domingo, 31 de janeiro de 2016

O BRASIL EM CRISE: DEPRESSÃO, IMPEACHMENT E AJUSTE!

                                                
                             



 SOMENTE A INDEPENDÊNCIA POLÍTICA DO TRABALHADORES PODE GARANTIR SUA VITÓRIA NAS PRÓXIMAS LUTAS!

                                                                             

                                               David Lucius
                                               Colaboração de Guilherme Giordano   


                    A CONJUNTURA POLÍTICA, ECONÔMICA E SUAS PERSPECTIVAS:



       A atual crise política e econômica, em seu conjunto, pode ser considerada uma das maiores que o Brasil já enfrentou nos últimos 70 anos, e talvez ao longo de toda sua história.

Pela sua extensão, intensidade, profundidade, assim como, por concatenar de forma direta uma enorme e avassaladora crise econômica com uma das maiores crises políticas já vivenciadas por nosso país, concluímos que estamos diante de uma crise impar, singular, sem precedentes e de grandes conseqüências, que deve alterar significativamente o curso do atual regime político, sendo que o seu desenvolvimento e o seu desfecho são, por enquanto, ainda totalmente imprevisíveis. 

Abre-se um profundo período de instabilidade em nosso país, com suas inúmeras variantes e possíveis desdobramentos, no qual não deve ser descartado, em nenhuma hipótese, um acirramento da atual crise, tanto como conseqüência dos setores e frações da burguesia que lutam entre si por seus interesses econômicos diretos e pelo controle do Estado, como em decorrência de um choque frontal entre o movimento de massas (que se desloca do eixo de gravitação do PT e da frente popular de colaboração de classes que governa o país) que estava parcialmente contido e represado, mas que agora inicia paulatinamente um processo de ruptura com o PT e seus satélites, isso de um lado, assim como o colapso de todo o regime político (e até mesmo de parcelas do próprio Estado), de outro.

A possibilidade de que essa crise se aprofunde e que, com a intervenção direta das massas, transforme-se em uma crise pré-revolucionária (ou até mesmo revolucionária!) não deve ser descartada para o próximo período. A possibilidade de que haja um ascenso das lutas populares e que, com isso, se amplifique com mais profundidade e intensidade a crise política e econômica, deve ser uma tendência no cenário dominante para todo o próximo período. Tudo dependerá da concatenação e do desenvolvimento ulterior desta crise, e principalmente, dos efeitos com que a crise mundial do capitalismo afetará, tanto o mercado mundial, como os demais países em seu conjunto, especialmente a América Latina, e de como tudo isso afetará o Brasil e como as diversas classes sociais reagirão ao desenvolvimento e aos efeitos desta crise. O Brasil passou, em poucos anos, de pais “blindado” contra a crise (na verdade, o governo ocultava e postergava os seus reflexos) para um dos países mais vulneráveis do mundo aos efeitos diretos da crise mundial, diante disso, o futuro de nosso país está indissoluvelmente ligado ao desenvolvimento da crise mundial. 

A probabilidade, mesmo que latente, de um grande ascenso e radicalização dos trabalhadores e das massas (diante da intensidade e profundidade da crise) coloca, em última análise, todo o regime político diante do dilema de qual deve ser a “intensidade” que o ajuste deverá ter sobre a grande maioria da população. Ajuste esse que a grande burguesia necessita aplicar para manter um dos negócios mais parasitários e lucrativos para o seu bolso: os altos juros que alimentam os títulos da dívida pública, e que só em 2015 subiram 21,7%, chegando ao patamar histórico de 2,79 trilhões! Chegando ao gasto de 367 bilhões somente com o pagamento de juros em 2015. Não se precisa de muita sapiência e nem de uma análise política e econômica muito profunda para chegarmos à conclusão de que o aumento exponencial da dívida pública, somado com o ajuste fiscal, e potencializado pelo aumento do desemprego e da profunda recessão atual levará o país para um grande vórtice econômico, político e social.

O “saneamento” das contas públicas é a prioridade para o grande capital que além da exploração do trabalho assalariado, vive também de forma parasitária em suas relações com Estado e, logicamente, dos juros pagos pelos títulos da dívida pública. Dai resulta o “ajuste de austeridade” que tanto o governo como a oposição burguesa discutem, para sanear as contas do Estado e garantir o pagamento aos grandes investidores.

Tanto os principais setores do capital nacional como do capital internacional (imperialista) tem um acordo sobre impor o ajuste sobre as costas da maioria da população. O Brasil possui uma das 10 maiores reservas internacionais do mundo (superior aos 350 bilhões de dólares), grande parte investidos nos títulos do tesouro norte-americano, um valor que é três vezes superior ao de países com França, Itália, Alemanha ou Inglaterra! Por acaso algum setor da burguesia ou de sua imprensa reivindica que uma parcela desse dinheiro seja resgatado imediatamente como forma de sanear as contas do governo? Lógico que não! O programa da burguesia é que o ajuste caia nas costas da classe trabalhadora, somente entram em choques internos e contradições, entre suas diferentes frações. O impasse político é, principalmente, de quem, quando, como e em que grau, se aplicará o ajuste econômico de austeridade sobre as massas mais desfavorecidas.

Os diversos setores da burguesia lutam, entre outras coisas, para decidir qual tipo de ajuste será realizado, por uma maior fatia diante da rivalidade selvagem do mercado e para aumentar os seus lucros diante da debacle econômica que atravessa o país. A atual pugna política expressa os interesses econômicos em conflito. A luta pelo poder tem como pano de fundo a competição entre os diversos setores e frações da burguesia ante uma economia em profunda recessão (uma depressão econômica), então o controle do Estado e de seu governo torna-se uma questão obrigatória para cada uma dessas frações, desatando uma luta intestina, e as vezes autofágica, pela própria sobrevivência. O número de empresas fechadas entre 2010 e 2015 ultrapassa a cifra de 1 milhão, lógico que nessa conta estão computadas desde as micros até as grandes empresas, mas o número é avassalador e passa uma ideia da magnitude da crise que deve continuar intensamente no ano de 2016. O aumento do desemprego, a inflação e a recessão em conjunto, após um longo período de expansão e estabilidade, pode levar a que uma grande parcela da população se revolte contra todo o regime político. Além disso, não podemos nos esquecer que cada fração da burguesia ganha mais ou menos com cada quadro econômico e com diferentes políticas econômicas e cambiais, dai resulta as contradições internas que explodem, como parte da luta política.

Temos que acompanhar com atenção qual será o comportamento dos trabalhadores e da juventude nas próximas lutas para determinar se haverá um ascenso dessas lutas, e se houver, qual será a sua intensidade. A capacidade e a margem de manobra, tanto para os setores aliados ao PT e ao governo Dilma, quanto dos setores da oposição burguesa, para conter um grande ascenso de luta por parte dos trabalhadores, da juventude ou até mesmo da classe média (como o de 2013) está cada vez mais estreito. Um regime político totalmente desmoralizado não pode e não tem capacidade política de exigir das massas que tudo permaneça como está! A crise ameaça incendiar o ânimo da maioria da população, mas os bombeiros do regime político não estão em condições de apagar incêndios, muito pelo contrário, cumprem, sem querer, a função de verdadeiros incendiários, e isso coloca mais um agravante em toda a crise, que tende a deteriorar-se diante da falta de alternativas ou perspectivas imediatas.

A atual crise tem componentes políticos e econômicos, que se desenvolvem de forma isolada, porém que se fundem diante do acirramento e atomização da mesma. A ausência de setores tanto da situação, quanto da oposição burguesa, que não estejam afetados ou contaminados pelos inúmeros escândalos de corrupção e pela chantagem e pelos conchavos políticos, coloca um dilema diante da impossibilidade de uma alternância de governabilidade que possa ser feita de uma forma estável e segura. A ausência, na atualidade, de uma alternativa política burguesa que esteja de fora de toda essa crise, e que, portanto tenha capital político suficiente para impor medidas mais draconianas contra as massas, coloca sérios limites para a política do ajuste fiscal. Mas o butim pelas parcelas de poder que ainda podem ser saqueados é alvo de disputas e contendas pelos dois principais blocos em disputa, e em vez de funcionar como um atenuante, a disputa eleitoral transforma-se em mais um dos potencializadores da crise.

O impasse gerado pela falta de alternativas políticas que não estejam afetadas pelo desgaste diante das massas e pelos escândalos de corrupção demonstra que estamos diante de uma crise de todo o regime político. Outro fator que demonstra a profunda crise do regime político é que em todas as propostas de saídas, variáveis políticas ou de futuros governos burgueses temos como lugar comum o PMDB, um dos partidos mais fisiológicos de todo o regime político burguês. Um partido que funciona como âncora de todo o regime em putrefação. Tanto um governo do PT, quanto um do PSDB, irão, com certeza, pactuar com esse partido que é o sinônimo de toda a corrupção de todo um sistema. Sinal de que qualquer mudança que houver, por mais profunda que for na aparência, não será, em essência, mudança alguma, apenas uma nova forma de apresentar tudo que já está ai. O regime está apodrecido até a medula. Pior: não consegue apresentar uma saída ou alternativa institucional para contornar a crise. O esgotamento do regime político chegou a seu próprio limite. Só haverá mudanças profundas diante da ação e da luta das massas e da classe trabalhadora.

Um dos marcos de toda essa crise são os inúmeros escândalos de corrupção que assolam o Brasil. Temos que deixar claro que a corrupção é, historicamente, um dos meios usuais no qual o capitalismo (e logicamente a burguesia e o grande capital) se utiliza para corromper, cooptar e aumentar seus lucros. Inexistem países capitalistas onde não tem ou tiveram governos, governantes e empresas corruptas em algum momento de sua história. Só uma pequena parte de toda a corrupção aparece diante da opinião pública, a grande maioria fica oculta nos bastidores da história. Corromper é sempre um ato oculto. A relação entre a burguesia e o seu Estado sempre foi parasitária e incestuosa. No Brasil não é diferente. Ao contrário, nossa corrupção é mais profunda, tendo raízes históricas na colonização e no império, e um amplo desenvolvimento a partir da fundação da República. A corrupção é coadjuvante em toda acumulação do capital de nossa burguesia, tentar restringir sua ação ao último período histórico é desconhecer a própria formação do Estado brasileiro e de nossa própria burguesia.

O fato de que um partido que teve suas origens na esquerda, nas greves operárias e nos movimentos sociais, como o PT, fosse o principal e mais afetado pelos escândalos de corrupção (ao lado de outras inúmeras legendas que compõem a grande maioria dos partidos do regime político, e também da própria oposição burguesa, sem nenhuma exceção!), mostra o grau de profundidade, e promiscuidade com que o PT se relacionou com o Estado burguês e seus agentes (historicamente corrompido!) e com o grande capital (historicamente corruptor!).

O PT levou até o último grau a colaboração de classes, enquanto com uma mão conteve as lutas e demandas dos trabalhadores ao que era palatável para o grande capital, com a outra encheu os bolsos de seus dirigentes, aliados e partidários, através de inúmeros meios escusos e obscuros, utilizando-se de parcelas do Estado ou de empresas geridas por este (como o caso notório da Petrobras, entre outros) para financiar sua máquina partidária e de sua cúpula. O “Caixa 2” do PT na Petrobras é co-responsável pela demissão de 30 mil trabalhadores, com certeza haverá mais demissões. E ainda existe parcelas do que chamamos de “esquerda” (dentro e fora do PT!) que defendem com unhas e dentes os “mensaleiros” como “vítimas” de uma campanha sórdida da burguesia. Mas se a corrupção é fruto das alianças espúrias do PT com a própria burguesia e seus partidos! Como diz o antigo ditado: “não há pior cego que aquele que não quer ver”.

O aburguesamento do PT não foi apenas no plano ideológico (os anos ingênuos de sua história pregressa!), mas no sentido mais vulgar em que pôde desenvolver a sua vida material à sombra da luta cotidiana pela sobrevivência e afastando-se da luta de classes. Aos poucos se tornou um partido parlamentar e estatal no pior sentido do termo. Não se limitou às contendas políticas internas, mas se desenvolveu por meio de contas bancárias, desvios de recursos e financiamento pelas grandes empresas. Se perdermos de vista a profunda relação que teve esse partido com o Estado burguês e com o grande capital, não teremos claro que seu governo não tem nada de expressão de um governo popular ou dos trabalhadores, mas sim que é um governo que representa uma fração importante do grande capital (bancos, grandes empreiteiras, setor automotriz e de bens de consumo, etc., etc., etc.) que na falta de um outro partido ou coalizão que pudesse capitalizar o anseio popular, aliou-se ao PT, um partido pequeno-burguês pró-imperialista que já havia dado provas de que poderia “dar conta do recado”, administrar a crise do Estado e aprender rapidamente o “jogo” sujo e corrupto da política burguesa e do grande capital. O PT expressa através de sua corrupção a profundidade com que “penetrou” materialmente nos intestinos do grande capital e do Estado burguês, que isso ocorra com o partido que sempre teve em seu discurso a defesa da ética e da democracia burguesa, não é, e nem poderia ser, mera coincidência!

As grandes intervenções de massas no último período foram em grande parte, abertas pelos protestos multitudinários do ano de 2013, em que já se podia antever o início de uma grande crise de grande envergadura que afetava todo o conjunto da sociedade, a economia, a política e a grande desilusão das massas para com todo o regime. Em germe todos os elementos já estavam ai: desde a crise econômica, até a crise política, a repressão do Estado, o desnorteamento da esquerda, a petulância e o oportunismo da direita e o inicio da ruptura das massas com a política de colaboração de classes da frente popular.

A ação direta das massas através de manifestações refluiu, mas não desapareceu. No próximo período deveremos ter um novo ascenso desse movimento, principalmente da classe trabalhadora que é o setor que mais sente os efeitos da crise sobre sua cabeça. A equação que soma o ajuste fiscal, desemprego, depressão econômica, inflação alta, arrocho salarial e dos ganhos de diversas camadas de trabalhadores e a falência do Estado no atendimento dos serviços básicos só pode, e deve terminar em uma grande revolta popular. As manifestações de 2013 não fecharam seu ciclo e ameaçam recomeçar do mesmo ponto no inicio de 2016, só que em um cenário muito mais conturbado, mais deprimido e mais tenso, em que a crise econômica e política pressionam a consciência das massas como uma bomba relógio prestes a explodir. Ao respirar, diária e cotidianamente, sentimos o cheiro de pólvora no ar...

                                                                            



                                              Crise Econômica

A atual crise econômica nacional é, em última análise, o reflexo direto da crise econômica mundial e histórica do capitalismo, que teve seu epicentro e o seu ressurgimento nos EUA, a partir de 2008, e que posteriormente desenvolveu-se na Europa nos anos subsequentes, e numa segunda fase atingiu a América Latina e os países produtores de commodities, de uma forma determinante, particularmente o chamado Cone Sul do nosso continente, o qual foi afetado pela derrubada dos preços das matérias-primas e do petróleo no mercado mundial. No início de 2016 o preço do barril de petróleo encontra-se abaixo dos 30 dólares, e com o fim recente das sanções ao Irã haverá uma forte tendência de queda que afetará profundamente a economia internacional. Outra tendência que nos afeta é a curva descendente que a economia chinesa vem apresentando no último período, afetando especialmente o Brasil, que tem na China a sua principal parceira comercial. A China deve transformar-se aos poucos no nó górdio da economia mundial. O receio de que a crise internacional se acentue e tome proporções inesperadas torna-se a cada dia mais palpável diante da queda das bolsas de valores nos principais países do mundo.

A intensidade com que a crise econômica internacional atingiu o Brasil demonstra de um lado a força, o dinamismo e a profundidade dessa crise histórica que acarreta toda uma falência do sistema capitalista mundial em seu conjunto, atingindo todos os continentes e classes sociais, mas de outro lado, também demonstra a fragilidade e a peculiaridade da nossa economia nacional, que vem sofrendo uma intensa, profunda e vertiginosa desindustrialização nas últimas décadas (em 1985, a produção industrial representava cerca de 35% do nosso PIB, em 2015 chegamos próximos aos 10% do PIB) e que depende cada vez mais das vendas de commodities e matérias-primas para realizar exportações.

Como a crise mundial causou uma queda acentuada dos preços dessas matérias-primas, isso afeta diretamente o saldo da balança comercial e toda a economia nacional. O sonho, que uma parte da burguesia acalentava, de ver o Brasil despontar como economia emergente e ficar lado a lado (e até mesmo rivalizar) com os países imperialistas do, assim chamado, “primeiro mundo”, virou um enorme e sinistro pesadelo, em vez de subir ao cume do mundo, estamos caindo da beira de um enorme precipício...

