quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Brasil, a poucos dias da eleição: Lula diante do limite de seu próprio programa econômico

Extraído e traduzido do link: https://prensaobrera.com/internacionales/brasil-a-pocos-dias-de-la-eleccion-lula-ante-el-limite-de-su-propio-programa-economico


Lula da Silva

Pablo Heller

A contradição econômica domina a eleição. Lula chega com desemprego baixo, crescimento positivo e uma inflação que desacelerou, mas quase metade da população considera que a economia piorou. Não é um mistério de “percepção”. Os índices agregados convivem com alimentos caros, aluguéis, endividamento familiar e empregos precários. Esse choque entre a estatística e o bolso estreitou a vantagem do presidente e abriu espaço para Flávio Bolsonaro. (IBGE, setembro de 2026; Quaest, setembro de 2026; Reuters, 26/9). Segundo as últimas pesquisas, Lula teria conseguido abrir uma vantagem de cerca de cinco pontos no primeiro turno. De todo modo, os institutos de pesquisa concordam que, no segundo turno, a eleição será muito disputada e com resultado incerto.

O PIB cresceu 1,9% nos doze meses até o segundo trimestre, o desemprego caiu para 5,4% e a inflação acumulada em doze meses foi de 4,22% em agosto. Mas o Ministério da Fazenda reduziu sua projeção de crescimento para 2026 de 2,3% para 2%. O Banco Central calcula apenas 1,8% em 2026 e 1,4% em 2027. A desaceleração já atingiu o consumo das famílias e os setores mais sensíveis ao crédito. (IBGE, setembro de 2026; Ministério da Fazenda e Banco Central, 22 e 24/9).

A dívida permite visualizar o núcleo do desequilíbrio. Nos doze meses encerrados em junho, o setor público acumulou um déficit primário equivalente a 1,19% do PIB. Quando são incorporados os juros, o déficit nominal salta para 9,99%: R$ 1,318 trilhão. Somente os juros absorveram R$ 1,160 trilhão, 8,8% do PIB. A dívida bruta alcançou então 81,9% do produto e posteriormente chegou a 82,5%. A diferença entre os dois resultados desmente a versão segundo a qual o rombo fiscal seria essencialmente proveniente de aposentadorias, salários do funcionalismo público ou programas sociais. O pagamento aos credores é seu componente dominante. (Banco Central do Brasil, Estatísticas Fiscais, 31/7/2026; Reuters, 24/9).

As taxas elevadas agravam o problema que dizem combater. Embora o Banco Central tenha realizado cinco reduções consecutivas, a Selic ficou em 13,75%, uma das taxas reais mais altas entre as grandes economias. Por sua vez, 52,7% da dívida pública federal está indexada à Selic, a proporção mais alta da série iniciada em 2000. Cada demora em reduzi-la aumenta diretamente o custo financeiro e o volume da dívida. Em agosto, mesmo quando o Tesouro resgatou mais títulos do que emitiu, os juros acrescentaram R$ 88,4 bilhões e levaram o estoque da dívida federal a R$ 9,293 trilhões. (Reuters e Tesouro Nacional, 16 e 28/9/2026).

Formou-se um circuito vicioso. Os detentores de títulos exigem taxas altas diante do risco fiscal; essas taxas aumentam a dívida e servem para exigir um ajuste maior. O gasto social fica submetido ao marco fiscal, enquanto o custo financeiro cresce automaticamente. A dívida transfere recursos para bancos, fundos e grandes patrimônios e lhes permite condicionar o orçamento e a política monetária.

O déficit primário também não pode ser separado do baixo crescimento e da estrutura tributária. A desaceleração reduz a arrecadação; as isenções e os benefícios ao agronegócio limitam as receitas. Em setembro, o governo elevou a previsão de déficit efetivo para 2026 de R$ 52 bilhões para R$ 80,9 bilhões e reteve R$ 16,1 bilhões dos ministérios para cumprir as regras fiscais. A meta é alcançada congelando gastos, e não alterando as relações que alimentam a dívida. (Ministérios da Fazenda e do Planejamento/Reuters, 24/9).

A situação abriu um debate dentro da burguesia. Bancos e fundos exigem sinais fiscais mais duros para assegurar seus títulos. Setores industriais, da construção civil e do agronegócio protestam contra o crédito muito oneroso, que paralisa investimentos e multiplica a inadimplência. Diante de Lula, banqueiros e empresários reivindicaram simultaneamente estabilidade fiscal e taxas mais baixas. A disputa expressa como os custos do endividamento e a rentabilidade financeira são distribuídos entre as diferentes frações capitalistas. (Folha de S. Paulo, 1/9; pesquisa Firmus do Banco Central, 28/9).

