sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

O REAJUSTE DO AJUSTE BRASILEIRO

                                                                               

Osvaldo Coggiola

O quarto mandato presidencial do PT começou sob o signo: a) da crise econômica e política; b) da tentativa de orquestrar um ataque estrutural contra as conquistas trabalhistas e as condições de vida dos assalariados brasileiros, com vistas ao “equilíbrio fiscal” e ao rebaixamento do “custo Brasil” (recuperação da taxa de lucros), supostamente para gerar uma nova corrente de investimentos externos e internos. As condições para enfrentar as primeiras e desferir o segundo estão fortemente condicionadas pelo processo e os resultados eleitorais de 2014.
No ano passado, as previsões oficiais de crescimento econômico (1% do PIB) não ocultaram as previsões mais realistas do “mercado”, que anteciparam certeiramente um retrocesso econômico (queda do PIB per capita, com 0,1% de crescimento). As exportações de manufaturados (base principal da produção industrial) se situaram em 2014 em US$ 6 bilhões abaixo de 2008, um retrocesso absoluto de 17%. A balança comercial teve um déficit de US$ 3,93 bilhões, o primeiro em 14 anos. O déficit comercial em bens industriais (importações/exportações de bens manufaturados) subiu 150% em cinco anos de suposta “não crise” (só Arábia Saudita fez pior na economia mundial – graças à sua monstruosa renda petroleira, se ne frega, por enquanto).
Nas condições de crise mundial, a reprimarização da economia brasileira está cobrando seu preço. Como apontou um economista da Consultoria LCA, “as cotações recentes do real, das ações na Bolsa e dos títulos públicos de longo prazo já são negociadas como se o Brasil não fosse mais um país com grau de investimento” (um “título” habilitante para investimentos externos, que os órgãos financeiros internacionais lhe conferiram em 2008). O capital mundial lhe está baixando o polegar ao país, o movimento típico prévio à fuga maciça de capitais, e ao consequente default.

                                           Entre Black Bloc e Black Rock

Os indicadores industriais de produção, faturamento, uso da capacidade instalada, etc., embicaram para baixo. A ausência de investimentos (estatais ou privados) levou à crise os dois setores básicos da sobrevivência social: água e energia. Já estão sendo realizados rodízios em ambos os setores, em previsão de um apagão. Brasil desperdiça 37% de sua água tratada (na Europa, esse índice se situa entre 7% e 10%). Quanto à energia, o novo ministro de Minas e Energia, Eduardo Braga, literalmente encomendou-se a Deus (que seria, como se sabe, brasileiro). As distribuidoras de energia (setor privatizado pelo “neoliberalismo” tucano, o PT se limitou a “regula-lo”, com os resultados que agora se constatam) estão em situação falimentar. Para evitar cortes imediatos de fornecimento, o governo teve de entrar com empréstimos diretos (70% do auxílio às empresas geradoras e distribuidoras de energia foi realizado através de bancos públicos) e também como fiador de empréstimos em bancos privados. Nacionalizar todo o setor (“produtores” e distribuidores), que está saqueando a população e afundando o país, nem pensar.
O episódio eleitoral de 2014 ficou marcado inicialmente pela inesperada ascensão eleitoral de Marina Silva, cuja única “proposta concreta” era a de um governo “técnico”, isto é, um “governo com as melhores cabeças do país”, qualquer que fosse sua origem político-partidária ou não partidária. Que semelhante engendro (um não partido + uma não proposta) chegasse a encabeçar as sondagens eleitorais foi um índice da falência do sistema político brasileiro, isto é, da crise da chamada “transição política”. A tendência quase foi encampada pelo PT, que chegou a cogitar em propor Lula como chefe da Casa Civil (transformado numa espécie de primeiro ministro), como garante do poder e governo de fato, transformando Dilma numa rainha de Inglaterra com data de validade, uma “aventura” híbrida de presidencialismo parlamentarista (ou parlamentarismo presidencialista). Não foi necessário, pois, carente de solidez e sem mais recursos que alguns despautérios reacionários primários dirigidos à sua base eleitoral evangélica, a candidatura de Marina acabou caindo, considerada como uma aventura política por boa parte do empresariado.
Em um contexto de inflação crescente, para “salvar a economia” até as eleições gerais o governo petista apelou novamente para a receita da catástrofe: afrouxamento das regras financeiras (encaixes e depósitos compulsórios dos bancos) para incrementar ainda mais o crédito ao consumo, em condições de default potencial no consumo privado (63% das famílias estão endividadas, uma percentagem que é bem maior nas grandes cidades, com um 20% do total das famílias, ou 33% dos endividados, em situação de atraso ou inadimplência).
Em agosto de 2014, o Banco Central reduziu em R$ 15 bilhões o capital mínimo exigido para as operações bancárias, o que se somou ao corte de R$ 10 bilhões realizado em julho: com isso, os bancos puderam adicionar ao sistema de empréstimos a bela soma de R$ 225 bilhões, nove vezes o valor subtraído do capital mínimo exigido pelas normas de “regulação” financeira, uma verdadeira “fuga para frente” que não resolve nenhum problema estrutural. No balanço econômico dos primeiros quatro anos de Dilma, o crescimento acumulado do PIB caiu de 19,6% para 7,4% (uma redução de 60% em relação a Lula I e II); a taxa de inflação acumulada aumentou de 22% para 27% (aumento de 20%); o déficit acumulado em conta corrente pulou de 98,2 bilhões de dólares para 268 bilhões da mesma moeda, um aumento de 170%. A política capitalista está levando o Brasil para um buraco fundo de sua história econômica.
No entanto, na ausência de um ativismo popular independente, as eleições foram confinadas a uma disputa entre os setores dominantes. O empresariado fez mais doações à campanha pela reeleição de Dilma Rousseff (R$ 300 milhões) do que à do governador mineiro Aécio Neves. Esse fator foi decisivo: os votos derivados do “Bolsa Família” são considerados estáveis (27 milhões, aproximadamente) e perfazem só metade do eleitorado que deu a vitória ao PT. Além da estabilidade política, a grande patronal levou em conta que, em matéria de repressão (militarização e prisões, “lei antiterrorista” em andamento parlamentar) o governo petista superou todos seus predecessores, com a vantagem adicional de que o partido controla a principal central sindical (a CUT) e tem laços com os movimentos populares, ou seja, um poder de cooptação de lideranças bem superior ao dos tucanos.
Dilma Rousseff, além disso, anunciou com significativa antecedência que abriria mão, em um segundo mandato, da equipe econômica precedente. Buscou, desse modo, absorver a pressão dos "mercados", cuja principal preocupação era que o Banco Central tivesse a capacidade de honrar o pagamento da dívida externa e aumentar os “incentivos” para que o capital especulativo não escapasse do país. Entre os “incentivos” não figuram somente o congelamento de salários e a redução dos gastos sociais. Um lugar importante é ocupado pela liberalização do comércio exterior e a mudança da política para o petróleo. Os esforços do governo para assinar um acordo de livre comércio com a União Europeia, para debilitar o Mercosul e assim “liberar” a política brasileira da argentina, foram bloqueados pelo governo platino, oposto a essa política (como também o é o governo do Uruguai).
Na questão do petróleo, o governo Dilma enfrentou a pressão para que a Petrobras atendesse os interesses de seus acionistas privados (aumento do preço da gasolina e uma política de maiores lucros e distribuição de dividendos) e desse mais espaço para as empresas petrolíferas internacionais na exploração da plataforma marítima (pré-sal). A ascensão eleitoral inesperada da oposição do PSDB (candidatura de Aécio), na última fase da campanha, respondeu a essa tendência capitalista. A oposição tucana está contra o regime de partilha na exploração do petróleo e contra a legislação que obriga a presença da estatal em todos os poços em exploração, na intenção de abrir mais a exploração ao capital estrangeiro. A redução dos investimentos da petroleira liberaria também mais capital para a distribuição de dividendos aos acionistas privados externos da Petrobrás, nucleados basicamente nos fundos de pensão norte-americanos e no fundo de investimentos Black Rock.
Nessas condições, os projetados vinte anos de governo petista, que alguns sociólogos chegaram a qualificar como “lulismo”, reedição “modernizada” e “democrática” dos vinte anos varguistas, ameaçaram afundar. O governo petista, diante disso, se pronunciou rapidamente em favor de atender as reivindicações petroleiras do grande capital, e mandou às favas as promessas feitas logo depois da explosão social de junho-julho de 2013.
                                                           

