion-lula-ante-el-limite-de-su-propio-programa-economico


Lula da Silva

Pablo Heller

A contradição econômica domina a eleição. Lula chega com desemprego baixo, crescimento positivo e uma inflação que desacelerou, mas quase metade da população considera que a economia piorou. Não é um mistério de “percepção”. Os índices agregados convivem com alimentos caros, aluguéis, endividamento familiar e empregos precários. Esse choque entre a estatística e o bolso estreitou a vantagem do presidente e abriu espaço para Flávio Bolsonaro. (IBGE, setembro de 2026; Quaest, setembro de 2026; Reuters, 26/9). Segundo as últimas pesquisas, Lula teria conseguido abrir uma vantagem de cerca de cinco pontos no primeiro turno. De todo modo, os institutos de pesquisa concordam que, no segundo turno, a eleição será muito disputada e com resultado incerto.

O PIB cresceu 1,9% nos doze meses até o segundo trimestre, o desemprego caiu para 5,4% e a inflação acumulada em doze meses foi de 4,22% em agosto. Mas o Ministério da Fazenda reduziu sua projeção de crescimento para 2026 de 2,3% para 2%. O Banco Central calcula apenas 1,8% em 2026 e 1,4% em 2027. A desaceleração já atingiu o consumo das famílias e os setores mais sensíveis ao crédito. (IBGE, setembro de 2026; Ministério da Fazenda e Banco Central, 22 e 24/9).

A dívida permite visualizar o núcleo do desequilíbrio. Nos doze meses encerrados em junho, o setor público acumulou um déficit primário equivalente a 1,19% do PIB. Quando são incorporados os juros, o déficit nominal salta para 9,99%: R$ 1,318 trilhão. Somente os juros absorveram R$ 1,160 trilhão, 8,8% do PIB. A dívida bruta alcançou então 81,9% do produto e posteriormente chegou a 82,5%. A diferença entre os dois resultados desmente a versão segundo a qual o rombo fiscal seria essencialmente proveniente de aposentadorias, salários do funcionalismo público ou programas sociais. O pagamento aos credores é seu componente dominante. (Banco Central do Brasil, Estatísticas Fiscais, 31/7/2026; Reuters, 24/9).

As taxas elevadas agravam o problema que dizem combater. Embora o Banco Central tenha realizado cinco reduções consecutivas, a Selic ficou em 13,75%, uma das taxas reais mais altas entre as grandes economias. Por sua vez, 52,7% da dívida pública federal está indexada à Selic, a proporção mais alta da série iniciada em 2000. Cada demora em reduzi-la aumenta diretamente o custo financeiro e o volume da dívida. Em agosto, mesmo quando o Tesouro resgatou mais títulos do que emitiu, os juros acrescentaram R$ 88,4 bilhões e levaram o estoque da dívida federal a R$ 9,293 trilhões. (Reuters e Tesouro Nacional, 16 e 28/9/2026).

Formou-se um circuito vicioso. Os detentores de títulos exigem taxas altas diante do risco fiscal; essas taxas aumentam a dívida e servem para exigir um ajuste maior. O gasto social fica submetido ao marco fiscal, enquanto o custo financeiro cresce automaticamente. A dívida transfere recursos para bancos, fundos e grandes patrimônios e lhes permite condicionar o orçamento e a política monetária.

O déficit primário também não pode ser separado do baixo crescimento e da estrutura tributária. A desaceleração reduz a arrecadação; as isenções e os benefícios ao agronegócio limitam as receitas. Em setembro, o governo elevou a previsão de déficit efetivo para 2026 de R$ 52 bilhões para R$ 80,9 bilhões e reteve R$ 16,1 bilhões dos ministérios para cumprir as regras fiscais. A meta é alcançada congelando gastos, e não alterando as relações que alimentam a dívida. (Ministérios da Fazenda e do Planejamento/Reuters, 24/9).

A situação abriu um debate dentro da burguesia. Bancos e fundos exigem sinais fiscais mais duros para assegurar seus títulos. Setores industriais, da construção civil e do agronegócio protestam contra o crédito muito oneroso, que paralisa investimentos e multiplica a inadimplência. Diante de Lula, banqueiros e empresários reivindicaram simultaneamente estabilidade fiscal e taxas mais baixas. A disputa expressa como os custos do endividamento e a rentabilidade financeira são distribuídos entre as diferentes frações capitalistas. (Folha de S. Paulo, 1/9; pesquisa Firmus do Banco Central, 28/9).

A equipe de Lula responde com um ajuste gradual. Promete manter o marco fiscal e alcançar um superávit primário efetivo próximo de 1,3% do PIB em 2030. Estuda limites mais rigorosos para os gastos, mudanças nas regras da saúde, revisão do Benefício de Prestação Continuada (pagamento equivalente a um salário mínimo a idosos com 65 anos ou mais que não tenham meios de se manter e a pessoas com deficiência) e contenção dos reajustes salariais do funcionalismo. Flávio propõe um ajuste de 1,5% do PIB em dezoito meses, privatizações e uma âncora vinculada à dívida. Mudam o ritmo e a intensidade; ambos aceitam que a estabilização deve responder aos credores. (Reuters, 24/9/2026).

A relação entre Lula e o Banco Central condensa essas pressões. Lula critica os juros e aponta, com razão, que eles impulsionam a dívida. Mas preservou a autonomia aprovada durante o governo Bolsonaro e negou um conflito com Gabriel Galípolo, a quem promoveu à presidência do órgão. Galípolo reduziu a Selic em apenas 0,25 ponto por reunião. O Banco Central afirma que a economia precisa desacelerar em 2027 para levar a inflação à meta de 3%: utiliza o esfriamento da atividade e do consumo como instrumento disciplinador, embora as taxas não resolvam os aumentos originados no petróleo ou nos alimentos. (Reuters, 16 e 24/9/2026; Folha de S. Paulo, 1/9/2026).

A autonomia retira a política do Banco Central da intervenção do Parlamento e até do próprio Poder Executivo e a submete a metas definidas com os mercados. Lula protesta contra suas consequências, mas incorpora suas exigências à política fiscal. O ministro do Planejamento reconheceu que a consolidação orçamentária será decisiva para reduzir as taxas durante um novo mandato. O governo aceita ajustar os gastos para convencer uma autoridade que, enquanto isso, encarece a dívida e freia a economia. (Bruno Moretti à Reuters, 4/9).

