quarta-feira, 27 de maio de 2026

BOLÍVIA: Agora mais do que nunca! organizar, coordenar e prolongar a greve geral pela renúncia de Rodrigo Paz!

 Extraído e traduzido do link: https://prensaobrera.com/internacionales/mas-que-nunca-organizar-coordinar-y-extender-la-huelga-general-boliviana-por-la-renuncia-de-rodrigo-paz

Fora com a Santa Aliança (à qual Lula aderiu) contra os trabalhadores bolivianos

Rebelião popular na Bolívia

Por Rafael Santos

A greve geral na Bolívia, com seus 50 bloqueios e fechamentos de estradas, entra em sua quarta semana e continua a crescer.

A tentativa do governo de abrir um "corredor humanitário" para romper o cerco a La Paz, enviando um comboio de 150 veículos (guincho, caminhões, tanques pesados, etc.) com 2.500 policiais e 1.000 soldados liderados pelo Ministro de Obras Públicas, Mauricio Zamora, fracassou diante da resistência popular. As Forças Armadas tiveram que recuar e se dispersar. O Ministro Zamora ficou "desaparecido" por horas, fugindo por rotas alternativas para evitar ser detido pelos manifestantes bolivianos.

O governo também fracassou em seus anúncios do último sábado de estabelecer um Conselho Econômico e Social incorporando (cooptando) setores do movimento. Não conseguiu romper a frente de luta que está se formando.

A direita fascista também não conseguiu ganhar força organizando contra-manifestações contra os bloqueios. Além de estarem repletos de insultos racistas, seus apelos por uma mobilização de cunho fascista têm pouco impacto. O Comitê Cívico de Santa Cruz, tradicional bastião da direita fascista que desempenhou um papel fundamental no golpe que levou Añez ao poder, havia convocado uma caravana para hoje, terça-feira, para romper um dos pontos de bloqueio. Ontem, no final da segunda-feira, anunciaram o adiamento. Não receberam nenhum apoio, e a própria burguesia freou o plano, temendo que a iniciativa desencadeasse um confronto violento e o início de uma guerra civil e a revolução.

A revolução é o espectro vivo que assombra toda a situação política boliviana. A ação começou com a marcha dos camponeses do norte contra a Lei 1720, que abriu caminho para o roubo de pequenas propriedades camponesas em benefício de grandes latifundiários e capitalistas do chamado agronegócio. Foi a faísca que deflagrou a greve geral: vários setores de trabalhadores aderiram rapidamente, exigindo aumentos salariais (professores, mineiros, operários), protestando contra planos de privatização da mineração (lítio, etc.) e de outras empresas estatais, entre outras questões. A greve transformou-se então numa greve geral por tempo indeterminado, que a Central Operária Boliviana (COB) sancionou oficialmente em sua sessão plenária de 1º de maio.

Mas Rodrigo Paz não desiste. Ele continua a ameaçar: emitiu mandados de prisão contra Mario Argollo, líder do COB (Centro Operário Boliviano), e outros líderes das organizações envolvidas na luta. Mantém dezenas de camaradas presos. E agora está prestes a aprovar a revogação da Lei 1341 de 2020, que limita os poderes para convocar e manter um "Estado de Emergência" (estado de sítio). Estas são ameaças muito concretas contra o movimento.

Como qualquer verdadeira greve geral (analisada em profundidade por Rosa Luxemburgo em seu famoso livro de 1906: A Greve de Massas, o Partido Político e os Sindicatos), ela é impulsionada de baixo para cima, pelas ações das massas. O COB, ao propô-la e estabelecer o "Pacto de Não-Traição" com a liderança camponesa, convocou a mobilização, mas não é conhecido por organizá-la e aprofundá-la. Argollo declarou, de seu esconderijo forçado, que, se preso, permanecerá espiritualmente ao lado dos grevistas. Ele também rejeitou a possibilidade de “diálogo” com o governo até que a repressão cesse, os mandados de prisão sejam revogados e os grevistas presos sejam libertados.

A greve geral abre a possibilidade não só de forçar a renúncia de Rodrigo Paz — que se recusa a ceder —, mas também de levantar a questão da luta pelo poder. Evo Morales propôs a convocação de eleições em 90 dias. Outros setores defendem posições semelhantes: que um governo provisório convoque eleições antecipadas. Isso seria uma “vitória”, mas com o perigo de trocar — na melhor das hipóteses — a coleira, mas não o cachorro. A direita está usando isso como último recurso diante de uma revolta mais aberta.