                                                    Eleição e Petrolão

O resultado eleitoral de outubro, por isso, não expressou a rebelião popular de 2013. Ficaram nos primeiros lugares os agentes políticos principais das classes dominantes. Abriu-se, nessas condições, uma nova transição política e um período de crise. No primeiro turno, a proximidade dos votos das candidaturas da situação e a da oposição, 41,5% para Dilma (quase 47% em 2010) contra 33,6% do PSDB (32,6% há quatro anos), com Marina Silva indo de 19,3% para 21,3%, expressou uma derrota política do governo. Embora vencendo nos estados de Minas Gerais e de Bahia, ele foi severamente derrotado em São Paulo e Rio Grande do Sul, este último um marco da ascensão eleitoral do PT nas últimas décadas do século passado. Dilma Rousseff obteve a menor proporção de votos majoritários desde que Lula ganhou a presidência em 2003.
As eleições não traduziram a revolta popular de 2013 contra os aumentos das tarifas de transporte e o colapso dos serviços públicos essenciais. Os partidos e coligações se beneficiaram desproporcionalmente das contradições do movimento popular, em cujo seio opera a burocracia sindical, em especial a governista CUT; o oportunismo eleitoral de um setor da esquerda, que tem somente olhos para o carreirismo parlamentar; a debilidade dos setores classistas nos sindicatos e na juventude. Sob estas condições, as eleições funcionaram como um espelho distorcido da realidade. As sondagens eleitorais privadas e os meios de comunicação, mais uma vez, mostraram seu caráter manipulador, rebaixando e levantando as chances de cada candidato, de acordo com as circunstâncias e conveniências das classes dominantes. A volatilidade pré-eleitoral foi um forte sinal da enorme desconfiança do eleitorado diante das opções apresentadas.
Confirmaram assim sua hegemonia política as forças responsáveis pela recessão - especialmente as demissões e suspensões na indústria automobilística - a inflação e o aumento do desemprego industrial. Dilma Rousseff começou seu segundo mandato depois de vencer o 2º turno com 51,6% dos votos. Nas eleições presidenciais anteriores, Lula havia obtido 61,3% e 60,8% (2002 e 2006) e a própria Dilma, 56% (2010) dos votos, no segundo turno. No berço histórico do PT, o ABC paulista, Dilma foi derrotada. Depois da vitória eleitoral, sua primeira medida foi aumentar as taxas de juros, para “acalmar os mercados”, isto é, aumentar a dívida pública. O capital financeiro já tem uma taxa de lucro entre 40% e 50% maior que a média dos lucros do país. A segunda foi oferecer o ministério da Fazenda ao presidente do Bradesco, que rechaçou a oferta.
A hegemonia política reacionária se encontra em descompasso com a situação econômica do país. A dívida pública do Brasil supera 60% do PIB; pior ainda é a situação da dívida privada, que está perto de 100% do PIB. Em que pesem os superávits primários que totalizaram, entre 2002 e 2013 e em valores correntes, R$ 1,082 trilhão, a dívida interna pulou para quase três trilhões de reais (US$ 1,2 trilhão). Nesse quadro, a entrada de capital especulativo para aproveitar a diferença das taxas de juros brasileiras com as dos mercados internacionais tem sido extraordinária nos últimos anos, mas agora enfrenta uma reversão de tendência. A fuga de capitais já resultou em uma desvalorização do real muito significativa, da ordem de 30%.
O medo da fuga de capitais exerce uma enorme pressão sobre a taxa de juros no Brasil, que por sua vez tem um impacto negativo sobre o financiamento da indústria e sobre o crédito ao consumo, que se encontra em níveis muito altos. A propalada "ascensão social para a classe média" é uma consequência do endividamento sem precedentes das famílias de todas as classes sociais. O Brasil pós-eleitoral é o do ajuste mais ajustado e o da acentuação do conflito de classe. A filiação petista da presidente esconde o verdadeiro caráter do seu governo, que é, em primeiro lugar, uma aliança do PT com o PMDB, o partido eleitoralmente mais importante do país, criado sob a ditadura militar, e, por outro lado, com a direita evangélica, o que impõe à coalizão oficial uma agenda clerical e confessional. Os votos obtidos pela situação foram expressão dessa coalizão. O chamado "governo do PT" é um eufemismo, que ajuda a ornamentar essa coalizão com enfeites progressistas. Os acontecimentos mais marcantes de corrupção durante a administração petista estão relacionados com a necessidade de manter uma frente que possibilite uma maioria parlamentar.
O escândalo de corrupção da maior empresa do país, a Petrobrás, a chamada Operação Lava Jato, adquiriu dimensões imprevistas. O “mensalão” havia sido definido como “o maior” e “o último” dos escândalos de corrupção; o da Petrobrás lhe tirou, com folga, ambos os títulos. O esquema de propinas multimilionárias para a concessão de contratos públicos envolve as nove maiores empresas construtoras do país (Camargo Correa, Engevix, Galvão, Mendes Júnior, IESA, OAS, Odebrecht, Queiroz Galvão e UTC) que já têm vários diretores presos. Os beneficiários, os diretores da empresa estatal, desviavam as propinas para as contas dos partidos da coalizão de governo (PT, PMDB, PP, e algum outro da “base aliada”) e, claro, até suas próprias contas. Não é necessário dizer que as propinas eram repassadas pelas empreiteras às contas (superfaturadas) das obras contratadas, configurando um esquema conjunto de saque multimilionário dos cofres públicos.
O banco Morgan Stanley calculou que as perdas da petrolífera devido ao esquema seriam de R$ 21 bilhões (pouco menos de US$ 10 bilhões). As empresas envolvidas no esquema corrupto demitiram mais de 12 mil trabalhadores em menos de dois meses, sem indenização, e deixando inconclusas enormes obras em andamento (Comperj, no Rio de Janeiro; Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco). Um dos funcionários da Petrobras comprometidos, o aposentado Pedro Barusco, ex Diretor de Serviços (um cargo de segundo ou terceiro escalão), apresentou-se espontaneamente à polícia, comprometendo-se a devolver, de seu bolso, US$ 100 milhões, R$ 250 milhões (mas não os juros, lucros, produzidos por esse dinheiro nos últimos doze anos). Se esse foi o lucro de um “coadjuvante”... Este é o partido e o governo cuja vitória eleitoral os “progressistas” de toda a América Latina definiram como “continuidade do processo de mudança”.
A Petrobrás (cujo valor de mercado caiu de R$ 410 bilhões em 2011 para R$ 160 bilhões) é responsável por 10% da arrecadação de impostos do país: o escândalo terá impacto nas contas públicas. Em torno da Petrobras, além disso, gira a indústria da construção naval, a construção pesada e outros segmentos importantes da economia brasileira. As nove empresas (o “cartel”) faturaram, em 2013, R$ 33 bilhões com contratos públicos, financiaram candidatos a deputados com R$ 721 milhões, e candidatos a senadores com R$ 274 milhões (em 2010): 70% dos congressistas eleitos em 2014 receberam doações das grandes empresas. O “clube”, ao que parece, tinha dezesseis sócios fixos, e seis empresas “ocasionais”.
O juiz envolvido na causa declarou que o “cartel” operava desde “pelo menos” há quinze anos, quando o governo (e a Petrobras) estava nas mãos do PSDB. O “propinoduto” é um “modelo (histórico) de negócios”. O intermediário do esquema (Alberto Youssef) já havia estado preso em 2003 (e outras vezes) por crimes semelhantes, e está metido em outros escândalos menores que beneficiaram o PSDB. O papel do “doleiro”, neste e outros escândalos (como os de Marcos Valério), é enviar dinheiro para ser aplicado no exterior sem pagar impostos; entrar com milhões de dólares para pagar as propinas, que não saem dos caixas oficiais das empresas, mas de suas offshore, utilizadas para fraudar o fisco e dar segurança aos recursos ilícitos; driblar o sistema monetário nacional, que controla a compra e venda de moedas estrangeiras, criando um mercado negro de compra e venda de dólares e euros.
Nesse contexto de crise, os resultados das recentes eleições presidenciais merecem uma segunda leitura: a de que consagraram a um candidato da oposição (Aécio Neves), com 49% dos votos, como alternativa “legítima” em caso de crise institucional e de eleições antecipadas. Isto tem seu correlato nos outros escalões governamentais que foram submetidos ao escrutínio eleitoral. Os cinco estados comandados doravante pelos tucanos tiveram, em 2013, uma arrecadação de R$ 545 bilhões; os cinco estados do PT, só R$ 114 bilhões; os sete estados do PMDB (o “aliado” vira casaca por excelência do PT), R$ 288 bilhões. O PT elegeu sua menor bancada de deputados federais (70) desde 2002 (quando elegeu 91 deputados). Nas assembleias estaduais, enquanto o PMDB praticamente manteve seus eleitos em relação a 2010 (142, contra 149 naquele ano), o PT caiu de 148 para 108 eleitos. O PT perde fôlego, enquanto crescem siglas neonatas absolutamente manipuláveis pela burguesia (que as financia 100%).
                                                             

                                                      Petróleo e Crise


Na primeira votação parlamentar depois da reeleição de Dilma, a proposta do governo de submeter as “decisões governamentais de interesse social” à opinião de conselhos populares, a presidente reeleita sofreu uma derrota acachapante, com base na oposição conjunta PMDB-PSDB. Não há porque duvidar que essa aliança podre será repetida na votação acerca do debate da reforma política, para a qual o governo propõe um plebiscito (um meio antidemocrático) e o PMDB uma votação parlamentar seguida de um referendo (um meio mais antidemocrático ainda).
A negativa do presidente do Bradesco em assumir a Fazenda, por outro lado, não foi um caso isolado: o PMDB, o principal partido da base aliada do governo, propôs para presidente da Câmara seu deputado Eduardo Cunha, que apoiou abertamente o opositor Aécio Neves no segundo turno. Tarso Genro interpretou essa proposta como primeiro passo em direção da ruptura da aliança governamental. Desenvolve-se assim uma crise política que marca, logo de cara, o novo mandato presidencial.
Só com muita ingenuidade seria possível afirmar, como foi feito, que “a Operação Lava Jato encerra definitivamente o ciclo de impunidade do modelo político em vigor”. A “esquerda”, porém, denunciou um golpe judiciário em andamento, sem ousar, como sempre, dar nome aos bois. Saudou, ao mesmo tempo, a “corajosa” decisão da Presidente em ir fundo nas investigações (mas não era um golpe?). Na sua vertente “intelectual” e sabidinha, afirma que a corrupção faz parte dos mecanismos do Estado capitalista, desculpando objetivamente os corruptos (petistas ou não); afinal, os culpados não são eles, mas o Estado (quem é que resiste a uma boa mamata? Afinal, “ninguém é de ferro...”).
O papel da esquerda (do PT ou de fora dele, que se situa nessa seara argumentativa) é o de ocultar, até com argumentos “marxistas” (o tal do Estado que corrompe até os santos), o papel da corrupção como elemento central da política de aliança estratégica do PT com a burguesia, e até de integração social da burocracia petista e/ou cutista nas fileiras da própria burguesia. A argumentação de que a denúncia da corrupção favorece à direita (Veja, Globo e outros) e ao imperialismo (feita inclusive por gente que, noutros fóruns, declara que o conceito de imperialismo carece de atualidade teórica) retrata uma esquerda que já perdeu até a noção mais elementar do que algum dia justificou sua existência. E, em alguns casos, encobre as mamatas grandes para preservar suas próprias mamatinhas...
O escândalo do “petrolão” tem um pano de fundo potencialmente catastrófico. Ainda que se afirme que a queda dos preços internacionais do petróleo seria a grande oportunidade para uma reativação da economia mundial, na verdade o que se anuncia é um período catastrófico para os países que sobrevivem à crise graças ao elevado lucro da extração mineral em geral. O barril de petróleo havia subido até 150 dólares – com uma recaída muito forte em 2009, que levou até uma cotação média de 100 dólares antes da queda para 75-55 dólares. O declínio dos preços foi superior, em alguns casos, a 25%. A mudança nos preços internacionais repercute pouco nos preços internos, sendo inócua para reativar o consumo final. A maior parte dos governos do mundo precisa dos impostos aos combustíveis para fazer frente ao pagamento da dívida pública e ao resgate dos bancos.
A queda de preços tem um impacto negativo sobre a taxa de lucro das companhias petroleiras, devido ao aumento dos custos que acompanhou previamente a elevação dos preços, pela distribuição da renda entre todos os setores que intervêm na produção, pela incorporação de jazidas que exigem processos mais caros, ou pelo incremento dos investimentos. A queda mundial do preço do petróleo replica a de todas as matérias primas, dos minerais e dos alimentos. Esta guinada modifica o curso da crise econômica mundial porque bate em cheio na periferia, no mesmo momento em que a crise se faz mais aguda na Europa e no Japão.
A queda do preço internacional do petróleo foi atribuída à queda da demanda da China e Europa, ao forte aumento da produção de combustíveis não convencionais nos EUA, e até a uma recuperação da produção na Líbia e no Iraque. A crise de superprodução na China, motivadora da queda, é decisiva, porque o país é um fator fundamental na expansão do mercado mundial. A China se encontra, além disso, às vésperas de uma explosão financeira. O elevadíssimo lucro do setor petroleiro havia aberto espaço para a produção custosa de gás e petróleo não convencionais nos EUA. No mercado norte-americano, agora, o preço do gás caiu para o limite de rentabilidade de sua exploração. A diminuição do preço da gasolina – e o do gás para a indústria e a calefação – é anulada pelo fechamento de jazidas, cuja produtividade é declinante. O boom dos combustíveis nos EUA foi impulsionado pelas baixíssimas taxas de juros, que permitiram financiar investimentos que com taxas de juros maiores seriam proibitivas.
Os elos fracos da crise petroleira internacional são Brasil, Rússia e Venezuela. Os custos da Petrobrás e da PDVSA superam os preços internacionais atuais do petróleo; nestes níveis, ambas as empresas seriam inviáveis. O problema é que, além disso, possuem dívidas gigantescas e são fontes de financiamento de Estados com dívidas ainda maiores. As ações da Petrobrás cotizam em menos da metade de seu pico; o país foi advertido da catástrofe em andamento com antecedência, quando foi à falência o aventureiro capitalista de Lula-Dilma, o inefável Eike Batista, vendedor de vento que, segundo The Economist, foi “o homem que mais dinheiro ganhou com o power point depois de Bill Gates”.
A crise petroleira mundial se projeta na tela do declínio acentuado da economia nacional, acrescentando um componente explosivo. O resultado fiscal primário acumulado de 2014 (R$ 10 bilhões) foi o pior desde 1997. O rombo das contas públicas (déficit público) atingiu 5% do PIB em 2014, o maior nível desde 2003. O déficit comercial e em conta corrente são os piores dos doze anos de “governo popular”. O déficit das contas externas alcançou 3,7% do PIB, 83,56 bilhões de dólares, um nível que não era alcançado desde 2001-2002 (quando da crise da Argentina) que, naquele momento, derrubou o governo de FHC.