Todas as classes sociais, e suas diversas camadas e estratos são atingidos diretamente por essa crise. Nenhuma das crises anteriores conseguiu atingir de forma concomitante, fulcral e profunda a tantas classes sociais, suas inúmeras frações, seus diversos interesses, a política, a economia e a sociedade a um só tempo. Não vamos analisar aqui todos os dados econômicos e suas respectivas quedas. Mas apenas lhe dar uma visão episódica e panorâmica.

Lenta e paulatinamente a economia brasileira vem sofrendo durante todo esse período, e principalmente nos últimos anos, reflexos da crise econômica mundial, mas também de uma política econômica que privilegiou os grandes setores da burguesia com grandes incentivos, subsídios e isenções e para os banqueiros e outros setores do grande capital, com uma das maiores taxas de juros do mundo (ultrapassando a casa dos 14% e em tendência de alta para o próximo período), quase a metade de todo orçamento do governo federal para 2015 (que já supera um trilhão de reais) serão para pagar os juros da dívida pública e alimentar os altos lucros dos grandes banqueiros. Nos últimos vinte anos o endividamento público estourou em termos percentuais. O endividamento bruto do setor público se aproxima dos 70% e o líquido cerca de 35% (sem contar Petrobras, Eletrobras e bancos públicos). A relação dívida bruta/PIB era de 53% em 2013, saltou para 59% em 2014 e ameaça chegar a quase 70% em 2015. Alguns prognósticos apontam que terminará 2016 com cerca 75%! Uma escalada aritmética em um período de queda vertiginosa do PIB! Na avaliação do próprio Tesouro, a dívida deve ultrapassar os três Trilhões até o final de 2016!

O atual governo concede ao imperialismo uma das maiores aplicações em títulos da dívida pública (principalmente em títulos dos EUA) do mundo por meio de nossas reservas internacionais (cerca de US$ 350 bilhões), aplicações essas que pagam um valor quase irrisório de juros (cerca de 1%, ou menos), enquanto isso pagamos uma das maiores taxas de juros do mundo ao sistema financeiro nacional e internacional, a diferença resultante entre o baixo valor pago pelos juros das reservas internacionais e valor descomunal pago pelo governo aos títulos da dívida pública nacionais são pagos pela classe trabalhadora, sob a forma do ajuste econômico, o saque do pré-sal e da Petrobrás, a futura reforma da previdência e novos tributos que podem ser aprovados em breve (CPMF, etc). A relação do capital financeiro com o regime político deixa de forma exposta as vísceras da política burguesa no Brasil.

O governo Lula, primeiro, e depois o governo Dilma, tentaram abafar a crise com planos que tentaram desonerar uma parte da burguesia. Subestimaram a crise histórica do capitalismo e tentaram adiar seus efeitos sobre o Brasil, tudo indica que imaginavam que em poucos anos a economia internacional voltaria a ganhar fôlego e o Brasil passaria incólume pela crise, o PT substituiu a análise objetiva da história e da economia pelos sonhos e ideais de seus dirigentes. Somente conseguiram adiar o problema, só que a crise acumulou-se e estourou de forma mais impactante e pungente. A crise é como um câncer em desenvolvimento econômico e social, as medidas paliativas que os governos Lula e Dilma tomaram possibilitaram sua metástase.

Os governos Lula e Dilma utilizaram, durante certo período, de uma grande quantidade de subsídios, empréstimos e financiamentos para tentar impedir que a crise mundial batesse no Brasil anteriormente. Em vez de resgatar o emprego e o salário, preferiram resgatar alguns setores capitalistas que considerava “estratégicos”. As construtoras foram mais privilegiadas, não só por obras públicas (com notórios casos de corrupção!), mas também com o financiamento imobiliário para amplos setores da população. Diante do aumento da inadimplência, recessão e do desemprego o mercado imobiliário está próximo de seu limite. Segundo o relatório FipeZap, o valor médio dos imóveis em 2016 deve voltar ao patamar de 2011. E com tendência de continuar em queda, logicamente! No Brasil grande parte da carteira imobiliária encontra-se em mãos da Caixa Econômica, banco estatal (a Caixa exige 30% de entrada no imóvel), ou seja, isso afetará em pouco tempo o governo federal, além da economia como um todo. Mas a cadeia produtiva que tem relação direta com o mercado imobiliário é enorme e terá impacto profundo na economia (sem contar que muitas construtoras também foram atingidas devido aos escândalos de corrupção que atingem o governo). Muitos imóveis começam a ser leiloados pelos bancos (em casos de inadimplência), construtoras abaixam o preço para fazer caixa e saldar dívidas e o próprio banco estatal (a CEF) está descapitalizada, gerando um efeito em cadeia, que é potencializado pelo aumento do desemprego.

A inadimplência chegou em janeiro ao patamar mais alto de sua história. São 59 milhões de brasileiros no vermelho. Um número bem superior ao de toda a população da Argentina (cerca de 41 milhões) ou do estado de São Paulo (cerca de 45 milhões), apenas para se ter uma comparação aproximada do que isso representa. O total das dívidas é de R$ 255 bilhões. Ou seja, um valor próximo ao que o Brasil pagou de juros da dívida em 2015, que foram R$ 367 bilhões. Uma dívida impagável que terá um efeito contaminador por toda economia. Por esses dados podemos ter uma ideia da profundidade da crise. Muitos analistas já estão apelidando esta década de “década perdida”, remetendo aos anos 80.

Para se ter uma ideia do nível de endividamento gerado pela política de crédito farto realizado durante o início da crise mundial, basta analisar que antes da crise o índice de endividamento das famílias era de menos de 18% em 2005. Subiu exponencialmente para 45% depois dos efeitos da crise, em 2013 e hoje já ultrapassa os 60%, ou seja, em vez de se desenvolver a economia, foi feito o seu oposto, endividando, acima do limite, toda uma enorme parcela da população, e em uma situação em que o aumento do desemprego só tende piorar essa situação. Somente em 2015 cerca de 100 mil lojas fecharam as portas aumentando o ciclo depressivo da economia e o desemprego.

O desemprego é um dos índices que mais crescem no Brasil. Segundo o DIEESE, já supera os 14% na cidade de São Paulo. E mesmo na pesquisa chapa branca do IBGE, já está em 7,5% em nível nacional (PME) e pelo PNAD já deve atingir os 10% no início de 2016. Isso sem contar a enorme quantidade de trabalhadores pejotizados, precarizados ou em situação de informalidade (que o IBGE simplesmente considera como “inativos”). Grande parte do desemprego no Brasil fica “oculto” por tipos de “metodologias” que favorecem a precarização e o sub-emprego. Somente o número de famílias que são atendidas pelo programa “Bolsa-Família” do governo mostra que há uma contradição flagrante entre o Brasil das estatísticas e o Brasil real.

Um capítulo à parte mereceria a penetração do capital financeiro e especulativo que se acentuou nas últimas décadas em nosso país. Nos últimos anos o Brasil virou dependente dessas transações que supria o déficit no balanço das transações comerciais. No inicio da década de 90 o Brasil recebia cerca de um bilhão de investimentos, hoje ultrapassa os 50 bilhões. O alto valor dos juros são um modo de atrair investimento em títulos do governo. Com a queda da nota do Brasil nas agências de classificação de risco. de um lado, e o aumento da taxa de juros no EUA, de outro, deverá provocar um aumento da saída desse capital do nosso país, aumentando a crise econômica, a desvalorização do real e a queda da bolsa. O quanto isso afetará a economia devemos ter uma ideia já nos primeiros meses do ano. A queda da nota do Brasil nas agências de classificação de risco deve, pelo menos no próximo período, restringir a entrada do mesmo volume de capital financeiro em nosso país. O paradoxo é que, no atual momento, o governo Dilma procura, avidamente, atrair esse capital especulativo para auxiliar no fechamento das contas do governo, que estão com um rombo e uma sangria contínua. Cada vez mais a sensação que temos é que o governo alimenta o seu próprio mito de Sísifo particular, só que em vez de se rolar uma enorme pedra, são os títulos da dívida pública que ameaçam cair em um enorme precipício. De qualquer modo não devemos ter uma crise e um impasse de proporções similares a crise grega pelo simples fato de que a dívida grega era lastreada pelo euro, moeda que não emite, e a dívida brasileira está lastreada em reais, moeda que pode ser emitida pelo banco central, o custo disso será a inflação, daia necessidade de palavras de ordem que contemplem a escala móvel de horas de trabalho (no caso do desemprego) e de escala móvel de salários (para o caso específico da inflação). 

É importante ter uma noção da curva que os dados econômicos produzem e o que significam, ou seja, seu histórico. Não importa ver somente a foto, é mister ver para onde se movimenta o filme. No caso do PIB brasileiro, especificamente, em 2010 estava na casa dos 7% de crescimento, em 2011 caiu para pouco mais de 2%, em 2012 foi de 1%, em 2013 novamente esteve acima dos 2% e em 2014 foi praticamente nulo: 0,1%. O PIB em 2015 ficou com uma queda de -3,8% e em 2016 a projeção é de uma queda que varia para próximo de -4%. No conjunto é a maior queda econômica em um período de 24 meses seguidos. E todos concordam que se em 2017 for nulo, isso já seria uma vitória, pois há o sério risco de também ser negativo (pelo terceiro ano consecutivo!). Desde 1930 que o PIB brasileiro não cai por dois anos consecutivos. Os efeitos dessa queda devem pesar, rapidamente, sobre a cabeça dos trabalhadores.

A inflação já ultrapassou a casa dos 10% (dois dígitos) em dezembro e ameaça uma escalada galopante. As vendas no comércio despencam de forma repetitiva praticamente todos os meses, colocando um cenário nebuloso futuro dos demais setores econômicos que dependem diretamente das vendas efetuadas no varejo.

Nem mesmo a bolsa de valores ficou imune a crise. De 2012 para cá amargou uma desvalorização de quase um terço de seus ativos e foi considerada por alguns índices, como o pior desempenho entre as bolsas de valores do mundo. Basta lembrar que parte da capitalização das grandes empresas se dá pela bolsa, e chegamos à conclusão de que este baixo desempenho terá grande repercussão no ciclo econômico de nosso país.

O fato de que a maioria dos analistas considerem que a recessão, que iniciou oficialmente no segundo semestre de 2014, deve, no mínimo, se estender até o final do ano que vem, corrobora nossa análise de que não estamos em uma simples recessão (período curto ou médio de declínio econômico), mas sim que entramos em uma profunda depressão (período de longo declínio da atividade econômica) que se abate sobre todas as classes sociais, mas especialmente sobre a classe trabalhadora, que é fustigada pelo arrocho salarial, pelo desemprego e pela inflação em só golpe, e não tem meios para se esquivar, a não ser o aviltamento do valor pago como salário, de um lado, e a luta, para manter suas condições de vida, do outro. Psicologicamente já podemos sentir essa depressão se abatendo sobre as grandes massas e seu consumo familiar. Vivemos uma profunda depressão econômica que terá profundas consequências para a vida e as lutas sociais de toda população, especialmente para a classe trabalhadora.

O índice de confiança do consumidor (ICC) chegou a seu pior nível em dezembro passado, com 75,2 pontos. A grande incógnita é até quando a classe trabalhadora irá aguentar essa situação. Tudo aponta para que ocorra uma grande explosão popular.

Isto significa que o ajuste de austeridade que o governo tentará impor, para manter o pagamento dos juros dos títulos da dívida pública, e com isso manter os altos lucros do grande capital e dos bancos, levará a grande maioria da população a um estado de penúria e miséria. O efeito disso logo chegará em quase todos estados do país, mas o RS e o Rio de Janeiro nos indicam (de forma antecipada) a situação falimentar em que não se tem dinheiro nem para pagar o funcionalismo público. Em sua totalidade, os grandes partidos que vão do PT ao PSDB, passando pelo DEM e o PMDB sempre defenderam os interesses da grande burguesia de forma geral (e dos grandes bancos em particular) e não é num momento de grande crise que irão modificar seu posicionamento de classe, muito pelo contrário: irão defender com mais força os seus interesses de classe e seus acordos, na sua grande maioria, ocultos.

A burocracia sindical manobra para impedir uma situação que lhe fuja do controle. Sua luta contra o ajuste é apenas uma forma de autopreservação. Uma prova disso é a inexistência da discussão e preparação de uma greve geral por parte de todas as centrais sindicais, para se lutar contra o ajuste para que a crise não se abata sobre os trabalhadores. Na melhor das hipóteses chegam a colocar a greve geral como um mantra religioso no programa de determinado sindicato ou central, como se numa greve geral não necessita-se de um programa concreto, de uma discussão e preparação em nível nacional em todas, ou, pelo menos, nas principais categorias. A inexistência de plenárias que discutam profundamente o ajuste, seus efeitos e a preparação de uma greve geral como arma de defesa dos trabalhadores diante da crise coloca claramente as limitações das atuais direções sindicais. Os trabalhadores não podem confiar nas manobras da burocracia sindical. Em um cenário de crise a independência política dos trabalhadores diante da burocracia sindical é o primeiro passo para se obter vitórias. Uma frente de luta dos trabalhadores para enfrentar o ajuste do governo Dilma e do grande capital, contra o desemprego e os efeitos da recessão, se faz necessário para impedir que o ônus da crise recaia sobre as costas da classe trabalhadora. Temos que derrotar o governo de ajustadores. A perspectiva de mudança só pode vir de um governo dos trabalhadores!


                                                                 

                                                            
                                                 Crise Política

Intrinsecamente associada à crise econômica, desenvolveu-se uma crise política de grandes proporções e que expõe e reflete os antagonismos de classe, e de suas frações, que se evidenciaram após o impacto da crise econômica no Brasil. A crise política, propriamente dita, é o resultado de uma disputa pelo poder político, em que os escândalos de corrupção ganharam uma coloração nunca antes vista e serviram para galvanizar a opinião pública e as massas, enquanto outros interesses, nem sempre evidentes, são disputados, de forma hostil e selvagem, pelos setores que detêm o poder político. A batalha de fundo é sobre como ter o controle do Estado e da política econômica. De qualquer forma todos os setores que sustentam o regime político ou estão na oposição burguesa são ajustadores e tem como política implementar um pacote de austeridade fiscal sobre as costas largas das massas. A grande incógnita é: quem, no atual momento, tem capital político para aplicar esse ajuste?

O governo Dilma vive uma contradição interna enorme diante desse dilema. A queda de Joaquim Levy foi fruto de uma disputa para se saber o grau e a intensidade do ajuste. As tentativas de amenizar o ajuste são, em última análise, um modo de evitar, a qualquer custo, a explosão de um ascenso da classe trabalhadora em uma situação em que a burguesia e seu governo estão profundamente debilitados. O ministro Levy foi, dentro da disputa entre suas diversas alas, literalmente rifado e abandonado à própria sorte, mas seu legado continua: o ajuste deve ser implementado pelo seu sucessor, Nelson Barbosa. O ajuste é defendido por todos os setores que disputam o poder político diretamente. Especialmente os três maiores partidos: PT, PMDB e PSDB. A discussão nesses partidos não é se vão aplicar o ajuste, mas sim como, quando e em que grau. Ou seja, eles não tem dúvidas sobre as características genéticas da criança, a dúvida maior é quem vai assumir a paternidade da criança! Por enquanto o PT leva vantagem nesse aspecto, pois para as massas já é o pai da crise econômica (e fez por merecer esse título) e será, em breve, o do ajuste também, mesmo que o governo caia e seja continuado por outro partido, a política econômica não deverá ter grandes mudanças. O ajuste é consenso entre os principais partidos do regime político.

Longe de conseguir algum tipo de fôlego, o esgotamento do atual regime político de colaboração de classes é a expressão da enorme crise política onde mergulhou o Partido dos Trabalhadores, mas também é a expressão da enorme crise que fustiga a imensa maioria dos partidos burgueses, que se vêem impotentes diante da crise que os contamina diariamente. Dilma, Lula, Michel Temer, Eduardo Cunha, Renan Calheiros, Aécio Neves, PMDB, PSDB, Mensalão Mineiro, Lava-Jato, Operação Zelotes, Catilinárias, Petrolão, pedaladas fiscais, impeachment, etc., etc. A crise, por enquanto, é disforme e multifacetada e não poupa nenhum dos principais personagens políticos.

