quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Brasil: o voto das mulheres e o limite social de Lula

Extraído e traduzido do link: https://prensaobrera.com/internacionales/brasil-el-voto-de-las-mujeres-y-el-limite-social-de-lula

As mulheres representam 53% do eleitorado brasileiro

Brasil: o voto das mulheres e o limite social de Lula

Pablo Heller

As mulheres representam 53% do eleitorado brasileiro

O voto feminino pode decidir uma eleição que deixou de ser confortável para Lula (as mulheres representam 53% do eleitorado). Nas eleições anteriores, Lula teve uma vantagem expressiva entre o eleitorado feminino. A vantagem que mantém entre as mulheres continua sendo um de seus principais ativos diante de Flávio Bolsonaro, mas já não funciona como uma barreira automática contra a extrema direita. Uma parcela das trabalhadoras que rejeitou Jair Bolsonaro por sua misoginia e por sua gestão criminosa da pandemia agora avalia o governo pelo que acontece na mesa familiar, no transporte e no trabalho. O medo do retorno do bolsonarismo não desapareceu; perdeu a capacidade de, por si só, organizar o voto.

O movimento aparece com nitidez entre as chefes de família, um setor decisivo porque concentra a responsabilidade cotidiana pelos rendimentos e pelas despesas familiares.

Uma das empresas de pesquisa registrou, nesse segmento, 47% para Lula e 27% para Flávio Bolsonaro. A diferença é importante, mas convive com o recuo geral do presidente entre as eleitoras e com o avanço de seu adversário. A pesquisa não descreve um bloco homogêneo: a posição varia conforme a renda, a raça, a região e a religião. Entre as mulheres evangélicas, por exemplo, Flávio obtém uma vantagem significativa, apoiado na rede de igrejas e em uma campanha conservadora contra o aborto e os direitos sexuais (Datafolha/Folha de S. Paulo, 22 e 25/9).

A explicação imediata está no custo de vida. A recente queda de alguns índices não apaga o aumento acumulado dos alimentos nem a distância entre a renda e as despesas indispensáveis. Quem administra uma casa não vota na média estatística: compara o salário ou o benefício social com o preço da carne, do arroz, do aluguel, do gás, da eletricidade e do transporte.

“A perda de apoio a Lula entre as mulheres está associada precisamente ao encarecimento da comida, juntamente com a preocupação com os feminicídios e os danos causados pelas apostas on-line. A percepção tem uma base material: 82% das famílias brasileiras estavam endividadas em agosto e quase 30% acumulavam contas em atraso.” (Clarín, 26/9; CNC-Peic, agosto de 2026).

Lula tenta recuperar esse terreno com um aumento de 15% do Bolsa Família, cujo piso passará de 600 para 691 reais. Uma medida de emergência para tentar reverter o recuo nas pesquisas eleitorais, diante do mal-estar social: o aumento, de cerca de 30 mil pesos argentinos, começará a ser pago somente em 19 de outubro (cinco dias antes do segundo turno das eleições). A medida “aliviaria” milhões de famílias, especialmente mulheres pobres, mas seu anúncio a menos de três semanas da eleição revela a dificuldade do governo: a renda familiar continua submetida aos preços, às dívidas e aos juros. Uma transferência não modifica a estrutura que produz esse sufocamento. O governo preservou o marco fiscal, a autonomia do Banco Central, as reformas trabalhista e previdenciária e o pagamento da dívida pública, que alimenta bancos e fundos (Reuters, 17/9; Folha de S. Paulo, 17/9).

Ao perceber que estava perdendo a vantagem que as pesquisas lhe atribuíam semanas atrás, o governo decidiu proibir as apostas, que se transformaram em uma das fontes de endividamento da população, particularmente dos jovens. O endividamento das famílias trabalhadoras e pobres gira em torno da inflação da cesta básica, dos altos juros bancários das dívidas dos cartões etc. A medida desperta o apoio da maioria da população (particularmente das mulheres), mas será preciso ver se isso contribui para um aumento do voto a favor de Lula, ainda mais quando se trata de uma medida tardia, tomada às pressas na véspera das eleições.

O bolsonarismo não deixou de denunciar que foi o PT quem legalizou as apostas. A Medida Provisória 1.934, que institui essa proibição, deverá ser analisada e aprovada pelo Parlamento dentro dos 120 dias posteriores à sua edição (depois do segundo turno). Por outro lado, isso está longe de resolver o problema, já que o fluxo atual será direcionado para as apostas clandestinas.

A violência de gênero abre outra frente. Flávio explora o aumento dos feminicídios como se sua corrente política não tivesse promovido o armamentismo, a militarização e o ódio contra as mulheres. O lulismo invoca o perigo reacionário, mas evita enfrentar as igrejas, as polícias e os blocos parlamentares que sustentam essa ofensiva porque depende do Centrão (bloco de partidos conservadores que domina o Parlamento). A mesma conciliação bloqueia o aborto legal e limita o combate à violência.

Também pesam as jornadas intermináveis. Milhões de brasileiras conciliam emprego precário, trabalho doméstico e tarefas de cuidado. Por isso, a luta contra a escala 6x1 e por uma semana de trabalho mais curta, sem redução salarial, dialoga diretamente com esse eleitorado. O governo tentou se apropriar da reivindicação, mas não rompeu com os empresários que a rejeitam. Lula não conseguiu fazer com que o Senado votasse a medida antes da eleição, como havia combinado com o “Centrão”. A lei da escala 6x1 continua bloqueada e, certamente, sofrerá depois das eleições novas modificações que a limitem.

A disputa concentra a contradição de toda a eleição. Flávio representa uma ameaça concreta: combina fundamentalismo, autoritarismo e um programa econômico que descarregaria a crise sobre as famílias populares. Mas o recuo de Lula não nasce de uma falha de comunicação. Surge de uma experiência: as melhorias — tímidas e concedidas a conta-gotas — convivem com alimentos caros, endividamento, precariedade e violência, enquanto bancos, agronegócio e grandes empresas conservam seus privilégios.

A conquista das reivindicações das mulheres coloca em primeiro plano a necessidade de independência política em relação às variantes em disputa. É necessário levantar um programa próprio: salário mínimo capaz de cobrir a cesta básica familiar, redução da jornada sem redução salarial, creches, serviços públicos, aborto legal e medidas efetivas contra os feminicídios. O voto das mulheres não deve nem pode ser um reduto eleitoral de Lula, nem um terreno a ser entregue ao bolsonarismo. Pode transformar-se em uma força própria se unir-se à luta da classe trabalhadora por uma saída independente que abra caminho para um governo dos trabalhadores.