                                                         

                                                               Virada Política


Setores graúdos do grande capital começaram por isso a propor uma mudança de eixo econômico externo. Luiz Alfredo Furlan, representante do agronegócio (e ex-ministro de Lula) propôs abertamente a saída do Brasil do Mercosul e a assinatura de acordos bilaterais com os EUA e a UE, o que também propõe Celso Lafer, ideólogo “internacional” do PSDB. Vai se formando um consenso. O PT busca adaptar-se a ele, anunciando medidas de ajuste violentas (um “sistema único do trabalho”, que libera as demissões e a flexibilização trabalhista). E manipula as contas fiscais (“contabilidade criativa”) para assegurar o pagamento da dívida externa, que está comprometido, em especial devido à dívida privada.
A virada à direita do governo Dilma tem essa base. A defesa do governo (e de sua vitória eleitoral) feita pela “esquerda”, com base no sucesso dos programas sociais “focados”, se revela a folha de parreira de sua própria miséria política. Uma pesquisa realizada pela UnB-Ipea, com base no cruzamento de dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) e das declarações de Imposto de Renda de Pessoas Físicas, demonstrou que a “desigualdade social” no Brasil, ao contrário do que foi amplamente alardeado, não diminuiu nos últimos anos. Os 50% mais pobres da população detêm apenas 10% da renda, e se forem considerados os 90% mais pobres, eles são detentores de aproximadamente 40% da renda.
Isto significa que os 10% “mais ricos” da população detém 60% dos ingressos, e se avançarmos até o topo, verifica-se que 0,5% da população detêm 20% da renda nacional. Contrariando toda a propaganda dos governos petistas, aceita tanto pela “oposição de direita” como pela “esquerda”, a desigualdade social se manteve estável durante a era Lula-Dilma, apresentando ligeira tendência a aumentar. Sem falar em que basta olhar ao redor para constatar as péssimas condições de vida da imensa maioria da população brasileira, que nas últimas décadas não avançou, pelo contrário, em matéria de saneamento básico, saúde ou educação, uma deterioração que foi o detonante das jornadas de junho de 2013.
Mas, isto é decisivo, a virada tem lugar em condições de crise política. Na véspera da posse do novo governo, a 1º de janeiro, mais de um terço do gabinete (15 de 39 ministros) não tinha sido ainda nomeado, e era disputado a pauladas pela “base aliada” (a disputa continua, em que pesem as nomeações). A 31 de dezembro, “Dilma II” era ainda um governo sem governo, sem gabinete. Dilma só conseguira tomar a providência básica de dar garantias ao grande capital mediante as nomeações nas pastas de Fazenda e Planejamento (Levy - Barbosa).
O anúncio da equipe econômica do novo governo recebeu as boas vindas do grande capital. Joaquim Levy já foi apelidado de "mãos de tesoura" pela sua febre ajustadora. Entre 2010 e 2014 foi presidente do Bradesco Asset Management, gestora de ativos do Bradesco, que administra mais de 130 bilhões de dólares. Na Universidade de Chicago foi discípulo do time de Milton Friedman, o velho chefão dos “Chicago Boys” e pai declarado do neoliberalismo mundial. Como responsável político no Fundo Monetário Internacional (entre 1992 e 1999), Levy foi advogado de programas de austeridade nos mais diversos países. Durante o governo FHC, Levy atuou como estrategista econômico, envolvido na privatização de empresas públicas e na liberalização do sistema financeiro, que facilitou a fuga 15 bilhões de dólares anuais. Levy é um membro eminente da oligarquia financeira do Brasil.
Em outra pasta estratégica, Kátia Abreu, no ministério da Agricultura, "miss moto serra", sustenta que o latifúndio não existe no Brasil. Foi dirigente da Confederação Nacional de Agricultura e, desde Tocantins, é agente do lobby da soja. Kátia foi a coordenadora da repressão sangrenta dos últimos anos aos sem terra em luta, aos indígenas, ribeirinhos, quilombolas, etc., e já anunciou que vem mais por ai. Para Indústria e Comércio foi nomeado Armando Monteiro, que apoiou Aécio Neves, é ex presidente da CNI (Confederação Nacional da Indústria). O índice Bovespa, exultante, saudou o gabinete de Dilma com uma elevação de 5%; o novo governo recebeu a calorosa aprovação doFinancial Times, do The Economist, de O Estado de S. Paulo (“A dupla Levy-Barbosa na Fazenda-Planejamento mostra que Dilma enfim cedeu às circunstancias”, comentou o jornal dos Mesquita) e até da Veja (“caiu a ficha”, celebrou o semanário terrorista dos Civita).

                                                   Economia de Choque


Os gastos com juros da dívida pública já se aproximam de R$ 300 bilhões. Com base nisso, depois de um déficit de 0,6% em 2014, Levy prometeu terminar 2015 com um superávit fiscal primário de 1,2% do PIB (R$ 66 bilhões), tendo o ajuste fiscal como chave mestra, garantindo o pagamento da dívida pública e da dívida externa (esta com compromissos de US$ 102 bilhões em 2015, 62% maiores que os de 2014), e também a “confiança” do capital externo, com um forte ajuste social: recortar os planos sociais, atacar as aposentadorias e pensões, eliminar direitos trabalhistas e rebaixar os salários reais. O primeiro pacote de aumento de taxas, já aprovado, prevê elevar a arrecadação em R$ 20,6 bilhões (7% do montante pago anualmente em juros) e comporta aumento dos impostos ao consumo e ao crédito (o IOF às operações de crédito dobrou, passando de 1,5% para 3% anual, mantendo-se o adicional de 0,38% por operação). Os aumentos das taxas aos setores de combustíveis, cosméticos e importados serão imediatamente repassados, também, ao consumidor, comportando de imediato um aumento de 8-9% sobre a gasolina. O PIS e Cofins dos importados passou de 9,25% para 11,75%.
Em menos de um mês, o ajuste fiscal já chegou quase a R$ 46 bilhões, entre cortes de gastos e aumento de impostos. O “realismo tarifário” já anunciou um aumento de 30% no preço da energia (luz), elevando o IPCA (inflação). No entanto, a política monetária promete ser anti-inflacionista mediante o aumento da taxa de juros, compensando a situação complicada da indústria (que perfaz hoje 15% do PIB, contra 23% em 1978) mediante a desvalorização do real (para favorecer as exportações), uma política que os trabalhadores pagarão com a elevação dos preços internos (carestia) e aprofundamento da recessão econômica (desemprego).
A prioridade anunciada por Levy é a de cortar e retalhar investimentos públicos, pensões, pagamentos por desemprego e salários do setor público. Mas ele não inventou essa política, apenas lhe da uma continuidade “radical”. No Legislativo, estão desde 2014 na agenda projetos de criação de fundações públicas de direito privado (desmonte do setor público), de limitação do investimento público com pessoal e de demissão por “insuficiência de desempenho”. Sob o pretexto de "estabilizar a economia" (para os grupos financeiros) Levy desestabiliza a economia de dezenas de milhões de trabalhadores. Levy eventualmente mexeria nos impostos aos assalariados, as taxas e alíquotas atualmente existentes. Nos últimos anos, o descompasso entre a tabela do IR e a alta da inflação pôs salários cada vez menores na base da arrecadação fiscal: muitos assalariados conquistaram reajustes salariais que implicaram a queda de seu salário líquido, ao entrarem em faixa superior da tabela. Dilma, no entanto, vetou a pífia correção da tabela votada no Congresso (6,5% do imposto pago).
Está colocada, objetivamente, uma luta pela eliminação do Imposto de Renda sobre os salários, até determinado montante. No Brasil, por outro lado, mais da metade da arrecadação fiscal provém da tributação indireta, chamada de tributação sobre o consumo. A maior alíquota do Imposto de Renda da Pessoa Física (27,5%) é alta em relação aos rendimentos recebidos pelos assalariados e pela classe média.
Na outra ponta, fatia significativa das rendas de sócios e acionistas beneficiários de lucros e dividendos das empresas não se submete à tabela de incidência do Imposto de Renda, pois a partir de 1996 esses ganhos tornaram-se “rendimentos isentos e não tributáveis”. Também não se submetem à tabela do Imposto de Renda os beneficiários de aplicações financeiras, para as quais estão previstas diferentes alíquotas, sempre inferiores às aplicadas aos assalariados, chegando-se em alguns casos até a isenção. Atualmente, a tributação sobre a renda salarial representa cerca de um terço da arrecadação (em 2000 respondia por 25% do total). A tributação sobre o patrimônio não ultrapassa os 4%, o que é uma levedura para a concentração de riqueza. Os fluxos de capital desregulado e livre de tributação aprofundam a regressividade fiscal do Brasil. As pequenas alterações na composição da carga de tributos realizadas por Lula-Dilma não foram nem de perto suficientes para uma reversão desse quadro. Taxar progressivamente as grandes fortunas e os rendimentos financeiros (excluindo da taxação os pequenos poupadores), eliminar as taxas aos salários: eis um objetivo de luta para o conjunto dos trabalhadores.
Sob o pretexto de combate à corrupção, o seguro-desemprego, a pensão por morte, e outros benefícios sociais básicos, terão sua concessão tornada muito mais difícil. O novo ministro de Trabalho Manoel Dias atribuiu as medidas à “segurança fiscal do governo”. O alto índice de rotatividade existente na economia brasileira torna particularmente podre a ampliação do prazo de carência do seguro-desemprego, de seis meses para 18 meses. Trabalhadores demitidos com menos de um ano e meio de registro na carteira deixarão de ter direito ao benefício, em nome da tal “segurança”. Essas medidas permitirão ao governo economizar migalhas no orçamento, ao passo que transformarão em verdadeiro inferno a vida cotidiana de centenas de milhares de famílias que dependem desses benefícios para sobreviverem.
A desoneração da folha de pagamentos, praticada em especial desde 2008, não reverteu a política de demissões, ao contrário, acentuou-a. Um cruzamento de dados recente (Valor Econômico) demonstrou que R$ 5,5 bilhões (23,1% de um montante impositivo de R$ 23,8 bilhões sobre a indústria) deixaram de ser pagos por setores empresariais que demitiram mais do que contrataram desde 2012. E Levy propõe, não só manter as desonerações, mas também aprofundar as facilidades para demitir. A capacidade instalada da indústria está em seu pior nível de utilização média desde 2009 (82%), sendo que as siderúrgicas, com 68,6% de uso da sua capacidade produtiva, são as que mais puxam o índice para baixo. O “desenvolvido” estado de São Paulo (sob o comando tucano) foi o que mais contribuiu (15%) com o aumento da miséria extrema em 2013-2014. Os trabalhadores estão pagando pela crise.
O jurista (e juiz do trabalho) Jorge Luiz Souto Maior lembrou que “em 2008, sob o pretexto da crise mundial, o Presidente da Vale do Rio Doce (Vale S/A) encabeçou um movimento de reivindicação pública da flexibilização das leis trabalhistas do país, como forma de combater os efeitos da crise financeira. Sua manifestação, acompanhada do ato de demitir 1.300 empregados, deflagrou um movimento nacional, claramente organizado, sem apego a reais situações de crise, no qual várias grandes empresas começaram a anunciar dispensas coletivas de trabalhadores, para fins de criarem um clima de pânico e, em seguida, pressionar sindicatos a concordarem com a redução de direitos trabalhistas, visando alcançar a eternamente pretendida diminuição do custo do trabalho, que também serve às empresas no pleito, junto ao Estado, de concessão de benefícios fiscais”.
Ele mesmo pôs o dedo na ferida ao constatar que “dada a natureza de sua base política (o governo Dilma) tenta arrastar consigo parte relevante da representação da classe trabalhadora. Lembre-se que recentemente CUT, Força Sindical, UGT, CTB e Nova Central, antes mesmo de qualquer reivindicação do setor econômico e em vez de se prepararem para resistir, elaborando uma compreensão crítica de um modelo de sociedade que impõe, historicamente, perdas e sacrifícios à classe trabalhadora e que favorece, cada vez mais, à concentração da renda nas mãos de muito poucos, adiantaram-se e levaram proposta de atuação estatal que permita legitimar a redução salarial dos trabalhadores em até 30%, com redução proporcional da jornada de trabalho, visando a preservação dos empregos no caso de crise econômica estrutural, que vier a ser atestada pelo Ministério do Trabalho”. É através das burocracias sindicais que se tenta impor as políticas contra a classe operária e os assalariados em geral.

                                                                     