São tantas as denúncias de corrupção contra o PT de um lado e os demais partidos burgueses e patronais do outro, que podemos afirmar com total segurança que (como diria o próprio Lula) nunca na história desse país o regime político foi tão desacreditado como nesses últimos anos. Amigos, empresários, protetores e protegidos: todos os dias vemos um capítulo novo de uma novela que ameaça não ter mais fim. As relações incestuosas entre a grande burguesia, seus partidos, seus representantes e o Partido dos Trabalhadores demonstra que o PT transformou-se (há muito tempo!) em um partido do sistema com relações promiscuas com grande parte dos setores mais podres da política brasileira. O poder judiciário utiliza-se da corrupção para transformar o PT no único bode expiatório de toda crise política. A corrupção atinge todo o regime político, mas o poder judiciário transforma as denuncias contra o PT num julgamento político. Como se diz no folclore político: "aos amigos tudo, aos inimigos a lei"

Os escândalos de corrupção que começaram com o Mensalão e desenvolveram-se com a operação Lava-Jato e a Satiagraha, Zelotes, Triplo X, etc., etc. Estudos apontam que há o desvio de cerca de 70 bilhões por ano com a corrupção no Brasil. O PT e seus aliados foram implicados diretamente, destruindo rapidamente o capital político que havia sido construído durante a década de 80 e 90. A política de frente popular demonstra que quanto maiores são as relações que se mantém com o grande capital, maior são os esquemas de desvios do Estado. Diante das massas essa política fica insustentável, entrando em contradição com o sucateamento do Estado e dos serviços essenciais.

O grau de corrupção e de envolvimento entre o atual regime com os setores mais podres da elite econômica mostram sua relação com altos funcionários do governo, até mesmo um grande latifundiário beneficiado pelo regime (amigo intimo de Lula), um senador da república (ex diretor da Petrobras) e um grande banqueiro, o caráter de classe de governo pode ser analisado pelas relações profundas que tem com a burguesia, suas camarilhas, grupos de saqueadores do Estado que mais se assemelham a quadrilhas e com uma parte dos setores mais corruptos da política nacional (a outra parte continua na oposição) de um lado e pela própria composição do seu ministério de outro.

Os ministros do governo Dilma são a expressão profunda da política de fortalecimento do grande capital e da direita dentro de seu governo: Eliseu Padilha (ex ministro de FHC), Alexandre Tombini (ex FMI), Joaquim Levy (ex FMI e do governo FHC), Kátia Abreu (pró latifundiários), Gilberto Kassab (ex malufista e ex prefeito de São Paulo), Afif Domingos (ex malufista ligado ao empresariado paulista), e assim por diante. O caráter de classe desse governo é a expressão de uma burguesia que apesar de denunciar hipocritamente o parasitismo e o intervencionismo estatal, não consegue tirar suas garras das entranhas do Estado. Historicamente mostra que é uma classe social que somente consegue sobreviver como um parasita social e que como um é incapaz de se afastar do monstro que tanto critica. Uma relação de dependência que demonstra que é uma classe social que vive apenas do parasitismo. De iniciativa privada nada lhe sobra senão o desvio de recursos estatais (privando a grande maioria da população de ter esses recursos) e a abertura de contas no exterior (que não deixa de ser uma iniciativa, se bem que duvidosa).

A crise aberta entre o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, e a presidenta Dilma mostra a profunda crise e a fragilidade de todo o regime político. O poder executivo e o legislativo entraram em choque aberto com as mais altas chantagens e barganhas durante todo o ano de 2015, ao ponto de Dilma ficar numa posição de refém durante boa parte do ano, diante da chantagem do impeachment, similar a um jogo de xadrez em que impedimos a movimentação de uma peça fundamental com outra, enquanto estamos procurando colocar o adversário em um xeque-mate. O impeachment marca a abertura de uma guerra mais aberta em que os dois poderes irão se chocar. O judiciário tentará funcionar como um arbitro político, aparentemente acima das classes sociais, mas profundamente pressionado por elas, com a função de impedir que o choque de poderes leve ao colapso do próprio Estado. Resta saber até onde conseguirão atuar, sem com isso aumentar a própria crise. Um Estado moral e politicamente falido quer ser o árbitro (através do legislativo e do judiciário) de um governo totalmente desmoralizado perante as massas. Um paradoxo cômico com ares de tragédia, isso para se dizer o mínimo. 

O cúmulo da impotência diante de tamanha crise é que nenhum dos dois poderes tem hoje tem muito mais de dez por cento de aprovação popular (Dilma tem cerca de 10% de aprovação e o Congresso Nacional idem, segundo o instituto Datafolha). O processo todo conduzido por Cunha (assim como o Congresso como um todo) é realizado com a característica maestria sub-reptícia da fina flor dos políticos burgueses no Brasil. Uma verdadeira aula de como se pode manipular em proveito próprio uma parte considerável do Estado: o poder legislativo. O orçamento vira o alvo principal do butim desses bandidos, que representam uma parcela do Estado burguês e representam a defesa dos interesses vitais da burguesia. Cunha é considerado o grande líder da bancada BBB (Bíblia, Boi e Bala). O poder conquistado por Cunha demonstra de um lado a fragilidade do regime político e o profundo esgotamento da frente popular de colaboração de classes, capitaneada por Dilma, que não consegue fazer frente a toda essa crise, sucumbe paulatinamente à pressão exercida por um presidente da Câmara que consegue esquivar-se (até quando?), dentro das regras do sistema, de sua própria cassação. Cunha põe a nu a essência do Estado democrático em toda sua hipocrisia, sordidez, opressão e pusilanimidade. É a expressão cabal de um congresso totalmente submisso aos interesses econômicos do grande capital.

A desmoralização do Congresso impede, em ultima análise, que o impeachment seja concluído pelo poder legislativo. Um Congresso desmoralizado não pode julgar ninguém, nem mesmo seus pares. A possibilidade de um impeachment aprovado pelo Congresso levaria essa crise até níveis nunca vistos. Um impeachment com estas características pode levar, até mesmo, a fraturas dentro do próprio Estado. Diante do fato de que o Senado terá o voto de minerva, a possibilidade de que o impeachment chegue a derrubar o poder da presidenta é pequeno, mas não deve ser desprezado. A burguesia encontra-se dividida. Apesar de ser conciliadora por natureza, uma saída mais violenta nunca deve ser totalmente descartada. Principalmente com uma crise gigantesca, como essa que se abate sobre o Brasil. A manipulação midiática em que os meios de comunicação são utilizados com interesses de classe específicos por uma ala da burguesia mostra que dentro do capitalismo a democracia é apenas um sofisma. 

    A resolução da atual crise pelo impeachment pode levar a uma situação de maior acirramento e aprofundar a crise, seria o mesmo que tentar apagar o fogo com gasolina, sem contar que o governo engendrado (Michel Temer, vice-presidente do PMDB) pode (por sua fragilidade) abrir uma crise de dimensões incalculáveis, não só pelos poucos setores que não o sustentariam, mas, principalmente, pela imensidade dos setores que se chocariam com esse governo já no primeiro dia de seu mandato. Em síntese: seria um governo extremamente frágil, um anão, diante de uma crise gigantesca e incomensurável. Fora isso a comissão responsável pelo processo de impeachment é composta pela fina flor dos deputados mais corruptos, até mesmo Paulo Maluf (que é procurado pela Interpol) é membro dessa comissão. Temos que rejeitar veementemente uma saída à direita pelo impeachment. Não só abrirá uma crise mais profunda como significará um ajuste ainda mais profundo do que o governo de Dilma (PT/PMDB) tem intenção de realizar. O impeachment deve ser denunciado como uma manobra de tipo golpista por tudo que representa. 

    Mas com isso não vamos nos submeter à teoria (do PT e CUT) do golpe eminente que é utilizado como chantagem contra as massas. Fomentam-se golpes ante qualquer crítica ao governo e uma situação em que estaria se deslocando (futuramente) para um governo proto-fascista como um meio de aprisionar o movimento de massas e aceitar o esgotamento do PT de seu governo e da frente popular de colaboração de classes, na verdade há uma enorme crise que se abate sobre a burocracia petista e cutista, sua direção e sua base. As massas estão em processo de rompimento com sua direção, o processo de dominação da frente popular sobre as massas esgota-se e a teoria do golpe é utilizado como uma camisa de força possível para impedir que as massas rompam definitivamente com a política de colaboração de classes do PT e CUT.  

  Diante tão propalada teoria do golpe devemos elucidar que no cenário mais provável para seu desenvolvimento (o impeachment) há a formação de um governo com o vice-presidente (Michel Temer), que ao mesmo tempo é o presidente do PMDB e principal aliado (até o momento!) do PT. Lula esforça-se por costurar um acordo mais forte com o PMDB para poder impedir o impeachment e o consequente rompimento desse partido com a base governista. Ou seja, se existe uma teoria do golpe, essa teoria deveria, antes de mais nada, elucidar o papel que o PT e seus líderes tem em reforçar o papel do PMDB e da direita no interior do governo Dilma.

A luta pela aprovação ou não do impeachment é uma luta entre dois grandes setores da burguesia. A favor estão o PSDB, uma ala importante do PMDB e outros setores e partidos burgueses de centro ou mais à direita no panorama e espectro político. A FIESP e alguns outros setores patronais também deram apoio a esse processo. Contra o impeachment ficou o PT, obviamente, setores governistas do PMDB (incluindo governadores aliados do planalto, como Pezão, do Rio de Janeiro e vário governadores do Norte e nordeste do país) e setores de partidos da chamada “base aliada ao planalto”. Partidos esses que tem ministérios ou cargos de primeiro escalão em algum dos mais de 30 ministérios do governo Dilma. Muitos setores importantes do empresariado como a FEBRABAN (os bancos e o capital financeiro) ficaram “neutros” ou em cima do muro, para ver como se desenvolve a processo de luta ulterior. Afinal de contas ela sairá ganhando com qualquer governo que saia dessa contenda. Há setores da burguesia muito prejudicados, mas há outros que são privilegiados. Não podemos esquecer que os grandes escândalos de corrupção foram ligados a grandes empreiteiras e grandes empresas que também devem estar divididas em inúmeros acordos para salvar seus interesses. Um setor importante do imperialismo ficou contra o impeachment (como se pode ver pelos jornais internacionais), mas não há uma unanimidade, e a luta política está em processo. A burguesia está dividida dentro e fora do país. A ideologia da burguesia consiste em saber onde poderá obter mais lucro. E se de um lado poderia lucrar pondo abaixo o governo, de outro poderia abrir um grande período de instabilidade mais profundo, em um cenário de depressão econômica. O risco é muito alto. Mas a crise também. As contradições internas dentro das diferentes frações da burguesia advém da incerteza da crise na política e na economia. Essas contradições devem continuar por um longo período, acirrando ainda mais a luta política.

Os setores mais reacionários à direita (Revoltados On Line, Movimento Brasil Livre ou MBL, Vem Pra Rua, Instituto Milenium e outras think thanks patrocinadas) vem perdendo força no último período, as divergências entre os diversos grupos é muito grande, dificultando os atos unificados e ações em comum. Os setores de classe média que antes estavam apoiando massivamente estes setores começaram a debandar. A postura anti-comunista raivosa desses grupos, que chegam até mesmo a simpatizar com os adeptos da ditadura militar (o homofóbico deputado Jair Bolsonaro é um herói para um amplo setor desse movimento), começa a espantar os setores mais despolitizados que foram atraídos no inicio do movimento. A ligação desses setores com o PSDB e o PMDB (Serra, Aécio e Eduardo Cunha usaram os atos como palanque para discursar) também é outro fator de rejeição repulsa para as massas. No último comício (do dia 13/03) Serra, Aécio, Alckmin e Silas Malafaia foram vaiados e hostilizados por sua própria base, o que leva a reflexão de que a direita tem muito mais a perder politicamente diante das massas no próximo período do que qualquer outro setor.

Um Congresso profundamente desmoralizado, que tem a sua principal âncora moral na figura de Eduardo Cunha na presidência da Câmara (e que nenhuma comissão de ética consegue derrubar!) e Renan Calheiros (que o STF nega-se a julgar!) na presidência do senado tem pela frente mais uma tarefa digna de uma comédia política: tentar provar para a maioria da população que o legislativo tem autoridade política suficiente para fazer um julgamento político. O processo de impeachment deve esgotar ainda mais o combalido capital político do executivo e do legislativo. Não somente o governo, mas o próprio Estado começam a entrar em uma vigorosa crise, na qual Dilma e Lula foram impotentes em sua tentativa de impor um governo forte de tipo bonapartista ou semi-bonapartista ao Brasil. Isso não se deveu aos seus interesses (e de seu partido), mas sim devido a suas enormes contradições de forças políticas e econômicas e que colocaram uma força centrífuga sobre seu governo de uma forma inexorável, levando-o ao esgotamento político. O que não está claro é quem sairá vitorioso dessa pugna. O esgotamento do governo do PT/Dilma não quer dizer necessariamente que já estamos diante de seu fim (apesar de inúmeras variáveis apontarem nesse sentido), a ação e reação é uma constante em política e numa crise tão complexa como essa não devemos utilizar análises de tipo fatalista.

As probabilidades apontam no sentido de que o governo desmorone em pouco tempo, mas isso não é uma certeza e nem um fato dado, devemos analisar como o processo histórico se desenvolve. O que já está claro e que o setor vitorioso irá jogar todo seu capital político para tentar impor um ajuste mais pesado e austero contra as massas e principalmente sua parcela mais pobre e excluída. A crise desenvolve-se com tamanha rapidez e com tamanha força que há um certo equilíbrio, em que a própria burguesia tenta manter tudo como está, com receio de que a retirada de peças fundamentais nesse xadrez político possa ser irreversível e que abra alguma situação inusitada e fora do controle.

O próprio governo Dilma abriu as portas para um viés mais à direita com Levy, Kassab, Kátia Abreu entre outros. O vice Michel Temer (segundo inúmeras fontes) flertou com os setores da oposição e é um homem de confiança de Eduardo Cunha. Temer chegou a assinar pelo menos sete decretos autorizando a abertura de credito ao orçamento federal (as chamadas “pedaladas fiscais” em que é feito repasse de dinheiro por parte de bancos e autarquias, para melhorar artificialmente as contas do governo, base jurídica do pedido de impeachment) entre novembro de 2014 e julho de 2015. Tentou articular um governo de União Nacional, em que Dilma sofreria o Impeachment, e ele ficaria imaculado na cabeça do novo governo de transição. Mas o tiro lhe saiu pela culatra. E de uma hora para outra é como se governo não tivesse mais vice-presidente. Michel Temer chegou a dar sinais de que pretende seguir por essa via, chegando a dar a público uma carta em tom de desabafo em que aponta para um possível futuro rompimento com o governo. A via Michel Temer está irremediavelmente fechada, e com isso o impeachment também perde, em grande parte, sua sustentabilidade e viabilidade.

Com o estabelecimento do rito que a Câmara deverá seguir para o processo de impeachment (julgado pelo STF), fica modificado novamente o cabo de guerra das disputas entre os poderes: a câmara dos deputados tende a perder força diante do senado, presidido por Renan Calheiros (PMDB), que está em rota de colisão com Eduardo Cunha e o vice Michel Temer (ambos do PMDB). Renan, assim com Cunha, está atolado em investigações por corrupção.

As diversas correntes do PMDB vão se aliando com cada força em disputa. Sua divisão é uma comprovação de que a burguesia ainda encontra-se dividida diante do impeachment. O PMDB é um partido burguês que só conhece uma regra: manter-se no poder! Sua divisão é ante de mais nada uma expressão da crise que a burguesia tem diante das inúmeras variantes possíveis de alternância ou não de poder. 

   Uma outra possibilidade, que apesar de aparentemente improvável, não está descartada de nenhum modo diante da profunda crise política, é a cassação dos mandatos de Dilma e Temer pelo TSE ou até mesmo pelo STF. Nesse caso, diferentemente do impeachment, os dois mandatos seriam cassados: o de Dilma e o de seu vice Michel Temer. Se isto ocorrer até dezembro de 2016 (segundo a constituição) haverá eleições convocadas em 90 dias. Enquanto isso, o presidente da Câmara (atualmente Eduardo Cunha) assumiria interinamente o poder. Se for a partir de 2017 haverá uma eleição indireta no congresso que colocará dois parlamentares no poder até o final do mandato.

A crise do governo é tão profunda que mesmo superando o impeachment há a possibilidade da abertura de outras denúncias similares e concomitantes na Câmara. Há outros pedidos para serem analisados. E o TSE ainda analisa uma possível cassação da chapa Dilma/Temer. Ou seja, há outras possíveis crises no horizonte político. Uma instabilidade que atinge em cheio o funcionamento das instituições, de seu governo e até mesmo de seu Estado. 

Com um governo imerso completamente até o pescoço em um lamaçal de corrupção, barganhas e troca de favores políticos, o governo Dilma foi fragilizado desde o início de seu segundo mandato, vitima de impotência e sua aliança com setores da burguesia clientelista e oligárquica. O método da chantagem, da corrupção e barganha política tornou-se um “modus operandi” tanto como elemento ativo, quanto passivo na permuta política mais baixa: a fisiológica, em que os interesses materiais (por cargos, fatias do orçamento ou depósitos em conta) tornaram-se algo corriqueiro dentro de um partido que, hipocritamente, substituía luta material, a luta de classes, pela metafísica, a luta pela ética e pela democracia, há apenas 25 anos. O PT escolheu seus aliados entre a nata mais abjeta dos partidos burgueses, e com aliados e “amigos” como esses (o PMDB é sempre a eminência parda desse governo!) a pergunta que fica é: e quem ainda precisa de inimigos?