Para as massas camponesas e operárias, a ideia é que um governo revolucionário possa realizar as grandes transformações sociais necessárias contra o grande capital e o imperialismo. O primeiro passo é o sucesso da greve. É necessário realizar assembleias e estabelecer órgãos de coordenação. Em primeiro lugar, no que diz respeito aos bloqueios, devemos incorporar representantes de moradores, fábricas e estudantes de cada área nas assembleias das linhas de piquete. E devemos avançar rumo à coordenação regional e nacional em uma grande Assembleia Popular Nacional. Se Argollo ou qualquer outro líder for preso, a greve não só deve continuar, como também se intensificar.

Abaixo a Santa Aliança de Trump, Milei e Lula!

O governo dos EUA declarou sua disposição de intervir contra o que chama de golpe de Estado contra uma “democracia eleita”. Quer implementar o chamado “Escudo das Américas”, assinado por Trump com governos latino-americanos de direita para justificar intervenções diplomáticas e militares contra países do continente em nome do combate ao “narcoterrorismo”. Milei foi o primeiro da lista, enviando um avião Hércules da Força Aérea carregado com galinhas e armas de repressão (gás lacrimogêneo e munição). As galinhas estão sendo vendidas a preços exorbitantes por empresas especializadas: os libertários veem lucro em todas as formas possíveis.

Os governos do Chile e do Peru também se juntaram a esses envios “humanitários”. E agora, o presidente Lula, do Brasil, anunciou o envio de “ajuda humanitária” em apoio ao governo de Rodrigo Paz durante a greve geral. “O presidente Lula reiterou sua solidariedade ao governo e ao povo boliviano e enfatizou a importância do pleno respeito às instituições democráticas e ao Estado de Direito”, diz um comunicado do Palácio do Planalto.

A rebelião de um povo, expressa em sua greve geral, supera em muito o pronunciamento pseudodemocrático de uma eleição fraudada, conduzida com todo tipo de proscrição. Enviar alimentos (além de medidas repressivas) quando há piquetes bloqueando a cidade é uma postura antigreve, uma atitude “submissa”, típica de presidentes de direita, mas também do centro-esquerdista Lula. A esquerda e o movimento sindical no Brasil devem se mobilizar para impedir esse apoio do governo à greve dos trabalhadores bolivianos.

Propomos o mesmo em nosso país: os sindicatos, as centrais estudantis, as organizações de piquete, os partidos que se dizem anti-imperialistas – com a FIT-U à frente – devem se mobilizar contra a participação argentina na luta de direita contra a greve geral na Bolívia.

quinta-feira, 14 de maio de 2026

A ESTRATÉGIA DA ESQUERDA

 Extraído e traduzido do link: https://prensaobrera.com/politicas/la-estrategia-de-la-izquierda

Editorial de Gabriel Solano em "14 Toneladas"

A esquerda tem uma estratégia de poder?

Nos últimos dias, o debate político intensificou-se consideravelmente. A discussão jornalística sobre se a esquerda possui ou não uma estratégia de poder representa um desafio significativo para nós, pois qualquer força política tem a obrigação de possuir uma. Caso contrário, fica condenada a ser meramente um grupo de pressão para outras forças políticas que a possuem.

Quando a esquerda é questionada, geralmente parte-se da convicção de que lhe falta uma estratégia de poder e que, portanto, seu objetivo é nada mais do que ser uma força simbólica; que deseja expressar algum tipo de descontentamento, alguma rebelião superficial, mas que não quer ter (não apenas não tem, como também não quer ter) uma estratégia de poder porque não deseja assumir a responsabilidade de governar o país.

Isso, sem dúvida, já foi dito por muitos dentro do peronismo, mas também por setores jornalísticos que, com razão, investigam se a esquerda possui ou não uma estratégia de poder. Claramente, quando esse assunto é discutido, muitas questões surgem. Por um lado, presume-se que a ausência de uma estratégia de poder esteja relacionada ao fato de a esquerda não fazer alianças políticas com a burguesia.

Este é um ponto de partida importante. A ideia é que, se você quer uma estratégia de poder, precisa desenvolver uma estratégia política com os partidos tradicionais para alcançá-la. Particularmente na Argentina, onde Milei governa, essa estratégia de alianças políticas deve envolver a esquerda formando um acordo com o peronismo ou alguma facção dele.

Essa pressão é real, e temos sido alvo desse tipo de crítica: "Se vocês querem chegar ao poder, precisam se aliar ao peronismo". Quem faz essa crítica sabe que temos estratégias e programas diferentes. "Entrem num governo com o peronismo e lutem por dentro para que a agenda da esquerda, os interesses que a esquerda quer incorporar, avancem de alguma forma, pelo menos em parte."

Um jornalista, Jorge Fontevecchia, dono da editora Perfil, foi além, e em um artigo que publicamos na Prensa Obrera na semana passada, demonstramos seu esforço dizendo: "Vejam, existem trotskistas, não apenas esquerdistas, existem trotskistas no mundo todo que ousaram entrar em governos burgueses e lutar por dentro por sua estratégia."