                                                     Esquerda e Trabalhadores


Como se encontra a esquerda nesta conjuntura? A “esquerda do PT” se limita a reivindicar “mais radicalismo” (como se houvesse algum) de Dilma-Lula, apoiando suas “medidas progressistas” sem criticar seu rumo burguês pró-capital financeiro, e sem se postular como alternativa política real à tendência dirigente do partido. Reivindica mais diálogo do governo com os “movimentos sociais”, para contrabalançar o peso da direita burguesa no governo, mas se recusa a tirar qualquer conclusão política da inclusão governamental dessa direita (sob o pretexto de que o governo está em disputa com os outros partidos, como se a escolha de Levy et caterva não fosse opção do próprio PT, isto é, de sua direção). A “Articulação de Esquerda” é a encarregada de dar visibilidade internacional a essa política, pois exerce a responsabilidade dirigente do Fórum de São Paulo.
O PSOL, depois de obter 1,6 milhão de votos no 1º turno (o dobro do obtido em 2010), e de fazer crescer sua bancada federal de três para cinco deputados, rifou a votação obtida com o apoio a Dilma no 2º turno. Sua ex-candidata presidencial declarou “que simpatiza com experimentos políticos inovadores, como o Podemos (da Espanha)”. Ou seja, está na hora da “inovação”, não da resistência e organização classista independente.
O PSTU, que fez uma votação quase marginal (menos de 100 mil votos) enunciou, frente à crise, a ideia seguinte: “Somente a luta pode garantir mudanças e evitar retrocessos”. Ou seja, que houve “avanços” e que se deve seguir empurrando. Também os movimentos e, sobretudo, as ONG’s e fundações que recebem fundos do Estado e das corporações, se limitam a criticar o governo por temas pontuais. Quando a crise se torna pesada, denunciam “o golpismo” e apoiam o governo: assim fizeram em junho de 2013 – chegando a denunciar as posições de oposição classista como “golpistas”. O MTST, de grande atuação nos últimos anos (e que está se articulando nacionalmente) esclareceu “que não participa de qualquer frente de apoio ao governo. Estamos sim participando da articulação junto com a CUT, PSOL, MST, UNE e outras organizações da esquerda no sentido de construir uma frente de lutas com a plataforma de Reformas Populares para o país”, que deverão ser realizadas, claro, pelo governo. O abstencionismo político conclui numa política governista.
As eleições brasileiras mostram o fim de um ciclo e que a burguesia não pode continuar governando vinha fazendo anteriormente. Isto configura uma transição política e, por conseguinte, uma crise de conjunto. É preciso agora que os trabalhadores, através de lutas parciais crescentes, desenvolvam sua própria alternativa política. Uma nova etapa histórica se abriu no Brasil, devido à crise econômica, à crise política e à nova etapa da luta de classes: as greves, que entre 2003 e 2005 oscilaram em torno do número de 300 anuais (compreendendo entre 15 e 20 mil horas paradas por ano) pularam em 2012 para 873 anuais, com quase 87 mil horas paradas (segundo medições do Dieese). Em 2014, em São Paulo, a greve de 120 dias das universidades estaduais paulistas, com sistemáticas assembleias e mobilizações de rua, junto com outras greves do funcionalismo público do país, foi um símbolo da nova etapa política que se abriu.
No raiar do novo ano, os trabalhadores da Volkswagen do ABC paulista entraram em greve por tempo indeterminado pela readmissão de 800 companheiros dispensados em 6 de janeiro. A empresa descumpriu acordo firmado em 2012, que previa a estabilidade dos funcionários até 2016. Outros 244 trabalhadores foram demitidos na Mercedes Benz. A 12 de janeiro, os metalúrgicos do ABC realizaram uma grande manifestação: mais de 20 mil pessoas ocuparam as faixas da Rodovia Anchieta, com trabalhadores da Volks, Mercedes, Karmann Ghia e vários outros setores das principais fábricas da região. Os metalúrgicos da Volks mantiveram o movimento até fazer a patronal recuar nas demissões (o sindicato admitiu, no entanto, um PDV, plano de demissão voluntária). O caminho da vitória foi, no entanto, aberto: o da luta e da mobilização independente.
O MPL (Movimento pelo Passe Livre), grande canal do movimento juvenil das periferias urbanas, diante do novo aumento das tarifas de ônibus (R$ 3,50, mais caro do que na Europa, com um serviço infinitamente inferior) já convocou três manifestações em São Paulo e em outras capitais do país. Como aconteceu em 2013, as manifestações começaram com poucos participantes, mas já pularam para passeatas de 20 mil pessoas. E, também como em 2013, a violenta repressão policial (cassetetes à vontade, detenções, bombas de efeito moral, ação sistemática da P2) só fez crescer o número de manifestantes. A juventude que luta também está abrindo seu caminho.

                                                         Perspectivas


Como abrir uma alternativa política independente, classista? Este deveria ser o debate central da esquerda (mas não o é, por enquanto). Entre 4 e 7 de junho próximos será realizado em Sumaré (SP) o 2º Congresso Nacional da CSP-Conlutas, que experimentou um crescimento bastante importante no último ano. Ele será seguido de uma reunião internacional do “sindicalismo alternativo”, dando sequência a um evento realizado em março de 2013 em Paris. O Congresso da CSP-Conlutas pode ser um marco de importância no debate político da vanguarda operária e lutadora. Para isso é necessário, além de normas democráticas, uma clara delimitação de posições políticas classistas.
A “acumulação de forças” sindicais ou sociais não tem futuro sem um horizonte (alternativa) político, que deveria ser trabalhado cotidianamente, através da agitação, propaganda e organização. Os “movimentos sociais” realmente de luta não podem permanecer politicamente neutros ou indefinidos. É necessário também, através de uma política de frente única, meter uma cunha entre as organizações da classe operária (que se encontram muito majoritariamente na CUT e na Força Sindical, ou seja, carecem de independência política), e a burguesia, seu Estado e seu governo. Conclamá-las a romper com sua política governista, através da unidade na ação e de um plano de lutas unificado em defesa do salário e das conquistas sociais e trabalhistas. E projetar essa luta através de uma alternativa política independente, na perspectiva de um governo dos trabalhadores sem representantes do capital e dos patrões.
                                                                    

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

SER OU NÃO SER (CHARLIE)

                                                                       
                                                                 



Osvaldo Coggiola


Em 1998, Zinedine Zidane conduzia a seleção francesa de futebol à sua primeira conquista da Copa do Mundo, em Paris. O craque francês de origem argelina integrava um time histórico (também venceu a Eurocopa de 2000) com Didier Deschamps, Emmanuel Petit (nomes mais franceses, impossível), o ghanês Odenkey Addy Abbey (mais conhecido como Marcel Desailly), Lilian Thuram, também de origem africana subsaariana, Robert Pirès (que, se tivesse nascido no país que seus pais abandonaram a procura de trabalho, teria se chamado simplesmente Roberto Pires, e envergado a camisa cor de vinho também usada por Cristiano Ronaldo). A França e o mundo celebraram, na maior conquista esportiva de sua história, a vitória definitiva, no país do hexágono, de uma sociedade multiétnica e multicultural reconciliada consigo própria. O estraga-prazeres que ousou apontar que o time galo mais parecia um catálogo futebolístico do antigo império colonial francês recebeu, discretamente, não uma taça, mas uma garrafada de champanhe na cabeça.
Menos de sete anos depois, em 27 de outubro de 2005, houve a perseguição pela polícia, seguida de morte, dos jovens franceses descendentes de africanos Bouna Traoré e Zyed Benna, que fugiram de uma das habituais blitz policiais contra jovens não brancos das banlieues, entraram em um terreno fechado, pertencente à EDF (companhia de eletricidade), refugiando-se dentro de uma edificação de instalações elétricas, onde morreram eletrocutados (um terceiro, Muhittin Altun, sofreu queimaduras graves). Pouco depois, começaram os confrontos em Chêne-Pointu, entre grupos de jovens “periféricos” e a polícia. A revolta se espalhou rapidamente pela periferia de Paris e de outras cidades da França, instaurando-se o estado de emergência em 25 departamentos, a partir de 8 de novembro de 2005 até 4 de janeiro de 2006. Os distúrbios duraram dezenove noites consecutivas, até o dia 16 de novembro. Jovens indignados queimaram 8.970 carros e entraram em confronto com a polícia francesa; foram presos 2.888 jovens e houve mais um morto. Em 17 de novembro a polícia declarou que a situação tinha sido “normalizada”. Certo Chérif Kouachi, rapper amador, foi posto (com outros) na prisão.
Em 2011, os escritórios do semanário humorístico Charlie Hebdo, que tinha reproduzido as charges ofensivas sobre o profeta Maomé publicadas há pouco tempo no jornal dinamarquês Jyllands Posten (provocando manifestações de rua em repúdio em países árabes e/ou islâmicos) foram vítimas de um atentado a bomba, que provocou danos materiais, mas não vítimas. E, em novembro de 2013, a coluna sonora do filme francês “La Marche” dava a conhecer ao mundo um rap, “livremente” composto e cantado por vários conhecidos rappers franceses (Akhenaton, Disiz, Kool Shen e Nekfeu), em que o refrão solicitava, com alguma insistência, “um Auto da Fé contra esses cachorros de Charlie Hebdo”. Pouco tempo antes, Al Qaeda divulgara uma lista de condenados à morte (Fatwa), entre os que se encontrava o editor do semanário, Stéphane Charbonnier (ou “Charb”).
A 7 de janeiro de 2015, dois jovens irmãos franceses de origem árabe (e de declarada profissão de fé islâmica) invadiram a sede de Charlie Hebdo, e realizaram o pedido dos rappers, com meios mais modernos do que os outrora utilizados pelo frade Torquemada. Apresentados depois como profissionais altamente treinados em bases terroristas iemenitas e outros centros do Oriente Médio, inicialmente erraram o endereço do jornal, que lhes foi revelado por acaso por uma das jornalistas do semanário que, nesse momento, se apresentava ao trabalho. Graças a isso, entraram e mataram quase todos os presentes na redação (onze pessoas), numa ação realizada com armas “sofisticadas” (como as que circulam em qualquer favela do Rio) e com “grande profissionalismo”, segundo jornais e comentaristas. Tão grande, que um dos jornalistas presentes salvou-se ao esconder-se... em baixo de uma mesa. Uma jornalista presente teve a vida perdoada “por ser mulher” (foi aconselhada a ler o Corão pelos assaltantes/assassinos), mas outra (Elsa Cayat, psicanalista) tinha sido previamente massacrada a pesar de possuir evidentemente a mesma condição.
O corretor de provas de Charlie Hebdo, Mustapha Ourrad, não teve a vida perdoada em que pese sua óbvia e visível origem étnica semelhante à dos assassinos. Na saída, os irmãos Chérif e Saïd Kouachi proclamaram aos passantes sua filiação a Al Qaeda (sua filial iemenita) e arremataram (desnecessariamente, de qualquer ponto de vista, “militar” ou propagandístico) o já previamente ferido policial Ahmed Merabet, francês de óbvia e evidente origem árabe, demonstrando, se diz, se não seu aguçado faro político ou humanitário, pelo menos seu excelente “treino militar”, pois usaram um só disparo (contra um alvo imóvel, que pedia clemência no chão, situado a menos de um metro de distância...).
Pouco depois, outro “terrorista”, Amedy Coulibaly, acompanhado de sua namorada (ou ex) Hayat Boumeddiene, assassinou primeiro um agente policial na periferia parisiense (Montrouge) para depois invadir, supostamente “sincronizado” militarmente com os Kouachi, um comércio judeu (Hyper Casher), em uma ação de características claramente suicidas, durante a qual foi abandonado pela sua “profissional” cúmplice, que já estaria na Síria. Depois de conceder entrevistas telefônicas em que proclamou sua filiação ao ISIS (Estado Islâmico, EI) foi atacado por forças policiais, que o abateram, não sem lhe deixar tempo suficiente para assassinar quatro pessoas presentes, que não faziam obviamente parte de lista nenhuma de grupo nenhum. O ISIS (EI) reivindicou sua ação, tanto quanto saudou o massacre do Charlie Hebdo.
Os “sincronizados” militarmente irmãos Kouachi, ao contrário, não pretendiam se suicidar, nem ser mortos. Fugiram, demonstrando o sofisticado esquema militar que os apoiava, depois de roubar uma potente Renault Clio 1.0 de um aposentado, ao qual mostraram seus rostos (cobertos durante o massacre) e deixaram recuperar seu cachorro do banco traseiro ("le réflexe d'ouvrir la porte arrière et de dire : 'Je récupère mon chien.' J'ai donc récupéré mon chien"), depois de lhe informar, novamente, sua filiação a Al Qaeda de Iêmen (a concorrência dentro da franquia criada há três décadas pelo saudita Osama Bin Laden deve estar forte).
Com enorme profissionalismo e demonstração de recursos secretos em rede, assaltaram no caminho uma loja de mantimentos para ter do que comer, o que foi um dos elementos que denunciou sua localização. Previamente, os Kouachi tinham sido abandonados pelo treinadíssimo profissional terrorista francês internacional Mourad Hamyd, de 18 anos, que dirigiu o carro que os levou até a sede do jornal humorístico, e se entregou à polícia logo depois que as redes sociais vincularam seu nome com o massacre parisiense. Os Kouachi foram dados inicialmente como próximos à fronteira com a Bélgica, mas foram finalmente cercados em Dammartin-en-Goële, não longe de Paris, por uma parte (GIGN) dos 90 mil (!) policiais lançados em seu encalço, e foram mortos.
A indignação e o repúdio contra o massacre de Charlie Hebdo cobriram rapidamente a França e o mundo inteiro. Um desfile pela avenida Champs Elyséescom participação de todos os chefes de estado da Europa foi realizado domingo 11 de janeiro, com presença de mais de um milhão de pessoas (os jornais falaram de 3,7 milhões de manifestantes na França toda). Antes disso, manifestações enormes foram realizadas em todas as grandes cidades francesas, convocadas por todos os partidos políticos, centrais sindicais e movimentos. As entidades islâmicas (ou árabes) francesas manifestaram também seu repúdio ao massacre, enfatizando sua incompatibilidade com o “verdadeiro” Islã.
Je Suis Charlie invadiu jornais, sites e redes sociais de todas as cores políticas e ideológicas. Outra unanimidade foi definir o massacre como um “atentado à liberdade de expressão”, uma coisa à qual França est très attachée desde os tempos da Grande Revolução (1789), como lembrou Barack Obama e também seu enviado John Kerry, este em francês (merci, Johnny), e como sabem todos seus habitantes não brancos submetidos a cotidianos controles policiais (e expulsões do território) no país que inventou os direitos humanos, no melhor estilo de Ferguson (EUA). Sem falar dos que lembram o sequestro das bancas da edição de Charlie Hebdo quando este anunciou escrachadamente, em novembro de 1970, a morte do general de Gaulle (Bal Tragique à Colombey: un Mort).
                  