Nas últimas semanas a crise de corrupção ameaça chegar até o ex-presidente Lula. Alvo de mais uma tortuosa história de bens adquiridos de forma no mínimo suspeita (um triplex!). Sua possível prisão e a delação premiada do ex líder do governo no senado Delcídio do Amaral e que pode atingir profundamente todo o regime, devido a sua posição no governo anterior de FHC, assim como no de Lula, na Petrobras, nas cúpulas do PSDB com Aécio Neves, nas do PMDB com seu presidente Michel Temer e naturalmente no PT. Nos bastidores políticos há inúmeras tentativas de impedir a debacle de todo regime, entre as inúmeras possibilidades as que tomam maior força são a ida de Lula para liderar a equipe ministerial de Dilma (tentando amenizar a crise do impeachment e evitando sua prisão, devido ao foro privilegiado, em um só golpe) e a tentativa de aprovação de uma emenda constitucional transformando o Brasil numa república semi-parlamentar (para conseguir modificar o governo rapidamente diante de uma nova crise), devemos salientar que as duas saídas apontadas acimas não são contraditórias, mas sim complementares, são recursos últimos diante de um inevitável aprofundamento da crise.

O esgotamento político da frente popular e do PT é um fato dado. As massas fizeram uma experiência política e estão tirando suas conclusões dessa experiência. A questão de quanto tempo durará o esgotamento do governo, da frente popular e do PT serve apenas aos interesses frios e calculistas da burguesia. Para as massas o governo do PT está politicamente liquidado. O regime político foi contaminado profundamente e qualquer das saídas burguesas (impeachment, renúncia, cassação do mandato, parlamentarismo) de momento não conterão o ódio popular e nem serão uma via de superação da crise. Somente um governo dos trabalhadores pode oferecer uma alternativa socialista que supere todo este impasse político.

A crise que abate aos verdadeiros militantes da esquerda não é, e nem pode ser, a crise gerada pelo esgotamento do PT e do lulismo, mas sim a crise de direção revolucionária, ou seja, dar uma perspectiva de conjunto à classe trabalhadora construindo um partido operário de massas e com um programa revolucionário. Esse é o caminho para abrir novas perspectivas para a classe trabalhadora! 


                                            Perspectivas

Essa crise não tem, nem poderia ter saídas fáceis ou rápidas. Pelo contrário, ela é produto das contradições inerentes, principalmente econômicas, nos marcos nacionais e internacionais, e não terá uma solução rápida. Possivelmente se arrastará por um longo período, somente o proletariado poderá dar uma saída progressista para essa crise. Esse é o ator que ainda não entrou em cena, mas que pode dar um outro rumo para o fim desta crise.

A questão que fica para reflexão é: se a esquerda classista não aproveitar essa oportunidade de ouro de rotundo fracasso do governo do PT e ao mesmo tempo de divisão e impasse dentro da oposição burguesa (PSDB e seus acólitos), para crescer e se tornar uma alternativa, mesmo que minoritária, quando é que se apresentará como alternativa? Quando a crise tiver sido totalmente superada?

    O papel da esquerda nessa crise não pode ser o de um mero refém da política de colaboração de classes. A luta por manter a independência política das organizações e partidos da esquerda deve nortear a luta dos trabalhadores.

    A esquerda está divida, a grosso modo, em três grandes blocos: os primeiros são os paladinos da teoria do golpe de Estado eminente através do impeachment ou da cassação do mandato de Dilma (o PT, sua ala esquerda e seus inúmeros satélites), para todo esse bloco qualquer crítica ao governo deve ser postergado para depois do término da atual crise de poder. Ou seja, para um futuro incerto...Como essa crise só deve terminar após a queda do governo, entrementes, sustentam o atual governo e seu ajuste, custe o que custar! Já um segundo grupo centrista defende lutar contra esse governo, mas desde que ele continue efetivamente no poder, portanto fazem um jogo duplo de mera oposição pró-forma, enquanto se opõe, de fato, a qualquer tentativa de construir uma alternativa real de poder para derruba-lo (PSOL,PCB, organizações populares e de esquerda, etc, etc). São os campeões da luta contra o ajuste, porém sem lutar contra esse governo! Separam a política econômica e o ajuste em curso do governo Dilma, como se isso fosse possível! Um terceiro e último bloco bloco é formado por setores da esquerda que apresentam uma critica e independência a todos e qualquer dos setores do regime político, (PSTU, etc), mas infelizmente, no último último período, capitularam diante do golpe em curso e jogaram na mesma panela a esquerda governista que colaborava com a burguesia com ambas as frações da própria burguesia, a que é dominante e dá o golpe e a que sofre o revés e o golpe.

Várias organizações e partidos estão como que mesmerizados diante dos ataques sofridos pelo governo Dilma. Antes de mais nada o governo do PT é responsável pelas suas inúmeras contradições. O PT lutou durante décadas expulsando a esquerda, e se aliando ao grande capital. Um governo desses não precisa da defesa dos trabalhadores, mas sim do grande capital que foi seu aliado estratégico em todos esses últimos 25 anos. A posição do partido bolchevique (rearmado por Lenin com as famosas Teses de Abril) diante do governo “socialista” de Kerensky deveria ser reestudada por todos aqueles que ficam reféns da política e da chantagem burguesa do PT diante das massas. Os que chantageiam diariamente as massas com golpes de Estado de todas as espécies e matizes são os mesmos que sub-repticiamente penalizam os trabalhadores com o ajuste fiscal ao raiar do dia e depois, na surdina, premiam o grande capital e os políticos burgueses ao cair da noite com isenções fiscais e aumentos na taxa de juros.

   Um bom exemplo do quanto a esquerda e suas direções estão imobilizados diante do ajuste fiscal e do atual governo é que não há nenhum movimento no sentido de organizar nacionalmente uma greve geral como arma para se lutar contra o ajuste e o golpe que se se organiza. A esquerda que tem forte presença nos sindicatos e nas centrais sindicais faz vista grossa de que a burguesia organiza um grande ajuste contra a classe trabalhadora. Não tomam nenhuma política organizativa efetiva, a não ser palavras de ordem vagas em que tanto a greve geral como a luta contra o ajuste transformam-se em mantras sem nenhum conteúdo político.

Ficar a reboque de qualquer dos dois setores burgueses em disputa (os que defendem o impeachment e os que defendem o governo Dilma) só deixará a classe trabalhadora e a esquerda de mãos atadas diante das próximas lutas.

Qualquer seja o setor vitorioso podemos antecipar que o Brasil terá nos próximo governo um ajuste que atingirá grande parte da população brasileira com cortes de serviço público, desemprego, arrocho, inflação e aumento de impostos.

Um setor importante da burguesia já fareja o cheiro de pólvora e gasolina no ar, com receio de desatar uma grande revolta popular (nesse sentido, as mobilizações de 2013 podem ser vistas como um presságio do que está por vir), este é o elemento que ainda não está presente para dar uma coloração ou matiz revolucionário à crise em andamento. Nesse sentido é que a esquerda classista necessita de independência do PT e seus satélites frente-populistas e defensores da conciliação e colaboração de classes.

    Devemos denunciar veementemente os setores que se aliaram ao PT e que agora vão querer posar de campeões da luta de classes. Assim como seus representantes na burocracia sindical e nos movimentos sociais, que agora posam de classistas com um chamado para que se rompa com o governo Dilma e com o ajuste, mas que foram os primeiros a defender com unhas e dentes esse governo há apenas alguns anos! Toda organização operária, popular e estudantil também necessita de uma direção independente da burguesia, da colaboração de classes e da burocracia. Independência política para recriar uma nova esquerda classista. Esse é o desafio colocado agora. Essa é a arma para enfrentarmos o ajuste do grande capital. Esse é o sinal para construirmos uma perspectiva classista para as lutas que virão.

    O chamado de um congresso da classe trabalhadora para discutir profundamente essa crise e mobilizar os trabalhadores é uma necessidade premente. Conlutas e outros setores combativos do movimentos operário poderiam fazer um chamado nesse sentido. Um congresso desse tipo também funcionaria como uma frente única, ou um polo classista, para se lutar contra a direita de dentro e de fora do governo Dilma, a direita endógena e a direita exógena, ambas inimigas históricas do proletariado.

A contradição presente na situação política é que de um lado as massas não querem voltar para uma situação anterior ao governo do PT (ou seja, um governo burguês tipo PSDB, que se esgotaria rapidamente diante de uma crise similar a essa), mas também não querem continuar com o governo corrompido e desmoralizado do PT. A esquerda classista deve lutar por separar a classe trabalhadora do cadáver insepulto da esquerda oportunista e frente populista do PT e seus aliados burgueses e pequeno-burgueses. Somente criando uma alternativa classista independente de qualquer fração da burguesia poderemos caminhar para frente em busca de uma perspectiva socialista.

O governo que queremos não deve ser o de nenhuma ala da burguesia em aliança ou não com setores da pequena-burguesia. Somente um governo dos trabalhadores pode romper com o imperialismo e ao mesmo tempo derrubar a nossa classe opressora. 

     A construção de um partido operário como complemento a tudo que foi dito acima não é um luxo teórico, mas uma necessidade imediata, retirada da dura realidade em que vivem as massas exploradas deste país. A discussão deve ser colocada como um eixo para todos os setores que tiraram as conclusões necessárias de toda essa crise, que não querem seguir mais o caminho da colaboração de classes e nem o caminho estreito e obtuso das seitas. O que devemos buscar é uma política para toda classe trabalhadora e para o operariado, um programa e um partido que expressem essa experiência. Esse é o primeiro passo para tirar o Brasil da crise e do impasse no qual está afundado! O partido operário é o primeiro passo para uma classe social que quer deixar de ser oprimida e buscar uma nova perspectiva histórica. O proletariado brasileiro já demonstrou seu grande valor com suas lutas, à tarefa agora é organizar seu programa e sua força, ou seja, o seu verdadeiro partido! Seu objetivo? Derrubar esse regime político burguês, corrupto e ajustador e colocar em seu lugar um verdadeiro governo da classe trabalhadora!

                                                                                         
 



 



quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

A AMÉRICA LATINA, A ESQUERDA E A CRISE MUNDIAL


Marcelo Ramal – Dirigente Nacional e Deputado Provincial de Buenos Aires pelo Partido Obrero na Frente de Esquerda



                                                               
                     
A bancarrota capitalista internacional não somente golpeia com toda a sua força a América Latina, como expõe claramente os limites insuperáveis do nacionalismo de conteúdo capitalista para tirar o continente da opressão, do atraso e da miséria social.

Durante a 1ª fase da crise internacional, que explodiu com a quebra do Lehmann Brothers, o ciclo especulativo que se havia concentrado nas bolhas imobiliárias norte-americana e de partes da Europa, deslocou-se para a periferia do mundo. A fabulosa massa de recursos monetários que os Estados puseram em circulação para resgatar o sistema financeiro em quebra recriou outra bolha, desta vez com a dívida pública e privada dos chamados países "emergentes" e com suas mercadorias exportáveis.

Na América Latina, as experiências nacionalistas ou "progressistas", que emergiram das crises sociais e rebeliões contra o "neoliberalismo" da década de noventa, acreditaram ver sua oportunidade e alimentaram a ilusão de prolongar seus governos por décadas. Enquanto isso, a contraditória "bonança" que chegava como produto da crise mundial era brutalmente dilapidada pelas camarilhas capitalistas locais: os beneficiários dos altos preços das matérias-primas foram a boliburguesia venezuelana, a pátria das empreiteiras brasileira - hoje sentada no banco dos réus do "Petrolão" -, Cristóbal López ou Lázaro Baez da Argentina. Os fabulosos benefícios da exportação atuavam como garantia de um novo ciclo de endividamento (com exceção do kirchnerismo, que substituiu o mercado mundial de dívida pelo saque dos fundos previdenciários e os bancos estatais).

Enquanto invocavam o "modelo produtivo", as experiências nacionalistas continentais aprofundaram a primarização da economia e a desindustrialização. Desse boom fictício, as massas latino-americanas somente receberam a carestia alimentar, a precarização trabalhista e um agravamento da polarização social, que os governos atenderam com medidas assistenciais.

A explosão das contradições da economia chinesa, desinflando a sua própria bolha imobiliária e sua sobrecapacidade industrial, abriu passagem à queda dos preços das matérias-primas. Nesse quadro, as ilusões de prolongamento do ciclo anterior com uma nova associação com o capital estrangeiro, a partir da mineração ou da exploração não convencional de hidrocarburetos, chegam ao fim. A América Latina ingressa definitivamente no vendaval da bancarrota capitalista, das crises políticas e as rebeliões populares.

Este é o pano de fundo das crises e transições políticas que envolvem a região.

A decomposição do regime venezuelano não reconhece limites, no ritmo do despencamento internacional do preço do petróleo, a carestia, o desabastecimento e a fuga de capitais. A crise está arrasando com as próprias conquistas bolivarianas, desde o controle nacional da PDVSA até as medidas sociais sobre os mais explorados. A outra face deste processo é o fabuloso enriquecimento da camarilha capitalista ligada ao governo chavista, que acessa de forma privilegiada às divisas que são obtidas no mercado oficial. O boicote econômico direitista que se desenvolve contra o governo - e que tem uma de suas maiores expressões no contrabando de petróleo - é conseqüência, no entanto, do fracasso do intervencionismo estatal, que nunca alterou a base da gestão capitalista da economia. Uma aguda expressão desta crise é o conflito fronteiriço com a Colômbia, no marco do intenso contrabando que explora os preços baixos do petróleo venezuelano, de um lado, e a penúria de alimentos neste país, de outro. A decisão de proibir o tráfego de pessoas na fronteira e de deportar mais de mil colombianos, por parte do regime de Maduro, mostra o abandono de qualquer veleidade bolivariana ou latino americanista para abordar a crise. O chavismo chegou às eleições parlamentares em meio a um claro imobilismo, que apenas dissimula (como ocorreu na Argentina) as medidas de ajuste que se preparavam para o próximo período. A direita, por sua vez, aspirava a uma vitória que a habilitasse a impulsionar um referendum revogatório do mandato presidencial. Os próximos meses, portanto, serão decisivos para o desenlace da crise venezuelana.

                                                                             


No Brasil, o novo mandato de Dilma Rouseff se dedicou a conter o refluxo de capitais com medidas de ajuste contra os salários e o gasto social. Nada disto impediu a ascendente fuga de capitais e sua conseqüência, a desvalorização do real. O tobogã econômico tem se conjugado com uma crise política de fundo, donde as denúncias de corrupção que apontam no coração do aparato estatal delataram o completo entrelaçamento da cúpula do PT com a grande burguesia brasileira. O "petrolão" e seus últimos suspiros, de todo modo, têm como pano de fundo uma disputa entre essa grande burguesia e o capital estrangeiro, reclamando uma abertura econômica e comercial que termine com as preferências do regime em favor da grande burguesia. Mas as medidas do gabinete de Dilma nessa direção são insuficientes. Nas últimas semanas, e enquanto Lula viajava à Argentina para expressar seu apoio ao candidato oficial Scioli, em nome da "unidade latino-americana", o neoliberal ex-ministro da Economia (nomeado diretor do Banco Mundial) buscava conter uma nova corrida cambial com maiores medidas de ajuste contra os explorados brasileiros. Até o assistencialismo oficial, que conteve a agudização dos antagonismos sociais do continente sob o chamado "vento a favor", ameaça ser desmantelado sob o impacto da bancarrota capitalista.

A crise mundial golpeou também a base de sustentação acionista dos governos da Bolívia e Equador. Neste último, a queda do preço do petróleo colocou na berlinda a estrutura econômica e social do governo de Correa, e a seu regime monetário dolarizado. Nesse quadro produziram-se importantes ações de luta contra as restrições ao direito de greve e à organização sindical, e os tarifaços no transporte. No Uruguai, o novo governo de Tabaré Vasquez foi "recebido" com uma onda de greves comandada pelos professores, em um quadro de intensa delimitação e debate nas organizações operárias.

Na Bolívia, a resposta do governo de Evo Morales ao declínio econômico - assinalada pela queda das vendas externas de gás e da exportação mineira - tem sido as demissões e aposentadorias forçadas. As greves e mobilizações na região mineira de Potosí, reclamando pelas promessas não cumpridas em matéria de infraestrutura social e industrialização, revelaram o caráter parasitário do boom extrativista que atravessou a Bolívia e a toda a América Latina: a época das vacas gordas não deixou nada a seus povos; a crise, em troca, trouxe medidas de ajuste.