Ele cita a experiência brasileira — bastante recente para nós — em que um partido que é uma espécie de coalizão política, chamado PSOL, viu uma facção entrar no governo Lula, e um de seus líderes (Guilherme Boulos) ocupou um cargo importante no gabinete. Então, Fontevecchia nos diz: “Vejam só, Boulos entrou para o governo Lula, está impedindo Bolsonaro de vencer, e eles estão lutando por isso por dentro”.

Quando — como já dissemos muitas vezes — analisamos a experiência brasileira, vemos (não sabemos exatamente qual é a agenda de Boulos e do PSOL, mas presumimos) que o PSOL e Boulos são contra a reforma trabalhista aprovada no Brasil durante o governo de Michel Temer, e seriam contra a reforma da previdência aprovada durante o governo Bolsonaro. No entanto, a entrada de Boulos no governo Lula não levou à revogação de nenhuma das reformas. Mas a coalizão de Lula é tão ampla que abrange uma parcela significativa da direita — e não só da direita — que em determinado momento tentou um golpe contra o PT.

Parte da coalizão de Lula votou recentemente no parlamento para reduzir significativamente a pena de Bolsonaro pela tentativa de golpe durante o segundo turno das eleições, quando foi derrotado. Portanto, dentro do governo Lula está Boulos, mas também uma parcela da direita que votou contra Lula no parlamento para reduzir a pena de Bolsonaro a pedido de Trump, e isso não levou a nenhum tipo de deliberação interna para que o PSOL deixasse o governo Lula. Eles permaneceram dentro dele.

Portanto, a coligação que nos é exigida na Argentina, e da qual somos citados como exemplo internacional, forçaria a Frente de Esquerda a formar uma coligação com elementos fortemente de direita (porque é essa a direção que o peronismo está tomando atualmente) e condenaria a esquerda a renunciar à sua independência política e, consequentemente, a perder qualquer possibilidade de desempenhar um papel na estratégia de poder real. Porque uma estratégia de poder consiste em lutar pelo seu programa, não em obter uma posição para si próprio ou para o seu partido.

Assim, temos um problema estratégico. Se a esquerda tem uma estratégia de poder, tem de lutar pela sua própria independência e pelo seu próprio governo. E como os governos não pertencem a uma força ideológica, mas sim devem sempre representar uma classe social, um governo de esquerda tem de ser um governo operário. Não se trata apenas de ideologia, porque esquerda e direita são conceitos que se confundem.

O problema é se a esquerda lutará por um governo operário, isto é, por um governo de uma classe social diferente da que governa hoje, que é a classe capitalista. Eis um importante problema político: muitos nos dizem: "Vocês estão concorrendo às eleições, e as eleições são burguesas". Toda a imprensa diz: "Por que vocês estão concorrendo se querem um governo operário, que é uma estratégia antiburguesa?".

Estamos concorrendo basicamente porque há eleições, ou seja, porque os trabalhadores ainda não conseguiram estruturar seu próprio poder político para governar, ou ao menos estabelecer uma estrutura de poder dual com o poder do Estado burguês. E não se pode descartar, como hipótese, a possibilidade de a esquerda concorrer e vencer as eleições. E o que acontece se a esquerda vencer as eleições?

Bem, nos esforçaríamos para implementar nosso programa, e isso, sem dúvida, geraria uma série de convulsões sociais brutais. Imagine, governamos e implementamos um aumento salarial imediato. Como aumentamos os salários? Aumentamos os salários reduzindo os lucros capitalistas. Já que o valor criado no processo de produção deriva do trabalho não remunerado, basta reduzir os lucros capitalistas para aumentar os salários. Não há necessidade de recorrer a qualquer tipo de emissão monetária, que teria um efeito inflacionário. Ora, a redução dos lucros capitalistas levaria a um confronto com a classe capitalista. É preciso assumir necessariamente que esse confronto envolveria uma tentativa de fechamento de fábricas.

Portanto, devemos defender as ocupações de fábricas que estão ocorrendo, como no caso da Fate. Teríamos que nos defender de qualquer fuga de capitais que a burguesia pudesse tentar, pois eles nos sabotariam manipulando o sistema financeiro. Estabeleceríamos o controle sobre o sistema financeiro, visando nacionalizá-lo por completo.

Ouvi pessoas dizendo que a esquerda está falando bobagens ao propor a nacionalização dos bancos quando os bancos argentinos estão falidos, mas quem diz isso não tem ideia do que está falando, porque o sistema financeiro é um mecanismo fundamental através do qual a poupança do país deve ser canalizada para investimentos. Hoje, ao contrário, o sistema financeiro é um fator de fuga de capitais. Portanto, nacionalizaríamos o sistema financeiro e convocaríamos a classe trabalhadora para se mobilizar. E nessa mobilização para defender as medidas do nosso governo, os trabalhadores certamente conseguiriam construir o que não construíram antes: as instituições do seu próprio poder.