O mecanismo chega aos lares. Em agosto, 82% das famílias estavam endividadas; 29,9% tinham contas em atraso. Para os setores populares, o crédito completa a compra de alimentos ou adia o não pagamento de serviços. O aumento de 15% do Bolsa Família, cujo piso passará de R$ 600 para R$ 691, oferece um alívio que a extrema direita combate. Mas os R$ 22 bilhões que custará em 2027 são uma fração mínima dos juros pagos anualmente. (Ver “Brasil a uma semana das eleições”, Rafael Santos, Prensa Obrera, 26/9).

Flávio Bolsonaro procura capitalizar o descontentamento com um programa que agravaria suas causas. Privatizações, cortes e abertura ao capital norte-americano transfeririam mais recursos do trabalho para os monopólios. Sua denúncia do déficit exclui os subsídios ao agronegócio, as isenções empresariais e o pagamento de juros. A promessa de equilíbrio encobre uma ofensiva contra salários, aposentadorias e direitos, acompanhada por uma política ainda mais favorável ao capital financeiro.

Advertir sobre esse perigo não transforma o balanço de Lula em progressivo. As greves e a mobilização contra a escala 6×1 e por outras reivindicações sociais colocam outra agenda: salário mínimo equivalente à cesta básica familiar, 36 horas sem redução salarial e serviços públicos financiados por meio da suspensão do pagamento da dívida. A nacionalização do sistema bancário, sob controle dos trabalhadores, permitiria acabar com a usura e orientar o crédito para a habitação, a produção e as necessidades sociais.

A economia que vem desgastando a candidatura de Lula não reivindica uma administração mais eficaz do mesmo circuito. Ela coloca a necessidade de romper o poder dos credores sobre o orçamento e o do Banco Central sobre o emprego e os salários. Flavio oferece um ajuste rápido e autoritário; Lula, uma consolidação gradual compensada por assistência social. Uma política operária independente deve rejeitar ambas as variantes e reorganizar o crédito, os impostos e os gastos públicos em função das necessidades da maioria. Sem essa ruptura, qualquer reivindicação popular continuará submetida ao veto da dívida e dos juros.

Brasil: o voto das mulheres e o limite social de Lula

Extraído e traduzido do link: https://prensaobrera.com/internacionales/brasil-el-voto-de-las-mujeres-y-el-limite-social-de-lula

As mulheres representam 53% do eleitorado brasileiro

Brasil: o voto das mulheres e o limite social de Lula

Pablo Heller

As mulheres representam 53% do eleitorado brasileiro

O voto feminino pode decidir uma eleição que deixou de ser confortável para Lula (as mulheres representam 53% do eleitorado). Nas eleições anteriores, Lula teve uma vantagem expressiva entre o eleitorado feminino. A vantagem que mantém entre as mulheres continua sendo um de seus principais ativos diante de Flávio Bolsonaro, mas já não funciona como uma barreira automática contra a extrema direita. Uma parcela das trabalhadoras que rejeitou Jair Bolsonaro por sua misoginia e por sua gestão criminosa da pandemia agora avalia o governo pelo que acontece na mesa familiar, no transporte e no trabalho. O medo do retorno do bolsonarismo não desapareceu; perdeu a capacidade de, por si só, organizar o voto.

O movimento aparece com nitidez entre as chefes de família, um setor decisivo porque concentra a responsabilidade cotidiana pelos rendimentos e pelas despesas familiares.

Uma das empresas de pesquisa registrou, nesse segmento, 47% para Lula e 27% para Flávio Bolsonaro. A diferença é importante, mas convive com o recuo geral do presidente entre as eleitoras e com o avanço de seu adversário. A pesquisa não descreve um bloco homogêneo: a posição varia conforme a renda, a raça, a região e a religião. Entre as mulheres evangélicas, por exemplo, Flávio obtém uma vantagem significativa, apoiado na rede de igrejas e em uma campanha conservadora contra o aborto e os direitos sexuais (Datafolha/Folha de S. Paulo, 22 e 25/9).

A explicação imediata está no custo de vida. A recente queda de alguns índices não apaga o aumento acumulado dos alimentos nem a distância entre a renda e as despesas indispensáveis. Quem administra uma casa não vota na média estatística: compara o salário ou o benefício social com o preço da carne, do arroz, do aluguel, do gás, da eletricidade e do transporte.

“A perda de apoio a Lula entre as mulheres está associada precisamente ao encarecimento da comida, juntamente com a preocupação com os feminicídios e os danos causados pelas apostas on-line. A percepção tem uma base material: 82% das famílias brasileiras estavam endividadas em agosto e quase 30% acumulavam contas em atraso.” (Clarín, 26/9; CNC-Peic, agosto de 2026).

Lula tenta recuperar esse terreno com um aumento de 15% do Bolsa Família, cujo piso passará de 600 para 691 reais. Uma medida de emergência para tentar reverter o recuo nas pesquisas eleitorais, diante do mal-estar social: o aumento, de cerca de 30 mil pesos argentinos, começará a ser pago somente em 19 de outubro (cinco dias antes do segundo turno das eleições). A medida “aliviaria” milhões de famílias, especialmente mulheres pobres, mas seu anúncio a menos de três semanas da eleição revela a dificuldade do governo: a renda familiar continua submetida aos preços, às dívidas e aos juros. Uma transferência não modifica a estrutura que produz esse sufocamento. O governo preservou o marco fiscal, a autonomia do Banco Central, as reformas trabalhista e previdenciária e o pagamento da dívida pública, que alimenta bancos e fundos (Reuters, 17/9; Folha de S. Paulo, 17/9).

Ao perceber que estava perdendo a vantagem que as pesquisas lhe atribuíam semanas atrás, o governo decidiu proibir as apostas, que se transformaram em uma das fontes de endividamento da população, particularmente dos jovens. O endividamento das famílias trabalhadoras e pobres gira em torno da inflação da cesta básica, dos altos juros bancários das dívidas dos cartões etc. A medida desperta o apoio da maioria da população (particularmente das mulheres), mas será preciso ver se isso contribui para um aumento do voto a favor de Lula, ainda mais quando se trata de uma medida tardia, tomada às pressas na véspera das eleições.