A defesa da liberdade de expressão é um princípio, mas não abstrato e intemporal. Ela foi defendida na Revolução Francesa (e antes dela) contra o Antigo Regime e seu sistema de privilégios de classe. Na França de hoje (à diferença dos EUA) queimar a bandeira nacional em manifestação pública (contra a intervenção militar francesa em Mali, por exemplo) é um delito que dá cadeia. No mesmo país, essa liberdade deve ser defendida contra as sistemáticas tentativas do clero católico de introduzir no código penal o delito de “blasfêmia” (falando em Maomé, isso lembra alguma coisa?) para não falar do apoio dado pelo ministro “socialista” Manuel Valls àqueles que propõem equiparar o antissionismo (oposição ao Estado de Israel, isto é, ao genocídio palestino) ao antissemitismo, responsável pelo Holocausto judeu.
A “união nacional” xenófoba (europeia inclusive) tentada pelos governos, aproveitando o infame massacre múltiplo, começou a fracassar logo de cara: em Lyon, na manifestação popular reunida em frente à prefeitura, a multidão respondeu com um poderoso coro (“Charlie, Charlie”) à tentativa das autoridades de puxar o canto de La Marseillaise (os mais velhos talvez lembrassem os quebra-quebras promovidos pelos veteranos paraquedistas franceses quando o francês-judeuSerge Gainsbourg cantava em público sua versão rap do hino nacional francês,Aux Armes, etcetéra; eram só duas “liberdades de expressão” em confronto, foi dito então – uma armada, a outra não). A manifestação em Lyon era por Charlie Hebdo, não pela “França eterna”.
O por vezes lucrativo mercado das interpretações estapafúrdias e conspiracionistas foi, como não podia deixar de ser, acionado de imediato. Um “pesquisador” belga, que já montara une petite affaire baseada na afirmação de que os atentados às Torres Gêmeas de 11 de setembro de 2001 foram obra da CIA e do Mossad (os árabes, como se sabe, seriam totalmente incapazes de uma empresa como essa, sobretudo contra os eficientíssimos serviços secretos ocidentais) já soltou a bomba (de crema) de que os irmãos Kouachi seriam agentes dos serviços secretos franceses (estes, certamente, já fizeram várias e boas, como a explosão de um barco do Greenpeace). Os herdeiros de Fouché e Talleyrand andariam, ao que parece, recrutando franco-árabes pobres e suicidas, se possível com passagem na prisão. Uma célebre pesquisadora argentina descobriu, desde Buenos Aires! (a distância dos acontecimentos às vezes ajuda) o braço longo da OTAN atrás dos dedos que puxaram os gatilhos na rua Nicolas Appert. A feira só acabou de abrir, outros produtos mais sofisticados logo virão.
Os produtos mais perigosos nessa seara, no entanto, são os vendidos na feira montada do outro lado da calçada. Os “grandes” jornais franceses (se é que algum deles merece ainda esse qualificativo) já lançaram a espécie de que a “sincronização” (provavelmente só imaginária, ou desejada) entre os Kouachi e Coulibaly anuncia (ou evidencia) uma junção/aliança entre Al Qaeda e Estado Islâmico, ou seja, uma nova etapa da “guerra terrorista internacional”, em que o inimigo estaria agora dotado de um exército regular (EI) e de um braço terrorista (Al Qaeda). Que obrigaria a um Patriotic Act internacional, uma contradição em seus termos.
A francesa Marine Le Pen, provável beneficiária eleitoral dos acontecimentos com sua xenófoba Frente Nacional, já lançou sua proposta de reintrodução da pena de morte (abolida, na França... em 1981), criticando o governo Hollande por não “dar nome aos bois” da ameaça antifrancesa (o islamismo radical), mas excluindo de seu alvo os “bons islâmicos franceses”. A senhora pretende mesmo vencer as eleições (seu papai, Jean-Marie Le Pen, fundador da FN, só chegou a um segundo turno presidencial) e demonstra que até os fascistas aprendem, quando necessário e conveniente: “Papai Jean-Marie” havia criticado, em meados dos anos 1990, a presença de negros e árabes na seleção francesa de futebol, responsável segundo ele pelo seu baixo desempenho (os “bleus” não classificaram para a Copa de 1994, sendo derrotados na eliminatória, em casa, por... Israel); pouco tempo depois, Zidane e seus amigos lhe fizeram enfiar suas palavras numa parte de seu corpo frequentemente retratada por Charlie Hebdo.
Do outro lado dos Alpes, onde as autoridades costumam ser mais papistas que o Papa (o que não é surpreendente, num país que abriga o Vaticano), uma circular das autoridades educacionais do Veneto (de 8 de janeiro!) recomendou que se exigisse aos pais de alunos de origem árabe que se pronunciassem condenando os atentados da França, e que a questão do “terrorismo islâmico” (sic) fosse abordada em sala de aula, pondo em guarda os alunos e suas famílias contra uma "cultura che predica l'odio contro la nostra cultura”. Ou seja, que se trata de cultura mesmo, não de armas ou de atentados.
A temida frente Al-Qaeda/EI, destinada a cobrir com uma onda de terror o planeta inteiro, se acontecer, teria raízes não em conspirações urdidas em cantos escuros de mesquitas orientais, mas em negócios urdidos em corredores com os paladinos da “guerra contra o terror”. EI é, ao que parece, uma cisão de Al-Qaeda, depois que esta se mostrou cada vez menos operacional. Um oficial arrependido (há vários) da inteligência norte-americana denunciou que o “monstro” EI foi parido pelos serviços (mais ou menos) secretos ianques, diretamente ou através de seus aliados da Arábia Saudita, Catar e Emirados Árabes Unidos. Os Estados Unidos se recusaram a ajudar o governo da Síria a combater grupos como Al-Qaeda e o então chamado ISIS (Exército Islâmico do Iraque e da Síria, que mudou de nome para “Estado Islâmico”). Além disso, segundo revelações feitas pelo site Wikileaks, o governo norte-americano armou grupos, como o ISIS e outros, para derrubar o governo sírio.

                                                                                     