Em outras palavras, um problema eleitoral não é de forma alguma insignificante e é — como se costuma dizer, de maneira mais ou menos simples, entre os marxistas que participam do processo eleitoral — uma forma de esgotar as expectativas democráticas da população. Já dissemos isso muitas vezes. Como esgotar as expectativas democráticas sem vencer as eleições? Com ​​base na própria experiência dos trabalhadores, eles perceberão que o atual sistema representativo burguês é inadequado para promover os interesses da maioria, e isso se manifestará como um confronto. Isso é muito provável.

Transformações revolucionárias em países com longas tradições constitucionais têm grande probabilidade de vivenciar confrontos significativos relacionados às eleições. Por exemplo, no Brasil, quando houve um golpe contra Dilma Rousseff e uma luta pelo poder se instaurou entre os Poderes Executivo e Legislativo, o Partido dos Trabalhadores (PT) não usou sua presença no Executivo para desconsiderar o Legislativo. Nessa luta pelo poder, o PT capitulou. Um governo de esquerda, por exemplo, não capitularia a uma decisão do Judiciário. Em uma luta pelo poder, buscaria estabelecer um sistema de justiça diferente. Portanto, obviamente, temos um conflito, e o processo eleitoral seria parte de uma luta de classes para que os trabalhadores possam construir seus próprios órgãos de poder.

Muitos também se perguntam se, caso governássemos, estaríamos dispostos a impulsionar a Argentina para frente, ou se seríamos uma força de retrocesso. Como Santi acabou de dizer: teríamos um caminhão obsoleto ou carros elétricos?

E isso é o oposto do que Jorge Fontevecchia diz no Perfil, que se a esquerda tentasse tomar o poder agora, seria uma ideia insensata. Nossa resposta deveria ser que as condições atuais para o desenvolvimento das forças produtivas são muito mais favoráveis ​​a um governo operário do que eram no passado. Porque, se analisarmos as experiências passadas de governos operários, o desenvolvimento das forças produtivas era menos desenvolvido e as possibilidades reais de planejamento econômico eram muito mais limitadas.

Planejar uma economia com a internet não é o mesmo que planejar sem ela, assim como planejar com inteligência artificial não é o mesmo que planejar sem ela. O processo administrativo de planejamento seria muito simplificado e, portanto, o nível de burocracia estatal necessário para executá-lo também diminuiria. Por outro lado, as condições objetivas do desenvolvimento capitalista são muito mais propícias para que possamos estabelecer um governo operário e aproveitar o desenvolvimento científico e tecnológico acumulado pela humanidade para alcançar, digamos, um avanço substancial das forças produtivas.

Portanto, a esquerda no poder certamente não seria uma força de regressão, mas sim uma força de progresso, e poderíamos começar imediatamente a satisfazer necessidades sociais fundamentais. Porque também nos dizem: "Vocês teriam que fazer ajustes, como Lenin teve que fazer na época, e ele enfrentou greves". Não se pode negar que podem ocorrer greves sob um governo operário, pois a luta de classes não é eliminada enquanto existirem diferentes classes sociais que também disputam a distribuição da renda nacional. Mas não há dúvida de que, no atual nível de desenvolvimento das forças produtivas, a possibilidade de satisfazer imediatamente as necessidades urgentes da população é muito mais acessível do que no passado. Isso se aplica não apenas a garantir que todos tenham acesso à erva-mate, mas também à distribuição da jornada de trabalho e à garantia de emprego para todos, algo que não existe hoje. Ao mesmo tempo, podemos alavancar os recursos naturais da Argentina para estabelecer um planejamento econômico e uma relação planejada com o mundo, por meio da qual também possamos exigir (como outros países já fizeram) a transferência de tecnologia para investimentos específicos que nos permitam desenvolver, digamos, em nosso próprio país, certas indústrias que representariam um avanço significativo.

Isso não implica, de forma alguma, a ideia de socialismo em um só país. Entenda, seria absurdo, neste momento de enorme desenvolvimento das forças produtivas, que esse enorme desenvolvimento gerasse uma distribuição de tarefas no mercado internacional, exigindo que cada país produzisse todos os bens que consome. Não, isso seria absurdo, e não temos nada a ver com socialismo em um só país. Mas também é verdade que um país com certos recursos naturais deve utilizá-los para gerar valor agregado a esses produtos e, consequentemente, empregos que permitam o desenvolvimento da Argentina. Outros países já fizeram isso. A China é um exemplo. Em determinado momento, exigiu a transferência de tecnologia como condição para certos investimentos, algo que a Argentina não faz.