A Argentina, por sua vez, passou por uma eleição presidencial que expressou o esgotamento do regime de emergência e arbitrário caracterizado pelo kirchnerismo. O resgate da dívida pública e das privatizações sob a base do orçamento público, os fundos previdenciários e as reservas internacionais conduziram o país às portas de uma nova falência. A burguesia reclama a volta do financiamento internacional, que exige como condição um ajuste - desvalorização, tarifaços, contenção salarial, cujo alcance supere o que já foi posto em marcha pela era kirchnerista. Com seus matizes, os candidatos que disputaram a sucessão presidencial - Scioli, Macri, Massa, estavam todos comprometidos com esta orientação, junto com a pseudo-progressista Stolbizer.

Os governos nacionalistas ou “trabalhistas” fracassaram também em todos os projetos de unidade continental que traçaram nestes anos. O MERCOSUL nunca conseguiu superar o marco de um conjunto de acordos comerciais em benefício dos monopólios capitalistas que operavam em seus próprios mercados – em primeiro lugar, da indústria automobilística. Depois, nasceu a UNASUL, sob a pressão bolivariana e das empreiteiras brasileiras que aspiravam ao desenvolvimento de uma indústria de armamentos sob seu comando. A meta mais ambiciosa desta etapa, o Banco do Sul, foi acariciada ao compasso do boom especulativo das matérias-primas e dos fluxos de capitais. Hoje, todos estes projetos se encontram reduzidos a nada: a crise mundial agravou todas as disputas comerciais no interior do MERCOSUL. Por sua vez, as burguesias regionais buscam acordar por separado com a União Europeia e outros blocos, para escorar o afundamento das suas exportações. O projeto da integração regional somente serviu para reforçar ao grande capital agrário (soja), a expulsão de camponeses, a espoliação mineira e o re-endividamento internacional. Finalmente, a carreira desvalorizadora no interior da região é uma concorrência pela maior exploração e precarização dos operários de seus respectivos países – nisto consiste as invocações à competitividade dos economistas de Massa, Macri ou Scioli na Argentina, ou o chamado a reduzir o “custo Brasil” por parte de seus similares neste país.

Um denominador comum no declínio dos governos nacionais ou “progressistas” é a emergência de variantes direitistas, que se servem da crise para promover uma alteração política e uma virada decidida em favor do capital internacional. Isso está presente na agitação direitista na Venezuela, apesar de que o imperialismo aposte ainda num verniz do chavismo no marco dos remédios institucionais. O mesmo ocorre na Argentina, com a vitória do direitista Maurício Macri.

                                                                         



As saídas direitistas ou de ajuste, no entanto, tropeçam com os limites da atual situação internacional, caracterizada pelas crises nacionais, as rebeliões populares e os bruscos deslocamentos políticos. Neste quadro deve consignar-se a vitória da esquerda na Grécia, os tropeços experimentados pela União Europeia e os Estados Unidos nos seus intentos por ficar com a Ucrânia e a atual catástrofe humanitária dos refugiados, que agudizou a crise no interior da UE e incorporou à sua geografia as conseqüências mordazes das guerras de ocupação imperialistas no Oriente Médio. Por isso mesmo, e pelo quadro internacional que enfrenta, o imperialismo não tem hoje a vertente direitista como sua variante principal. Ao contrário, a orientação central do Departamento de Estado norte-americano passa pela política de contenção e de acordos, como se expressa no diálogo com Cuba e no acordo com as FARC. O recente giro do Papa buscou apontar esta política. A tentativa de uma integração plena de Cuba ao mercado mundial capitalista se choca, no entanto, com as tendências da própria bancarrota internacional. O imperialismo exige do regime cubano o levantamento de todas as barreiras à sua penetração e à liquidação de conquistas históricas de seus explorados. Mas tem muito pouco para oferecer-lhe, no marco de sua própria crise. A transição que enfrenta Cuba, portanto, deve ser apreciada no conjunto do cenário internacional e do próprio continente.

A inviabilidade das saídas direitistas se evidencia nas próprias medidas de ajuste que estão adotando os nacionalistas ou progressistas em resposta à crise, como ocorre no Brasil e outros países da região, e que estão lugar a fortes respostas populares.

O fantasma da direita, de todo modo, não deixa de ser invocado pelos nacionalistas ou “progressistas”, não para opor-lhes uma orientação antagônica, mas sim como extorsão contra a classe operária e os explorados do continente: segundo eles, os que vivem de seu trabalho deveriam estreitar fileiras com os Maduro, Roussef, Evo ou CFK-Scioli, para evitar uma maior privação de suas condições de vida. A chantagem, no entanto, não tem outro propósito senão o de criar as condições dessa maior privação ... nas mãos dos supostos “progressistas”. É o que ocorreu no Brasil, quando Roussef ganhou sua reeleição, agitando o fantasma da direita para por em marcha um ajuste feroz tão logo assumiu. No entanto, o golpe institucional de um Congresso desmoralizado deve ser combatido com a mais completa independência política das organizações operárias e camponesas em relação a todas as variantes da burguesia e do imperialismo. A luta contra o ajuste, e por uma saída para a gigantesca crise econômica, não tolera aliança com os golpistas, que levariam o país para uma situação muito pior.

A crise continental e o descalabro bolivariano ou centro-esquerdista abre, portanto, um imenso campo de intervenção política para a esquerda revolucionária. “À nossa esquerda está à parede”, uma das frases características de CFK, retrata o esforço do nacionalismo burguês para conter dentro de seus limites aos explorados argentinos. Mas o desenvolvimento do Partido Obrero e da Frente de Esquerda, como expressão política independente dos trabalhadores, tem desafiado essa pretensão. Como nunca, a crise mundial – e seu desembarque brutal na região – põe na ordem do dia a luta por partidos revolucionários, na perspectiva da unidade socialista da América Latina.

                                                                             



Charla debate Altamira sobre Venezuela

Palestra de Jorge Altamira sobre a crise na Venezuela, realizada em 23 de dezembro de 2015.

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

BRASIL – UM REGIME DE CORRUPTOS E AJUSTADORES!


                                                                                         JORGE ALTAMIRA

                                                                                                                  


A aceitação do tratamento de um dos muitos pedidos de julgamento político contra a presidente Dilma Roussef, por parte do presidente da Câmara de Deputados, seu ex-aliado Eduardo Cunha, deu início ao processo de impeachment. O começo está embaraçado: o Supremo Tribunal Federal aceitou uma medida cautelar de um partido da “base aliada” que suspende a comissão de Deputados que devia analisar o pedido, em que, aparentemente prevaleceu mais propensa a favor da destituição da presidente. Se Dilma Roussef for destituída, o poder ficaria – ao menos provisoriamente – nas mãos do vice-presidente Michel Temer, um homem do PMDB – partido da “base aliada” – que está em processo de ruptura com o governo e parece incentivar uma saída de “unidade nacional” frente à crise.

Dilma Roussef não chega ao processo de julgamento político devido ao petrolão, o escândalo de superfaturamento colossal das obras públicas através da Petrobrás e de propinas a políticos e funcionários que envolveu aos principais partidos políticos, mas sim por um assunto menor: as habituais “pedaladas fiscais”, pelas quais o governo demora na transferência de fundos aos bancos públicos para maquiar as contas oficiais, violando a Lei de Responsabilidade Fiscal. A sorte de Dilma dependia de sua capacidade para conter a crise. O que precipitou o julgamento político é o caos na economia: o PIB deste ano cairá em média 4,5% e alguns falam da pior recessão em oitenta anos. Definitivamente, o impasse do ajuste conduziu e este mecanismo tortuoso de reorganização, como um recurso de crise, que agrava a crise política e torna ainda mais imprevisível o Congresso. Para poupar tempo, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso 
pediu à presidente que a mesma renuncie.
                             

Paradoxalmente, o mais apurado em um desenvolvimento do impeachment é o governo, que avaliaque conta hoje com os votos suficientes no Congresso para derrotar o julgamento político. Todo adiamento, em um quadro de agudização da crise, pode empurrar mais setores ao campo opositor. A coalizão que sustentava Dilma Roussef está se desintegrando e o PT conta por si mesmo com escasso poder de fogo: somente 66 deputados num total de 513.

Os petistas sustentam que estamos na presença de uma ofensiva da direita, mas omitem dizer que foi a própria Dilma Roussef quem permitiu seu desenvolvimento. Entregou ao PMDB toda a linha de sucessão presidencial e designou como ministro da Fazenda ao “chicago boy” Joaquim Levy. Situam a ofensiva em um quadro regional, sem reparar em que a própria Dilma Roussef prometeu uma “mudança de atitude” em relação ao regime chavista. Por outro lado, nada tem de progressista o esvaziamento da Petrobrás e do Tesouro Nacional em benefício de gigantescas corporações capitalistas – os trabalhadores da Petrobrás saíram de uma greve de mais de dez dias contra a política privatizante de venda de ativos na companhia promovida pelo governo.


A crise brasileira expressa também uma luta de fundo. Detrás do Petrolão se esconde um jogo que envolve ao grande capital internacional que se empenha pela distribuição das obras públicas e um avanço na privatização do petróleo. A poderosa pátria das empreiteiras brasileira, que soube orbitar em volta da Petrobrás, como a Camargo Correa, Odebrecht e Andrade Gutierrez, tem alguns de seus diretores na prisão ou terá que pagar multas siderais. Todo um setor da burguesia, por sua vez, é partidária de abandonar o MERCOSUL.

O PT gozou da anuência do imperialismo durante um período de bonança das commodities, donde também os bancos acumularam lucros fabulosos no país. Além disso, conteve o proletariado mais importante da América Latina em uma década de insurreições no continente – às quais também contribuiu para pulverizar. Sua incapacidade de comandar o ajuste fiscal está conduzindo a burguesia a uma mudança de frente.

                

Todo um setor da burguesia brasileira e das organizações sociais está se colocando a reboque do governo ajustador. OMST, os movimentos dos Sem-Tetos e outros grupos se mobilizam em apoio ao governo, enquanto que os movimentos pró-impeachment estão saindo às ruas por motivos exatamente contrários.

O corrupto Congresso Nacional, que é o mesmo que aplica o ajuste contra as massas, não tem nenhuma autoridade para promover o julgamento político. As forças que o dominam (PT, tucanos, PMDB, etc.) são as receptoras das propinas do Petrolão, começando pelo presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, investigado na Comissão de Ética. Recebem o financiamento das empresas envolvidas no superfaturamento de obras públicas. Muito antes, o “Mensalão” revelou um esquema donde o governo de Lula assegurava a aprovação de leis pelo meio do suborno sistemático aos legisladores opositores. A podridão, que se estende ao Executivo e ao Judiciário, é a podridão de todo um regime político.
ABAIXO O REGIME DE CORRUPTOS E AJUSTADORES!


quinta-feira, 26 de novembro de 2015

MACRI SE IMPÔS A SCIOLI POR UMA MÍNIMA DIFERENÇA!

                                                                                         

                                                                       JORGE ALTAMIRA


Somente uma fetichização da democracia eleitoral pode ignorar que nos marcos em que se desenvolveu o segundo turno representam uma regressão política da Argentina. Totalmente ao contrário do novo relato dominante que pinta como histórico tudo o que vem ocorrendo. Desde a Vitória do PRO na província de Buenos Aires, o debate presidencial e a vitória do Cambiemos. No domingo passado teve lugar, na realidade, uma disputa acerca das características de uma saída capitalista à bancarrota financeira que deixou a gestão de governo do kirchnerismo, entre dois candidatos conservadores da burguesia local. Que o voto popular tenha sido instrumentalizado como arbitro dessa diferença, não altera em nada seu conteúdo reacionário. Os povos não somente protagonizam epopeias históricas em períodos excepcionais, também podem sucumbir ante os desafios que lhe impõem os impasses da sociedade em que habitam.

O Kirchnerismo designou de entrada ao macrismo como seu “inimigo principal” com a convicção de que essa dicotomia lhe garantiria um prolongado monopólio de poder. O tiro lhe saiu pela culatra. Não contou com suas próprias contradições. Por isso desenvolveu com entusiasmo uma política de “desendividamento”que, pregada como uma expressão de autonomia nacional, serviu ao esvaziamento financeiro da Argentina e a bancarrota atual. A dívida impagável com os credores internacionais foi reconvertida em uma hipoteca impagável com a Anses, o Banco Central e o Nación e até o Pami. Agora difunde a necessidade de uma “recapitalização” e para isso de um “reendividamento”. É óbvio que Macri e o Pro são instrumentos mais afins para esta tarefa de “ajuste” do que qualquer outra expressão política nacional. Após um transito pelo massismo, os Techint, a Fiat e os bancos mudaram de frente para o macrismo.”Após um transito pelo massismo, os Techint, a Fiat e os bancos mudarem frontalmente sua orientação política para o macrismo.

Marx dizia que “O passado oprime como um peso morto o cérebro dos vivos”. Isto talvez explique que os K tenham querido sair do impasse econômico, tardiamente, por meio do bonapartismo, ou seja, do governo pessoal e a tentativa de repetir o primeiro peronismo. Somente conseguiu acentuar o sistema de camarilhas, as conspirações entre serviços e a corrupção. Devolveu credibilidade aos falsos profetas da democracia e do “consenso”. Aumentou a opulência com o sistema de poder pessoal que se acentuou com o colapso econômico. Estas contradições provocaram realinhamentos tormentosos no eleitorado, que demonstrou com isso que era um organismo vivo e não um algarismo numérico. Primeiro tentou envolver o aparato macrista em Buenos Aires com uma súbita guinada para Lousteau ( o qual quase havia enterrado as aspirações presidenciais de Macri). Seguiram-se semanas mudanças: caíram os barões do suburbano (prefeitos históricos da região em torno de Buenos Aires), os K perderam a província de Buenos Aires, o qual habilitou a futura governabilidade para uma presidência de Cambiemos. Macri entrou como ganhador do segundo turno, porém ao final sua esperada vitória por goleada, transformou-se em uma vitória por pontos. A volatilidade do eleitorado reflete a volatilidade do conjunto da situação política. Nos dias prévios ao segundo turno, os porta vozes do macrismo deram sinais de que estavam repensando a saída de “shock” por uma saída “gradual”. Como explica uma edição recente do The Economist, as chamadas economias emergentes estão na lona, especialmente o Brasil, e em um segundo momento a China. Ainda que se reserve alguma possibilidade para a Índia e a Argentina, descreve uma agudização da crise mundial que opera como uma barreira para uma saída de um ajuste nestes países. Uma transição econômica e política indolor para a Argentina e para os trabalhadores está fora do radar. A luta para não voltar a pagar a crise capitalista, voltará a colocar na agenda a necessidade de uma alternativa política autônoma dos trabalhadores.

Para a Frente de Esquerda é significativo que o voto em branco foi descartado por completo pelo eleitorado, como um instrumento inadequado. Inclusive nosso próprio eleitorado não compartilharam da proposta de que a delimitação política com os 'ajustadores' do capital era, primeiro, uma questão de princípios, e a única forma de propor uma perspectiva superadora dessa armadilha política. Ainda que os fatos do presente e do futuro provarão o acerto de nossa posição, é necessário aprofundar a ação política da Frente de Esquerda. Essa necessidade revela toda sua importância ante o fato de que muitos setores combativos aceitaram contribuir com o voto para Scioli. Após o rotundo fracasso do governo, os K tentarão converter-se em líderes da oposição ao macrismo (sem deixar por isso de negociar para conservar privilégios e posições estatais). O mesmo vale, com matizes diferentes, para a burocracia sindical. Desde sua ação parlamentar, sindical e nos lugares de trabalho e estudo, a Frente de Esquerda deve desenvolver as condições políticas para que emerja uma nova direção política para as massas da Argentina.








terça-feira, 24 de novembro de 2015

UM NOVO CAPÍTULO DA GUERRA IMPERIALISTA

                                                         Equipe de Redação do Jornal Prensa Obrera


                                                         


Depois dos atentados em Paris, as forças francesas (com auxilio norte-americano) empreenderam massivos bombardeios sobre o território sírio com o argumento de destruir ao Estado Islâmico (EI). À ofensiva somou-se Putin, que ordenou às tropas russas que coordenem suas ações com as potências ocidentais. O regime iraniano anunciou suas intenções de juntar-se a esta "frente única".

O imperialismo deu um salto em uma escalada que leva anos de ações militares sobre a Síria, Iraque, Afeganistão, e inclusive no continente africano, aonde a França enviou tropas (Mali).