Quase três mil documentos sobre essa questão foram vazados pelo site de Julian Assange em agosto de 2014. Que também revelaram que isso aconteceu depois de Bashar al-Assad, o repressor ditador-presidente sírio, mostrar empenho “no combate ao terrorismo e aos grupos radicais islâmicos no Oriente Médio”, ou seja, declarar sua intenção de colaborar com os EUA na região. Para enviar armas para o ISIS, o governo Obama usou bases clandestinas na Jordânia e na Turquia. Aliados dos EUA na região, como Arábia Saudita e Catar, também forneceram ajuda financeira e militar. Agora, o demônio parece ter-lhes fugido do controle, como já acontecera com Al-Qaeda.
Buscar as origens de toda essa porcaria, e dessa crise da política externa doimperialismo norte-americano, no “islamismo político” (Irmandade Muçulmana) fundado por Hassan por Al-Banna no Egito dos anos 1920 é um belo exercício de erudição inútil. O islamismo (institucional ou não) foi um fator de moderação, com políticas assistencialistas e prédica religiosa, e até de combate ao nacionalismo e ao anti-imperialismo árabe (ou iraniano) nas décadas sucessivas, quando o movimento nacional árabe se aproximou mais da URSS, do maoismo e até do marxismo revolucionário. A “guerra fria” aguçou essas características. A passagem para o “islamismo com metralhadora” foi auspiciada pelos EUA em resposta a, e graças à, invasão soviética do Afeganistão (vinculada ao desenvolvimento da revolução popular contra o Xã Reza Pahlavi e seu governo de charmosos assassinos no Irã, que costumavam enfeitar as capas das Hola! e Caras daquelas décadas infames).
Osama Bin Laden (entre outros) contou com importantes meios financeiros e militares fornecidos pelos EUA (além dos próprios, que já eram importantes, como filho de uma das mais ricas famílias sauditas) para provocar o desejado “Vietnã da URSS” no Afeganistão, cinco anos depois do Vietnã americano. Tornou-se carta fora do baralho (americano) com a retirada soviética do Afeganistão e o consecutivo início da contagem regressiva da URSS. Mas era uma carta armada até os dentes e com contas bancárias de muitos dígitos espalhadas pelo mundo. O feitiço virou-se contra o feiticeiro e o restante, do atentado de Nairobi até o ataque aéreo ao World Trade Center em 2001, é história conhecida. O declínio político e morte de Osama num vilarejo perdido do Paquistão, sem custódia e com 300 euros no bolso, não deram, porém, fim à história do pântano da política imperialista (norte-americana e europeia) no Oriente Médio e na Ásia Central. Os EUA se retiraram do Afeganistão e do Iraque invadidos, deixando atrás de si o caos político mais completo, devido a pressões internas e internacionais (e à sua própria crise econômica galopante), que os obrigaram também a retirar da Casa Branca o clã Bush e seus alucinados planejadores da “guerra infinita” (Donald Rumsfeld, Blackwater and Co.).
E tiveram de voltar logo depois, agora com “drones”, “tropas preventivas” e, sobretudo, agentes interpostos (enviar tropas próprias seria extremamente impopular, nos EUA), que deram nova vigência à Al-Qaeda e seus filhotes (desejados ou não). Estes já aprenderam (Osama Bin Laden sacrificou sua vida no aprendizado) que é possível ter seu próprio jogo nesse xadrez de morte. E começaram a recrutar na Europa, na Rússia, na China e nos próprios EUA, para ações onde for preciso, ou simplesmente onde for possível. Mas só se recruta onde há bases para esse recrutamento; França é um território privilegiado para isso. Como afirmou um panfleto (de L’Insurgé) lançado em Paris logo depois dos assassinatos no Charlie Hebdo: “Comment ne pas comprendre que ces groupes, jouant sur la xénophobie et la misère dont sont victimes, en Europe, nombre d’enfants d’immigrés, puissent à leur tour embrigader quelques dizaines de paumés? Et en usant pour cela de la religion comme d’une drogue?”.
8,4% da população francesa é composta por imigrantes; seus filhos, por sua vez, perfazem 11% da mesma população. Ao todo, quase 20% da população (e um percentual ainda maior se contados os sans papier, os imigrantes ilegais) sendo os árabes (ou de origem árabe) o contingente mais numeroso. A maioria dos imigrantes chegou nas décadas situadas entre 1950 e 1970, quando as portas da França (e de outros países europeus) se abriram, em meio ao boom econômico, para trabalhadores em setores de mão de obra escassa, ou em serviços (limpeza, colheitas, serviços domésticos) que os franceses se recusavam doravante, por variados motivos (salariais, em primeiro lugar) a executar.
Os primeiros (os imigrantes) carecem de direitos políticos; os segundos (seus filhos e netos) os possuem, mas são objeto de discriminações cotidianas. A integração dos “OS” – peões de chão de fábrica – imigrantes na vida sindical, primeiro passo para sua integração na luta de classes e na vida social do país, foi limitada. As políticas das direções “socialistas” e “comunistas”, que só os aceitaram como enfeite, e das burocracias sindicais, foram as principais responsáveis por isso. Empilhados em alojamentos precários (os foyers Sonacotra), vítimas de mil entraves burocráticos para reunir suas famílias no novo lar, inclusive depois de décadas de trabalho. Discriminados nas escolas, discriminados até nos bares, nos lugares de lazer, confinados em guetos. Os importadores de mão de obra barata, que acelerou a acumulação de capital e os lucros do capitalismo francês nos “trinta anos gloriosos”, “esqueceram” (propositalmente, claro) que não estavam importando apenas trabalho, mas pessoas, com cultura, desejos e aspirações próprias. Atender essas necessidades não dava lucro, apenas gastos.
Pais árabes sem religião (ou não praticantes) passaram não raro a ter filhos islâmicos praticantes. O responsável da mesquita frequentada pelos irmãos Kouachi se lembrou deles (em entrevista à TV) como discretos e calados, usando roupas “ocidentais”, mas que se exaltaram (contra) quando na mesquita foi feito um chamado a participar da vida política do país, nas eleições francesas. Estrangeiros no país em que nasceram e se criaram. Essa informação vale mais que todas as descobertas de “pesquisadores” sensacionalistas à cata de negócios editoriais.
Fracasso da badalada “sociedade multicultural”, da “tolerância entre culturas”? Mas a própria noção de “tolerância” não implica que haja “tolerantes” e “tolerados”, isto é, opressores e oprimidos? Quem é que quer ser apenas “tolerado” durante toda uma vida? Alguns setores da vida do país se abriram para os árabe-franceses, nos esportes e em especial na cultura; alguns franceses passaram a apreciar a música árabe. O rap franco-árabe conquistou algum lugar nas paradas. Mas foi pouco, foi lento, e a máquina trituradora da sociedade de classes continuou a funcionar com muito maior rapidez e eficiência.
A crise econômica e o “desemprego estrutural”, a partir de meados da década de 1970, completaram a catástrofe. “Les Français d’abord” não foi só um slogan de partidos de extrema-direita (depois, apenas de direita), mas também uma frase que se ouvia com demasiada frequência nas filas das agências oficiais de emprego. E a esmola oferecida aos desempregados crônicos passou a ser chamada, quando concedida a trabalhadores estrangeiros, de aproveitamento parasita por parte destes dos impostos pagos pelos “honestos franceses”. A extrema direita xenófoba (no início, também explicitamente antissemita) pulou gradativamente de menos de 1% para mais de 20% dos votos, obtidos inclusive entre os setores mais pobres dos antigos eleitorados socialista e comunista.
Fracasso do sistema educacional francês em integrar comunidades de origem alógena aos valores e tradições republicanas da França, inclusive quando já se encontram na sua terceira geração de descendentes de estrangeiros (principalmente árabes) nascidos no país? Valores que integram, por exemplo, a invasão napoleônica do Egito, em 1798 (as peças arqueológicas e obras de arte roubadas na empreitada enfeitam até hoje o Museu do Louvre e o Museu Britânico, em que pesem as reclamações dos governos egípcios). A colonização da África do Norte pelos franceses, a partir de 1830. As aventuras coloniais africanas de Napoleão III. A corrida às colônias de franceses (e outros países europeus) na África e na Ásia, na passagem do século XIX para o século XX.
E, no século XX, os acordos Sykes-Picot que dividiram Oriente Médio ao sabor dos interesses das potências colonialistas europeias. A repressão sangrenta da revolta encabeçada por Abdelkrim (Abd el-Krim El Khattabi) no Marrocos (Riff) franco-espanhol, na década de 1920, realizada pelo marechal Pétain, o mesmo que entregou depois a França aos nazistas. O uso das “tropas coloniais” para as tarefas mais sujas, podres e perigosas, como a ocupação do Rühr alemão (1923), ou na Segunda Guerra Mundial. A “guerra suja” (foi aí que o termo foi cunhado) de França contra a luta pela independência da Argélia, modelo das ditaduras latino-americanas. O bombardeio massacrador de Sétif e Guelma, com 50 mil mortos, ordenado pelo governo republicano e “socialista” de Guy Mollet. O massacre de manifestantes pela independência argelina no metro Charonne, em 1962, com dezenas de mortos e feridos, ordenado pelo prefeito parisiense Maurice Papon (depois julgado por crimes de guerra e colaboracionismo com os nazistas). E, como dizem os franceses, j’en passe (os massacres no Chade e em Ruanda, a intervenção na Líbia, a atual intervenção “anti-islâmica” no Mali)... Como “integrar” as vítimas às tradições e valores de seus açougues?
Por que estava “Charb” na lista de alvos de Al-Qaeda, ao lado de Shalman Rushdie e outros? Existe uma explicação mais óbvia do que a óbvia: porque essa lista existe. Se não existisse, Al-Qaeda, grupo (ou melhor, franquia) terrorista, perderia uma de suas razões de ser. O terrorismo existe em razão de seu alvo, real ou imaginário, justificado ou inventado.
E porque Charlie Hebdo? Vamos deixar de lado a explicação sem pé nem cabeça de que se trata de uma publicação de extrema esquerda, portanto ateia, marxista-anarquista ou coisa que o valha. As críticas de Charlie Hebdo à corrupção estatal e ao capitalismo predador a situam (sem grande destaque) dentro de uma constelação de publicações francesas semelhantes (sendo a mais célebre Le Canard Enchaîné). Charlie Hebdo não tem vínculos políticos explícitos, a não ser a colaboração de seu mais célebre cartunista, mundialmente reconhecido e assassinado a 7 de janeiro, Georges Wolinski, e do próprio “Charb”, com as publicações do Partido Comunista (PCF).
O específico de Charlie Hebdo não é isso, mas seu humor escrachado, multidirecional e sem limites (morais, políticos, ou de qualquer tipo) de qualquer espécie. De valor desigual, e convenhamos em que produzir semanalmente cinquenta páginas de humor gráfico ou escrito escrachado em extremo não é tarefa para qualquer um. Perto de Charlie Hebdo, o CQC (brasileiro ou argentino) ou o extinto Cassetta & Planeta de Bussunda e seus amigos parecem programas infantis com roteiro redigido por freiras carmelitas. Algumas de suas capas (sobre a morte de de Gaulle; sobre a exposição do cadáver de Paulo VI durante uma semana no Vaticano, ilustrada por um queijo camembert em decomposição; sobre a fracassada e carbonizada expedição americana para resgatar os reféns de Teerã – Carter offre un méchoui aux iraniens – e outras) se tornaram históricas.
Sustentou-se que se trata de uma tradição especificamente francesa, do “país da liberdade”, que remonta à própria Grande Revolução do século XVIII. Uma verdade parcial (ou, como dizia Sarmiento, a pior das mentiras): o humor bombástico dos panfletistas e desenhistas revolucionários tinha, naquele tempo, alvos bem específicos (a família real, a nobreza, o sistema autocrático, etc.). Charlie Hebdotem (tinha?) todos os alvos, franceses, europeus, internacionais, de qualquer cor política. Ninguém estava a salvo. Aventuraria dizer que Charlie Hebdo era (junto com seus antecedentes, Hara-Kiri e publicações assemelhadas) o último e impenitente sobrevivente de Maio 1968, do escrache total com vistas à “revolução total”. Por ser francês (e muito) – foi imitado por outras publicações europeias, que não conseguiram chegar nem perto – padeceu também de taras e preconceitos tipicamente franceses: a capa com Maomé de quatro, com uma estrela no lugar do ânus (Une étoile est née) era bem menos “irreverente” do que totalmente carente de graça ou comicidade, o tipo de baixaria que nem sequer faz sorrir. Com certeza, o editor David Brook, no New York Times, fez bem em lembrar que, nos Estados Unidos, a publicação de Charlie Hebdo não seria permitida...
E com certeza, "Cabu", "Charb", "Honoré", "Tignous", Wolinski, "Oncle Bernard", Elsa Cayat, Mustapha Ourrad, Michel Renaud, Frédéric Boisseau, Franck Brinsolaro, nem suspeitavam que seriam um dia celebrados como símbolos da “liberdade francesa” (um conceito que os fazia ou faria rir às gargalhadas) por governos de corruptos e açougueiros, por políticos de direita, e por ícones do conformismo artístico e cultural. Os que foram às ruas foram por eles, os iconoclastas sem limites assassinados sob as ordens de fascistas de periferia, não por Hollande, Sarkozy ou Le Pen (ou por Merkel, Rajoy ou Renzi). Mas, por enquanto, não têm alternativa política a eles, e tiveram de aceitá-los, bon gré, mal gré, à cabeça das passeatas ou nos palanques.
Mas são muitos os que sabem que, por trás desse “fantasma da liberdade” (diante do qual os “bons islâmicos” da Europa deveriam se ajoelhar e aprender, como se fossem crianças ignorantes, mas perigosas) se desenha um Estado policial “antiterrorista” e, no bojo deste, um fascismo new age e um aprofundamento das políticas e dos massacres colonialistas e imperialistas, em primeiro lugar no Oriente Médio, na Ásia Central e na África. O terrorismo indiscriminado que usa Maomé como pretexto para defender os interesses de feudo-burguesias periféricas, e também de um clero reacionário e parasita, existe porque as massas árabes não têm uma alternativa política independente. O proletariado e as massas exploradas na Europa podem lhes pavimentar o caminho nesse sentido lutando contra o capitalismo e o imperialismo em seu próprio país e continente. Por uma sociedade em que as culturas de todo o mundo possam se desenvolver livremente como expressões de um único gênero humano, sem necessidade de gurus “multiculturais” nem de policiais “civilizados” autorizados a impor a “civilização” com bombas, massacres e saques impostos aos “incivilizados”. A religião (todas), nesse processo, trouvera son compte.

                                                                                     




quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

UMA GUINADA NO CURSO DA CRISE MUNDIAL

                                                                                                   


Jorge Altamira



Ainda que vários comentaristas vejam na queda dos preços internacionais do petróleo a oportunidade para uma reativação da economia mundial, o certo é que se anuncia um período catastrófico para numerosos países que estão sobrevivendo à crise graças ao elevado lucro da extração mineral. Entre princípios do século e uma data recente, o barril de petróleo havia subido de 10 a 150 dólares – com uma recaída muito forte em 2009, até uma cotação média de 100 dólares antes da queda a 75 dólares. Agora, o declínio, em poucas semanas, tem sido superior, em alguns casos, a 25%. Com a exceção dos EUA, as trocas nos preços internacionais não repercutem nos preços internos e são, portanto, inócuos para reativar o consumo final. Ocorre que a maior parte dos governos necessitam dos impostos aos combustíveis para fazer frente ao pagamento da dívida pública e ao resgate dos bancos. Enquanto o preço atual continua elevado em qualquer comparação, seu impacto negativo sobre a taxa de lucro das companhias petroleiras é muito forte devido ao aumento dos custos que acompanhou a elevação dos preços, seja por uma distribuição da renda entre todos os setores que intervêm na produção (serviços tecnológicos), seja pela incorporação de jazidas que exigem processos mais caros, seja pelo incremento dos investimentos. A queda do preço do petróleo replica a de todas as matérias primas de minerais metalúrgicos e alimentos. Esta guinada modifica o curso da crise mundial porque bate em cheio na periferia, no mesmo momento em que se faz mais aguda na Europa e Japão. A princípio, esta tendência conecta a crise mundial atual com a dos anos 30 do século passado, a qual se caracterizou, de entrada, por uma forte crise agrária e o colapso do comércio exterior dos países de menos desenvolvimento.
A queda do preço internacional do petróleo é atribuída a diversos fatores: uma queda da demanda da China e Europa, um forte aumento da produção de combustíveis não convencionais nos EUA e até uma recuperação da produção na Líbia e no Iraque. A crise de superprodução na China é decisiva, porque a presença econômica da China é um fator fundamental na expansão do mercado mundial. A China se encontra, além disso, às vésperas de uma explosão financeira. De outro lado, o elevadíssimo lucro do setor petroleiro havia aberto espaço para a produção custosa de gás e petróleo não convencionais nos EUA. No mercado norteamericano, o preço do gás caiu no limite da rentabilidade. A diminuição do preço da gasolina na bomba – o do gás para a indústria e a calefação – será ofuscado pelo fechamento de depósitos, cuja produtividade é declinante. O boom dos combustíveis nos EUA foi impulsionado pelas baixíssimas taxas de juros, que permitiram financiar investimentos que para outras taxas seriam proibitivas. De algoz na luta do petróleo, os EUA poderia converter-se em vítima, no caso de que se cumpra a ânsia do banco central de aumentar os tipos de juros. Se isso não acontecer pela pressão da indústria, se bloquearia o intento oficial de evitar ordenadamente uma explosão financeira internacional.

Uma “guerra do petróleo”
Um fator essencial na queda do lucro do setor petroleiro é, obviamente, a Arábia Saudita, a qual se nega a restringir a oferta de combustíveis para deter a descida do preço, para não beneficiar a seus competidores. Pode-se dizer que se estabeleceu um tipo de guerra do petróleo entre EUA e Arábia Saudita, porque embora os norte-americanos ainda não exportem, deixaram de importar. Os sauditas possuem lastro para resistirem a uma guerra de preços, mas até certo ponto: apesar de possuírem os custos mais baixos do mundo, o orçamento do Estado depende como nunca das receitas do petróleo. Uma diminuição dos subsídios públicos desestabilizaria a ordem política no agitadíssimo Oriente Médio.
As cadeias débeis incandescentes desta crise são Brasil, Rússia e Venezuela. Os custos da Petrobrás, e da PDVSA superam tranqüilamente os preços atuais do petróleo; nestes níveis, ambas empresas são inviáveis. O problema é que, além disso, existem dívidas gigantescas e são fontes de financiamento de Estados com dívidas ainda maiores. As ações da Petrobrás cotizam a metade de seu pico; os brasileiros foram advertidos desta catástrofe com bastante antecedência, quando quebrou o aventureiro nacional e popular do Brasil, Eike Batista. Na Rússia ocorre tudo isto com o agravante de que várias companhias internacionais abandonaram sua associação com companhias russas, no marco das sanções da OTAN pela crise da Ucrânia. A oligarquia russa fez causa comum com o capital internacional e há uma fuga de capitais da Rússia em grande escala; o rubro perdeu 30% do seu valor em três meses. Tudo isto vale também para o Equador, ou Bolívia. A crise brasileira afetará a toda sua vizinhança. Como foi dito antes, está despencando todo o universo das commodities e matérias primas.
A principal repercussão, de uma aproximação da crise mundial em curso à dos anos 30, será sobre o comércio mundial, porque reforçará as tendências para uma autarquia econômica, e disto para uma crise do sistema monetário internacional. A “ascensão” do partido republicano nos EUA possui uma relevância, neste contexto, porque é o defensor da guerra comercial. E naturalmente da guerra interna – e aí está o juízo de Ferguson...