O bolsonarismo não deixou de denunciar que foi o PT quem legalizou as apostas. A Medida Provisória 1.934, que institui essa proibição, deverá ser analisada e aprovada pelo Parlamento dentro dos 120 dias posteriores à sua edição (depois do segundo turno). Por outro lado, isso está longe de resolver o problema, já que o fluxo atual será direcionado para as apostas clandestinas.

A violência de gênero abre outra frente. Flávio explora o aumento dos feminicídios como se sua corrente política não tivesse promovido o armamentismo, a militarização e o ódio contra as mulheres. O lulismo invoca o perigo reacionário, mas evita enfrentar as igrejas, as polícias e os blocos parlamentares que sustentam essa ofensiva porque depende do Centrão (bloco de partidos conservadores que domina o Parlamento). A mesma conciliação bloqueia o aborto legal e limita o combate à violência.

Também pesam as jornadas intermináveis. Milhões de brasileiras conciliam emprego precário, trabalho doméstico e tarefas de cuidado. Por isso, a luta contra a escala 6x1 e por uma semana de trabalho mais curta, sem redução salarial, dialoga diretamente com esse eleitorado. O governo tentou se apropriar da reivindicação, mas não rompeu com os empresários que a rejeitam. Lula não conseguiu fazer com que o Senado votasse a medida antes da eleição, como havia combinado com o “Centrão”. A lei da escala 6x1 continua bloqueada e, certamente, sofrerá depois das eleições novas modificações que a limitem.

A disputa concentra a contradição de toda a eleição. Flávio representa uma ameaça concreta: combina fundamentalismo, autoritarismo e um programa econômico que descarregaria a crise sobre as famílias populares. Mas o recuo de Lula não nasce de uma falha de comunicação. Surge de uma experiência: as melhorias — tímidas e concedidas a conta-gotas — convivem com alimentos caros, endividamento, precariedade e violência, enquanto bancos, agronegócio e grandes empresas conservam seus privilégios.

A conquista das reivindicações das mulheres coloca em primeiro plano a necessidade de independência política em relação às variantes em disputa. É necessário levantar um programa próprio: salário mínimo capaz de cobrir a cesta básica familiar, redução da jornada sem redução salarial, creches, serviços públicos, aborto legal e medidas efetivas contra os feminicídios. O voto das mulheres não deve nem pode ser um reduto eleitoral de Lula, nem um terreno a ser entregue ao bolsonarismo. Pode transformar-se em uma força própria se unir-se à luta da classe trabalhadora por uma saída independente que abra caminho para um governo dos trabalhadores.

domingo, 27 de setembro de 2026

Brasil, uma semana antes das eleições

Extraído e traduzido do link: https://prensaobrera.com/internacionales/brasil-a-una-semana-de-las-elecciones

Uma grave crise institucional.

Rafael Santos

Crise e decomposição do regime político: a tarefa é reagrupar a vanguarda operária de forma independente.

No domingo, 4 de outubro, serão realizadas eleições gerais no Brasil, onde os eleitores elegerão um presidente e representantes dos legislativos federal e estaduais. As pesquisas têm mostrado uma redução na diferença entre o atual presidente de centro-esquerda, Lula, e o candidato de direita Bolsonaro: os dois candidatos que polarizam a corrida presidencial. No primeiro turno, Lula ainda venceria por uma margem estreita. Mas no agora inevitável segundo turno, projeta-se um empate técnico (47,4% a 47,2%). Nas eleições de 2022, Lula venceu o segundo turno por uma margem apertada de 1,8%. A situação se repetiria, com uma margem menor e com Lula atualmente no poder. Mas…

A crise do Supremo Tribunal Federal e as eleições

Como abordamos em um artigo na Revista Em Defesa do Marxismo, o país vem sendo atravessando uma grave crise institucional. O Supremo Tribunal Federal (STF), a Suprema Corte do Brasil, dividiu-se, entrando em confronto público em torno de fortes acusações de corrupção entre seus membros.

Os ministros lulistas e bolsonaristas estão envolvidos em acordos de corrupção pagos pelo banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, que foi esvaziado, deixando 1,5 milhão de poupadores com um rombo de 51 bilhões de reais. Trata-se da maior fraude bancária da história brasileira. Vorcaro aproximou-se do poder e distribuiu “comissões” aos ministros alinhados a Lula e também aos porta-vozes de Bolsonaro.

Segundo os lulistas, a burguesia “liberal” colocou-se ao lado das acusações contra os ministros pró-Lula. Os grandes meios de comunicação (a Rede Globo, a Folha de S.Paulo, etc.) estão fazendo campanha nesse sentido. Um alto dirigente do PSOL, que integra a Frente Ampla do presidente Lula, acusou o companheiro de chapa, o vice-presidente e dirigente do liberalismo brasileiro, Geraldo Alckmin, de intervir, muito pouco, em defesa de seus aliados.

Há preocupação de que Lula e a Frente Ampla percam a eleição.

A realidade social

Por que, em quatro anos de governo, o governo da Frente Ampla de Lula não conseguiu reverter a situação e conquistar o apoio das massas trabalhadoras e exploradas do Brasil?

A Frente Ampla estaria retrocedendo em sua principal base social: os pobres, os trabalhadores menos qualificados, as mulheres, os jovens e os negros.

A situação social não avançou sob o governo Lula. Grande parte das famílias trabalhadoras e pobres, assim como na Argentina, não consegue chegar ao fim do mês com seus rendimentos e vem se endividando. Enquanto o governo insiste que o Salário Mínimo teria crescido 24%, diante de um aumento do custo de vida próximo de 20% (com os cálculos oficiais sob questionamento), a realidade é que a Cesta Básica de Alimentos e Serviços, que é o que pesa no bolso dos explorados, supera 23%. O maior subsídio destinado aos pobres, o “Bolsa Família”, não foi reajustado desde 2022, passando dos 600 reais de então para 691 reais (um aumento de 15%, cerca de 30 mil pesos argentinos), a serem pagos no início de outubro. Essa medida foi tomada às pressas, há algumas semanas, diante da evolução do retrocesso do lulismo nas pesquisas eleitorais.