Para desenvolver esta ofensiva, o governo francês impulsiona uma "unidade nacional" (a que se submeteram setores da esquerda) e um fortalecimento do estado de exceção dentro de seu próprio território. Foi prorrogado por três meses o Estado de emergência que permite prisões e diligências domiciliares sem ordem judicial. Mais ainda, o primeiro ministro francês propõe modificações que outorguem status constitucional aos ataques contra as liberdades democráticas iniciados desde o atentado contra a redação de Charlie Hebdo. Os serviços de inteligência foram reforçados e em maio se aprovou uma lei que lhes outorga amplos poderes de interceptação de comunicações telefônicas e cibernéticas com a mera autorização do primeiro ministro. Também permite que "em casos urgentes, os espiões podem até atuar de imediato e comunicar depois sua ações" (El País, 14/11). O fortalecimento dos serviços de inteligência, que se estende também à Grã-Bretanha, não impediu os recentes atentados e, inclusive, um dos atacantes suicidas estava registrado por eles. Em troca, as medidas de exceção em desenvolvimento na França e outros países do continente europeu apontam a uma arregimentação e divisão dos explorados no quadro da bancarrota capitalista, por um lado, e à necessidade de estabelecer essa arregimentação para resolver a divisão de Oriente Médio, por outro.

Mas, além disso: o governo se propõe ampliar as atribuições do aparato policial no uso de armas de fogo (gatilho fácil?) e inclusive o presidente Manuel Valls declarou que "temos que expulsar aos que mantém discursos insuportáveis contra a República" (idem, 17/11) Está sendo copiada a cartilha de Marine Le Pen de dissolver as mesquitas ‘radicais'. Sobre bairros empobrecidos de maioria muçulmana, como Molenbeek na Bélgica (acusado como semeador de ‘jihadistas'), desatou-se uma caçada. O sionismo está dando sua contribuição, identificando a ação fascista do EI com a resistência palestina contra a ocupação.

Por último, procura-se endurecer a política aos refugiados: Turquia, a ponte principal de acesso à Europa Ocidental por parte dos refugiados sírios, foi exortada - em troca de algumas concessões- a deter a maré de refugiados até a costa grega. A beligerância estatal contra os refugiados é previa aos atentados, como o provam os muros na Europa do Leste e o estado de abandono a que o Estado francês submete aos migrantes em Calais.

Como foi afirmado em um artigo do New York Times, os ataques de Paris obrigaram a repensar o problema de um incremento das operações militares dos Estados Unidos e do Ocidente na Síria e no Iraque. Os limites da política de bombardeios levantam a questão de uma operação terrestre, ainda que exista um temor fundado que um passo destas características conduza a seus promotores a um pântano superior ao atual.

A “mega coalizão” contra o EI deve superar múltiplas contradições: o propósito de cortar suas fontes de financiamento choca com o fato de que a própria anfitriã do encontro do G20, Turquia, assim como Arábia Saudita e outras monarquias do Golfo em conflito com o Irã, estão comprometidas em dito financiamento (Putin denunciou o financiamento ao EI por parte de 40 países!); a recorrente intenção de uma transição política na Síria, debatida na Cúpula de Viena, requer uma resolução prévia de divergências sobre o “roteiro”, principalmente o papel que ocupariam nela Al Assad e suas forças armadas.

Os Estados Unidos e a Rússia desenvolveram um compromisso precário contra o Estado Islâmico, devido aos seus interesses divergentes.

O terror fascista do EI e a intervenção imperialista (e russa) estão em um mesmo campo contra os explorados do Oriente Médio. É necessária una ação internacional dos trabalhadores contra o terror fascista do EI e contra a escalada belicista do imperialismo no Oriente Médio.







sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Pablo Rieznik (1949 - 2015): un hombre, un partido, una generación





Osvaldo Coggiola


La muerte de Pablo Rieznik nos priva de mucho más de lo que se imagina, de más de lo que ha sido dicho hasta el momento, sin restar ningún mérito a lo que se dijo. Lo conocí como "Aníbal" en 1971, en Córdoba sin duda, donde yo vivía y militaba, aunque no recuerde en que exacta circunstancia. Charlamos por última vez hace poco tiempo. En el medio, 45 años de relación política y personal, feliz o borrascosa, apuntando hacia un objetivo político e histórico común. Una infinidad de anécdotas. La certeza de haber conocido y querido a un ser humano singular, irrepetible e insubstituible. Quiero apuntar aquí algunas cosas básicas, a partir de mis recuerdos y experiencia. A finales de1971, con 22 años, Pablo fue uno de los coordinadores del Congreso Nacional de la TERS (Tendencia Estudiantil Revolucionaria Socialista), hacia la formación de la ORJ (Organización Revolucionaria de la Juventud, como la llamábamos entonces), proceso que concluyó, a finales del año siguiente, con la creación de la UJS (Unión de Juventudes por el Socialismo) en un congreso realizado en la Facultad de Arquitectura de Buenos, al que concurrieron más de mil jóvenes, de Buenos Aires, Mar del Plata, Bahía Blanca, Rosario y Córdoba, que era el "radio de acción" de Política Obrera, la organización trotskista creada en 1964. Pablo, estudiante de economía en la UBA, ya era un dirigente nacional de esa juventud, si no el principal, el más conocido públicamente. En 1971, yo era un recluta reciente, estudiante de historia y economía en la UNC (Universidad de Córdoba), incorporado a la TERS (y a PO) dentro de un grupo originado en la "izquierda nacional" (llamada entonces PSIN), corriente que había conquistado la dirección de la FUA (Federación Universitaria Argentina), en alianza con un sector de Franja Morada, en el congreso realizado en la Facultad de Ingeniería de Córdoba, a finales de 1970.

Dos años de edad nos separaban (sólo bastante después, las conversaciones "personales" no eran muy frecuentes entonces, caímos en la cuenta que habíamos frecuentado la misma escuela secundaria, el Colegio Nacional de Buenos Aires, en los años 60), pero ambos éramos miembros de lo que después se llamó "generación del Cordobazo", referencia a la gesta de obrero-estudiantil de1969, que en esa época no tenía ningún nombre, y mucho menos cualquier imagen mítico-romántica ("setentista", o como se la llame). Pablo se había incorporado a Política Obrera en 1969, en la Facultad de Economía de Buenos Aires.

En 1971, por primera vez, la TERS tuvo delegados en un congreso de la FUA (la tendencia había participado en el congreso de 1970, con una fuerte agitación política, pero sin ningún delegado). Ese año, 1971, a mediados de año, Claudio Waisbord (principal dirigente de la TERS en Córdoba, célebre por la foto que lo retrataba "en acción" durante el Cordobazo, publicada en las revistas porteñas, ver arriba) y yo participamos como delegados de Córdoba (y de la TERS) en el CNC de la FUA (en Tucumán), de lo que nacieron algunas relaciones políticas, que acabaron siendo importantes (para Pablo, inclusive). Pablo y yo volvimos a Tucumán, donde "no teníamos nada", al año siguiente, tejiendo una efímera alianza con la LIA, una agrupación estudiantil tucumana independiente que dirigía el centro de estudiantes de la Facultad de Derecho. En los congresos de la FUA de 1971 (en Ciencias Económicas de Córdoba) y, especialmente, de 1972 (después de las elecciones de centros de estudiantes en Buenos Aires, en las que la TERS tuvo un gran desempeño), la TERS tuvo un número creciente de delegados. Pablo, en parte gracias a la alianza (un mini "frente de izquierda") con la LIA, fue elegido miembro de la Junta Ejecutiva de la FUA (eran quince miembros, que se reunían públicamente). Creo que fue el primer militante de PO (o "del" PO, como ahora se dice) que ocupó un cargo político público de alcance nacional.

Entre 1971 y 1975, Pablo fue nuestro principal portavoz (orador) en los congresos de la FUA. Y también el principal dirigente en los congresos de la UJS: el último congreso de la UJS antes de la dictadura de Videla fue realizado clandestinamente en Buenos Aires en 1975, poco después del Iº Congreso de Política Obrera, en el que Pablo fue elegido miembro del Comité Central (después de una destacada actuación en el congreso). Era, desde luego, el principal responsable en las (numerosas) reuniones de la dirección nacional de la UJS realizadas por aquellos años.No eran reuniones ni congresos pacíficos: las divergencias y las discusiones, hasta violentas, eran corrientes; conducir todo a buen puerto no era tarea para cualquiera y, sobre todo, no era tarea para un burócrata (si lo hubiera sido, hubiéramos tenido por lo menos media docena de escisiones). Pablo fue el principal responsable por la conducción política de nuestra corriente juvenil en esa década revolucionaria.

Pero fue mucho más que eso. En 1970-1975, especialmente en los años finales de la dictadura militar de Onganía - Levingston - Lanusse, la FUA fue la principal tribuna política nacional en la que se confrontaban las diversas corrientes de izquierda (las plenarias nacionales clasistas del Sitrac/Sitram [1971], o de Villa Constitución [1974], sólo tuvieron una sesión). En esos años, Pablo fue el mejor orador de la FUA. El PC, en 1970, había escindido la FUA (creando la llamada "FUA La Plata", con su exclusiva y única participación) porque no tenía programa, ni política, ni huevos, para bancarse los debates de la FUA, y porque quería meter un aparato estudiantil propio en el ENA (Encuentro Nacional de los Argentinos, un engendro político anticlasista). Los congresos de la FUA (llamada "FUA Córdoba", un buen nombre) se hacían con barras enormes, el barullo era constante, a muchas intervenciones nadie les daba bola, pero cuando Pablo hablaba se hacía siempre el silencio.

Que Pablo fuese el mejor orador de la FUA se lo escuché decir a delegados radicales, reformistas, peronistas, maoístas y hasta a foquistas (que nos odiaban, por nuestra crítica abierta al aventurerismo-substitucionismo militarista). Hasta los estalinistas (PCA), la secta más infame, lo reconocían. "Habla bien", decían. "Es la línea política", decíamos nosotros. Eran las dos cosas, y algo más. Los congresos estudiantiles duraban días, las intervenciones duraban entre cinco y diez minutos, en los que Pablo conseguía referirse a los problemas tácticos inmediatos, a los problemas políticos generales y hasta a los problemas teórico-programáticos. Llegaba a las alturas de la filosofía política, para bajar de inmediato a las luchas de la semana que viene. Nadie lo hacía así, despertaba admiración, no "hablaba mejor", era superior. Muchos de esos delegados fueron después diputados, senadores y hasta gobernadores. No Pablo, y no, como se ve, porque le faltaran condiciones. Durante esos años, en la principal tribuna política del país, el Cordobazo, el Mendozazo, el Tucumanazo, el Rosariazo, el clasismo, la revolución socialista, hablaron por la boca de Pablo.

Los "oradores profesionales" de la FUA, algunos con más de una década de experiencia en la función, adoptaban en general una postura de esfinges misteriosas de sus sectas. Pablo circulaba por los pasillos de los congresos tranquilo y risueño, comía sándwiches de mortadela con todos, siempre bromeando y divirtiéndose con sus compañeros y también con sus adversarios. Pablo era el militante anti-secta por excelencia. Su sola presencia jovial y extrovertida destruía la caricatura legendaria del trotskista solitario, siempre con cara de enojado y de prisión de vientre, promotor de escisiones, que sólo salía de su cápsula para putear a todo el mundo (inclusive en su partido o partidito) por todos los motivos y desviaciones posibles, por el simple hecho de existir, una versión laica del cura o rabino lavador del pecado original. Pablo era el comunista del Manifiesto, aquel que "en todas fases (y circunstancias) representa siempre los intereses generales do movimiento". Pablo podía ser muy duro y estricto (y lo era) en congresos y reuniones internas, pero dejaba esa dureza en la puerta del recinto, o en el límite temporal de la reunión, y nunca le daba un tono personal.

Pablo no era sólo el "dirigente de las grandes ocasiones", o de los grandes eventos. Estaba en el día a día de la actividad, en todos los frentes posibles, en todas las tareas. En 1973, bajo la hegemonía aplastante de la JP en las universidades porteñas (no en el interior), después de la victoria electoral del peronismo, algunas asambleas de facultad de la UBA habían llegado a prohibir el uso de la palabra (¡en asambleas!) a la TERS-UJS, debido a nuestras críticas y posición independiente frente al gobierno peronista (frente al que toda la izquierda, "trotskista" o guerrillera incluida, había sacrificado su independencia política).En las asambleas en que la UJS conseguía hablar, la JP porteña respondía con el edificante coro de "Dale Boca"...

En una elección de centro, la JP rasgó y arrancó uno de los cartelones (que todos usaban) en papel velado, con textos en marcador, de la UJS, que criticaba al gobierno. Pablo llegó al lugar del hecho, e inmediatamente armó un mini acto de protesta con las personas que allí estaban. Se juntó un público, con gran mayoría de la JP y de "montos" reales o verbales (estos, los peores, eran una plaga). Pablo exigió que la JP remendara el cartel de la UJS y lo volviera a colocar en su lugar, lo que despertó la reacción risueña de la mayoría de los presentes. Sin inmutarse, y frente a la mirada estupefacta de los peronistas de hora reciente, Pablo se dirigió a uno de los cartelones de la JP, lo rasgó y lo arrancó. Miró a los representantes de la "juventud maravillosa" con ojos desafiantes y sin palabras: éstos se limitaron a observar todo con la boca abierta, pese a su número harto superior. Pablo se retiró con los militantes de la UJS, en medio del silencio; una fuerza desconocida acababa de enfriar la fiesta camporista.

En 1975, Pablo estaba en Córdoba, durante la huelga general de junio-julio. Su primer hija, Marina, nació en ese momento en Buenos Aires, noticia que llegó por teléfono (una de las pocas cosas que funcionaban) a mi casa, donde Pablo paraba. No había colectivos, ni ómnibus de larga distancia, ni estaciones de servicio, que funcionasen. De algún modo, llegamos a la salida de Córdoba por la Ruta 9, la del Arco, donde Pablo comenzó a "hacer dedo". Los autos hacían trechos cortos, no había nafta disponible (legalmente, al menos). En un día y medio, después de muchas etapas y "dedos", Pablo llegó a la Capital, para estar junto a su mujer (Alejandra Herrera) y su hija recién nacida, hoy destacada historiadora de la ciencia en Argentina.

Pocas semanas después, Pablo ya estaba militando nuevamente en Córdoba, en las campañas electorales en las que íbamos a obtener nuestras primeras victorias en elecciones de centros universitarios (en Buenos Aires éramos, como máximo, segundos). En los últimos meses del año, en medio a una oleada represiva y de asesinatos a mansalva (de la Triple A o de los "Libertadores de América" de Luciano Benjamín Menéndez), el cierre de la universidad por el interventor de la UNC (un tal Menso) nos impidió obtener esas victorias, algunas (Arquitectura) ya descontadas hasta por los diarios. Con la UJS organizamos, a partir de una asamblea general de la FAU, la última marcha callejera en Córdoba antes de la dictadura militar (las otras tendencias se habían "mandado a guardar") en protesta contra el cierre de facultades, con pocos detenidos por lo sorpresiva (la gente nos miraba boquiabierta cuando desfilábamos en las calles del centro). Poco antes de eso, hubo el cortejo que llevó los restos mortales de Agustín Tosco desde el club Redes Cordobesas, que fue ametrallado por los paramilitares en el cementerio de San Jerónimo.

Después vino la dictadura militar. Me tuve que rajar de Córdoba, e ir a Buenos Aires: toda persona llamada "Coggiola" (un apellido poco común, y ciertamente bastante notable) era detenida en los controles militares en los puentes cordobeses. Yo estaba jurídicamente en libertad condicional, después de una encanada más larga en 1974: "porte de arma de guerra", era la carátula del proceso, después del allanamiento y clausura del local de Política Obrera (en la calle Rondeau 633, cerca de la terminal de ómnibus), de que yo era el apoderado legal en Córdoba, y también el que alquilaba el local. Instalada la dictadura, mi hermano, Rodolfo, fue secuestrado y torturado en Córdoba (fue liberado).Gracias al estado de sitio decretado por el "demócrata" Ítalo Luder en 1975 (continuado por la dictadura militar), mi causa permaneció abierta hasta... 1984. Años después me enteré de que, también, había sido expulsado de la UNC por el interventor militar. En Buenos Aires, en los días iniciales de la dictadura, Pablo se conmovió al verme dormir en el piso de la piecita que me sirvió de refugio provisorio: me consiguió un colchón.