                                                                          

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

DE ROUSSEF A YOUSSEFF, O PT NA LAMA


Osvaldo Coggiola



Dilma Rousseff começou seu segundo mandato (o quarto do seu partido) depois de vencer o 2º turno com 51,6% dos votos. Nas eleições presidenciais anteriores, no entanto, Lula havia obtido 61,3% e 60,8% (2002 e 2006) e a própria Dilma, 56% (2010), no 2º turno. No berço histórico do PT, o ABC paulista, Dilma foi derrotada extraordinariamente. Depois da vitória de Pirro há cerca de um mês atrás, sua primeira medida foi aumentar as taxas de juros, para “acalmar os mercados”, isto é, aumentar a dívida pública. O capital financeiro já tem uma taxa de lucro entre 40 e 50% maior que a média do país. A segunda foi oferecer o ministério da Fazenda ao presidente do Bradesco (junto com o Itaú, um dos maiores bancos do país), que rechaçou a oferta.
Simultaneamente o escândalo de corrupção da maior empresa do país, a Petrobrás, chamado de Operação Lava Jato, adquiriu dimensões “fellineanas”. O escândalo precedente, o mensalão (compra de votos parlamentares pelo governo), havia sido definido como “o maior” e “o último”; o da Petrobrás supera, com folga, ambos os títulos. Trata-se de esquema de propinas multimilionárias para a concessão de contratos públicos. Encontram-se envolvidas as nove maiores empresas construtoras do país (Camargo Correa, Engevix, Galvão, Mendes Júnior, IESA, OAS, Odebrecht, Queiroz Galvão e UTC) que já possuem vários diretores presos. Os beneficiários, diretores da empresa estatal, desviavam as propinas para as contas dos “partidos” (eufemismo) da coalizão de governo (PT, PMDB, PP, e algum outro da “base aliada”) e, claro, até suas próprias contas (“comissões”). Não é necessário dizer que as propinas eram depositadas nas contas (superfaturadas) das empresas: um esquema de saque multimilionário dos cofres públicos.
Morgan Stanley calculou que as perdas da petrolífera devido ao esquema seriam de R$ 21 bilhões (cerca de US$ 10 bilhões). Um dos funcionários comprometidos, o já aposentado Pedro Barusco, ex Diretor de Serviços, apresentou-se espontaneamente (sem ser citado!) à polícia, comprometendo-se a devolver, de seu bolso, US$ 100 milhões (mas não os juros produzidos por esse dinheiro nos últimos doze anos). Este é o partido e o governo cuja vitória eleitoral os “progressistas” de toda a América Latina definiram como “continuidade do processo de mudança” (troca de moeda nacional por dólares em contas no exterior).
A “esquerda” (PT e “progressistas”) denuncia um golpe judicial. A Petrobrás (cujo valor de mercado caiu de R$ 410 bilhões em 2011 para R$ 160 bilhões) é responsável por 10% da arrecadação de impostos do país: o escândalo terá impacto nas contas públicas. As nove empresas (o “cartel”) faturaram em 2013 “pelo menos” (ou seja, mais) R$ 33 bilhões com contratos públicos, financiaram candidatos a deputados com R$ 721 milhões, e candidatos a senadores com R$ 274 milhões (em 2010), e viva a democracia.
Por que o escândalo não explodiu abertamente durante a campanha eleitoral, quando as investigações já estavam em curso, para prejudicar a candidata do PT/PMDB? Primeiro, porque o juiz envolvido na causa declarou que o “cartel” opera desde “pelo menos” (ou seja, mais) há 15 anos, quando o governo (e Petrobrás) estavam nas mãos do partido opositor (PSDB), que havia chegado ao segundo turno. O “propinoduto” é um “modelo de negócios”. O intermediário do esquema (um tal Alberto Youssef, que também abriu a boca) já havia estado preso em 2003 (e outras vezes) por crimes semelhantes e está metido em outros escândalos menores que beneficiam, claro, o PSDB. Ou seja, mancomunaram-se entre todos.
Os resultados das eleições recentes, portanto, merecem uma segunda leitura: consagraram a um candidato da oposição (Aécio Neves), com 49% dos votos, como suplente, em caso de crise institucional e de eleições antecipadas, se o escândalo "pluripartidário" se impuser na situação política.
A negativa do presidente do Bradesco em assumir como ministro não é um caso isolado: o PMDB, partido do governo, propõe para presidente da Câmara o seu deputado Eduardo Cunha, que apoiou abertamente ao opositor Aécio Neves no segundo turno. Tarso Genro (atual governador petista em fim de mandato do RS e ex-ministro da Justiça de Lula) interpreta esta proposta como um passo para uma ruptura da aliança governamental. Desenvolve-se uma crise política que pode levar ao impeachment da Presidenta.
O déficit comercial e em conta corrente do país são os piores dos 12 anos de “governo progressista”. O déficit das contas externas alcançou 3,7% do PIB, um nível que não era alcançado desde 2001-2002 (crise Argentina) que, naquele momento, mandou à lona ao governo de FHC. Furlán, representante do agronegócio (e ex-ministro de Lula) propõe abertamente a saída do Mercosul e a assinatura de acordos bilaterais com os EUA e a UE, o que também propõe Celso Lafer, ideólogo “internacional” do PSDB. Vai se formando um consenso. O PT busca adaptar-se, anunciando medidas de ajuste violentas (um “sistema único do trabalho”, que libera as demissões e a flexibilização trabalhista). Manipula as contas fiscais para assegurar o pagamento da dívida externa, que está comprometido, em especial devido à dívida privada.
Como se encontra a esquerda nesta conjuntura? O PSOL, depois de obter 1,6 milhão de votos no 1º turno (o dobro de 2010) rifou a votação obtida com o apoio a Dilma (“entusiasta”) no 2 º turno. O PSTU, que fez uma votação quase marginal (menos de 100 mil votos) só consegue propor, frente à enorme crise: “Somente a luta pode garantir mudanças e evitar retrocessos”. Ou seja, que houve “avanços” e que se deve seguir mudando.
Também “os movimentos” e, sobretudo, as ONG’s e fundações que recebem fundos dos Estados e as corporações, limitam-se a criticar ao governo por temas pontuais. Agora que a crise coloca-se pesada, denunciam “o golpismo” e apoiam ao governo: assim já fizeram em junho de 2013, assim o fazem agora – e denunciam a esquerda classista por “golpista”.
É necessário refundar a esquerda classista no Brasil.

                                                                                   
                                                                               

Altamira con Sylvestre en Radio Del Plata:

https://soundcloud.com/partidoobrero/altamira-con-sylvestre-en-radio-del-plata-091214/



terça-feira, 11 de novembro de 2014

Discurso de Jorge Altamira :: Congreso del Movimiento Obrero y la Izquierda



Discurso de Altamira en el Luna Park



Discurso de Jorge Altamira, dirigente nacional del Partido Obrero, en el acto de cierre del Congreso del Movimiento Obrero y la Izquierda en el Luna Park.


segunda-feira, 10 de novembro de 2014

SUT – A QUEM INTERESSA?


                                                                                         
         


LUÍS GUILHERME TARRAGÔ GIORDANO

No dia 12/11 ocorreu o 3º Fórum Municipal do mercado de trabalho de Porto Alegre, o qual tinha como pauta (inusitadamente): Sistema Único do Trabalho – SUT e Conjuntura Econômica, convocado pelo Ministério do Trabalho e Emprego – MTE, Conselho Municipal de Emprego, SINE Municipal de Porto Alegre, Secretaria Municipal do Trabalho e Emprego, Fundo de Amparo ao Trabalhador – FAT e Observatório do Trabalho, patrocinado pelo SEBRAE RS, SENAC e FECOMÉRCIO RS. Uma composição política de entidades empresariais com a prefeitura municipal de Porto Alegre e o Ministério do Trabalho e Emprego, o qual estão ambos neste momento sob o comando do PDT, partido do ex-ministro Carlos Lupi, que ocupou um dos 8 gabinetes do governo Dilma  demitidos da pasta por denúncias de corrupção.
Da mesa de abertura do evento participaram um representante do FECOMÉRCIO RS, do Ministério do Trabalho e Emprego, do Conselho Municipal de Emprego e da Comissão Estadual do Trabalho e Emprego (única voz dissonante – o qual atacou o caráter ditatorial da proposta, que já foi apresentada na forma de uma minuta de Projeto de Lei).
O representante da FECOMÉRCIO RS advogou em nome do “progresso na modernização das relações de trabalho" e da “sustentabilidade das empresas”, a qual segundo ele são incompatíveis com a “postura rígida do poder judiciário”, com o “intervencionismo estatal” e com a “CLT-1943”.
O representante do MTE, Rafael Galvão, um cargo de confiança indicado pelo ex-ministro Carlos Lupi, afirmou que “o SUT é uma criança que está em gestação e que não consiste num Cavalo de Tróia” para o conjunto da classe trabalhadora. Sua falação não conseguiu esconder que o pano de fundo do SUT é o enorme orçamento do Fundo de Amparo ao Trabalhador – FAT, o qual o mesmo admitiu que vai ser fatiado (trocadilho) nas três esferas do estado (União, Estados e Municípios), com o fortalecimento do “poder local”. Será mera coincidência ou acaso que o PDT tenha se tornado praticamente um partido que governa um determinado número de municípios em alguns estados da federação? O número de parlamentares do PDT no Congresso Nacional vem se reduzindo drasticamente a cada eleição, perdeu completamente a influência que detinha nos estados do RJ e RS, com o enfraquecimento do brizolismo. Nacionalmente praticamente detém um reduzido número de parlamentares e uma “boquinha” na pasta do MTE. O “fortalecimento do poder local”, segundo o encarregado de Carlos Lupi, pode ser lido como uma tentativa de recomposição política através de um financiamento do “FAT municipal”, previsto no SUT.
Após a abertura do evento, instalaram-se os trabalhos com alguns palestrantes que ocuparam o tempo de 15 minutos, cada um.
A palestrante representante da Força Sindical, embora também tenha criticado a forma de Projeto de Lei, como foi apresentada a proposta de SUT, e o caráter meramente consultivo dos conselhos nele previstos, não se opôs à proposta em seu conjunto, apenas pontuando algumas discordâncias, entre elas, o fim do repasse de 20% da contribuição sindical para as centrais sindicais, com a criação do Fundo Nacional do Trabalho, previsto no SUT.
Um economista, representante da Fundação de Economia e Estatística – FEE/RS, caracterizou que houve uma completa subestimação da duração da crise mundial iniciada em 2008, e que a anunciada recuperação dos EUA, Japão e Europa é infinitamente insuficiente, com baixo dinamismo de crescimento econômico em relação ao crescimento demográfico. Conceituou como “dança das cadeiras” o fato de que não existe um crescimento uniforme dos países e continentes. A América Latina sofre com uma economia primária e a baixa dos preços das commodities. A previsão do FMI é de baixo crescimento da economia mundial e nacional para 2015, com a tendência de endurecimento da política monetária por parte dos EUA, deflação na Europa, crise permanente da geopolítica do Oriente Médio, desaceleração da economia chinesa tendo como consequência crises financeiras. Foi apontado pelo economista o esgotamento conjuntural do ciclo 2004-2010, como principal desafio da transição que o governo reeleito começa a atravessar no Brasil, ciclo este que teve como principais motores, a saber: 1) Incentivo ao setor externo; 2) Expansão da economia mundial; 3) Aumento do crédito. Em relação ao pífio crescimento do PIB mundial, foi dado como exemplo a Finlândia, que só terá perspectiva de voltar a crescer em 2018, depois da crise que se instalou em 2008. A política econômica sugerida pelo economista diante de um quadro duríssimo que se instalará nos próximos dois anos é de ajuste fiscal, política monetária apertada e reposição dos preços. A chave da situação, nestes marcos, está na intensidade dessas medidas e na previsibilidade da política econômica e a perspectiva de que a economia mundial não irá ajudar no crescimento da política nacional. Neste sentido, o economista advogou a necessidade de vincular a curto prazo as perspectivas de longo prazo, e se referiu a três pontos para alcançar este objetivo: 1) infra-estrutura; 2) camada do pré-sal; 3) agenda diplomática.
A assistência presente no evento teve direito a uma palestra muito animada de uma economista da FECOMÉRCIO, chamada Patrícia, que deu um show de neo-malthusianismo e antidarwinismo, ao defender um ensino totalmente técnico voltado para o mercado de trabalho, ou seja, a redução da educação a uma completa subordinação aos ditames do capital.
O diretor do MTE, apaniguado do ex-ministro Carlos Lupi, o senhor Rafael Galvão, junto com o senhor Manoel Eugênio, apresentado como um dos pais da “criança” defenderam um pacto social e a participação popular, para que o SUT seja um exemplo de democracia.
Só que se esqueceu de dizer que os servidores públicos auditores fiscais e administrativos do MTE não foram chamados a opinar sobre o SUT e muito menos o conjunto da classe trabalhadora, os principais interessados na política nacional de trabalho e emprego no país.
E a democracia foi jogada pelo ralo, pois quando os servidores do MTE, que estavam representando suas entidades de classe e o Fórum Nacional contra o SUT pediram a palavra para fazerem um pronunciamento, foram “urbanamente” impedidos pela mesa diretora dos trabalhos, num claro cerceamento daqueles que se opõem ao desmantelamento dos serviços públicos através de mecanismos como o SUT, como as parcerias público-privadas, terceirizações e privatizações. A forma profundamente arbitrária que se manifestou neste Fórum e o total obscurantismo que vem envolvendo a criação do SUT, dá o tom de que os interesses dominantes nesta malfadada criatura são daqueles que vislumbraram uma oportunidade de abocanhar parte do gordo orçamento do FAT e de flexibilizar as relações trabalhistas, retirando direitos da classe trabalhadora.
Por isso, mais do que nunca, urge a necessidade de parar este verdadeiro pesadelo que está se transformando a criação do SUT, e os servidores do MTE devem mostrar o caminho, dando uma resposta à altura e proporcional à envergadura do brutal ataque aos direitos trabalhistas e às condições de vida de toda a classe trabalhadora. Por um Encontro Nacional aberto dos servidores do MTE para que se aprove um Plano de Lutas que derrote o SUT, engavetando-o na lata do lixo, e promova uma profunda mobilização pelas necessidades mais sentidas de toda a categoria.