Isso é acompanhado por outras “promessas”. Lula anunciou outras medidas de emergência: um projeto para que o Sistema Único de Saúde estatal distribua gratuitamente seringas de Ozempic ou outros medicamentos semelhantes a pessoas com obesidade para que percam peso; o refinanciamento das dívidas das famílias com o sistema bancário e de crédito; etc.

Em quatro anos de governo, o lulismo não reverteu as reformas trabalhistas e previdenciárias antioperárias e reacionárias e comprometeu-se, nos círculos empresariais, com novas “reformas” de ajuste caso seja reeleito.

As reformas que introduziu, por exemplo, na área tributária, anulam uma parte do IVA sobre o consumo (que seria aplicado integralmente em 2033), mas aumentam os impostos sobre bebidas açucaradas e alcoólicas. Dizem, cinicamente, que isso seria para preservar a “saúde do povo”.

Estão travadas no Senado reivindicações como o projeto de lei que extingue o regime de trabalho 6 x 1 (seis dias de trabalho por um de descanso, com uma semana de 44 horas de trabalho), reduzindo-o para 5 x 2 (40 horas semanais), o que abrangeria cerca de 15 milhões de trabalhadores, parte deles com carteira assinada; e o projeto já não seria aprovado antes das eleições, ficando sujeito a novas negociações restritivas com a direita e os empregadores.

Trump e Bolsonaro

Bolsonaro explora essa deterioração social acentuada sob o governo Lula. Trump e Rubio aumentaram as tarifas de importação sobre produtos brasileiros, em grande medida para favorecer a campanha eleitoral da direita. Bolsonaro promete que, caso vença as eleições, seu governo não apenas anularia essas barreiras imperialistas, mas também conseguiria uma “chuva de investimentos” norte-americanos (à semelhança da retórica de Milei) em mineração, petróleo, agroindústria etc. O crescimento do Brasil está desacelerando e parte da burguesia “liberal” está sendo tentada a trocar de cavalo no meio do rio. O fato de grandes meios de comunicação estarem aderindo a essa perspectiva indica seu avanço.

A burocracia sindical da Frente Ampla paralisa a reação dos trabalhadores

Essa situação de deterioração social não é respondida por uma onda de reivindicações e mobilizações operárias e populares. As centrais sindicais, em primeiro lugar a CUT, e as organizações de massa dos estudantes, camponeses e inquilinos estão travadas e desorganizam as tentativas de resistência e luta das massas devido à sua subordinação política ao governo de Lula e Alckmin. Dizem que isso é para não provocar a direita e tentar conquistar uma maioria nas eleições que lhes permitiria, então sim, realizar reformas populares. Mas o que estão fazendo é desmobilizar, permitindo que a direita se encoraje. Somente os trabalhadores mobilizados, em luta, podem frear os avanços da direita de Bolsonaro e Trump.

A própria direção da CUT publicou declarações reconhecendo que o custo de vida está elevado, mas afirma que isso é culpa do governo anterior de Bolsonaro. O governo Lula fez manobras com discursos, mas o ajuste contra o povo continua e se aprofunda. Um editorial da direção da CUT (21/9) afirma que as políticas do governo “não conseguiram fazer com que os preços dos alimentos voltassem imediatamente aos níveis anteriores”. A CUT reconhece que o governo da Frente Ampla não conseguiu “fazer com que a comida ficasse barata nem que o problema fosse solucionado. Os preços continuam no nível elevado deixado pelo governo Bolsonaro”. E assim poderíamos continuar em todos os setores sociais: educação e saúde pública etc.

A esquerda lulista pede que a esquerda que se apresenta como independente do governo e as listas da Frente Ampla, em unidade com a burguesia “liberal” antifascista, retirem suas candidaturas para derrotar a direita. (1) A aliança “nacional e liberal” da Frente Ampla é a que vem executando os planos de ajuste contra o povo, enquanto mantém a mobilização popular sob controle.

É necessário recuperar a CUT e as organizações de massa dos explorados para organizar a luta de classes, contra as frentes de colaboração de classes e contra a direita, que avança sobre a passividade e a atomização da resistência operária e popular. Em 4 de outubro, votar na esquerda que se reivindica independente. No PO, apoiamos as listas do PSTU, como um passo elementar para o reagrupamento da vanguarda que se reivindica classista e de esquerda.

  1. “Os signatários deste texto — membros da comunidade acadêmica, professores do ensino fundamental e médio, artistas, trabalhadores, ativistas sociais, defensores dos direitos humanos etc. — reconhecem a legitimidade das diversas candidaturas de esquerda à Presidência da República: Edmilson Costa (PCB), Hertz Dias (PSTU), Rui Costa Pimenta (PCO) e Samara Martins (UP). Apoiada pela coalizão PT, PCdoB, PSB, PSOL, PV, Rede Sustentabilidade e PDT, a chapa Lula-Geraldo Alckmin é a única no campo progressista que conta com as condições eleitorais necessárias para evitar as consequências antidemocráticas e os efeitos econômicos e sociais devastadores que resultariam do retorno do bolsonarismo ao governo da República” (“Manifesto e petição: Em defesa de um Brasil soberano e democrático, contra a barbárie social!”, 21/9/2026).

terça-feira, 22 de setembro de 2026

Brasil: Eleições polarizadas, grave crise de regime

 Extraído e traduzido do link: 

https://revistaedm.com.ar/nota/brasil-eleccion-polarizada-grave-crisis-del-regimen


É evidente que todos os juízes da Suprema Corte são corruptos.

Rafael Santos

As eleições polarizadas previstas para o próximo 4 de outubro no Brasil, entre o atual presidente, o centro-esquerdista Lula, e o direitista Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, que está preso por sua tentativa de golpe, estão desencadeando uma aguda e politicamente sangrenta crise política. Isso está ligado ao colapso e à falência do Banco Master, declarados em novembro passado, que foram descritos como a maior fraude bancária da história brasileira.

Investigações policiais e de inteligência, ordenadas por um relator do Supremo Tribunal Federal (STF), acusam Flávio Bolsonaro de ter recebido 134 milhões de reais em "contribuições" do financista Daniel Vorcaro, dono do banco. Bolsonaro, filho, justificou-se dizendo que se tratava de uma contribuição voluntária para financiar a produção de um filme ((Dark Horse: Cavalo Negro) em homenagem a seu pai, que está preso. As investigações mostram que esse dinheiro foi desviado para contas nos Estados Unidos supostamente administradas pela família Bolsonaro.