Portanto, nosso plano não visa isolar o país, mas, ao contrário, engajar-nos com o mundo por meio do planejamento econômico. Assim, quando nos perguntam: “Vocês se veem como um fator de atraso?”, a resposta é justamente o oposto. Precisamos demonstrar que a esquerda tem um programa, e que esse programa só pode ser implementado por meio de um governo operário de esquerda, e que não pode ser executado por um governo burguês, porque a luta programática não se limita a medidas governamentais. Nossa luta programática deriva de um conceito de poder. Somente os trabalhadores no poder podem implementar o programa. A burguesia jamais o implementará. Portanto, precisamos travar essa batalha.

E, para concluir, temos o seguinte problema. A Frente de Esquerda, e em particular nossa camarada Myriam Bregman, viu um aumento significativo no que se chama de imagem positiva. Essa imagem positiva é resultado, sobretudo, da participação da esquerda nas lutas contra o governo Milei. Portanto, trata-se de uma imagem positiva bem merecida. É uma vitória política o fato de o povo reconhecer a esquerda como líder na luta contra um governo reacionário, e ela se destaca em oposição ao peronismo, que até os próprios peronistas dizem não ser visto como de esquerda, ou à CGT (Confederação Geral do Trabalho), que é abertamente considerada traidora.

Agora, quando se observa a intenção de voto, ela não está no mesmo nível da imagem positiva. E pode-se ver que a diferença entre a intenção de voto e a imagem positiva na esquerda é muito maior do que em todos os outros blocos políticos. Há duas maneiras de ver isso, e ambas estão corretas. Uma é dizer: "Vejam o potencial de crescimento que temos", porque se você tem 40% de imagem positiva e 6% de intenção de voto, você pensa: "Eu posso conquistar esses 40%".

Mas há outra maneira de ver isso que também é verdadeira. Isso significa que muitas pessoas veem a esquerda como uma força que merece reconhecimento por seu ativismo, mas votam na burguesia, ou querem votar na burguesia. Há uma contradição. Como superar essa contradição? Bem, isso exige uma luta programática brutal. Exige uma luta contra o governo de Milei, mas também contra todos os blocos que participam da vida política nacional, para mostrar que a saída operária e a saída de esquerda exigem uma demarcação completa, uma luta contra todas as variantes capitalistas.

Por isso, é tão importante que a Frente de Esquerda dê um salto em frente nesta etapa. Apoiamos fortemente a Frente de Esquerda, o que não significa que a apoiamos com todas as suas limitações. Queremos superá-las. Por isso, propusemos uma assembleia nacional da Frente de Esquerda, que formulamos na Praça de Maio e que será discutida com mais detalhes no congresso do Partido Obrero que realizaremos nos dias 23, 24 e 25 de maio. Esta proposta de delinear uma campanha nacional visa construir sobre as conquistas da Frente de Esquerda, mas também superar essas limitações; para que a esquerda possa organizar politicamente uma massa considerável da classe trabalhadora e da juventude argentina para uma luta maciça contra o governo e todas as suas variantes capitalistas.

Esta proposta é para todos, desde um trabalhador da FATE até o nosso camarada Beltrán, que defendeu dois pênaltis para o River Plate no domingo, dia 10. É para todos os setores da classe trabalhadora. Então, temos esta proposta. Estamos colocando isso em debate entre toda a esquerda, todos os ativistas e também todo o partido, porque obviamente temos um congresso chegando e esse congresso certamente poderá contribuir para tornar essa proposta uma questão importante da campanha eleitoral ao longo de 2026.

Trump e Rubio voltam a atacar Cuba

 Extraído e traduzido do link: https://prensaobrera.com/internacionales/trump-y-rubio-vuelven-a-la-carga-contra-cuba


No dia 14 de maio nos reunimos em frente ao Congresso contra o boicote imperialista criminoso, organizado pelo Comitê Independente de Trabalhadores e Estudantes de Solidariedade com Cuba.


Nova onda de ameaças contra Cuba

Por Luis Brunetto

Uma nova onda de ameaças contra Cuba foi lançada pelo governo dos Estados Unidos por meio do Secretário de Estado, Marco Rubio. Essa série de declarações surge em meio a rumores cada vez mais fortes de que ele é a provável escolha de Donald Trump para sucedê-lo em 2028, dentre uma lista restrita de potenciais candidatos republicanos que também inclui o Vice-Presidente, JD Vance, e o agora desacreditado, mas ainda não totalmente descartado, Secretário de Defesa, Pete Hegseth. Nascido em Miami em 1971, em uma família gusana (vermes contrarrevolucionários que fugiram pra Miami da Revolução Cubana) a questão cubana é para Rubio tanto uma parte central de sua agenda, quanto um motivo condutor de sua propaganda.