En esos meses bravos de 1976 hacíamos cosas, las posibles, en Buenos Aires. Intentábamos organizar la resistencia juvenil a la dictadura asesina. El periódico "Política Obrera" pasó a ser publicado clandestinamente, como Adelante y luego como Tribuna, para después retomar su nombre original, hasta el número 336. Con Pablo, hacíamos la revista de la UJS, Juventud Revolucionaria, que circulaba de modo clandestino, modestamente mimeografiada. Nos encontrábamos en un barcito en el subsuelo del GEBA, en el centro (calle Bartolomé Mitre o Cangallo), para ver, escribir y corregir los artículos. Publicamos una poesía del español Marcos Ana, sobre los sufrimientos de las madres que visitaban a sus hijos presos en las cárceles, después de la guerra civil española. Lo comparamos con los sufrimientos de las madres argentinas en situación semejante. Las desapariciones ya eran conocidas, la palabra "desaparecidos", sin embargo, no era todavía corriente. Escribimos en la revista que las madres y parientes de presos y "detenidos ilegales" argentinos se podrían organizar y abrir un frente de lucha decisivo contra la dictadura militar. Mediados de 1976: todavía no existían las "Madres de Plaza de Mayo" ni la Comisión de Parientes de Detenidos y Desaparecidos. Lo escribimos y después, con Catalina Guagnini y otras madres, también lo hicimos.

Me fui del país casi un año después. A Pablo lo secuestraron en 1977, y lo sometieron a torturas atroces. "Era boleta", pero lo salvó la movilización de sus próximos, y una fuerte e inmediata movilización internacional, que ya ha sido descripta. Estuvo "detenido" (secuestrado) en el campo de exterminio llamado "El Atlético". La presión internacional sobre embajadas argentinas y personalidades (Francia, Brasil, España) fue decisiva para salvarlo. Agrego un datito más: el telefonema de David Owen, ministro de Exteriores de Inglaterra (del gobierno Callaghan, laborista, antes de la Thatcher) a su embajada en Buenos Aires, para que interfiriese por Pablo. Por orden (sic) de Betty Hamilton, histórica militante trotskista inglesa (casi 90 años y peluca), que había reclutado a Owen, en 1960, para el Partido Laborista. Lo sé porque estaba allí. El peso que eso pudo haber tenido en la liberación de Pablo, no lo sé. Lionel Jospin, diputado socialista francés, después primer ministro, también se movió en el mismo sentido.

Pablo fue liberado del campo de la muerte en mal estado y se fue al Brasil con su familia (dos hijos ya, Marina y Andrés, este nacido en 1976, en plena dictadura, hoy físico y matemático brillante). Sobre su experiencia de la tortura siempre fue bastante circunspecto. Hablamos, sin embargo, sobre eso. Fue excepcionalmente valiente, como ya consta, lo que no significa la idiotez de que no tuviera, de que no hubiera tenido, miedo. Pensó que se moría a los 27 años, y tuvo miedo. La valentía no consiste en ser un inconsciente, sino en enfrentar el dolor físico y el propio miedo a la muerte, en enfrentar al enemigo y enfrentarse a sí mismo. Pablo enfrentó los dos, y los venció. Llegó a decir "quiero vivir" a sus torturadores, y no se permitió más. La tortura le dejó secuelas físicas por un buen período de tiempo.

Años después, en 2009, como se sabe, declaró en los procesos judiciales abiertos contra sus torturadores, denunciando públicamente no sólo a ellos sino también al conjunto del régimen político y social que engendró la peor monstruosidad de la historia argentina: "El pasado jueves 13, Pablo Rieznik declaró en el juicio contra la cúpula del I Cuerpo de Ejército durante la dictadura. Lo hizo para confirmar la presencia en el campo "El Atlético" de Juan Carlos Higa, militante, periodista y poeta que compartió con Pablo el cautiverio en las mazmorras de los Videla y Cía. Más que una declaración, fue un alegato que puso de relieve no sólo la naturaleza del aquel encuentro pero, por sobre todo, las limitaciones del propio juicio. Pablo estaba convocado como "testigo" del eventual secuestro de Higa que la causa imputa a los capos del Ejército, pero no en su calidad, también él, de secuestrado, como si pudiera dar un testimonio desde la ajenidad. Yo no sólo "vi a Higa, como se afirma en el requerimiento para mi presencia ante este tribunal", señaló Pablo de entrada. "Lo que vengo a testimoniar es el fugaz encuentro de dos compañeros que trataban de alentarse mutuamente, intercambiando sus nombres, la identidad que los desaparecedores no habían podido borrar con su tormentos. Fue un acto de resistencia y, como tal, un símbolo más de la lucha de una generación entera de la época: la que había emergido en las facultades y en los colegios, en los barrios y en los lugares de trabajo, bajo el impulso de un acontecimiento que entonces nos marcó a todos", dijo Rieznik al referirse al levantamiento obrero y popular del Cordobazo de 1969.

"¿Cómo testimoniar mi encuentro con Higa si no es en las condiciones concretas de una historia que lanzó en masa a la juventud a la lucha, a la pelea por la libertad, por la democracia, por una sociedad de hombres y mujeres iguales, sin explotados ni explotadores? Sin esta historia, no tiene sentido el encuentro de esos dos muchachos que buscaron el aliento mutuo en las peores condiciones. Ni él ni yo estábamos allí por casualidad", señaló Rieznik, quien dio cuenta de su lucha anterior en la Tendencia Estudiantil Socialista Revolucionaria, agrupación estudiantil de Política Obrera (la organización del Partido Obrero en la época), de su participación en la dirección de la Federación Universitaria Argentina, de su convocatoria en tal condición al Congreso de la Unión de Estudiantes de Francia (Unef) en 1973. La misma Unef que se movilizó a la Embajada Argentina para reclamar su aparición con vida, no bien supo del secuestro y que contribuyó de esta manera, como planteó Rieznik a los jueces, a que su testimonio fuera posible hoy. Y concluyó: "estoy relatando entonces la historia de un genocidio, el intento de aplastar a una generación entera. Fue la tentativa de liquidar ese proceso de radicalización que explotó en la Córdoba insurgente de fines de los ‘60, una vez que, más tarde, el peronismo en el poder se mostró incapaz de contenerla, sea mediante los métodos de la cooptación, sea con los métodos también de la guerra civil que desató en los años 74 y 75, durante la presidencia de Isabel Perón".

"Me impuse el deber moral de contar este pequeño gran encuentro y de hacerlo como homenaje: 32 años después, tengo la posibilidad de dejarlo asentado en un proceso. Un homenaje a todos los Higa, a todos los compañeros. Que sepan, como quizá lo hayan intuido en los peores momentos, que nuestra generación está también aquí, que quienes eran los reyes de la vida y de la muerte están del otro lado como corderos negando los hechos. Que aquí estamos aún para denunciar que 32 años después no hay prácticamente ningún genocida condenado, mientras los juicios se arrastran penosamente en un territorio que linda con la impunidad, un juicio definitivo sobre nuestro régimen constitucional". Los hijos de Pablo y los compañeros presentes saludamos el final de su testimonio con un aplauso, que motivó que el presidente del tribunal "nos recordara" que "tales expresiones" estaban prohibidas en el recinto y amenazara con desalojar la sala (este tribunal, el TOF N° 5, no sólo impide el ingreso de cámaras, sino también hasta la presencia de símbolos o distintivos de lucha como el pañuelo blanco de Madres).

En Brasil, donde vivió por seis años, Pablo se repuso físicamente y se reintegró rápidamente a la actividad política. Ante la escisión del Corci (Comité de Organización por la Reconstrucción de la IV Internacional) participó de la lucha política brasileña que llevó a la formación de "Causa Operaria" (Organización Cuarta Internacional), que participó desde el inicio en el PT (Partido de los Trabajadores) como corriente revolucionaria diferenciada, hasta ser excluida del mismo en 1990. Viajó al Perú, donde reclutó en Lima a una organización (Comité por el POR) que participó, junto a PO y al POR boliviano, en la creación de la Tendencia Cuarto-Internacionalista (TCI).

En medio de esa lucha política internacional, Pablo redactó un documento político decisivo, si no el más importante, firmado con su histórico nombre de guerra de "Aníbal": la "Respuesta a Just" (Stéphane Just), un extenso texto de 1979 (que debería urgentemente ser reeditado, junto con otros) en el que, además de pulverizar políticamente a la corriente llamada "lambertista", replanteó y desarrolló cuestiones básicas del programa revolucionario internacional a la luz la experiencia histórica de las últimas décadas. El texto, brillante, fue publicado y circuló en Argentina como una de las bases político-ideológicas hacia el futuro Partido Obrero. Lo publicamos también en Paris, lo divulgamos donde pudimos en toda Europa (dudo, lamentablemente, que algún trotskista europeo, divididos entre dogmáticos sectarios obtusos y oportunistas de todo pelaje, siempre en medio a querellas de secta, haya comprendido siquiera una única línea).

En Brasil, Pablo completó sus estudios en economía en la PUC (Universidad Católica de San Pablo), los activistas de los años 70 difícilmente concluían sus carreras en Argentina. Al poco tiempo de recibido, pasó a ser profesor concursado de esa misma institución, durante breve tiempo, hasta su retorno a la Argentina, en 1983. El salario que le permitió mantener (modestamente) a su familia, que fue incrementada en Brasil por un tercer hijo (Martin) provino esencialmente de su empleo como investigador en el Cebrap (Centro Brasileño de Análisis y Planeamiento) donde creó y animó el "Grupo de análisis de la coyuntura económica". Por ese grupo de trabajo pasaron, y aprendieron con Pablo, varias figurasbrasileñas después públicas: Eduardo Modiano (futuro presidente del Banco de Desarrollo del Brasil, BNDES), Antonio Kandir (que dio su nombre a la ley que establece la distribución de uno de los principales impuestos federales entre la Unión y los Estados brasileños), Gesner de Oliveira (durante años presidente del Consejo Administrativo de Defensa Económica - Cade, del Brasil) y otros. Publicó artículos en la Folha de Sao Paulo y en revistas especializadas. Le sobraban talento y formación para hacer carrera como economista, del sector público o privado, pero continuó su carrera militante, e inició una carrera en la docencia e investigación universitaria.

Su modesta casa paulistana en la calle Cardeal Arcoverde, donde fui recibido y me alojé al llegar al Brasil (fines de 1981 - inicios de 1982), que ya abrigaba una familia numerosa, era también local de alojamiento y punto de reunión de los militantes y dirigentes de PO que venían de Argentina y aquellos que se encontraban exilados en Brasil, como Jorge Altamira, Ismael Bermúdez, Pablo Ferrari y otros. Se comía lo que se podía y se dormía donde era posible. Durante la guerra de las Malvinas, Pablo militó en el "Comité de Solidaridad con el Pueblo Argentino", compuesto básicamente por exilados argentinos, que encabezó una fuerte agitación política (contra la agresión angloyanqui y contra la dictadura militar de Galtieri) en la capital paulista, incluyendo solicitadas en los diarios y un acto público en la "Praça da Sé", frente a la catedral.

Escribió en Brasil su primer libro ("Endeudamiento externo y crisis mundial") que fue publicado en la segunda mitad de los años 1980 por el Clacso (Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales), en Buenos Aires. Como su propio título lo indica, el libro se adelantó a su época, y es hasta el presente una referencia sobre el tema. Pablo, capaz de los más grandes esfuerzos intelectuales, físicos y políticos, era también capaz, crónicamente distraído, de complicarse con las cosas más banales del día a día. No lo puedo criticar por eso (una vez olvidé las llaves de mi casa dentro de la heladera de la suya). Recuerdo una ocasión en que una lluvia torrencial derribó parte del techo de su casa, lo que para Pablo planteaba problemas equivalentes a la cuadratura del círculo. Finalmente envió un telegrama a la inmobiliaria a la que alquilaba, exigiendo que resolvieran el problema arreglando el techo. La inmobiliaria respondió positivamente; Pablo, contento y aliviado, como niño con juguete nuevo, mostraba el telegrama (o carta) de la inmobiliaria a todos los que conocía, explicándolo como si fuera equivalente a la victoria griega sobre los persas en las Termópilas. Si alguien le hablaba de sus méritos políticos o literarios, al contrario, se hacía el distraído.
Derribada la dictadura, Pablo volvió a la Argentina, a Buenos Aires, transformándose en un puntal en la construcción del Partido Obrero. Se empleó provisoriamente como bancario y luchó por un puesto de docente en la Universidad de Buenos Aires, hizo varios concursos (fue inclusive reprobado en uno, por una banca presidida por Enrique Tandeter ¡debido a su "currículum poco académico"!), hasta finalmente conseguirlo, venciendo el concurso para Profesor Titular de Economía en la Facultad de Ciencias Sociales de la UBA, en la que enseñó e investigó durante tres décadas.

En la nueva etapa política argentina, Pablo fue nuevamente un militante de vanguardia. Todos recuerdan su intervención en un programa de TV, al inicio de la "democracia" restaurada, en nombre del PO, cuando todos los políticos presentes se dirigían con respeto a Osvaldo Cacciatore - el brigadero-chorro-asesino que gobernó Buenos Aires entre 1976 y 1982 -, candidato a cualquier cosa por el partido del Chancho Alsogaray, mientras Pablo lo denunció como un agente del genocidio militar y lo calificó en su propia cara de "rata de albañal", lo que provocó la retirada voluntaria y silenciosa del ex intendente, con el rabo entre las piernas. Contra los "demócratas" oportunistas y cagones, que sólo querían prenderse de los presupuestos estatales y abrir líneas de negocios, Pablo salvó públicamente la honra de la democracia argentina, lo que ya le valdría una mención en la historia. Sería necesario transcribir y reproducir integralmente su intervención en esa ocasión.

Pablo fue candidato a diputado, a senador (¡proponiendo la extinción del Senado!) y hasta a vicepresidente del país, por el PO. Su popularidad superaba los porcentajes electorales. El partido se lo reconocía: en un congreso nacional del PO, Pablo fue el miembro más votado en la elección del Comité Central, el único con votación unánime, superando por un voto a Jorge Altamira. Como militante sindical clasista, participó de la creación de la gremial docente (AGD-UBA) y de la refundación del sindicato nacional docente universitario (Conadu). Y tuvo tiempo para tener dos hijos más (Julián y Tomás) con su nueva compañera, María. Hacia el final del gobierno de Alfonsín, cuando terminaba mayo de 1989, la hiperinflación destruía la moneda y la vida del pueblo argentino. En el Gran Buenos Aires se producían saqueos a los supermercados. Los banqueros y capitalistas fugaban miles de millones y organizaban conscientemente el caos económico. En lugar de denunciar a los responsables del caos, Alfonsín atacó a la izquierda: "Treinta trotskistas no me van a torcer el brazo". Comenzó entonces una campaña política para responsabilizar al PO por los saqueos. La campaña oficial era un montaje puro para criminalizar a la izquierda revolucionaria. El Partido Obrero venía de realizar una gran campaña electoral, en la que había denunciado la complicidad del gobierno con los vaciadores del país. La repercusión de la campaña del PO fue impresionante. La dirección del PO fue detenida en la Casa Rosada, cuando concurría para interpelar al presidente Alfonsín acerca de la campaña de calumnias de su gobierno a través del Ministerio del Interior. Una vigorosa campaña nacional e internacional los rescató rápidamente de su detención

Al lado de su destacada actividad política en Argentina, Pablo no dejó de ser, tampoco, un militante internacionalista, que ya había militado en Francia (en su primera juventud) y en Brasil. Volvió a realizar intervenciones políticas, conferencias o participaciones en congresos políticos, en Uruguay y Brasil. Representó al PO en el Foro de San Pablo, exigiendo la expulsión del partido burgués boliviano (el MBL) que participaba del Foro y de un gobierno de su país que había decretado el estado de sitio y encarcelado a centenas de dirigentes obreros; una intervención histórica, que también hay que rescatar y republicar, que concluyó en una moción de orden que tuvo el apoyo de diez organizaciones y partidos políticos, incluido el PC paraguayo, el último de los partidos presentes que había salido de la clandestinidad dictatorial.

Participó de las reuniones que condujeron a la fundación de la CRCI (Coordinación por la Refundación de la IV Internacional), y en reuniones de la propia CRCI, representando al PO. En una reunión internacionalista que organizamos en 1998 en Brasil, con la presencia de diversas organizaciones, incluido el movimiento de los campesinos sin tierra (MST), sus ideas y su oratoria (en portugués) llamaron la atención de los dirigentes nacionales del MST que estaban presentes, José Rainha y Gilmar Mauro, al punto que lo llevaron para que hablase cuanto quisiese en una importante ocupación de tierra que se realizaba en una localidad vecina. Pablo explicó la crisis capitalista mundial a los campesinos brasileños que, en ese momento, eran la vanguardia de la lucha de clases continental.