Em resposta a essa acusação pública, outro membro do Supremo Tribunal Federal (STF), o ministro André Mendonça (ex-ministro da Justiça e Segurança Pública durante o governo Bolsonaro), divulgou parte do resumo da investigação policial sobre a fraude. Essa investigação já produziu um volumoso dossiê com centenas de páginas contendo transcrições extraídas do celular apreendido do banqueiro Vorcaro. As transcrições incluem conversas que Vorcaro teve com o vice-presidente do STF, Alexandre de Moraes, nas quais ele pergunta "confidencialmente" se a situação era administrável ou se deveria fugir do país. Mendonça também revelou que Vorcaro havia firmado um contrato de "consultoria" com o escritório de advocacia da esposa de Moraes, Viviane Barci, no valor de 131 milhões de reais. Moraes foi o ministro que conduziu o caso contra os golpistas que resultou na prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Insatisfeito com isso, Mendonça decidiu suspender o chefe da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e o diretor de inteligência, Leandro Almada, substituindo-os por homens de sua confiança para obstruir as investigações. Ele foi apoiado nessa ação por outros dois ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), enquanto um terceiro ministro solicitou a revisão da medida.

O vice-presidente do STF, Alexandre de Moraes, retaliou reabrindo o inquérito, aberto há algum tempo, contra o próprio Mendonça por supostamente desenvolver uma campanha de notícias falsas em favor da família Bolsonaro e dos golpistas presos. Enquanto isso, dentro da Polícia Federal, uma dúzia de oficiais de alta patente ameaçou renunciar caso seus superiores fossem afastados. Outro membro do STF, Flávio Dino de Castro (ex-ministro da Justiça de Lula), ordenou a reintegração deles. O presidente do STF, Edson Fachin, teve que intervir diretamente para suspender o inquérito de Moraes contra Mendonça, impedir o pedido de destituição dos ministros e confirmar a reintegração dos chefes da Polícia Federal e da Inteligência aos seus cargos.

 São todos corruptos!

Essa crise no centro do sistema judiciário já havia se manifestado no caso Banco Master. A fraude bancária deixou 1,5 milhão de depositantes afetados por perdas que totalizaram 51 bilhões de reais, dos quais aproximadamente 38 bilhões de reais já foram restituídos a pequenos depositantes com recursos do Fundo Garantidor de Crédito (FGC), entidade “privada” mantida por contribuições mensais do Banco Central e bancos privados associados (0,01%) de todos os depósitos bancários existentes. Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), assumiu a “investigação” do desfalque, mas, na realidade, estava “protegendo” o financista responsável pelo desfalque por meio de diversas manipulações. Em fevereiro, ele foi obrigado a renunciar ao caso quando vieram à tona compras preferenciais feitas pelo banqueiro de ações de um resort turístico pertencente à família Toffoli (20 milhões de reais) e outras transferências para outras holdings (supostamente 35 milhões de reais) que acabaram em contas no paraíso fiscal das Ilhas Virgens Britânicas. A continuação das investigações passou então para Mendonça, que também está encarregado de uma investigação sobre o filho do presidente Lula, "Lulinha", acusado de solicitar favores governamentais.

Porém, o próprio Mendonça é suspeito de ter recebido "favores" do financista preso, Vorcaro, com fundos supostamente oferecidos a ele para um instituto privado de formação profissional e consultoria jurídica, no qual o juiz estaria "envolvido". No início de setembro, Mendonça foi forçado a renunciar à direção do instituto.

Trata-se de uma disputa sem limites, com acusações de corrupção voando entre as diferentes facções do Supremo Tribunal Federal (STF). Cada lado acusa o outro de divulgar relatórios tendenciosos do inquérito sobre o desfalque bancário para prejudicar Lula ou Bolsonaro e influenciar drasticamente o curso da campanha eleitoral.

Por fim, o Supremo Tribunal Federal (STF) propôs que todas as investigações realizadas sejam tornadas públicas (e não apenas partes selecionadas). Mendonça se opõe a isso, argumentando que colocaria em risco a continuidade da investigação. (É provável que isso seja adiado para depois das eleições de 4 de outubro.)

Estamos testemunhando uma crise de poder dentro do Supremo Tribunal Federal e entre os diversos poderes do Estado. Todos são corruptos. Trata-se de uma casta corrupta que usa seu poder no Estado para defender os interesses particulares das classes dominantes e enriquecer-se manipulando o sistema judiciário. Moraes, cinicamente, "refletiu" sobre a necessidade de desenvolver um "código de ética" para os membros do STF. A "ética" dos funcionários capitalistas é fazer o que for preciso para encher os bolsos, ocultando seus negócios ilícitos.

No Senado, inúmeros pedidos de impeachment foram apresentados para destituir Moraes e outros ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). A eleição popular (e subsequente destituição por voto popular) de juízes pode ser um passo democrático, mas não eliminará a corrupção capitalista, o que só é possível com um governo operário.

A tentativa de destituir o chefe da Polícia Federal pelo ministro alinhado a Bolsonaro foi comparada a uma tentativa parcial de golpe de Estado.

Campanha eleitoral e ofensiva direitista

Na edição anterior da revista Em Defesa do Marxismo nº 99 (online), observamos que Lula havia, por um lado, firmado um acordo político com os presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado para agilizar a tramitação de certos projetos de lei durante este curto período pré-eleitoral e, por outro, por meio de uma série de concessões, estabelecido uma trégua superficial com a ofensiva declarada (imposição de novas tarifas, etc.) dos Estados Unidos. Mas alertamos: “Isso não significa que Trump e Rubio abandonarão seu apoio ao filho de Bolsonaro para derrotar Lula na eleição presidencial…”

As esperanças do governo por uma certa paz pré-eleitoral foram frustradas por esta crise institucional. Isso ficou evidente nos eventos promovidos pela direita para o Dia da Independência do Brasil (7 de setembro). Em um comício realizado na Avenida Paulista, em São Paulo, embora menor do que em anos anteriores — com a presença de cerca de 30 mil pessoas —, faixas foram erguidas proclamando “Moraes é Lula”, “Fora Moraes, Fora Lula”, “André Mendonça: herói nacional”, e balões gigantes retratavam Donald Trump de um lado e Lula vestido de prisioneiro do outro. Foi um evento de “unidade” da direita, que também contou com a presença de representantes e candidatos de outros partidos de direita. O candidato Flávio Bolsonaro prometeu abertamente defender o Supremo Tribunal Federal (STF) contra a família Moraes e, se eleito presidente, nomear “homens e mulheres que se manifestaram contra o aborto, as drogas e a ideologia de gênero”. (Cabe ressaltar, no entanto, que Lula compartilha da mesma oposição de Bolsonaro ao direito ao aborto.)