                

Congreso del Movimiento Obrero y la Izquierda:


Resolución política del Congreso del Movimiento Obrero y la Izquierda



                                                               
       

1. El Congreso se pronuncia por la defensa del Frente de Izquierda, como canal político-electoral de un ascenso del clasismo y la izquierda. Se trata de la aplicación del frente único de la clase obrera y de los partidos que lo integran, contra los partidos del capital y los gobiernos capitalistas. El objetivo estratégico del Frente de Izquierda es el desarrollo de la independencia política de los trabajadores y la lucha por un gobierno de trabajadores. El Frente de Izquierda debe convertirse en un instrumento de la lucha de clases cotidiana y del desarrollo de la autonomía política del proletariado y de una conciencia socialista en la clase obrera y la juventud. El Congreso destaca el frente único político en oposición a cualquier forma de faccionalismo sin principios y a cualquier desvío del objetivo de la lucha política contra los representantes del capital. Reivindica el Manifiesto Político de la campaña de 2013 y propone la elaboración un Manifiesto del mismo carácter para la campaña que se inicia.

2. El Congreso propicia que las asambleas zonales que prepararon este congreso fomenten la organización de mesas regionales y comités de apoyo para impulsar la campaña electoral del Frente de Izquierda. El Congreso apoya la candidatura presidencial de Jorge Altamira, referente nacional del Frente y uno de los principales constructores del Frente de Izquierda. Destacamos el crecimiento de esta candidatura en todos los sondeos de opinión. Recogemos y hacemos nuestra la propuesta de los compañeros de Izquierda Socialista de iniciar la campaña electoral con un acto del Frente de Izquierda, a principios del 2015, encabezado por la candidatura de Jorge Altamira.

3. Damos nuestro apoyo a los compañeros del PO de Salta, que ya han nominado sus candidatos para emprender una batalla política apasionante en la capital de la provincia: la disputa de la Intendencia. Apoyamos el planteo de que un gobierno municipal del Partido Obrero y la izquierda convoque a una asamblea constituyente libre y soberana de la ciudad de Salta, para reorganizar política y socialmente al municipio, en torno a las reivindicaciones históricas del movimiento obrero – o sea el control y la gestión obrera colectiva, como una transición demostrativa para el conjunto de los trabajadores de Argentina.

4. Nos pronunciamos por la defensa de los parlamentarios del Frente de Izquierda, que están siendo perseguidos por apoyar las luchas de los trabajadores. Repudiamos las agresiones y violencias de las que han sido objeto por parte de las patotas de la burocracia y de la Gendarmería. Reivindicamos que la función de un parlamentario revolucionario es impulsar la lucha de clases, fuera y dentro del parlamento.

5. Apoyamos el paro del 20 de noviembre convocado por la CTA-Michelli. Reclamamos la aprobación de la ley de expropiación sin pago y la estatización de Donnelley bajo control obrero, y el resarcimiento a los trabajadores de YPF, víctimas del vaciamiento de las privatizaciones. Por el triunfo de todas las luchas. Abajo la represión. Fuera la Gendarmería de la zona norte. Anulación de la ley Antiterrorista. Libertad a los presos políticos de Santa Cruz. Anulación de la condena de los obreros petroleros. Desprocesamiento de todos los luchadores populares.

6. Por el no pago de la deuda externa. Nacionalización de la banca y el comercio exterior. Nacionalización integral del petróleo y los recursos naturales bajo el control de los trabajadores. Por un plan político y económico de los trabajadores, para reorganizar socialmente el país a partir del interés de las mayorías populares.

7. Repudio a la brutal masacre de los 43 estudiantes mexicanos.

8. El Congreso decide re-convocarse para abril-mayo. Llamamos al Frente de Izquierda a asumir la iniciativa de esta convocatoria. Llamamos a incorporar a la agenda de las asambleas regionales la tarea del reclutamiento metódico, para ampliar la organización y la movilización política de los trabajadores.

9. Que la crisis la paguen los capitalistas. Por un 2015 de los trabajadores y la izquierda.

Buenos Aires, 8 de noviembre de 2014. Aprobada por unanimidad.

domingo, 9 de novembro de 2014

Entrevista a Néstor Pitrola - Congreso del Movimiento Obrero y la Izquierda



Entrevista a Néstor Pitrola en el Luna Park:


Entrevista a Néstor Pitrola, diputado del Frente de Izquierda y dirigente nacional del Partido Obrero, en el Congreso del Movimiento Obrero y la Izquierda en el Luna Park



sexta-feira, 10 de outubro de 2014

ELEIÇÕES NO BRASIL:

                                                                        



UM PETISMO EVANGÉLICO ALIADO À VELHA POLÍTICA




Jorge Altamira


O resultado eleitoral não expressa a recente rebelião popular. Ficaram nos primeiros lugares os responsáveis pela recessão, a inflação e o desemprego. Abre-se uma transição política e um período de crise.

A filiação petista da presidenta da nação esconde o verdadeiro caráter do governo brasileiro, que é, em primeiro lugar, uma aliança com o PMDB, o partido mais importante do país, criado sob a ditadura militar, e, por outro lado, com a direita evangélica, o que impõe à coalizão oficial uma agenda clerical e confessional de características extremadas. Os votos tidos pela situação são a expressão desta coalizão. A frase "governo do PT" nada mais é do que um eufemismo, que ajuda a decorar o governo com enfeites progressistas. Os acontecimentos mais marcantes de corrupção durante a administração “petista” estão relacionados precisamente com a "necessidade" de manter um curral de uma absurda maioria parlamentar.

Quais são as considerações mais importantes levantadas por estes resultados? 

A mais importante é, sem dúvida, que não traduziram a enorme revolta popular do ano passado contra os aumentos das tarifas de transporte e de protesto contra o colapso dos serviços públicos essenciais. Os partidos e coligações estabelecidas se beneficiaram desproporcionalmente das contradições do movimento popular, em cujo seio opera a burocracia sindical, em especial a governista CUT; o oportunismo eleitoral de um setor da esquerda (PSOL), que tem somente olhos para o carreirismo parlamentar; a debilidade dos setores classistas nos sindicatos e na juventude. Sob estas condições, as eleições funcionam como um espelho distorcido da realidade histórica do Brasil. As pesquisas privadas e os meios de comunicação, mais uma vez mostraram seu caráter manipulador neste quadro distorcido, abaixando e levantando as chances de cada candidato, de acordo com as circunstâncias e conveniências. A volatilidade pré-eleitoral é um forte sinal da enorme desconfiança do eleitorado diante das opções apresentadas.
Ficaram em primeiro lugar as forças políticas responsáveis pela recessão industrial - especialmente as demissões e suspensões na indústria automobilística - a inflação e o aumento do desemprego. A dívida pública do Brasil supera 60% do PIB, e se aproxima dos US$ 700 bilhões, e pior ainda é a dívida privada, que está perto dos cem por cento do PIB. A entrada de capital especulativo para aproveitar a diferença monumental das taxas de juros com os mercados internacionais tem sido extraordinária, e agora enfrenta uma reversão de tendência. O medo da fuga de capitais exerce uma enorme pressão sobre a taxa de juros no Brasil, que por sua vez tem um impacto negativo sobre o financiamento da indústria e sobre o crédito ao consumo, que se encontra em níveis muito altos. O "ascenso à classe média", a qual pondera a mídia internacional, é uma consequência do cartão de crédito. O Brasil pós-eleitoral será o cenário do ajuste e da acentuação do "conflito" social. A fuga de capitais já resultou em uma desvalorização do real, mais ou menos significativa. 

Contra o Mercosul

                                                                


Na ausência de um ativismo popular, independente, as eleições foram confinadas a uma disputa entre os setores dominantes. Em que consiste essa disputa? Dilma Rousseff, a presidenta, anunciou com significativa antecedência que abriria mão, em um segundo mandato, da atual equipe econômica. Procurou, deste modo, absorver a pressão dos "mercados", cuja principal preocupação é a de que o Banco Central tenha a capacidade de honrar o pagamento da dívida externa e aumentar os “incentivos” para que o capital especulativo não escape do país. Entre os “incentivos” não figuram somente o congelamento de salários e a redução dos gastos sociais. Um lugar importante é ocupado pela liberalização do comércio exterior e a mudança da política para o petróleo. Os esforços do governo para assinar um acordo de livre comércio com a UE foram bloqueados pela Argentina, de onde procedem as exigências oposicionistas (e do candidato da Frente Ampla do Uruguai) para debilitar o Mercosul e “liberar” a política brasileira da kirchnerista.
Dentro do campo “nacional e popular", como se vê, há também uma divisão de estratégias. Mais precisamente, cedem ante a pressão da crise e do capital internacional. Ninguém menos que o ex-presidente da venezuelana PDVSA , Rafael Ramirez, foi demitido de seu cargo, quando levantou a necessidade de desvalorizar o bolívar e liberar o câmbio. Sobre o tema do petróleo, o governo brasileiro enfrenta a pressão para que a Petrobras atenda aos interesses de seus acionistas privados (aumento do preço da gasolina e uma política de lucros maiores) e dê mais espaço para as empresas petrolíferas internacionais na exploração da plataforma marítima. O ascenso inesperado da oposição encarnada pelo PSDB (Aécio Neves) responde a esta tendência capitalista frente à crise. O governo já se pronunciou a favor de atender essas reivindicações.
Nos círculos financeiros cogita-se que a possibilidade de que uma derrota do governo teria uma capacidade de incidência sobre a crise da Argentina maior do que o “dólar blue”. Marcaria, dizem, uma mudança irreversível de tendência e precipitaria um desenlace mais rápido dessa crise. Esta é uma meia verdade, porque essa mudança de tendência já se encontra comodamente abrigada no atual governo. Inclusive, é maior, a capacidade deste governo de dar uma guinada e aplicar essa política do que a oposição, isso porque o governo tem maior capacidade de controle popular e uma cintura maior para a arbitragem em uma conjuntura de crescente mobilização de massas.
As eleições brasileiras mostram o fim de um ciclo e que a burguesia não pode continuar governando vinha fazendo anteriormente. Isto prevê uma transição e, por conseguinte, uma crise de conjunto. Faz falta agora que os trabalhadores, através, obviamente, de lutas parciais crescentes, desenvolvam sua própria alternativa política.