Y continuó escribiendo. Cada vez más. Muchos artículos. Varios de ellos fueron reunidos después en libros, que son recopilaciones. Pero también escribió libros, esto es, textos con aliento y extensión de libros que, en sus líneas generales, ya estaban completos en su cabeza antes de que escribiera la primera línea. Ideas que, por su tamaño o extensión, sólo podían ser expresadas en libros. Estos libros - "Las formas del trabajo en la Historia", "El mundo no empezó en el 4004 antes de Cristo -Marx, Darwin y la ciencia moderna", "Un mundo maravilloso. Capitalismo y socialismo en la escena contemporánea", "La pereza y la celebración de lo humano", "La Revolución Rusa en el siglo XXI", para nombrar los principales - pueden parecer vulgarizaciones, con toda la connotación peyorativa asociada a la palabra "vulgar". Pero no lo son, o mejor, no son sólo eso (la vulgarización de lo bueno es un arte de los más nobles, por otro lado).

Académicamente, acabó por ser respetado, aunque lo suyo nada tenía de una carrera académica convencional. Publicó una revista, Hic Rhodus, que es de lo mejor que se produjo (y produce) en la academia argentina, con un criterio amplio y mano bien firme. Los que le reprocharon su carácter "no académico", académicamente, no le llegaban a los talones. Con un bagaje intelectual que le venía de los tiempos del Nacional Buenos Aires (a cada rato se acordaba de las lecciones de química o física) y de lecturas febriles, poco sistemáticas (así son las lecturas de los militantes, en general) a lo largo de años, Pablo se rehusaba a encerrarse en los límites académicos de la "especialidad". Era marxista, claro, pero completamente abierto, no en el vulgar sentido del término (esto es, inconsistente). "Pablo se sorprendía", como apuntó correctamente Lucas Poy. Y en eso consistía su ortodoxia.

Ya enfermo, continuaba a leer vorazmente, y comentaba todo lo que leía, lo que descubría, queriendo escuchar opiniones. No tiraba la teoría por la borda en nombre de la "novedad", como hacen no pocos académicos en busca de un nicho exclusivo (en general, una pobre imitación), ni quería "adaptar" el marxismo a la manera revisionista (sería mejor decir ignorante): buscaba construir teóricamente a partir del legado de la teoría marxista y de los debates económicos, históricos, antropológicos, filosóficos y científicos -de las ciencias exactas- contemporáneos (sí, todo eso). Sus libros están ahí para probarlo, no es cuestión de discutirlos ahora en el detalle, pero continuarán a ser leídos por años y años. Sin decirlo ni pensarlo, se había propuesto la tarea de un titán.

Sobre su última aparición pública en Brasil, dejo la palabra a Hernán Gurián: "El 9 de octubre de 2013 tuve la oportunidad de participar en un seminario internacional en la Universidad de São Paulo organizado por Osvaldo Coggiola. En la mesa sobre la "crisis internacional del capitalismo" expuso Pablo Rieznik. Allí fui testigo de algo que siempre fue normal para los que conocimos a Pablo en su actividad intelectual y militante, un auditorio totalmente cautivado por sus brillantes y eruditas intervenciones. Los cientos de estudiantes y militantes revolucionarios brasileros que seguían la exposición de Pablo aquella noche, y en un portugués perfecto, parecían hipnotizados bajo el influjo y la impronta de este enorme pensador marxista. Todos comprendieron inmediatamente que se encontraban frente a un fuera de serie y supieron disfrutarlo en aquella gran jornada".

En sus últimos días, ya a sabiendas del fin próximo, continuaba a escribir, privándose del sueño. Leía sobre el cáncer, y buscaba su significado más allá de la destrucción física. Y escribió hasta reflexiones sobre la vida y la muerte, donde no falta la política. Esto también hay que publicarlo. Hay que reunir lo que Pablo escribió que no está en libro, las mejores fotografías, y publicar todo. Pablo vivió intensamente, en épocas revolucionarias y en épocas sombrías, fue hasta el fondo en todo lo que hizo, y esto lo consumió físicamente, provocándole una muerte prematura, cuando todavía le quedaba mucho por decir y hacer. ¿Puedo osar decir que fue esto lo que sucedió con muchos otros de su generación, la generación argentina que más vidas dio por la revolución, en formas de muerte directamente violentas (como las que Pablo vio cara a cara) o "menos violentas"? No para pedir compasión, pero, por favor, sáquense el sombrero, que aquí pasa uno que no vivió al divino botón (sería mejor decir al pedo). Conocí a varios que murieron de infarto poco después de salir del chupadero, cuando "lo peor" ya había pasado. No cuentan, claro, entre los muertos de la dictadura. Y, sobre este asunto, mejor parar por aquí.

Pablo fue militante de vanguardia, en Argentina y en el exterior, fue un tribuno revolucionario de los mejores de nuestra historia, bancó la prisión y la tortura, bancó el exilio, publicó una decena de libros, escribió centenas de artículos, publicó y editó revistas, dio clases por más de treinta años, dio conferencias y participó en congresos académicos y políticos en más de diez países, siempre inquietando o conmoviendo a su público (Pablo hablaba igual en cualquier tipo de congreso, reunión o simposio), investigó y suscitó investigaciones, fue el mejor amigo de sus amigos; como no podía dejar de ser, pasó por crisis matrimoniales semejantes a la guerra de Troya, y tuvo tiempo para criar cinco hijos: para hacer todo lo que hizo, en una vida relativamente corta, harían falta unas diez personas, y no sería lo mismo. ¿Quién, hoy, puede mostrar una hoja de servicios semejante? Nadie. Repito: nadie.

Hasta siempre, querido Pablo, hasta la victoria siempre, Aníbal, que un día, no lejano, la Argentina y el mundo finalmente te merezcan.

Esto no es una nota necrológica. Es la celebración de una vida. De una que, como pocas, quiso ser con todas las otras. Si fuera una nota necrológica, comenzaría convencionalmente por un epígrafe citado de algún poeta (a Pablo no le gustaba mucho la poesía, aunque digería a Antonio Machado y Dylan Thomas). A Pablo, todos los poetas le quedaban chicos. Que se sepa.

SEDUFSM - Historiador diz que saída para a crise passa por projeto anticapitalista

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PABLO RIEZNIK 1° MAYO 1999

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

GRÉCIA: UMA DERROTA POLÍTICA

                                                                                   


Jorge Altamira



A vitória eleitoral do Syriza, no dia 20 de setembro passado, provocou rios de tinta. De um modo geral, as análises oscilam entre a denúncia da 'traição' do Syriza, por um lado, e o prognóstico, pelo outro, de que esta “traição” teria pernas curtas. Isto porque a aplicação do plano de ajuste e austeridade imposto pela Troika é inviável ou porque, inevitavelmente, deverá provocar lutas mais intensas e levantamentos populares. Estes ângulos do balanço deixam de lado a questão principal.

A vitória do Syriza se distingue porque tem sido o resultado de um malabarismo politico poucas vezes visto. Poucas semanas antes o eleitorado havia votado um rotundo NÃO ao pacote de resgate da Troika, e o fez nas condições mais difíceis que se possa imaginar, em meio a um “corralito” bancário e uma sabotagem financeira aberta feitas pelo BCE. Esta circunstância extraordinária demonstrou que a massa majoritária dos votantes era perfeitamente consciente do alcance de seu voto: a ruptura com a eurozona e a inevitabilidade da adoção de medidas anticapitalistas. O que ocorreu posteriormente é fartamente conhecido: Syriza adotou o programa dos credores, perdeu a maioria parlamentar, chamou eleições antecipadas e terminou ganhando com toda comodidade.

A chamada “traição” do Syriza é tão evidente como relativa. Em primeiro lugar, porque nunca ocultou sua posição de apoio incondicional à União Européia e ao sistema euro, e porque se trata de uma organização politicamente democratizante, ou seja, que adota as condições do Estado capitalista. A isto temos que agregar a renúncia em formar um governo independente e estabelecer uma coalizão com a direita clerical e militarista. Seu governo foi um constante recuo diante da pressão do eurogrupo, acompanhado dos pagamentos dos vencimentos da dívida externa, inclusive ao preço de confiscar os saldos líquidos de diversos organismos estatais ou para estatais, e da aceitação em grande parte das privatizações exigidas pela Troika. Finalmente, o próprio plebiscito foi claramente uma manobra de alcance limitado, pois tirava do governo a responsabilidade de rejeitar as propostas do eurogrupo e porque se reduzia a rejeição de uma proposta circunstancial. Foi a intensidade da mobilização popular pelo NÃO o que deu ao plebiscito um caráter excepcional, de nenhuma forma a proposta do Syriza.

Syriza não recolheu somente o apoio eleitoral da massa popular que votou pelo NÃO, após repudiar seus termos, o qual é por si mesmo impressionante. Conseguiu-o, além disso, após atravessar uma forte crise em sua formação política, que foi abandonada por grande parte de seu Comitê Nacional, que passou a formar a Unidade Popular, com o apoio inclusive de correntes externas ao Syriza. Unidade Popular converteu-se no porta-voz do NÃO e do chamado “programa original”do Syriza, votado três vezes: em maio, junho de 2012 e janeiro de 2015. Todas essas credenciais não lhe bastaram para ingressar nem sequer no parlamento, pois obteve uma votação inferior ao 3% exigido por lei. Em poucas semanas, Syriza foi plebiscitado duas vezes: uma vez pelo NÃO e em seguida pelo SIM. As denúncias de “traições”, os prognósticos de fracasso não chegam para explicar o ocorrido e caracterizar a relação de forças presentes.

A travessia política do governo Syriza constitui um caso típico de um governo kerenkista. A burguesia não pode governar por meio de seus partidos tradicionais, nem o proletariado é capaz de derrubar o poder capitalista. Se trata, por certo, de um fenômeno transitório, porém com uma ressalva: sua duração e sua capacidade de ação pode ser prolongada e é relativamente consistente, e pode ser uma ponte ao restabelecimento de uma forma tradicional de governo burguês., não necessariamente uma transição a um governo dos trabalhadores. Este último depende que a classe operária converta-se em revolucionária a partir de sua experiência política. Os resultados eleitorais mostram que a alternativa operária e socialista está longínqua. A vitória do Syriza é, acima de tudo, uma derrota política contundente da vanguarda operária e da esquerda combativa ou revolucionária. Nenhuma recaída na crise social pode, por si mesma, superar esta crise de direção; ao contrário, poderia reforçar uma direitização do kerenkismo ou sua substituição pela direita. No marco da bancarrota capitalista mundial, o que ocorreu na Grécia antecipa os grandes problemas que esta bancarrota coloca para a esquerda revolucionária. A direitização declarada do Podemos, na Espanha, ainda que muito longe da tragédia grega, é outra amostra do destino das convulsões populares que não são interpretadas e conduzidas pela esquerda revolucionária.

Tudo isso leva ao ponto crucial do programa de transição, ou seja da passagem que vai da bancarrota capitalista e a reação popular ao poder dos trabalhadores. O programa de transição deve ser entendido, sobretudo, como um programa de poder, e de nenhum modo como uma coleção de consignas isoladas, frequentemente sindicais. O período que vai desde maio de 2012, quando se produz a grande guinada política das massas, até o plebiscito do NÃO, em julho de 2015, colocou diferentes crises de poder, desde a proposta de um governo de esquerda, no inicio da etapa. O novo governo de colaboração de classes Syriza-Anel atravessará com toda segurança novas crises políticas, alguns meios apontam uma fração chamada “dos 53” como a nova oposição no interior do governo. Os novos cortes sociais do pacote da Troika provocarão novas lutas.


Após as convocatórias das recentes eleições, a esquerda opositora ao Syriza, incluída a própria Unidade Popular, teve que improvisar programas políticos, que não puderam superar, no entanto, o ponto do que fazer frente ao euro e a eurozona. De um lado, Unidade Popular propôs o retorno ao dracma na perspectiva de suscitar uma improvável reativação capitalista, no estilo da América Latina entre 2003 e 2009. De outro lado, os adversários da recuperação capitalista sustentam que na ausência de uma revolução simultânea na Europa, um governo dos trabalhadores deverá restabelecer uma moeda nacional, o tema que mais pesa na consciência popular. Para sair desta etapa de refluxo que provocará a derrota política sofrida pela vanguarda operária, e para preparar as condições para um ascenso político vitorioso, é necessário um programa claro: Uma Tese de Abril para as condições gregas.

                                                              

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

EEK E ANTARSYA UNEM SUAS FORÇAS PARA AS ELEIÇÕES ANTECIPADAS DE 20 DE SETEMBRO NA GRÉCIA

                                                                       


O Partido Revolucionário dos Trabalhadores (EEK - trotskistas) anuncia sua participação nas eleições de 20 de setembro em colaboração com a frente ANTARSYA.

Estas eleições "via rápida" (“fast-track”), que Tsipras convocou depois da indignação que despertou com a adoção do 3° memorando e sua capitulação aos especuladores locais e internacionais, estão sendo levadas a cabo no contexto de uma deterioração da crise mundial, estrutural e sistêmica do capitalismo, com guerras que se estendem desde o leste de Europa (Ucrânia) ao Oriente Médio e África, com centenas de refugiados desesperados afogados no mar Egeu e no Mediterrâneo, em condições de total bancarrota econômica e política e de crise de poder na Grécia, e a vergonha extrema para a última muleta do poder burguês, a esquerda reformista SYRIZA.

Dentro destas condições críticas, o EEK considera necessária a criação de uma frente única de luta de classes com a finalidade de dar uma resposta operária à crise, para atacar aos usuários do capital local e estrangeiro, uma resposta ao enorme desemprego, ao fechamento de fábricas e pequenos comerciantes, ao empobrecimento e desumanização. Nós dizemos: sim, existe uma solução à crise histórica e sistêmica do capitalismo. Uma solução de classe, tirando do poder os partidos do bloco do Memorando, para sair do sistema de crise e decadência com o estabelecimento do poder dos trabalhadores e um programa socialista na economia com a autogestão direta dos próprios trabalhadores, sem patrões nem burocratas.

Necessitamos urgentemente uma frente única de luta com uma base de classe, no lugar da unidade amorfa dos patrões sob as sombras da burguesia, uma frente contra o nacionalismo, o racismo, o fascismo e o imperialismo. Sobre esta base, cremos que a cooperação com os companheiros de ANTARSYA é um passo adiante no desenvolvimento do movimento de emancipação dos trabalhadores.

                               DECLARAÇÃO CONJUNTA DE ANTARSYA - EEK

As delegações de ANTARSYA e EEK reuniram-se e analisaram os acontecimentos políticos e a possibilidade da cooperação política e eleitoral nas eleições de 20 de setembro.

ANTARSYA apresentou um chamado à cooperação política aberta e se chegou a um acordo sobre os pontos programáticos básicos. O terreno comum é que a primeira tarefa da esquerda anticapitalista é contribuir para o desenvolvimento de uma ampla frente social e política de ruptura que impeça que o terceiro memorando se implante; que sirva para romper os velhos memorandos e todas suas leis de aplicação; pela satisfação imediata e "unilateral" dos direitos sócio-econômico-políticos e democráticos da classe operária, os jovens, os desempregados, os pobres, e os pequenos e pobres agricultores.

Se acordou que o colapso de SYRIZA demonstrou às amplas massas que não pode haver outro caminho para a maioria trabalhadora que o conflito e a ruptura com o capital e sua estratégia para superar a crise às custas dos trabalhadores, que se existe uma alternativa à rota capitalista de um só sentido, uma alternativa baseada em medidas como a nacionalização dos bancos e as grandes empresas sem pagamento e sob controle operário e popular; o não reconhecimento da dívida e sua suspensão e seu perdão; a imediata satisfação "unilateral" das demandas e necessidades populares; a ruptura imediata e a saída da Zona do Euro e da UE. Lutamos que a ruptura e saída da Zona Euro/UE que tenha um caráter anticapitalista, internacionalista, anti-imperialista específico, baseado na cooperação das classes trabalhadoras e as massas populares da Europa e seus movimentos em uma moderna direção socialista e comunista.

A ação na aplicação de um programa deste tipo só pode se dar com o povo organizado, dirigido por um movimento operário classista reconstituído em um caminho de demandas e conquistas, que derrote e rompa o poder burguês e o Estado, para que a riqueza e o poder passem para as mãos dos trabalhadores, por uma sociedade sem exploração.

Sobre esta base, ANTARSYA e EEK decidem trabalhar juntos nas próximas eleições de 20 de setembro. Não faz falta dizer que cada força conserva sua autonomia, sob a cooperação político-eleitoral, para projetar seu próprio programa. Além da compreensão pela necessidade do aprofundamento da cooperação das forças anticapitalistas, anti-imperialistas, anti-UE e de orientação subversiva, ANTARSYA e EEK estão de acordo em que a cooperação nas eleições seja um primeiro passo no curso de uma ação política conjunta e de diálogo teórico-político e iniciativas, dentro de nosso compromisso comum para promover a causa da classe operária pela criação de outra esquerda que empurrará até o final as demandas pela liberação social.