Marco Rubio, chefe do Departamento de Estado dos EUA, afirmou que: “A liderança de Lula no Brasil representa um obstáculo direto aos interesses estratégicos dos Estados Unidos no Hemisfério Ocidental” (Resumo Latinoamericano, 11/09). Trump quer alinhar toda a América Latina ao tratado “Escudo das Américas”, assinado em março deste ano, que autoriza a intervenção imperialista, inclusive militar, contra o narcoterrorismo. Vale lembrar que Trump e Rubio acusaram o Brasil de abrigar grupos narcoterroristas entre as quadrilhas de narcotráfico que atuam no país.

Por ora, o projeto que seria votado no Senado para revogar o regime de trabalho superexploratório 6x1 (6 dias de trabalho para um de descanso, com uma semana de 44 horas) e substituí-lo por uma semana de trabalho 5x2 (com 40 horas de trabalho por semana e sem redução salarial) teria sido adiado "até depois das eleições", rompendo o acordo que Lula havia estabelecido com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, das fileiras do "Centrão"conservador.

A Frente Ampla conservadora

No dia 7 de setembro, uma cerimônia oficial e um desfile militar também foram realizados em Brasília, com a presença de aproximadamente 10 mil pessoas. O evento foi realizado sob o lema "Soberania: a força que une o Brasil". No entanto, Lula, tentando se adaptar à pressão de Trump/Rubio e da direita, recuou em sua postura "soberanista" e não compareceu à reunião anual do BRICS em Nova Déli para evitar irritar o grupo, apesar de ser um de seus fundadores.

Em São Paulo, as forças da Frente Ampla realizaram um comício na Praça da Sé com baixa adesão (justificada pela temperatura de 10°C) sob o lema "Em defesa da Terra, da Paz e da Moradia, levantamos nossas vozes: Mulheres Vivas e Soberania". Como um ato de apoio ao governo Lula, organizado em parte por setores da pastoral católica (que distribuiu cerca de 2 mil cafés e refeições para pessoas em situação de rua), foi uma manifestação muito pequena, com apenas alguns milhares de participantes. Nenhum dos slogans do evento está sendo promovido pelo governo da Frente Ampla. Em relação à terra, é a direita que está "doando" terras públicas para capitalistas de compadrio (mais de 100 mil hectares em São Paulo). Há muita retórica sobre os direitos das mulheres, mas o direito ao aborto não está sendo promovido, apesar de, segundo estatísticas oficiais (incompletas), sua prática clandestina tirar a vida de dezenas de mulheres todos os anos, deixando milhares mutiladas por negligência médica (especialmente mulheres negras ou mestiças). Esses não foram atos de mobilização pela soberania, nem nada do tipo. O evento terminou com uma missa na catedral.

Em 16 de agosto, Lula lançou sua campanha eleitoral da Frente Ampla no estádio de Vila Euclides, no cinturão industrial de São Bernardo, na Grande São Paulo (local da histórica assembleia geral dos metalúrgicos que iniciou a greve geral contra a ditadura há mais de cinco décadas), onde, segundo números oficiais, compareceram cerca de 40 mil pessoas. No evento, Lula anunciou a plataforma eleitoral, chamada "Construindo o Futuro". (Parece ser uma tendência entre o nacionalismo burguês latino-americano: Kicillof também lançou seu "Movimento Direito ao Futuro" em setembro passado.) Nela, ele pinta um quadro inexistente de progresso para as massas e desenvolvimento nacional. Mas a realidade é outra: seu governo foi marcado pela austeridade, que aprofundou os cortes no orçamento público, especialmente nas áreas sociais (saúde, educação, etc.). Lula se vangloria de ter imposto um "quadro fiscal" que proíbe o aumento dos gastos sociais acima de 2,5% da inflação (a proibição não se aplica ao pagamento de juros da crescente dívida pública). O novo ministro da Fazenda, Darío Durián, está agora empenhado em aprofundar essa restrição fiscal, reduzindo os limites de gastos do “quadro fiscal” para no máximo 1,5% da inflação. Ele já aprovou uma lei com restrições significativas à saúde pública e à educação estaduais para o próximo debate orçamentário e anunciou uma nova reforma do sistema previdenciário que começará com o aumento da idade de aposentadoria. “A opinião de Durián é a de Lula”, afirma o jornal Folha de S. Paulo. A polarização econômica e social se agravou. O chamado índice de Gini, que mede o grau de desigualdade de renda, mostra que ela aumentou em quase 2%, em detrimento dos mais pobres. Assim como na Argentina de Milei, 82% das famílias estão endividadas e lutam para fechar as contas. O custo dos alimentos, o trabalho informal e o desemprego juvenil estão em alta. Assim como o kirchnerismo, que fala de uma “década de ouro”, a situação pintada pelo governo Lula está distante da realidade.

As conquistas antioperárias de Temer e Bolsonaro (reformas trabalhistas e previdenciárias) não foram revertidas. Não só estão sendo implementadas, como ameaçam se aprofundar sob um futuro governo Lula.

É revelador que a propaganda eleitoral da direita de Bolsonaro não mencione medidas de austeridade contra o povo, enquanto o governo Lula insiste em se apresentar como o garantidor da redução do déficit (às custas de investimentos sociais e isenções fiscais para grandes empresas) e da ordem fiscal.