Desde o sequestro de Nicolás Maduro na Venezuela, Trump e Rubio impuseram ao governo fantoche de Delcy Rodríguez o corte do fornecimento de petróleo à ilha, proibindo efetivamente o mundo inteiro de enviar combustível sob ameaça de retaliação. Em 29 de janeiro, foi assinado um decreto que permite aos Estados Unidos impor tarifas e sanções a países que enviam petróleo ou derivados, e em 1º de maio, Trump assinou uma ordem executiva ampliando as sanções a bancos e empresas estrangeiras que financiam remessas de combustível para Cuba, e impondo sanções diretas ao conglomerado econômico estatal GAESA e à produtora de níquel MOA. “A apenas 145 quilômetros do território dos EUA, o regime cubano levou a ilha à ruína e a transformou em uma plataforma para operações estrangeiras de inteligência, militares e terroristas”, afirma a ordem executiva.

Não são apenas governos fantoches dos EUA, como o da Venezuela ou o da Argentina de Milei, que estão cumprindo essa ordem da administração Trump. Governos "progressistas" na América Latina também se submeteram a essa imposição. Claudia Sheinbaum suspendeu as exportações mexicanas, que chegariam a cerca de 15.000 barris por dia até 2025, o equivalente a quase US$ 500 milhões. No ano passado, segundo o Financial Times, o México ultrapassou a Venezuela como principal fornecedor de petróleo para Cuba. Nem o Brasil de Lula, o nono maior produtor mundial de petróleo bruto, nem a Colômbia de Gustavo Petro ousaram desafiar a proibição de Trump, e Putin enviou apenas um carregamento com 700.000 barris, o que, considerando a produção interna do país de 35.000 barris por dia e seu consumo de cerca de 150.000 barris, era suficiente apenas para seis dias.

Após seu encontro com Trump na Casa Branca na quinta-feira, 07 de abril , Lula afirmou que o presidente americano descartou uma invasão de Cuba durante a conversa. No entanto, como se pode ver no vídeo de sua coletiva de imprensa, ele também não confirmou as declarações de Trump: "Foi o que disse o intérprete", declarou cautelosamente. Além disso, o presidente brasileiro ofereceu a Trump sua ajuda para facilitar as negociações com Cuba, "que quer conversar", numa oferta virtual de mediação. Mas Cuba não precisa de um mediador; precisa do fim do bloqueio, agora agravado pela proibição global de exportação de petróleo — uma situação que o próprio Brasil poderia, no mínimo, amenizar.

As razões imediatas pelas quais Sheinbaum e Lula cederam a Trump estão diretamente relacionadas à natureza capitalista de seus governos. O México está prestes a renegociar o Tratado Norte-Americano de Livre Comércio (NAFTA), no qual Trump pretende impor condições extremamente severas ao país. Enquanto isso, no Brasil, o governo Lula manifestou preocupação com possíveis quedas no valor das ações da Petrobras em Wall Street. Nenhum dos dois países sequer cogita uma abordagem de confronto com o imperialismo estadunidense em seus próprios territórios e, portanto, tampouco consideram promover uma política genuína de solidariedade anti-imperialista, que é justamente o que Cuba precisa.

Embora o governo cubano e a burocracia cubana tenham reconhecido publicamente as negociações em março, as conversas entre a burocracia cubana e o governo dos EUA já duram meses. Em meados de março, o New York Times noticiou que Rubio exigia a renúncia do presidente cubano Miguel Díaz-Canel para que as negociações pudessem continuar, uma alegação posteriormente negada pelo próprio Secretário de Estado. No entanto, o conteúdo desta nova onda de ameaças de Rubio parece confirmar a versão anterior sobre a disposição dos EUA em forçar a saída de Díaz-Canel como condição para a continuidade das negociações: "Esse modelo econômico não funciona, e quem está no poder não consegue consertá-lo", afirmou Rubio. "A única coisa pior que um comunista é um comunista incompetente", acrescentou, em alusão direta a Díaz-Canel.

Apesar de o governo cubano ter aprofundado reformas capitalistas cada vez mais impopulares desde pelo menos 2021 — reformas que explicam protestos populares como os de 11 de julho daquele ano — a opção militar permanece em aberto para o imperialismo. Numa escalada da pressão militar sobre Cuba, antecipando uma possível invasão futura, Rubio posou para uma fotografia ao lado do chefe do Comando Sul (SouthCom), General Francis Donovan, com um mapa de Cuba ao fundo. Por ocasião da assinatura da ordem executiva em 1º de maio, Trump disse: “Talvez, no nosso regresso do Irã, quando terminarmos essa missão, interceptemos o porta-aviões Abraham Lincoln, o porta-aviões mais bonito que já vi. Interrompê-lo-emos a algumas centenas de metros da costa [de Cuba]”.