A equipe de Lula responde com um ajuste gradual. Promete manter o marco fiscal e alcançar um superávit primário efetivo próximo de 1,3% do PIB em 2030. Estuda limites mais rigorosos para os gastos, mudanças nas regras da saúde, revisão do Benefício de Prestação Continuada (pagamento equivalente a um salário mínimo a idosos com 65 anos ou mais que não tenham meios de se manter e a pessoas com deficiência) e contenção dos reajustes salariais do funcionalismo. Flávio propõe um ajuste de 1,5% do PIB em dezoito meses, privatizações e uma âncora vinculada à dívida. Mudam o ritmo e a intensidade; ambos aceitam que a estabilização deve responder aos credores. (Reuters, 24/9/2026).

A relação entre Lula e o Banco Central condensa essas pressões. Lula critica os juros e aponta, com razão, que eles impulsionam a dívida. Mas preservou a autonomia aprovada durante o governo Bolsonaro e negou um conflito com Gabriel Galípolo, a quem promoveu à presidência do órgão. Galípolo reduziu a Selic em apenas 0,25 ponto por reunião. O Banco Central afirma que a economia precisa desacelerar em 2027 para levar a inflação à meta de 3%: utiliza o esfriamento da atividade e do consumo como instrumento disciplinador, embora as taxas não resolvam os aumentos originados no petróleo ou nos alimentos. (Reuters, 16 e 24/9/2026; Folha de S. Paulo, 1/9/2026).

A autonomia retira a política do Banco Central da intervenção do Parlamento e até do próprio Poder Executivo e a submete a metas definidas com os mercados. Lula protesta contra suas consequências, mas incorpora suas exigências à política fiscal. O ministro do Planejamento reconheceu que a consolidação orçamentária será decisiva para reduzir as taxas durante um novo mandato. O governo aceita ajustar os gastos para convencer uma autoridade que, enquanto isso, encarece a dívida e freia a economia. (Bruno Moretti à Reuters, 4/9).

O mecanismo chega aos lares. Em agosto, 82% das famílias estavam endividadas; 29,9% tinham contas em atraso. Para os setores populares, o crédito completa a compra de alimentos ou adia o não pagamento de serviços. O aumento de 15% do Bolsa Família, cujo piso passará de R$ 600 para R$ 691, oferece um alívio que a extrema direita combate. Mas os R$ 22 bilhões que custará em 2027 são uma fração mínima dos juros pagos anualmente. (Ver “Brasil a uma semana das eleições”, Rafael Santos, Prensa Obrera, 26/9).

Flávio Bolsonaro procura capitalizar o descontentamento com um programa que agravaria suas causas. Privatizações, cortes e abertura ao capital norte-americano transfeririam mais recursos do trabalho para os monopólios. Sua denúncia do déficit exclui os subsídios ao agronegócio, as isenções empresariais e o pagamento de juros. A promessa de equilíbrio encobre uma ofensiva contra salários, aposentadorias e direitos, acompanhada por uma política ainda mais favorável ao capital financeiro.

Advertir sobre esse perigo não transforma o balanço de Lula em progressivo. As greves e a mobilização contra a escala 6×1 e por outras reivindicações sociais colocam outra agenda: salário mínimo equivalente à cesta básica familiar, 36 horas sem redução salarial e serviços públicos financiados por meio da suspensão do pagamento da dívida. A nacionalização do sistema bancário, sob controle dos trabalhadores, permitiria acabar com a usura e orientar o crédito para a habitação, a produção e as necessidades sociais.

A economia que vem desgastando a candidatura de Lula não reivindica uma administração mais eficaz do mesmo circuito. Ela coloca a necessidade de romper o poder dos credores sobre o orçamento e o do Banco Central sobre o emprego e os salários. Flavio oferece um ajuste rápido e autoritário; Lula, uma consolidação gradual compensada por assistência social. Uma política operária independente deve rejeitar ambas as variantes e reorganizar o crédito, os impostos e os gastos públicos em função das necessidades da maioria. Sem essa ruptura, qualquer reivindicação popular continuará submetida ao veto da dívida e dos juros.