Lula se vangloria de ser um “grande negociador”, de suas “habilidades de manobra” política, mas não conquistou a classe trabalhadora, que está atolada em condições de vida estagnadas e miséria social. A lei para revogar a jornada de trabalho 6x1, que reduziu a carga horária semanal, permanece estagnada e provavelmente continuará sendo “negociada” para baixo, é claro. As organizações operárias e de massas (CUT, MST, UNE, etc.), lideradas por burocracias alinhadas a Lula e à Frente Ampla, estão paralisadas, imersas no apoio ao governo da Frente Ampla e evitando a luta "para não provocar uma reação da direita fascista".

Democratas da Frente Popular e direitistas com tendências fascistas

A situação descrita acima ameaça um revés para a Frente Ampla. Pesquisas de opinião pública recentes indicam que o movimento de Bolsonaro ganhou terreno e, em alguns casos, até ultrapassou (ligeiramente) o de Lula na intenção de voto popular.

Valério Arcary, líder nacional do PSOL (representando a Corrente Semear/Sembrar, que unificou as organizações Insurgencia e Resistencia), acaba de emitir um diagnóstico dramático: "A possibilidade de Lula perder as eleições é perigosa e iminente". "Semear o futuro em um Brasil Socialista" alinha-se ao projeto "Construindo o Futuro" de Lula. Segundo essa direção do PSOL, o primeiro passo é derrotar a direita fascista votando em Lula e na Frente Ampla de Alckmin, e então, em um segundo momento, empreender a luta por "novos direitos sociais". Eles pretendem que a oposição operária e de esquerda abandone suas candidaturas independentes e apoie a Frente Ampla. A força dominante seria então a luta contra a direita fascista. Mas o que o PSOL não leva em consideração é que Lula, nos últimos quatro anos de seu governo, não fez nenhum progresso na revogação das medidas reacionárias e antioperárias impostas por Temer e Bolsonaro; pelo contrário, ele as está aprofundando com novos cortes seletivos. Para o PSOL, um dos objetivos é manter um acordo com os setores liberais da burguesia, dos quais a Frente Ampla, com Alckmin como candidato a vice-presidente, seria uma expressão. Mas esses setores “liberais” estão longe de ser progressistas: são o motor da contínua imposição de medidas de austeridade contra as massas trabalhadoras e exploradas. Eles querem estancar a iminente recessão econômica cortando investimentos sociais e impedindo um aumento excessivo do custo da dívida pública. Lula se esforça para lhes dar garantias nesse sentido. Sua declaração pública de que não é de esquerda não foi ingênua. A direita de Bolsonaro promete à burguesia uma enxurrada de investimentos de Trump (como Milei) caso Bolsonaro vença.

A Frente Ampla de Lula e o PT formam uma aliança de colaboração de classes, onde os trabalhadores são subordinados à burguesia "nacional e liberal".

Joaquim Soriano, vice-presidente do PT, afirma que as duas etapas devem ser unidas: a luta eleitoral contra a direita e a luta pelos direitos dos trabalhadores. Mas são apenas palavras vazias: o PT e as organizações de massa que lidera não são uma força motriz da luta operária, mas sim um freio e uma desorganização das tendências combativas que emergem das massas. Agora, por exemplo, iniciou-se uma greve de bancários, principalmente os da Caixa Econômica Federal e do Banco do Brasil, dois dos maiores bancos do Brasil, contra a assinatura de um péssimo acordo coletivo de trabalho pela burocracia sindical, que apresenta como vitória um aumento equivalente ao custo de vida medido pelo INPC (Índice Nacional de Preços ao Consumidor), mais meros 0,6%! As propostas da direção burocrática (Contraf-CUT) foram rejeitadas três vezes. Agora, essa liderança assinou o acordo, ignorando as reivindicações das assembleias de trabalhadores da Caixa de São Paulo, que votaram com 68% de rejeição, exigindo um aumento salarial maior e melhores serviços médicos. Declararam greve por tempo indeterminado, que já dura vários dias. Dezoito organizações de base do Banco do Brasil também votaram contra o desastroso acordo, mas a CUT (Central Unica dos Trabalhadores, principal central sindical) permanece em silêncio.

Essa não é a maneira de deter a direita. Pelo contrário, a desmobilização da classe trabalhadora e do povo a fortalece. Sindicatos e organizações de massa de camponeses, inquilinos, estudantes e outros grupos explorados devem se levantar para lutar por suas reivindicações há muito negligenciadas, uma luta que pode varrer a direita do mapa.

O PSOL (Partido do Socialismo e Liberdade) atua como mero apêndice da Frente Popular, ao lado da burguesia "nacional e liberal" e da burocracia sindical, que, objetivamente, age como guardiã dos interesses dos patrões.

A crise e o conflito dentro do Supremo Tribunal Federal (STF) fizeram com que grande parte da esquerda apoiasse Moraes. De modo geral, a esquerda acolheu a aliança entre Lula (representando o Poder Executivo) e Moraes (representando o Judiciário) como forma de defender a democracia contra o avanço do fascismo. Uma declaração recente das federações sindicais, liderada pela CUT, afirma: “É urgente garantir a independência, a autoridade e a credibilidade do Supremo Tribunal Federal (STF), da Polícia Federal, da Procuradoria-Geral da República e das demais instituições da República. O pleno funcionamento dessas instituições é expressão de uma democracia saudável e atuante.” Eles depositam sua confiança no presidente do STF, Edson Fachin, assim como Lula fez anteriormente com Moraes (de quem agora se distanciou em meio a alegações de corrupção). Os sindicatos estão se posicionando ao lado do STF, que repetidamente tem se posicionado contra as reivindicações dos trabalhadores em suas decisões (permitindo que acordos em nível empresarial que reduzem salários prevaleçam sobre acordos coletivos; estabelecendo que os trabalhadores tinham que arcar com os custos de quaisquer ações trabalhistas perdidas, o que fez com que esses casos caíssem 40%, além de uma longa lista de outras medidas antioperárias).

A declaração das federações sindicais afirma “em nome dos trabalhadores brasileiros” que “a democracia brasileira é superior a qualquer interesse pessoal, político ou eleitoral, e deve prevalecer sobre todos eles”. Este é um argumento falacioso: a democracia corrupta dos exploradores brasileiros não pode estar acima dos interesses de milhões de trabalhadores e explorados.