Pela mobilização da classe trabalhadora latino-americana em defesa do povo trabalhador de Cuba

É evidente que a passividade promovida por progressistas como Lula, com suas declarações “tranquilizadoras” sobre as intenções de Trump, não só é contraproducente, como serve ao objetivo imperialista de paralisar a organização da luta popular em defesa de Cuba. O conselho de Che Guevara é particularmente pertinente aqui: “Não se deve confiar no imperialismo nem um pouco”. A paralisia promovida por Lula, Sheinbaum e Petro espelha-se na das organizações políticas do conglomerado progressista e nacionalista burguês latino-americano, que não exerceu nenhuma pressão sobre esses governos para exigir o fornecimento de petróleo. Na Argentina, o peronismo, em suas diversas formas, permaneceu em completo silêncio diante dessa tremenda ofensiva do imperialismo ianque contra Cuba.

Em contrapartida, em setores do sindicalismo combativo e na esquerda independente dos governos progressistas, principalmente na FIT-Unidad (Frente de Esquerda dos Trabalhadores - Unidade), começam a surgir iniciativas de solidariedade operária e popular. No Brasil, o Sindicato dos Petroleiros do Rio de Janeiro (SindiPetroRJ) lidera uma campanha contra o envio de petróleo brasileiro para Israel e a favor do fornecimento a Cuba. Essa iniciativa deve ser apoiada, divulgada e replicada em todo o continente. Em nosso país, nosso partido, juntamente com organizações de piquete, grupos estudantis, organizações de direitos humanos, os partidos da coalizão FIT-Unidad e a esquerda em geral, criou o Comitê Independente de Solidariedade Operário-Estudantil com Cuba. Esse comitê realizará uma manifestação na próxima quinta-feira, dia 14, na Praça do Congreso, e planeja arrecadações comunitárias para enviar ajuda direta aos trabalhadores cubanos.

Esse caminho — a luta organizada de organizações populares que não se alinham à burocracia cubana — é o único que pode pavimentar o caminho para a luta dos povos da América Latina contra as tentativas do imperialismo estadunidense de recolonizar Cuba.

segunda-feira, 4 de maio de 2026

Declaração de Liberação Comunista

 O ataque pirata de Israel contra a flotilha Global Sumud | گلوبل صمود فلوٹیلا destaca a vergonhosa cumplicidade do governo grego.

O ataque agressivo de Israel no meio do Mediterrâneo, a 965 quilômetros a oeste de Gaza, comprova a audácia sem limites do Estado terrorista. Revela também a sua dificuldade em confrontar uma missão desta magnitude (mais de 80 embarcações) perto da sua costa, especialmente em meio às operações militares no Líbano e às tensões com o Irã. Contudo, o fato de o Estado sionista ter lançado este ataque numa área que considera "segura" para as suas ações — entre Creta e o Peloponeso, dentro de uma área sob jurisdição grega (e não em zonas a leste de Creta disputadas por outros Estados) — evidencia a vergonhosa cumplicidade do governo grego.

O governo se esconde atrás da alegação de que o ataque ocorreu em águas internacionais. No entanto, como se tratava de uma operação militar que durou horas e colocou em risco a vida de centenas de pessoas — que pediram ajuda à Guarda Costeira grega sem obter resposta —, fica claro que houve conhecimento prévio e coordenação com Israel, com quem existe, afinal, uma aliança militar. Este é um dos atos mais humilhantes do governo e do Estado grego, especialmente considerando que alegam garantir a segurança e o controle das fronteiras da UE. Esse controle já envolveu crimes, como o naufrágio de Pilos, onde 700 refugiados morreram afogados — uma tragédia pela qual a Guarda Costeira grega é totalmente responsabilizada e que ocorreu muito perto do local deste ataque israelense.

Além disso, a cumplicidade do governo foi exposta por uma publicação do ministro das Relações Exteriores de Israel, Gideon Sa'ar, que assumiu efetivamente o papel de porta-voz do governo grego. Sa'ar, após afirmar que a operação das Forças de Defesa de Israel visava impedir a violação do "bloqueio naval legal de Gaza", anunciou: "Em coordenação com o governo grego, os indivíduos transferidos dos navios da flotilha para um navio israelense desembarcarão em uma costa grega. Agradecemos ao governo grego por sua disposição em receber os participantes da flotilha."

Os sinais de espancamento são visíveis nas pessoas que o navio pirata israelense "desembarcou" no pequeno porto de Sitia, em Creta: roupas manchadas de sangue, olhos roxos. No total, 36 participantes foram transferidos para o hospital em Sitia para tratamento.