O PSOL Frenteamplista

O PSOL está totalmente submergindo em uma política oportunista e eleitoreira. Acabaram de divulgar um comunicado pedindo votos para sua lista dentro da Frente Ampla (coligação de Lula) para aumentar o número de representantes femininas. Para eles, um aumento no número de mulheres seria prova de progresso na luta pela libertação feminina. Será que não importa se uma representante defende o capitalismo ou os interesses da classe trabalhadora? Para tanto, anunciaram a formação de um hipotético bloco feminino futuro que lutaria por seus direitos, composto por representantes femininas de outros partidos (PT, etc.). Já não surpreende que a luta pelo direito ao aborto não esteja incluída na plataforma para a formação desse bloco feminino.

Constitucionalismo do MRT/PTS

Em nosso artigo anterior, publicado na EDM, já havíamos chamado a atenção para o fato de que o Movimento Revolucionário de Trabalhadores (MRT, associado ao PTS da Argentina e membro da Corrente da Revolução Permanente - Quarta Internacional, CRP-CI) ainda não havia definido um posicionamento eleitoral. Três semanas antes da eleição de 4 de outubro, a situação permanece inalterada. Em vez disso, o MRT se engaja em polêmicas contra a moderação com setores do PT que propõem a eventual formação de um bloco combativo no próximo parlamento. Para uma corrente militante, a participação na campanha eleitoral também é um campo de batalha contra candidatos e alternativas capitalistas. No contexto brasileiro, é necessário convocar um boicote tanto à direita Bolsonarista, quanto à frente de colaboração de classes liderada por Lula, e reagrupar o voto de vanguarda em torno de uma alternativa de independência operária, caso exista. No caso do Brasil, essa alternativa se manifesta nos candidatos apresentados pelo PSTU (Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado).

Como afirmamos em nosso artigo anterior publicado no EDM, apoiamos as listas do PSTU — com as quais temos divergências políticas significativas — a fim de reagrupar um voto independente da classe trabalhadora em torno do objetivo declarado de lutar “por um governo da classe trabalhadora e dos pobres”. Sua lista inclui não apenas líderes sindicais da ConLutas, mas também representantes de outras tendências de esquerda que romperam com o PSOL, denunciando sua política oportunista de colaboração de classes.

Em contrapartida, o MRT lançou uma campanha abstrata (na realidade, diversionista) pela reforma constitucional. Parte da premissa de que “a Constituição de 1988 foi fruto da mobilização social contra a ditadura e incorporou importantes conquistas alcançadas pela classe trabalhadora e pelos movimentos populares” (editorial do Esquerda Diário, 8 de setembro, reproduzido pelo Izquierda Diario, da Argentina). O editorial caracteriza a direita alinhada a Bolsonaro como defensora de uma mudança reacionária na Constituição vigente: “Agora, diante da crise do Caso Master, um setor de grandes corporações defende mudanças no regime político numa tentativa de aumentar o poder e a influência de banqueiros e do grande capital…”. Argumenta que os trabalhadores deveriam ter seu próprio projeto constitucional, pressionando pela convocação de uma assembleia constituinte. “Se os setores mais reacionários querem mutilar ou reescrever a Constituição pela direita, sob a tutela de banqueiros, precisamos de uma resposta popular dos trabalhadores”, afirma o MRT/PTS no editorial citado. “A solução deve ser lutar por uma Assembleia Constituinte Livre e Soberana, imposta pela luta, que permita à maioria discutir e decidir sobre os fundamentos políticos, econômicos e sociais do país”, é a proposta do MRT/PTS. Na Argentina, também afirmaram que, caso cheguem ao poder, convocarão eleições para uma assembleia constituinte. Uma proposta democratizante.

“Se os trabalhadores do Brasil entrarem em cena com suas próprias forças, unindo suas lutas econômicas à batalha por uma solução política revolucionária para esta crise, será possível avançar no desafio a esta sociedade de exploração e opressão desde suas raízes”, conclui o editorial. Na atual disputa eleitoral entre duas facções políticas burguesas, com características distintas, que implementam medidas de austeridade contra os trabalhadores de maneiras diferentes, é necessário produzir um reagrupamento independente de classe. Embora o PSTU seja um partido minoritário, é imprescindível que se manifeste e faça campanha para que a vanguarda operária e a luta dos explorados no Brasil votem nele. E não deve flertar com setores “combatentes” do PT, propondo soluções “estratégicas” sem confrontá-los concretamente no campo eleitoral. Essa é uma abordagem vergonhosamente abstencionista, funcional a um flerte com a esquerda lulista, de olho no futuro pós-eleitoral. Seria de se esperar que os camaradas do MRT/PTS mudassem de posição e se comprometessem com esse reagrupamento eleitoral de classe contra a frente popular do nacionalismo burguês de centro-esquerda e a direita de Bolsonaro.

Diante da crise e das eleições

A tarefa fundamental que se apresenta à vanguarda operária e às correntes de esquerda é a de recuperar os sindicatos e os movimentos dos explorados como instrumentos de luta por suas reivindicações. Isso significa expulsar as burocracias corruptas subservientes ao governo e aos partidos burgueses e estabelecer uma política de independência política e organizacional para a classe trabalhadora e os explorados. A verdadeira revogação do regime trabalhista 6x1 deve ser alcançada por meio da mobilização independente da classe trabalhadora. O PSOL, por outro lado, acredita, assim como Lula, que "agora depende unicamente do presidente da Câmara, Davi Alcolumbre, para conduzir o fim dessa jornada desumana através da sessão plenária para a votação parlamentar" (Boletim Semanal do PSOL). Mas a lei (muito limitada) está sendo adiada. Apoiar as lutas dos trabalhadores (bancários, carteiros, etc.) e exigir a revogação da lei 6x1 como primeiro passo para retomar a luta pela revogação das reformas trabalhistas e previdenciárias prejudiciais aos trabalhadores exige uma mudança de rumo da CUT e de outros sindicatos. A plena independência dos trabalhadores é essencial: assembleias, plenárias e órgãos de coordenação; e um congresso extraordinário com delegados eleitos pelas assembleias da CUT e do movimento operário em geral é necessário. Nesse contexto, votar na esquerda nas eleições de 4 de outubro é apenas um pequeno, mas crucial, passo para nos distanciarmos da colaboração de classes.