Todo o desenvolvimento demonstra que a coordenação não se limita ao desembarque dos sequestrados, mas abrange toda a operação. Igualmente provocativa é a posição da União Europeia, cujo porta-voz declarou — enquanto centenas de cidadãos de Estados-membros eram sequestrados — que “não incentivamos flotilhas como forma de prestar auxílio”. É claro que eles preferem bombardeiros…

A reação do movimento na Grécia e em outros países foi imediata. Em Atenas, após um apelo da March to Gaza Greece e de várias organizações (incluindo Ανταρσυα - Antarsya e Libertação Comunista), ocorreu um ato público militante no Ministério das Relações Exteriores.

A missão grega da flotilha global Sumud seguirá viagem apesar do ataque pirata israelense.

A missão grega da maior Flotilha Global Sumud até os dias de hoje tem partida prevista para o início de maio de Syros, apesar do ataque pirata de Israel. A partida será acompanhada por uma série de eventos anti-guerra de dois dias na ilha, onde coletivos e ativistas locais se encontrarão com centenas de participantes de todo o Mediterrâneo.

A missão visa transmitir uma forte mensagem política de solidariedade internacionalista. Pantelis V. está entre os que se preparam para navegar rumo à mártir Gaza. Juntamente com Christini D.L., eles são os dois membros da Libertação Comunista que participam da grande delegação grega da Flotilha Global Sumud.

Pantelis afirma: “A luta palestina é a mais justa do nosso tempo. Ela engloba tudo: é anticolonial, anti-imperialista, anticapitalista. É a vanguarda de uma barbárie que está sendo preparada para todos nós. Quando falamos de Gaza, falamos do Líbano, do Irã e do futuro que está por vir. Nosso país lucra com o sangue dos palestinos: 57 carregamentos de petróleo de empresas gregas foram transportados para Israel no ano passado, material militar para a Elbit passa por nossos portos, empresas imobiliárias israelenses investem em nossos bairros e soldados das Forças de Defesa de Israel descansam em resorts gregos.”

A contradição — o distanciamento entre o povo e a representação política burguesa — intensificou-se. Todo o sistema (Nova Democracia, SYRIZA, PASOK) permanece em silêncio ou apoia abertamente Israel; não expressa a vontade popular. As pessoas sabem disso e se manifestam pelos meios que têm à disposição: bandeiras, slogans em muros, greves em portos. Empresas israelenses estão comprando propriedades em massa no centro de Atenas e nas ilhas, enquanto os trabalhadores não têm dinheiro para pagar aluguel ou férias. A mesma política que expulsa palestinos da Cisjordânia e busca transformar Gaza em uma "Riviera" despeja aposentados em Atenas e expulsa trabalhadores de suas casas.

As lutas estão conectadas, mesmo que não sejam idênticas. Disseram-nos que a "aliança estratégica com Israel traz segurança". Mas segurança para quem? Para os lucros do capital naval e dos fundos israelenses que compram bairros atenienses? Para a base da OTAN em Souda, que está sendo transformada em um centro militar EUA-Israel? Para nós, essa mesma "aliança" significa envolvimento em uma guerra mais ampla no Oriente Médio. Nossa resposta é clara: embargo de armas a Israel. Grécia fora da OTAN. Fechamento das bases americanas. Nem um único soldado, nem um único quilômetro quadrado de espaço aéreo para o massacre de povos.”

Uma forte mensagem de solidariedade com a Palestina foi expressa nos protestos de greve no Dia Internacional dos trabalhadores, 1º de maio

Uma mensagem de desafio operário e luta subversiva por pão, emprego, paz, liberdade e emancipação do povo trabalhador foi enviada por aqueles que participaram das manifestações de greve do Dia Internacional dos Trabalhadores em todo o país.

Em Atenas, a manifestação independente de classe organizada por sindicatos de base e coletivos de trabalhadores na Propileia foi massiva e militante. O cartaz divulgado por esses coletivos convoca a luta por aumentos salariais, acordos coletivos de trabalho e paz. Ele se opõe à militarização do governo, da OTAN e da UE, defendendo uma sociedade sem guerras e exploração. Milhares de trabalhadores e jovens participaram da grande marcha em direção à Praça Syntagma, destacando o potencial das forças radicais dentro do movimento operário.

“O pior pesadelo deles é que a classe trabalhadora organize o poder que detém em suas próprias mãos”, enfatiza a Liberação Comunista, acrescentando que “a esquerda anticapitalista-comunista é a única força capaz de romper com a política consensual dos partidos burgueses. Ela promove a luta comum de todos os segmentos combativos e não tem medo de dizer que o capital deve perder riqueza e poder para que os trabalhadores possam viver — portanto, todos os bens públicos e empresas de importância estratégica devem ser nacionalizados.”

Um ato público de classe no Dia Internacional dos Trabalhadores também ocorreu em Salônica. Merece destaque a iniciativa internacionalista da Liberação Comunista, que formou um bloco conjunto com a organização Aurora Socialista da Macedônia do Norte, enviando uma forte mensagem de ação operária internacionalista nos Balcãs.